Sidney Sheldon
UM ESTRANHO NO ESPELHO

Edio integral
Ttulo original: "A stranger in the mirror"
Copyright c by Sheldon  Literar Trust
Traduo: Ana Lcia Deir Cardoso

NOTA AO LEITOR

A arte de fazer os outros rirem  certamente uma maravilhosa
ddiva dos deuses. Com muito carinho dedico este livro aos
comediantes, aos homens e mulheres que possuem esse dom e o
partilham connosco. E particularmente a um deles: o padrinho de
minha filha, Groucho.

Esta  uma obra de fico. Excepto pelos nomes de personalidades
do mundo teatral, todas as personagens so imaginrias.

Se voc procura se encontrar
No olhe para um espelho
Pois l no h nada alm de uma sombra,
Um estranho.

Silenius, Odes  verdade

Um Estranho no Espelho

Sinopse

Best seller internacional, Sidney Sheldon  antes de tudo um contador de
histrias. Aqui neste romance ele traa o perfil de um brevssimo mas
violento caso de amor entre um grande astro e uma linda <>starlet. Um
homem solitrio e uma jovem desiludida, sonhando em chegar ao estrelato
e escondendo um terrvel segredo. Toby Temple  o comediante de maior
pblico no cinema e na TV, e ao mesmo tempo  adulado e temido pelos
homens e mulheres mais poderosos do mundo dos espetculos; Jill Castle 
uma garota sensual que traz no seu ntimo um terrvel segredo e chega a
Hollywood em busca da realizao de seus sonhos de estrelato. Nascida
para ser desejada e amada, Jill  obrigada a aprender a apenas odiar. Os
dois esto destinados a se amar apaixonadamente. O desenlace da histria
 inesperado.

1 arquivo anexado:

um estranho no espelho - s. sheldon.txt



PRLOGO

Numa manh de sbado, no princpio de agosto de 1969, uma srie 
de acontecimentos bizarros e inexplicveis ocorreu a bordo de um 
luxuoso transatlntico S.S. Bretagne, de cinquenta e cinco mil 
toneladas, enquanto se preparava para deixar o porto de Nova York 
com destino a Le Havre.
Claude Dessard, comissrio-chefe do Bretagne, um homem eficiente 
e meticuloso, dirigia, como gostava de dizer,  um "navio rijo". 
Durante quinze anos que Dessard servia a bordo do Bretagne nunca 
havia encontrado uma situao que no fosse capaz de resolver com 
eficincia e discrio. Considerando-se que o S.S. Bretagne era 
um navio francs, isso era de facto uma faanha altamente 
elogivel. Entretanto, naquele dia de vero, foi como se mil 
demnios estivessem conspirando contra ele. Serviu de pequeno 
consolo para o seu orgulho gauls o facto de que as investigaes 
intensivas, realizadas posteriormente pelas divises francesa e 
americana da Interpol e pela prpria segurana da companhia de 
navegao, no tivessem conseguido descobrir uma nica explicao 
plausvel para os extraordinrios acontecimentos daquele dia.
Por causa da fama das pessoas envolvidas, a histria foi contada 
em manchetes, por todo o mundo,  mas o mistrio continuou sem 
soluo.
Quanto a Claude Dessard, retirou-se da Cie. Transatlantique e 
abriu um bistro em Nice, onde nunca se cansava de reviver com os 
clientes aquele estranho e inesquecvel dia de agosto.

Tudo comeara, Dessard recordava, com a entrega das flores do 
presidente dos Estados Unidos.
Uma hora antes da partida, uma limusine oficial, preta, com placa 
do governo federal, havia estacionado no per 92, na foz do rio 
Hudson. Um homem vestindo um terno cinzento-escuro saltara do 
carro, segurando um buqu de trinta e seis rosas Sterling Silver. 
Dirigira-se at a prancha de embarque e trocara algumas palavras 
com Alain Safford, o oficial de servio. As flores foram 
cerimoniosamente transferidas para Janin,  um camareiro que as 
entregou e ento procurou Claude Dessard.
 - Achei que gostaria de saber - comunicou Janin. - Rosas do 
presidente para Mme Temple.
Jill Temple. Naquele ltimo ano sua fotografia havia aparecido na 
primeira pgina dos jornais e na capa de revistas de Nova York a 
Bangkok, de Paris a Leningrado. Claude Dessard se lembrava de ter 
lido que ela havia sido a primeira colocada  em uma pesquisa 
recente da mulher mais admirada do mundo, e que um grande nmero 
de recm-nascidas estava sendo baptizadas com seu nome. Os 
Estados Unidos da Amrica sempre haviam tido suas heronas. Agora 
Jill Temple havia se tornado uma. Sua coragem e a fantstica 
batalha que vencera e, em seguida, perdera to ironicamente 
capturaram a imaginao do mundo Era uma grande histria de amor, 
mas era muito mais do que isso: continha todos os elementos do 
drama e da tragdia clssica gregos.

Claude Dessard no gostava muito de americanos, mas nesse caso 
estava encantado por fazer uma excepo. Tinha uma tremenda 
admirao por Mme. Temple. Ela era - e esse era o maior elogio 
que Dessard podia conceder a algum - galante. Decidiu que sua 
viagem naquele navio devia ser inesquecvel.
O comissrio-chefe desviou os pensamentos de Jill Temple e se 
concentrou numa ltima verificao da lista dos passageiros. 
Havia uma coleco habitual do que os americanos chamavam de 
VIPs, uma sigla que Dessard detestava, particularmente porque os 
americanos tinham idias muito absurdas a respeito do que fazia 
as pessoas importantes. Notou que a mulher de um industrial 
milionrio estava viajando sozinha. Dessard sorriu e consultou a 
lista  procura do nome de Matt Ellis, um negro, astro de 
futebol. Quando o encontrou, sacudiu a cabea, satisfeito. 
Dessard tambm ficou interessado ao notar que, em camarotes 
vizinhos, estavam um destacado senador e Carlina Rocca, uma 
danarina sul-americana de strip-tease, cujos nomes vinham 
aparecendo em recentes artigos de jornal. Seus olhos se moveram 
percorrendo a lista.
David Kenyon. Dinheiro. Uma quantidade enorme de dinheiro. J 
tinha viajado no Bretagne antes. Dessard se lembrava de David 
Kenyon como um homem bem apessoado, muito queimado do sol, com um 
corpo esguio e atltico. Um homem tranquilo, discreto, mas de 
personalidade. Dessard ps um MC, significando mesa do 
comandante, depois do nome David Kenyon.
Clifton Lawrence. Uma reserva de ltimo minuto. Um leve franzido 
surgiu na testa do comissrio-chefe. Ah, ali estava um problema 
delicado. Que fazer com M. Lawrence? Houve poca em que a questo 
nem teria sido levantada, pois ele teria sido automaticamente 
acomodado na mesa do comandante, onde divertia todo mundo com 
anedotas. Clifton Lawrence era um empresrio teatral que nos seus 
grandes dias havia representado muito dos grandes astros no mundo 
dos espectculos. Mas, infelizmente, os grandes dias de M. 
Lawrence haviam acabado Em outras pocas o empresrio havia 
sempre insistido em ter a luxuosa Sute Princesa, e naquela 
viagem havia reservado um quarto de solteiro num convs inferior. 
Primeira classe,  claro mas mesmo assim, Claude Dessard decidiu 
que deixaria para tomar sua deciso depois de examinar os outros 
nomes da lista.
Haviam membros da pequena nobreza a bordo, uma famosa cantora de 
pera e um romancista russo que havia recusado o prmio Nobel.
Uma batida na porta interrompeu a concentrao de Dessard. 
Antoine, um dos carregadores, entrou.
- Sim, que ? - perguntou Dessard.
Antoine olhou para ele com os olhos lacrimejantes.
- O senhor mandou trancar o teatro?
Dessard franziu o cenho.
- De que  que est falando?
- Achei que tinha sido o senhor. Quem mais o faria? H alguns 
minutos atrs fui verificar se estava tudo em ordem. As portas 
estavam trancadas. Pelo barulho parecia que havia algum na sala 
de espectculos passando um filme.
- Nunca passamos filmes quando ainda estamos no porto - disse 
Dessard com firmeza. - E em nenhuma ocasio aquelas portas ficam 
trancadas. Vou dar uma olhada nisso.

Normalmente, Claude Dessard teria investigado o acto 
imediatamente, mas naquele momento estava atormentado por dzias 
de detalhes urgentes, de ltimo minuto, que tinham de ser 
resolvidos antes da partida, s doze horas. Sua reserva de 
dlares americanos no conferia, uma das melhores sutes havia 
sido reservada duas vezes por engano, e o presente de casamento 
encomendado pelo Comandante Montaigne havia sido entregue no 
navio errado. O comandante ia ficar furioso. Dessard parou para 
ouvir o som familiar das quatro poderosas turbinas do navio dando 
partida. Sentiu o movimento do S.S. Bretagne,  medida que se 
afastava deslizando do per e comeava a recuar em direco ao 
canal. Ento, mais uma vez, Dessard se concentrou nos seus 
problemas.
Meia hora depois, Lon, o camareiro-chefe da galeria externa do 
convs, entrou. Dessard ergueu os olhos com impacincia.
- Sim, Lon?
- Sinto muito incomod-lo, mas achei que deveria saber.
- Sim?
Dessard no prestava muita ateno, pois sua mente estava ocupada 
com a delicada tarefa de completar a distribuio de lugares na 
mesa do comandante para cada noite da viagem. O comandante no 
era um homem dotado de esprito scia, e ter que jantar com seus 
passageiros todas as noites era uma provao para ele. Era tarefa 
de Dessard cuidar para que o grupo fosse agradvel.
-  sobre Mme Temple... - comeou Lon.
Imediatamente Dessard largou o lpis e levantou a cabea, os 
olhinhos negros atentos.
- Sim?
- Passei pelo camarote dela h alguns minutos, e ouvi pessoas 
discutindo em voz alta e um grito. Era difcil ouvir com clareza 
atravs da porta, mas soava como se ela estivesse dizendo: "Voc 
me matou, voc me matou". Achei que era melhor no interferir, 
assim vim procur-lo.
Dessard assentiu.
- Voc fez bem. Vou verificar para assegurar-me de que ela est 
bem.
Dessard observou o camareiro se retirar. Era inconcebvel que 
algum pudesse fazer mal a uma mulher como Mme Temple. Era um 
ultraje ao esprito gauls de cavalheirismo de Dessard. Ps o 
quepe do uniforme, lanou um rpido olhar ao espelho na parede e 
dirigiu-se para a porta. O telefone tocou. O comissrio-chefe 
hesitou e ento atendeu.
- Dessard.
- Claude. - era a voz do imediato. - Pelo amor de Deus, mande 
algum at o teatro com um esfrego. H sangue por todo lado.
Dessard sentiu de repente uma sensao de vazio no fundo do 
estmago.
- Imediatamente.
Desligou o telefone, falou com um dos faxineiros, depois 
telefonou para o mdico de bordo, tentando fazer sua voz soar 
normal.
- Andr?  Claude. Eu s estava querendo saber se apareceu algum 
a precisando de tratamento mdico? No, no. No estava pensando 
em comprimidos para enjoo. Esta pessoa estaria sangrando, muito 
talvez. Sei. Obrigado.
Dessard desligou, sentindo um crescente mal-estar. Saiu do 
escritrio e dirigiu-se  sute de Jill Temple. Estava a meio do 
caminho do seu destino quando ocorreu o evento estranho seguinte. 
Quando Dessard ia chegando ao convs, sentiu o ritmo do movimento 
do navio mudar. Olhou de relance para o oceano e viu que tinham 
chegado ao Farol Ambrose, onde deixariam o rebocador e o navio se 
dirigir  margem e parar. Alguma coisa extraordinria estava 
acontecendo.

Dessard correu at a amurada e olhou para baixo. No mar, l 
embaixo, o rebocador-piloto tinha sido encostado  escotilha de 
carga do Bretagne, e dois marinheiros estavam transferindo 
bagagem do transatlntico para o rebocador. Enquanto Dessard 
observava, um passageiro saiu pela escotilha do navio, passando 
para o rebocador. Dessard s conseguiu ver de relance as costas 
da pessoa, mas achou que com certeza deveria ter-se enganado 
quanto  sua identidade. Simplesmente no era possvel. De facto, 
o incidente de um passageiro deixar o navio daquela maneira era 
to extraordinrio que o comissrio-chefe sentiu um leve frisson 
de temor. Virou-se, seguindo rapidamente para a sute de Jill 
Temple. No houve resposta  sua batida na porta. Bateu de novo, 
dessa vez um pouco mais forte.
- Mme Temple...  Claude Dessard, o comissrio-chefe. Gostaria de 
saber se lhe posso ser til em alguma coisa.
No houve resposta. Naquela altura, o sistema de alarme interno 
de Dessard estava berrando. Seus instintos lhe diziam que havia 
alguma coisa terrivelmente errada, e teve um pressentimento de 
que estava centralizada, de alguma maneira, naquela mulher. Uma 
srie de pensamentos loucos e ultrajantes passou pela sua cabea. 
Fora assassinada, raptada ou... Experimentou o trinco da porta. 
Estava destrancada. Lentamente, Dessard empurrou e abriu a porta. 
Jill Temple estava de p na extremidade mais distante do 
camarote. Dessard abriu a boca para falar, mas alguma coisa na 
rigidez gelada daquele vulto o deteve. Ficou parado por um 
momento, pensando em sair silenciosamente, quando de repente o 
camarote se encheu de um som sinistro e penetrante, como o de um 
animal ferido, alucinado de dor. Impotente diante de um 
sofrimento pessoal to profundo. Dessard se retirou, fechando a 
porta cuidadosamente atrs de si.
Ficou parado do lado de fora do camarote por um momento, ouvindo 
os gemidos vindos l de dentro. Ento, profundamente abalado, 
virou-se, dirigindo-se para o teatro do navio, no convs. Um 
faxineiro estava limpando um rasto de sangue defronte  sala de 
espectculos.
"Mon Dius", pensou Dessard. "O que mais?"
Experimentou a porta. Estava destrancada. Dessard entrou no 
grande e moderno auditrio, que tinha capacidade para acomodar 
seiscentas pessoas sentadas. O auditrio estava vazio. Obedecendo 
a um impulso, foi at a cabine de projeco. A porta estava 
trancada. S duas pessoas tinham as chaves daquela porta: ele e o 
operador. Dessard abriu-a com sua chaves e entrou. Tudo parecia 
normal. Foi at onde estavam os dois projectores Century de 
trinta e cinco milmetros e ps as mos sobre eles.
Um deles estava quente.
Nos alojamentos da tripulao, no convs D, Dessard encontrou o 
operador, que lhe garantiu desconhecer se a sala tinha sido 
usada.
De volta a seu escritrio, Dessard cortou caminho pela cozinha. O 
chef o deteve furioso.
- Olhe s o que um idiota desses fez!
Numa mesa de cozinha com tampo de mrmore, estava um lindo bolo 
de casamento de seis camadas, e no topo delicados bonequinhos 
feitos de acar, representando um noivo e uma noiva.

Algum tinha esmagado a cabea da noiva.
"Foi naquele momento", Dessard costumava dizer aos clientes, no 
seu bistro, "que eu soube com certeza que alguma coisa terrvel 
estava para acontecer."

PRIMEIRO LIVRO

1

Em 1919, Detroit, no Estado de Michigan, era a nica cidade 
industrial do mundo extremamente bem-sucedida. A Primeira Guerra 
Mundial tinha acabado, e Detroit desempenhara um papel 
significativo na vitria dos Aliados, fornecendo-lhes tanques, 
caminhes e avies. Agora, terminada a ameaa dos hunos, mais uma 
vez as fbricas de automveis voltaram suas energias para a 
fabricao desses veculos. Logo, quatrocentos automveis por dia 
estavam sendo fabricados, montados e embarcados. Mo-de-obra 
especializada e no-especializada vinha de todas as partes do 
mundo em busca de emprego nessa indstria. Italianos, irlandeses, 
alemes - vinham todos numa enxurrada.
Entre os recm-chegados estavam Paul Templerhaus e sua esposa, 
Frieda. Paul tinha sido aprendiz aougueiro em Munique. Com o 
dote que recebera quando se casou com Frieda, tinha emigrado para 
Nova York e aberto um aougue, que rapidamente apresentara 
dficit. Ento, mudou-se para St. Louis, Boston, e finalmente 
Detroit, fracassando espectacularmente em cada cidade. Numa poca 
em que todos os negcios estavam se expandindo rapidamente e na 
qual o fluxo imigratrio crescente significava uma demanda de 
carne cada vez maior, Paul Templerhaus conseguia perder dinheiro 
em cada lugar onde abria um aougue. Era bom aougueiro, mas de 
uma incompetncia desesperadora para negcios. Na verdade, estava 
mais interessado em escrever poesia do que em ganhar dinheiro. 
Passava horas imaginando rimas e imagens poticas. Ele as punha 
no papel e as enviava para jornais e revistas, que nunca 
compraram nenhuma de suas obras-primas. Para Paul o dinheiro no 
tinha nenhuma importncia. Dava crdito a todo mundo, e a notcia 
se espalhava rapidamente: se voc no tinha dinheiro e queria 
carne da melhor qualidade, devia procurar Paul Templerhaus.
Frieda, sua esposa, era uma moa feia, que no tinha tido nenhuma 
experincia com homens antes que Paul aparecesse e a pedisse em 
casamento - ou melhor, como mandava o costume na poca, ao seu 
pai. Frieda tinha suplicado ao pai que aceitasse o pedido de 
Paul, mas o velho no precisara ser convencido, pois havia muito 
tempo que temia desesperadamente que fosse ter que agent-la 
para o resto da vida. Tinha at aumentado o dote para que Frieda 
e o marido pudesse deixar a Alemanha e ir para o Novo Mundo.

Frieda tinha se apaixonado timidamente pelo marido,  primeira 
vista. Nunca vira um poeta antes. Paul era o prottipo do 
intelectual: magro, olhos claros e mopes, cabelo ralo. S depois 
de alguns meses Frieda acreditou que aquele belo rapaz realmente 
lhe pertencia. Ela no tinha iluses a respeito da prpria 
aparncia. Seu corpo era cheio de protuberncias, com a forma de 
um gigantesco Kugel de batata crua. O que ela tinha de realmente 
bonitos eram os olhos, de um azul vivo da cor das gencianas, mas 
o resto do seu rosto parecia pertencer a outras pessoas. O nariz 
era o de seu av, grande e bulboso; a testa era a do tio, larga e 
oblqua; e o queixo era o do pai, quadrado e severo. Em algum 
lugar no ntimo de Frieda havia uma moa bonita, aprisionada numa 
armadilha com um rosto e um corpo que Deus lhe dera numa espcie 
qualquer de piada csmica de mau gosto. Mas as pessoas s podiam 
ver a aparncia exterior. Excepto Paul. O seu Paul. Foi realmente 
melhor que Frieda nunca tivesse sabido que sua atraco estava no 
seu dote, que ele via como uma fuga dos flancos sangrentos de boi 
e de miolos de porco. O sonho de Paul fora abrir um negcio por 
conta prpria e ganhar bastante dinheiro, para que pudesse se 
devotar  sua amada poesia.
Frieda e Paul foram para uma estalagem nos arredores de Salzburg 
para passar a lua-de-mel. Era um lindo castelo antigo, s margens 
de um lago adorvel, rodeado por campinas e florestas. Frieda 
tinha imaginado a primeira noite da lua-de-mel uma centena de 
vezes. Paul trancaria a porta e a tomaria nos braos, murmurando 
doces palavras apaixonadas  medida que comeasse a desp-la. Seus 
lbios encontrariam os dela e ento iriam descendo suavemente 
pelo seu corpo nu, como em todos aqueles livrinhos que ela lera 
em segredo. O membro dele estaria duro, erecto e orgulhoso, como 
um estandarte alemo, e Paul a levaria at a cama (talvez fosse 
mais seguro se ela andasse at a cama) e a deitaria ternamente. 
"Mein Gott, Frieda", ele diria. "Adoro seu corpo. Voc no  como 
essas garotinhas magricelas. Voc tem corpo de mulher."
A realidade foi um choque. Foi verdade que quando chegaram ao 
quarto Paul trancou a porta. Depois disso, a realidade foi 
estranha ao sonho Enquanto Frieda observava, ele tirou a camisa 
rapidamente, revelando um trax protuberante, magro e desprovido 
de plos. Ento tirou as calas. Entre as pernas jazia um pnis 
murcho e de propores reduzidas, escondido pelo prepcio. No se 
parecia de nenhuma maneira com os desenhos excitantes que ela 
tinha visto. Paul se deitou na cama, e Frieda percebeu que ele 
estava esperando que ela mesma se despisse. Lentamente, comeou a 
tirar as roupas. "Bem, o tamanho no  tudo", pensou Frieda. 
"paul ser um amante maravilhoso." Alguns momentos depois, a 
noiva trmula foi se juntar ao marido no leito conjugal. Enquanto 
esperava que ele dissesse alguma coisa romntica, Paul rolou para 
cima dela, fez algumas arremetidas dentro dela, e se afastou. 
Para a noiva atordoada, tinha acabado antes mesmo de comear. 
Quanto a Paul, suas poucas experincias sexuais anteriores haviam 
sido com prostitutas de Munique, e ele j ia apanhando a carteira 
quando se lembrou de que no precisava mais pagar. De agora em 
diante era de graa. Muito tempo depois de Paul ter adormecido, 
Frieda ainda continuava deitada na cama, tentando no pensar no 
seu desapontamento. "O sexo no  tudo", disse a si mesma." "O 
meu paul ser um marido maravilhoso."
Conforme se viu depois, estava errada mais uma vez.

Foi pouco tempo depois da lua-de-mel que Frieda comeou a ver 
Paul sob uma ptica mais realista. Tinha sido educada, de acordo 
com a tradio alem, para ser uma Hausfrau, e assim obedecia ao 
marido sem discutir, mas nem de longe era idiota. Paul no tinha 
nenhum interesse alm de seus poemas e Frieda comeou a perceber 
que eles eram muito ruins. No podia deixar de observar que Paul 
deixava muito a desejar em todos os campos possveis. Paul era 
indeciso, Frieda era firme; Paul era estpido quanto aos 
negcios, Frieda era esperta. A princpio ficava sentada quieta, 
sofrendo em silncio, enquanto o cabea da famlia jogava seu 
belo dote nas suas idiotices. Quando se mudaram para Detroit, 
Frieda j no podia aguentar mais. Um dia foi directa ao aougue 
do marido e ocupou a caixa registadora. A primeira coisa que fez 
foi pregar um cartaz dizendo: "NO SE VENDE FIADO". O marido 
ficou horrorizado, mas aquilo era apenas o princpio. Frieda 
aumentou os preos da carne e comeou a fazer propaganda, 
bombardeando a vizinhana com panfletos, e o negcio se expandiu 
da noite para o dia. Daquele momento em diante, foi Frieda quem 
passou a tomar todas as decises importantes, e Paul quem as 
seguia. O desapontamento de Frieda a transformara numa tirana. 
Descobriu que tinha jeito para negcios e para controlar as 
pessoas, e era inflexvel. Foi Frieda quem decidiu como o 
dinheiro deles deveria ser investido, onde deveriam morar, onde 
passariam as frias, e quando teriam um beb.
Comunicou sua deciso a Paul uma noite, e fez com que ele 
trabalhasse no projecto at que o pobre homem quase sofreu um 
colapso nervoso. Ele temia que muita actividade sexual lhe 
prejudicasse a sade, mas Frieda era uma mulher de grande 
determinao.
- Meta dentro de mim - ela ordenava.
- Como  que eu posso? - reclamava Paul. - Ele no estava 
interessado.
Frieda ento pegou o pequeno pnis murcho e afastava o prepcio. 
Quando nada acontecia, ela o levava  boca - "Mein Gott, Frieda! 
Que  que voc est fazendo?" - at que ficasse rijo, contra a 
vontade dele, e ento o colocava entre as pernas at que o 
esperma estivesse dentro dela.
Trs meses depois de terem comeado, Frieda comunicou ao marido 
que ele poderia ter um descanso. Estava grvida. Paul queria uma 
menina e Frieda queria um menino. Por isso no foi nenhuma 
surpresa para seus amigos que o beb fosse um menino
O beb, por insistncia de Frieda, nasceu em casa, sob os 
cuidados de uma parteira. Tudo correu bem e tranquilamente, antes 
e durante o parto. Foi ento que as pessoas reunidas em volta da 
casa tiveram um choque. A criana recm-nascida era normal em 
tudo - a no ser o pnis. O membro do beb era enorme, balanando 
como um apndice inchado, desproporcionalmente grande entre as 
coxas inocentes.
"O pai dele no tem essa constituio", pensou Frieda com um 
mpeto de orgulho.
Ela o chamou Tobias, em honra a um vereador que morava no mesmo 
distrito que eles. Paul disse a Frieda que se ocuparia da 
educao do menino. Afinal, era funo do pai criar seu filho.
Frieda ouviu e sorriu, e raramente deixava Paul chegar perto da 
criana. Foi ela quem criou o menino. Dominava-o com um punho 
teutnico, e no se dava ao trabalho de usar luva de pelica.
Aos cinco anos Toby era uma criana magra, de pernas longas, com 
um rosto sonhador e alegre, os seus olhos azuis, cor de genciana, 
de sua me. Toby adorava a me e ansiava pela sua aprovao. 
Queria que ela o tomasse nos braos e que o apertasse contra o 
grande colo macio, de forma que ele pudesse enfiar a cabea no 
busto aconchegante. Mas Frieda no tinha tempo para essas coisas. 
Estava ocupada em ganhar o sustento da famlia. Amava o pequeno 
Toby e estava decidida a no permitir que ele, crescendo, se 
tornasse um fracote como o pai. Frieda exigia perfeio em tudo 
que Toby fazia. Quando ele comeou a frequentar a escola, 
supervisionava os trabalhos de casa, e se estava confuso, no 
sabendo fazer algum dever, ela o repreendia:

- Vamos, menino, arregace as mangas!
E ficava em cima dele at que tivesse solucionado o problema. 
Quanto mais severa Frieda era com Toby, mais ele a amava. Tremia 
diante da idia de aborrec-la. Castigava com prontido, 
raramente elogiava, mas sentia que o fazia para o bem de Toby. 
Desde o primeiro momento em que o filho fora posto em seus 
braos, Frieda soubera que um dia ele se tornaria um homem famoso 
e importante. No sabia como ou quando, mas sabia que 
aconteceria. Era como se Deus o tivesse dito baixinho ao seu 
ouvido. Antes mesmo que o menino tivesse idade suficiente para 
compreender o que estava dizendo, Frieda sempre lhe falava de sua 
grandeza que estava por vir. E assim o jovem Toby cresceu sabendo 
que iria ser famoso, mas sem ter nenhuma idia de como ou quando. 
Sabia apenas que sua me nunca se enganava.
Alguns dos momentos mais felizes da vida de Toby eram os que 
passava sentado na enorme cozinha, fazendo os deveres de casa, 
enquanto a me cozinhava no grande fogo antigo. Fazia uma sopa 
de feijo-preto bem grossa, com um cheiro divino e com linguias 
inteiras flutuando, travessas suculentas de Bratwurst e panquecas 
de batata com as beiradas fofas parecendo uma renda marrom. Ou 
ento ficava de p diante da larga bancada no meio da cozinha, 
preparando massa com suas mos grossas e fortes, e depois 
polvilhando-a com uma neve suave de farinha, transformando por um 
passe de mgica a massa em Pflaumenkuchen ou Apfelkuchen. Toby ia 
junto dela e lanava os braos em torno do corpo pesado, o rosto 
s lhe chegava at a cintura. O excitante cheiro feminino 
almiscarado do seu corpo se misturava a todos os cheiros 
excitantes da cozinha, e uma sexualidade espontnea despertava no 
seu ntimo. Nesses momentos teria sido capaz de morrer por ela 
com satisfao. Pelo resto da vida, o cheiro de mas frescas, 
cozinhando na manteiga, lhe trazia imediatamente  memria uma 
imagem vvida de sua me.

Uma tarde, quando Toby tinha doze anos, a Sra. Durkin, a 
fofoqueira da vizinhana, veio visit-los. A Sra. Durkin era uma 
mulher de rosto ossudo, olhos negros dardejantes e uma lngua que 
no parava nunca. Quando foi embora, Toby imitou seus trejeitos, 
fazendo com que sua me tivesse um acesso de riso. Pareceu-lhe 
que era a primeira vez que a ouvia rir. Daquele momento em 
diante, Toby estava sempre  procura de maneiras de diverti-la. 
Fazia imitaes devastadoras de fregueses que apareciam no 
aougue, de professores e de colegas de turma, e a me ria at 
no poder.
Toby descobrira finalmente uma maneira de ganhar a aprovao da 
me.
Fez um teste para uma pea escolar, No account David, e obteve o 
papel principal. Na noite da estreia, Frieda se sentou na 
primeira fila e aplaudiu o sucesso do filho. Foi naquele momento 
que Frieda soube como a promessa de Deus ia se tornar realidade.
Estavam no princpio dos anos 30, o comeo da Depresso, e as 
casas de espectculos por todo o pas estavam experimentando 
qualquer estratagema para que as cadeiras vazias fossem ocupadas. 
Distribuam refeies e rdios, promoviam noitadas de vspora e 
bingo, contratavam organistas para acompanhar os saltos da 
bolinha nos filmes enquanto a audincia cantava

E realizavam concursos de amadores. Frieda examinava 
cuidadosamente a sesso teatral do jornal para ver onde os 
concursos se realizavam. Ento levava Toby at l, sentava-se na 
plateia enquanto ele fazia imitaes de Al Jolson, James Cagney e 
Eddie Cantor, e gritava:
- Mein Himmel! Que menino talentoso!
Toby quase sempre ganhava o primeiro prmio.
Havia crescido, mas ainda era magro, uma criana sria, de olhos 
azuis brilhantes e sinceros, num rosto de querubim. Olhava-se 
para ele e pensava-se instantaneamente: inocncia. Quando as 
pessoas viam Toby, tinham vontade de Tom-lo nos braos, de 
proteg-lo da vida. Elas o amavam e no palco o aplaudiam. Pela 
primeira vez Toby compreendeu o que estava destinado a ser; ia 
ser um astro, primeiro por sua me, e depois por Deus.

A lbido de Toby comeou a dar os primeiros sinais quando ele 
estava com quinze anos. Ele se masturbava no banheiro, o nico 
lugar onde tinha privacidade garantida, mas no era o bastante. 
Decidiu que precisava de uma garota.
Uma noite, depois de Toby ter feito uma entrega para sua me, 
Clara Connors, a irm casada de um colega de turma, deu-lhe 
boleia at a casa. Clara era uma loura bonita, de seios grandes, 
e quando Toby sentou-se a seu lado comeou a ter uma ereco. 
Cheio de nervosismo, esticou a mo para o colo dela, e comeou a 
apalp-la por sob sua saia, pronto para recuar imediatamente se 
ela gritasse. Clara ficou mais excitada do que zangada, mas 
quando Toby puxou o pnis para fora e ela viu o seu tamanho, 
convidou-o para ir  sua casa na tarde seguinte e iniciou-o nos 
prazeres das relaes sexuais. Foi uma experincia fantstica. Em 
vez da mo ensaboada, Toby havia encontrado um receptculo macio 
e morno que se contraa e apertava seu pnis. Os gemidos e gritos 
de Clara fizeram-no enrijecer-se uma vez depois da outra, de 
maneira que ele teve um orgasmo e depois outro e outro, sem nunca 
deixar o ninho quente e mido. O tamanho do seu pnis sempre 
tinha sido uma fonte de vergonha secreta para Toby. Agora, de 
repente, havia se tornado sua glria. Clara no podia guardar 
aquele fenmeno s para si, e logo Toby se viu atendendo a meia 
dzia de mulheres casadas da vizinhana.
Durante os dois anos seguintes, conseguiu deflorar quase a metade 
das garotas da sua turma. Alguns de seus colegas eram heris de 
futebol, ou mais bonitos do que ele, ou ricos - mas onde eles 
falhavam, Toby tinha sucesso. Era o mais engraado, a coisa mais 
bonitinha que as garotas j tinham visto, e era impossvel dizer 
no quele rosto inocente e queles olhos azuis sonhadores.
No ltimo ano na escola, Toby foi chamado ao gabinete do 
director. Na sala estavam sua me, furiosa, uma menina catlica, 
de dezasseis anos, que soluava, chamada Eileen Henegan, e o pai 
dela, um sargento de polcia, uniformizado. No momento que entrou 
na sala, soube que estava em srios apuros.
- Irei directo ao ponto, Toby - disse o director. - Eileen est 
grvida. Ela diz que voc  o pai da criana. Voc teve relaes 
carnais com ela?

A boca de Toby ficou seca de repente. Tudo em que conseguia 
pensar era em quanto Eileen tinha gostado, como tinha gemido e 
pedido mais. E agora aquilo.
- Responda, seu fedelho, filho de uma cadela! - berrou o pai de 
Eileen. - Voc tocou em minha filha?
Toby olhou de esguelha para a me. O facto de ela estar ali, 
testemunhando sua vergonha, o aborrecia mais do que qualquer 
coisa. Ele havia falhado e a desgraara. Ela sentiria repulsa 
pelo seu comportamento. Toby resolveu que se conseguisse sair 
daquela encrenca, se ao menos Deus o ajudasse daquela nica vez e 
fizesse um milagre qualquer, nunca mais tocaria em outra garota 
enquanto vivesse. Iria directo a um mdico e mandaria que o 
castrasse, de forma que nunca mais pensaria em sexo, e...
- Toby. - sua me estava falando, a voz severa e fria. - Voc foi 
para a cama com esta garota?
Toby engoliu em seco, respirou fundo e murmurou:
- Sim, mame.
- Ento voc vai casar com ela.
Ela olhou para a garota, de olhos inchados, que soluava.
- sim - soluou Eileen. - Eu amo Toby.
Virou-se para Toby:
- Eles me fizeram dizer. Eu no queria dizer seu nome a eles.
O pai dela, um sargento de polcia, comunicou  sala em geral:
- Minha filha s tem dezasseis anos. Trata-se de estupro. Ele 
poderia ser mandado para a cadeira pelo resto da vida. Mas vai 
casar-se com ela.
Todos se viraram para olhar para Toby. Ele engoliu em seco de 
novo e disse:
- Sim, senhor. Eu-eu sinto muito que tenha acontecido.
Durante o percurso silencioso at casa, ao lado da me, Toby 
ficou sentado em silncio, sentindo-se infeliz, sabendo o quanto 
a havia ferido. Agora ia ter que arranjar um emprego para 
sustentar Eileen e a criana. Provavelmente ia ter que trabalhar 
no aougue e esquecer seus sonhos, todos os seus planos para o 
futuro. Quando chegaram a casa sua me lhe disse:
- Venha at aqui em cima.
Toby a seguiu at o quarto, preparando-se para um sermo. 
Enquanto observava, ela tirou uma mala e comeou a arrumar as 
suas roupas. Toby olhou para ela, intrigado.
- Que  que est fazendo, mame?
- Eu? Eu no estou fazendo nada. Voc est. Voc vai embora 
daqui.
Parou-se e virou-se para encar-lo.
- Voc acha que eu ia deixar voc jogar sua vida fora com aquela 
garota insignificante? Ento voc a leva para a cama e ela vai 
ter um beb. Isso prova duas coisas: que voc  humano e que ela 
 Burra! Oh, no, ningum vai apanhar o meu filho numa armadilha 
e cas-lo  fora. Deus criou voc para que se tornasse um grande 
homem, Toby. Voc ir para Nova York, e quando for um astro 
famoso, mandar buscar-me.
Ele piscou para conter as lgrimas e atirou-se nos braos dela, 
que o embalou no seu busto enorme. Toby de repente sentiu-se 
perdido e assustado com a idia de deix-la. E no entanto havia 
uma nova animao no seu ntimo, a euforia de comear uma nova 
vida. Ele ia fazer parte do mundo dos espectculos. Ia ser um 
astro, ia ser famoso.
Sua me o dissera.

2

Em 1939, a cidade de Nova York era a meca do teatro. A Depresso 
havia acabado. O Presidente Franklin Roosevelt havia garantido 
que no existia nada a temer excepto o prprio medo, que a 
Amrica seria a nao mais prspera da terra, e assim foi. Todo 
mundo tinha dinheiro para gastar. Havia trinta shows em cartaz na 
Broadway, e todos pareciam ser de grande sucesso.
Toby chegou a Nova York com os cem dlares que sua me lhe havia 
dado. Sabia que ia ser rico e famoso. Mandaria busc-la, viveriam 
num lindo apartamento de cobertura e ela iria ao teatro todas as 
noites para ver a plateia aplaudi-lo. Nesse nterim, tinha que 
arrumar um emprego. Foi para as portas dos camarins de directores 
de todos os teatros da Broadway, e lhes falou sobre os concursos 
amadores que tinha vencido e sobre como era talentoso. Eles o 
puseram para fora. Durante as semanas em que procurou emprego, 
ele se esgueirou por teatros e clubes e viu os maiores actores em 
cena, especialmente os comediantes. Viu Ben Blue, Joe E. Lewis e 
Frank Fay. Toby sabia que um dia seria o melhor do que todos 
eles.
Como seu dinheiro estava acabando, aceitou um emprego de lavador 
de pratos. Telefonava para a me todos os domingos de manh, 
quando a tarifa era reduzida. Ela contou a Toby o furor que sua 
fuga havia provocado.
- Voc precisava v-los - disse a me. - O policial vem at aqui 
no carro oficial todas as noites. Pela maneira como ele age, 
parece at que ns somos todos gngsteres. Sempre perguntando 
onde  que voc est.
- E o que  que diz a ele? - perguntou Toby com ansiedade.
- A verdade. Que voc escapuliu como um ladro durante a noite, e 
que se algum dia eu puser a mo em voc fao questo de lhe 
torcer o pescoo pessoalmente.
Toby riu alto.

Durante o vero, Toby conseguiu arranjar emprego como assistente 
de mgico, um charlato de olhos remelentos, sem nenhum talento, 
que se apresentava sob o nome de Grande Merlin. Eles se exibiam 
numa srie de hotis de segunda categoria nas Catskills, e a 
principal tarefa de Toby era carregar a pesada parafernlia para 
dentro e para fora da camioneta de Merlin, e tomar conta dos 
"acessrios", que consistiam em seis coelhos, trs canrios e 
dois bamsters. Por causa dos temores de Merlin de que os animais 
"fossem comidos", Toby era forado a viver com eles em quartinhos 
do tamanho de armrios de vassouras, ficando com a impresso de 
que o vero inteiro no passara de um fedor insuportvel. Estava 
em completa exausto fsica de tanto carregar os pesados caixotes 
com lados e fundos falsos e de correr atrs dos animais, que 
constantemente fugiam. Sentia-se sozinho e desapontado. Ficava 
sentado olhando para os quartinhos, perguntando-se o que estaria 
fazendo ali e como aquilo o levaria a comear sua carreira no 
mundo dos espectculos. Praticava suas imitaes diante do 
espelho, e sua audincia era os animais fedorentos de Merlin.

Um domingo, quando o vero estava chegando ao fim, Toby deu o seu 
telefonema semanal para casa. Daquela vez foi seu pai quem 
atendeu.

-  Toby, papai. Como  que voc vai?
Houve um silncio.
- Al? Voc est a?
- Estou aqui, Toby.
Alguma coisa na voz do pai o gelou.
- Onde est mame?
- Eles a levaram para o hospital ontem  noite.
Toby agarrou o telefone com tanta fora que ele quase quebrou.
- Que aconteceu com ela?
- O mdico disse que foi um ataque do corao.
No! No a sua me!
- Ela vai ficar boa, no vai? - estava berrando no bocal. - 
Diga-me que ela vai ficar boa, seu maldito!
A milhares de quilmetros de distncia podia ouvir o pai 
chorando.
- Ela, ela morreu h algumas horas, meu filho.
As palavras envolveram Toby como uma onda de lava incandescente, 
queimando, escaldando, at que seu corpo parecesse estar em fogo. 
Seu pai estava mentindo. Ela no podia estar morta. eles tinham 
feito um pacto. Toby ia ser famoso e sua me ia estar ao seu 
lado. Havia um lindo apartamento de cobertura esperando por ela, 
e uma limusine com chofer, e peles e diamantes. Estava soluando 
to violentamente que no conseguia respirar. Ouviu uma voz 
distante dizendo:
- Toby!
- Estou a caminho de casa. Quando  o enterro?
- Amanh - disse o pai. - Mas voc no deve vir aqui. Eles esto 
esperando por voc, Toby. Eileen est a ter o beb por estes 
dias. O pai dela quer matar voc. Vo procurar por voc no 
enterro.
Assim, no poderia nem ao menos dizer adeus  nica pessoa no 
mundo que amava. Toby ficou deitado na cama durante aquele dia 
inteiro, lembrando. As imagens de sua me eram vvidas e vivas. 
Ela estava na cozinha, cozinhando, dizendo-lhe que homem 
importante ele ia ser, e na plateia, sentada na primeira fila, 
gritando: "Mein Himmel! Que menino talentoso!"
E rindo das suas imitaes e piadas. E fazendo a mala dele. 
"Quando voc for famoso, mandar buscar-me." Ficou deitado ali, 
entorpecido pela dor, pensando. "Nunca me esquecerei deste dia. 
Nunca enquanto eu viver: 14 de agosto de 1939. Este  o dia mais 
importante da minha vida."
Ele estava certo. No por causa da morte de sua me, mas pelo que 
estava ocorrendo em Odessa, Texas, a quinze mil milhas de 
distncia.

O hospital era um prdio annimo de quatro andares, da cor da 
caridade. O interior parecia um viveiro de coelhos, de cubculos 
planejados para diagnosticar doenas, alivi-las, cur-las ou s 
vezes encobri-las. Era um supermercado mdico, e ali havia sempre 
alguma coisa para todo mundo.
Eram quatro horas da manh, a hora da morte silenciosa ou do bom 
sono. O momento para o pessoal do hospital ter um intervalo de 
repouso antes de se preparar para as batalhas de um novo dia.

A equipe de obstetrcia na sala de operaes 4 estava em apuros. 
O que havia comeado como um parto normal de repente se 
transformara numa emergncia. At o momento do parto propriamente 
dito da Sra. Karl Czinski, tudo correra normalmente. A Sra. 
Czinski era uma mulher saudvel, no auge da forma, com quadris 
largos de camponesa que eram o sonho de um obstetra. As 
contraces aceleradas haviam comeado e as coisas estavam 
progredindo de acordo com o quadro habitual. 
- Parto invertido - anunciou o Dr. Wilson, o obstetra.
As palavras no causaram alarme. Embora apenas trs por cento dos 
nascimento sejam por parto invertido, quando a parte inferior da 
criana emerge primeiro, eles normalmente so realizados com 
facilidade. H trs tipos de partos invertidos: o espontneo, no 
qual no  necessria nenhuma ajuda; o assistido, no qual o 
obstetra ajuda a natureza; e o breakup completo, quando o beb 
est preso no tero da me.
O Dr. Wilson notou com satisfao que aquele ia ser um parto 
espontneo, o tipo mais simples. Observou os ps do beb 
emergirem, seguidos por duas perninhas. Houve uma outra 
contraco da me, e as coxas do beb apareceram.
- Est quase acabado - disse o Dr. Wilson num tom encorajador. - 
Contraia e faa fora para baixo mais uma vez.
A Sra. Czinski o fez. Nada aconteceu.
Ela franziu o cenho.
- Tente de novo. Com mais fora.
Nada.O Dr. Wilson ps as mos na perna do beb e puxou, com muita 
suavidade. No houve nenhum movimento. Enfiou as mos alm do 
beb, atravs da passagem estreita para o interior do tero, e 
comeou a fazer uma explorao. Gotas de suor surgiam na sua 
testa. A enfermeira da maternidade se moveu mais para perto dele 
e enxugou-a.
- Temos um problema - disse o Dr. Wilson, numa voz sumida.
A Sra. Czinski ouviu e perguntou;
- Que  que est errado?
- Est tudo bem.
O Dr. Wilson enfiou a mo mais fundo, tentando puxar o beb mais 
para baixo, delicadamente. No se mova. Podia sentir o cordo 
umbilical comprimido entre a plvis da me e o corpo do beb, 
cortando-lhe o fornecimento de ar.
- Fetoscpio!
A enfermeira da maternidade apanhou o instrumento e aplicou-o  
barriga da me, tentando ouvir o bater do corao do beb.
- Est reduzido a trinta - comunicou. - E h uma arritmia 
acentuada.
Os dedos do Dr. Wilson estavam no interior do corpo da me, como 
antenas distantes do seu crebro, explorando, procurando.
- Estou perdendo a batida do corao do beb. - havia preocupao 
na voz da enfermeira da maternidade. - Est negativo!
Tinham um beb morrendo dentro do tero. Ainda havia uma frgil 
possibilidade de que o beb pudesse ser salvo se conseguissem 
tir-lo a tempo. Tinham um mximo de quatro minutos para 
libert-lo, desobstruir os pulmes e fazer com que o pequeno 
corao comeasse a bater de novo. Depois de quatro minutos, a 
leso cerebral seria total ou irreversvel.
- Cronometre - ordenou o Dr. Wilson.
Todo mundo na sala instintivamente olhou para cima quando o 
relgio elctrico na parede bateu doze horas, e o grande ponteiro 
vermelho dos segundos comeou a marcar o seu primeiro giro.

A equipa do parto comeou a trabalhar. Um balo de respirao de 
emergncia foi levado at a mesa de operaes, enquanto o Dr. 
Wilson tentava libertar a criana da regio plvica. Comeou a 
fazer a manobra Bracht, tentando virar a criana ao contrrio, 
torcendo-lhe os ombros de maneira que pudessem desobstruir o 
orifcio vaginal. Foi intil.
Uma estudante de enfermagem, assistindo ao primeiro parto, 
sentiu-se enjoada e saiu da sala apressadamente.
Na porta da sala de operaes estava Karl Czinski,, retorcendo o 
chapu nervosamente nas grandes mos calejadas. Aquele era o dia 
mais feliz da sua vida. Era carpinteiro, um homem simples que 
acreditava em casar cedo e ter famlia numerosa. Aquela criana 
seria a primeira, e era tudo que ele podia fazer para conter a 
sua excitao. Amava a esposa apaixonadamente, e sabia que sem 
ela estaria perdido. Estava pensando na mulher quando a estudante 
de enfermagem saiu apressadamente da sala de parto, e ele lhe 
perguntou:
- Como  que ela est?
A jovem enfermeira, aflita, a mente preocupada com o beb, 
exclamou:
- Ela est morta, ela est morta! - e saiu correndo para vomitar.
O rosto do Sr. Czinski ficou branco. Apertou o peito e comeou a 
arquejar, lutando para respirar. Quando finalmente o levaram para 
a sala de emergncia, j no havia mais nada a fazer.
Na sala de parto, o Dr. Wilson trabalhava freneticamente lutando 
contra o relgio. Podia enfiar a mo e tocar o cordo umbilical, 
sentindo a presso que havia contra ele, mas no havia jeito de 
libert-lo. Todos os impulsos ntimos gritavam para que puxasse a 
criana para fora  fora, mas ele j tinha visto o que acontecia 
com bebs que nasciam daquela maneira. Agora a Sra. Czinski 
estava gemendo, semidelirante.
- Contraia e fora para baixo, Sra. Czinski. Mais fora! Vamos!
No adiantava. O Dr. Wilson olhou para o relgio. Dois minutos 
preciosos se haviam passado sem que nenhum sangue circulasse 
atravs do crebro do beb. O Dr. Wilson enfrentava um outro 
problema: o que iria fazer se o beb fosse salvo depois que os 
quatro minutos se tivessem passado? Deix-lo viver e se tornar um 
vegetal? Ou deix-lo ter uma morte rpida e misericordiosa? 
Afastou o pensamento da mente e comeou a agir mais depressa. 
Fechando os olhos, trabalhou atravs do tacto, com toda a sua 
concentrao focalizada no que estava acontecendo no interior do 
corpo da mulher. Resolveu tentar a manobra 
Mauriceau-Smellie-Veit, uma srie complicada de movimentos com o 
objectivo de ir soltando o corpo do beb at libert-lo. E de 
repente houve um deslocamento. Ele o sentiu comear a se mover.
- Frceps de fole!
A instrumentadora passou-lhe rapidamente o frceps especial e o 
Dr. Wilson introduziu-o, colocando-o em volta da cabea do beb. 
Um momento depois a cabea emergiu.
O beb tinha nascido.
Aquele era sempre o momento de glria, o milagre de uma vida 
recm-nascida, o rosto vermelho do beb chorando alto, reclamando 
da indignidade de ter sido forado a sair daquele tero tranquilo 
e escuro para a luz e o frio.
Mas no aquele beb. Aquele beb tinha uma cor branco-azulada e 
estava imvel. Era do sexo feminino.

O relgio. Ainda restava um minuto e meio. Agora cada movimento 
era rpido e mecnico, o resultado de longos anos de prtica. 
Dedos envoltos em gaze desobstruram a parte posterior da faringe 
da criana, para que o ar pudesse passar pelo orifcio da 
laringe. O Dr. Wilson deitou o beb de costas. A instrumentadora 
entregou-lhe um laringoscpio bem pequeno, ligado a um aparelho 
elctrico de suco. Ele ajustou-o no lugar certo, balanou a 
cabea e a enfermeira ligou o interruptor. O som da suco 
rtmica da mquina comeou.
O Dr. Wilson olhou para o relgio.
Ainda restavam vinte segundos. Ritmo cardaco negativo.
Quinze, catorze. Ritmo cardaco negativo.
O momento da deciso havia chegado. Poderia j ser tarde demais 
para impedir que houvesse leso cerebral. Ningum jamais poderia 
ter certeza absoluta com relao a essas coisas. Ele vira alas 
inteiras de hospitais cheias daquelas criaturas patticas com 
corpo de adulto e mente de criana, ou pior.
Dez segundos. E no havia pulso, nem mesmo um sinal para lhe dar 
esperana.
Cinco segundos. Ento ele tomou a deciso, e esperou que Deus o 
compreendesse e perdoasse. Ia puxar o pino, dizer que o beb no 
podia ser salvo. Ningum questionava sua atitude. Tocou a pele do 
beb mais uma vez. Estava fria e pegajosa.
Trs segundos.
Olhou para a criana e teve vontade de chorar. Era uma menina. A 
menina era um beb bonito. Teria crescido e se tornado uma mulher 
bonita. Perguntou-se como sua vida poderia ter sido. Ser que se 
casaria e teria filhos? Ou talvez seria artista, professora, uma 
mulher de negcios, uma executiva? Ser que ela seria rica ou 
pobre? Feliz ou infeliz?
Um segundo. Ritmo cardaco negativo.
Zero.
Estendeu a mo em direco ao interruptor, e naquele instante o 
corao do beb comeou a bater. Foi um espasmo hesitante e 
irregular, e depois um outro, que em seguida se regularizou numa 
batida forte e regular. Houve uma exclamao espontnea de 
alegria e gritos de congratulaes na sala. O Dr. Wilson no 
estava ouvindo.
Estava olhando fixamente para o relgio na parede.
Sua me a chamou Josephine, como a av, nascida em Cracvia. Um 
segundo nome teria sido pretensioso para a filha de uma 
costureira polonesa de Odessa, Texas.
Por razes que a Sra. Czinski no compreendia, o Dr. Wilson 
insistia em que Josephine fosse trazida de volta ao hospital para 
ser examinada de seis em seis semanas. E todas as vezes a 
concluso era a mesma: ela parecia normal.
S o tempo diria.

3

No dia do trabalho, a temporada nas Catskills terminou e o Grande 
Merlin ficou desempregado, e com ele Toby. Ele estava livre para 
ir embora. Mas para onde? No tinha casa, no tinha emprego e no 
tinha dinheiro. A deciso de Toby foi tomada quando uma hspede 
lhe ofereceu vinte e cinco dlares para dirigir seu automvel, 
levando-a com seus trs filhos pequenos das Catskills at 
Chicago.
Toby partiu sem se despedir do Grande Merlin ou de seus animais 
fedorentos.
Em 1939, Chicago era uma cidade prspera e aberta. Era uma cidade 
com um preo, e aqueles que conheciam os caminhos podiam comprar 
qualquer coisa, desde mulheres a drogas ou polticos. Havia 
centenas de clubes nocturnos que atendiam a todos os gostos. Toby 
rondou todos eles, do grande e barulhento Chez Paree aos pequenos 
bares na Rush Street. A resposta era sempre a mesma: ningum 
queria contratar um jovem vagabundo como cmico. O tempo estava 
passando para Toby. J estava na hora de comear a realizar o 
sonho de sua me.
Estava com quase dezanove anos.
Um dos clubes aonde Toby costumava ir com frequncia era o Knee 
High, onde o espectculo consistia num grupo cansado de trs 
membros, um cmico acabado de meia-idade e bbado, e duas 
danarinas de strip-tease, Meri e Jeri, anunciadas como as Irms 
Perry, e que eram, por menos provvel que fosse, irms de 
verdade. Tinham cerca de vinte anos e eram atraentes de uma 
maneira vulgar e relaxada. Uma noite Jeri foi at o bar e se 
sentou ao lado de Toby. Ele sorriu e disse educadamente:
- Gosto do seu nmero.
Jeri se virou para olhar para ele e viu um garoto ingnuo, com 
cara de beb, demasiado jovem e malvestido para ser uma presa. 
Balanou a cabea com indiferena e comeou a se afastar, quando 
Toby se levantou. Jeri olhou fixamente para o volume revelador em 
suas calas e ento se virou para aquele rosto jovem e inocente. 
- Jesus Cristo - disse ela. - Isso tudo  voc?
Ele sorriu.
- S h uma maneira de descobrir.
s trs horas daquela madrugada, Toby estava na cama com as Irms 
Perry.

Tudo havia sido meticulosamente planejado. Uma hora antes do 
espectculo, Jeri tinha levado o cmico do clube, um jogador 
compulsivo, a um apartamento na Diversy Avenue, onde se realizava 
um jogo de dados. Quando ele viu a animao, passou a lngua nos 
lbios, e disse:
- S podemos ficar um minuto.
Trinta minutos depois, quando Jeri escapuliu, o cmico estava 
sacudindo os dados, gritando como um louco,. "Um oito, sim, um 
oito, seu filho da puta!", perdido num mundo qualquer de fantasia 
onde o sucesso, o estrelato e a fortuna dependiam de cada jogada 
do dado.
No Knee High, Toby estava sentado no bar, todo arrumado e limpo, 
esperando.
Quando chegou a hora do espectculo e o cmico ainda no havia 
aparecido, o proprietrio do clube comeou a berrar e a 
praguejar.

- Aquele miservel est acabado desta vez, esto ouvindo? Nunca 
mais quero v-lo no meu clube.
- Eu no o culpo - disse Meri. - Mas est com sorte. H um novo 
cmico no bar. Acabou de chegar de Nova York.
- O qu? Onde?
O proprietrio lanou um olhar na direco de Toby.
- Pelo amor de Deus, onde est a bab?  uma criana!
- Ele  grande! - disse Jeri. E estava falando srio.
- Faa uma experincia com ele - acrescentou Meri. - Que  que 
pode perder?
- Os fodidos dos meus fregueses!
Mas encolheu os ombros e se dirigiu para onde Toby estava 
sentado.
- Ento voc  um cmico, hein?
- Pois  - disse Toby de maneira casual. - Acabei de fazer uma 
temporada nas Catskills.
O proprietrio o examinou um momento.
- Que idade voc tem?
- Vinte e dois anos - mentiu Toby.
- Porra nenhuma. Est bem. V para l. E se voc entrar pelo 
cano, no vai viver at os vinte e dois anos.
E o sonho de Toby Temple finalmente se realizara. Estava de p 
sob os reflectores, enquanto a orquestra tocava uma fanfarra, e a 
audincia, a sua audincia, estava sentada ali, esperando para 
descobri-lo, para ador-lo. Sentiu uma onda de afecto to 
violenta que o fez ficar com um n na garganta. Era com se ele e 
o pblico fossem uma coisa s, ligados por alguma corda mgica 
maravilhosa. Por um instante pensou na me e desejou que, onde 
quer que estivesse, pudesse v-lo naquele momento. A fanfarra 
parou. Toby deu incio  sua rotina.
- Boa noite, gente sortuda. Meu nome  Toby Temple. Acho que 
vocs todos devem saber os seus nomes.
Silncio.
Ele continuou.
- J ouviram falar do novo chefe da Mfia em Chicago? Ele  
bicha. De agora em diante, o Beijo da Morte inclui jantar e 
dana.
No houve nenhum riso. Estavam olhando fixamente para ele, frios 
e hostis, e Toby comeou a sentir as garras afiadas do medo 
arranhando seu estmago. Seu corpo de repente ficou banhado em 
suor. Aquela ligao maravilhosa com o pblico havia 
desaparecido.
Ele continuou.
- Acabei de cumprir um contrato num teatro l no Maine. O teatro 
ficava to longe, no interior da floresta, que o gerente era um 
urso.
Silncio. Eles o odiavam.
- Ningum me disse que isso aqui era uma conveno de 
surdos-mudos. Eu me sinto como um programador social do Titanic. 
Estar aqui  como subir por uma prancha de embarque sabendo que 
no fim no h nenhum navio.
Comearam a vaiar. Dois minutos depois de Toby ter comeado, o 
proprietrio acenou freneticamente para os msicos, que comearam 
a tocar bem alto, abafando-lhe por completo a voz. Ele ficou ali, 
com um grande sorriso no rosto, os olhos ardendo, cheios de 
lgrimas.
Tinha vontade de gritar com eles.


Foram os gritos que acordaram a Sra. Czinski. Eram penetrantes 
selvagens, sinistros na quietude da noite, e s depois que ela se 
sentou na cama foi que se deu conta de que era o beb gritando. 
Correu para o outro quarto, onde tinha arrumado as coisas da 
criana. Josephine estava rolando de um lado para o outro, o 
rostinho azulado por causa das convulses. No hospital, um 
interno aplicou um sedativo por via intravenosa no beb, que caiu 
num sono tranquilo. O Dr. Wilson, que tinha feito o parto de 
Josephine, submeteu-a a um exame completo. No conseguiu achar 
nada de errado. Mas estava inquieto. No conseguiu se esquecer do 
relgio na parede.

4

O vaudeville havia florescido na Amrica de 1881 at a sua morte 
definitiva, em 1932, quando o Palace Theatre fechou as portas. 
Fora o campo de treinamento para todos os jovens cmicos 
ambiciosos, o campo de batalha onde afiavam suas inteligncias 
contra as audincias hostis e zombeteiras. Entretanto, os cmicos 
que venciam a parada obtinham fama e dinheiro. Eddie Cantor e W. 
C. Fields, Jolson e Benny, Abbott e Costello, Jessel e Burns e os 
Irmos Marx, e dzias de outros. Os vaudeville era um cu, um 
cheque de pagamento constante, mas com sua morte os cmicos 
tiveram que se voltar para outros campos. Os grandes nomes eram 
contratados para espectculos de rdio e shows individuais, e 
tambm se apresentavam nos clubes nocturnos importantes por todo 
o pas. Entretanto, para os jovens cmicos que lutavam para se 
lanar, como Toby, a histria era outra. Tambm se apresentavam 
em clubes nocturnos, mas de um mundo diferente. Era chamado o 
"circuito dos banheiros", e o nome era um eufemismo. Consistia em 
salas imundas por todo o pas, onde o grande pblico pobre e sujo 
se reunia para se embebedar de cerveja, arrotar para as 
danarinas de strip-tease e destruir os cmicos por desporto. Os 
camarins eram banheiros fedorentos, com cheiro de comida 
apodrecida, bebida derramada, urina e perfume barato e, 
sobrepujando tudo, o cheiro ranoso do medo: suor de fracassados. 
Os banheiros eram to imundos que as artistas se agachavam sobre 
as pias dos camarins para urinar. O pagamento variava de uma 
refeio indigervel a cinco dez, ou s vezes at quinze dlares 
por noite, dependendo da reaco da plateia.
Toby Temple apresentou-se em todos eles, que se tornaram a sua 
escola. Os nomes das cidades eram diferentes, mas todos os 
lugares eram iguais, os cheiros eram os mesmos e o pblico hostil 
era o mesmo. Se no gostavam de um determinado artista, jogavam 
garrafas de cerveja em cima dele, interrompiam-no com perguntas 
durante todo o espectculo e assobiavam at que sasse do palco. 
Era uma escola bruta, mas boa, porque ensinou a Toby todas as 
artimanhas da sobrevivncia. Aprendeu a lidar com turistas 
bbados e com vagabundos sbrios, e a nunca confundi-los. 
Aprendeu a detectar um perguntador enfadonho em potencial e a 
fazer com que se calasse, pedindo um gole da sua bebida ou o seu 
guardanapo emprestado para enxugar a testa.
Com sua lbia, Toby conseguiu arranjar empregos em lugares com 
nomes como Lake Kiamesha, Shawanga Lodge e The Avon. 
Apresentou-se em Wildwood, em Nova Jersey, no Binai B'rith, e nos 
auditrios dos Sons of Italy and Moose.
E continuava aprendendo.
O nmero de Toby consistia em pardias de canes populares, 
imitaes de Gable, de Grant, de Bogatt e de Cagney, e em 
material roubado dos grandes cmicos famosos, que podiam se dar 
ao luxo de pagar escritores caros. Todos os cmicos iniciantes 
roubavam o seu material, e se gabavam disso.
"Estou fazendo o Milton Berle."
"Voc precisa ver o meu Red Skelton."
E porque o material era a chave, s roubavam do melhor.
Toby era capaz de tentar o que quer que fosse. Fixava o pblico 
indiferente e mal-encarado com seus olhos azuis sonhadores e 
dizia:

- Vocs j viram um esquim fazer pipi?
Punha as duas mos na braguilha, e cubos de gelo saam voando.
Ou punha um turbante e se enrolava num lenol.
- Abdul, o encantador de serpentes - entoava Toby. Comeava a 
tocar uma flauta, e uma cobra ia saindo de um cesto de vime, 
movendo-se ritmicamente, acompanhando a msica, enquanto Toby 
puxava os arames. O corpo da cobra era uma mangueira de chuveiro 
e a cabea o bocal. Sempre havia algum na plateia que achava 
engraado.
Fazia os nmeros padro, as atraces especiais e os "de 
bandeja", aqueles em que se lanam as piadas no colo do pblico.
Tinha dzias de macetes. Precisava estar pronto para passar de um 
nmero para outro, antes que as garrafas de cerveja comeassem a 
voar.
E onde quer que estivesse se apresentando, havia sempre o som de 
uma descarga sendo puxada durante o seu nmero.
Toby viajou o pas de ponta a ponta de nibus. Quando chegava a 
uma cidade desconhecida, hospedava-se no hotel ou penso mais 
barata e avaliava os clubes nocturnos, bares e os 
estabelecimentos de agenciadores de aposta. Enfiava pedaos de 
papelo dentro dos sapatos para tapar os buracos das solas e 
colarinho das camisas com giz, para economizar na lavandaria. As 
cidades eram todas tristes e a comida sempre ruim; mas era a 
solido que o consumia. No tinha ningum. No havia uma nica 
pessoa no vasto universo que se importasse que ele estivesse vivo 
ou morto. Escrevia ao pai de vez em quando, mais por obrigao do 
que por amor. Precisava desesperadamente de algum com quem 
falar, algum que o compreendesse, que partilhasse seus sonhos.
Observava os cmicos bem-sucedidos deixarem as grandes casas de 
espectculos, com suas entourages e suas garotas bonitas e 
elegantes, e partirem em limusines reluzentes, e os invejava. 
"Algum dia..."
Os piores momentos eram quando ele tinha um fracasso, quando era 
vaiado no meio de seu nmero, quando era posto para fora antes 
que tivesse tido a oportunidade de comear de verdade. Nessas 
ocasies Toby odiava as pessoas, queria mat-las. No era apenas 
o facto de ter fracassado, era que tinha fracassado no fim da 
linha. No podia descer mais; estava l. Ele se escondia no seu 
quarto de hotel, chorava e suplicava a Deus que o deixasse em 
paz, que lhe tirasse o desejo de estar diante de uma plateia e 
fazer com que o pblico risse. "Deus", rezava, "faa com que eu 
queira ser vendedor de sapatos ou aougueiro. Qualquer coisa 
menos isso.' Sua me estivera enganada. Deus no o havia 
escolhido. Nunca seria famoso. Amanh arranjaria algum outro tipo 
de trabalho. Candidatar-se-ia a um emprego das nove s cinco num 
escritrio como um ser normal.
E na noite seguinte Toby estaria num palco de novo, fazendo 
imitaes, contando piadas, tentando conquistar as pessoas antes 
que elas cassem em cima dele e o atacassem.
Sorria inocentemente para elas e dizia:

- Esse tal sujeito estava apaixonado pelo pato, e o levou ao 
cinema com ele uma noite. O bilheteiro disse: "No pode levar o 
pato para dentro". O homem foi at a esquina, enfiou o pato 
dentro das calas, comprou a entrada e entrou no cinema. Ento o 
pato comeou a ficar inquieto, o homem abriu a braguilha e deixou 
o pato ficar com a cabea para fora. Bem, ao lado do homem estava 
uma senhora com o marido. Ela se virou para o marido e disse: 
"Ralph, o homem ao meu lado est com o pnis de fora". Ralph 
disse: "Ele est incomodando voc?" "No", disse ela. "Ok. Ento 
no pense nisso e veja o filme." Alguns minutos depois a mulher 
cutucou o marido de novo. "Ralph, o pnis dele." E o marido: "Eu 
disse a voc para ignor-lo". E ela disse: "No posso, ele est 
comendo a minha pipoca!"
Fez apresentaes de uma s noite no Three Six Five em San 
Francisco, no Rudy's Rail em Nova York, e no Ki Wa Low's em 
Toledo. Apresentava-se em convenes de bombeiros, em bar 
mitzvahs e em banquetes de jogadores de boliche.
E aprendia. 
Fazia de quatro a cinco espectculos por dia em pequenos teatros 
chamados Gem, Odeon, Empire e Star.
E aprendia. 
Por fim, uma das coisas que Toby Temple aprendeu foi que podia 
passar o resto de sua vida se apresentando no circuito dos 
banheiros, continuando desconhecido e sem ser descoberto. Mas 
houve um acontecimento que transformou toda a sua vida.
Numa tarde fria de domingo, no princpio de dezembro de 1941, 
Toby estava se apresentando por cinco dias no Dewey Theatre, na 
14th Street, em Nova York. Eram oito nmeros no programa, e a 
tarefa de Toby era apresent-los. O primeiro espectculo foi bom. 
Durante o segundo espectculo, quando Toby apresentou os 
Kanazawas Voadores, uma famlia de acrobatas japoneses, o pblico 
comeou a vai-los. Toby se retirou para os bastidores.
- Que diabo est havendo com eles l fora? - perguntou.
- Jesus, voc ainda no? Os japoneses atacaram Pearl Harbor h 
poucas horas - disse o director de cena.
- E da? - perguntou Toby. - Olhe s para aqueles caras, eles so 
fantsticos!
No espectculo seguinte, quando chegou a vez da troupe japonesa, 
Toby foi para o palco e disse:
- Senhoras e senhores,  um grande privilgio apresentar-lhes, 
recm-chegados de sua aclamao triunfal em Manilha... os 
Filipinos Voadores!
No momento em que o pblico vi os acrobatas japoneses, comeou a 
vaiar. Durante o resto do dia Toby os transformou nos Alegres 
Havaianos, os Loucos Mongis e, finalmente, os Esquims Voadores. 
Mas no conseguiu salv-los. Nem, conforme descobriu depois, a si 
mesmo. Quando telefonou para o pai, naquela noite, Toby soube que 
havia uma carta esperando por ele em casa. Comeava assim: 
"Saudaes", e estava assinada pelo presidente. Seis semanas 
depois, Toby foi incorporado ao Exrcito dos Estados Unidos. 
Nesse dia, sua cabea latejava tanto que mal conseguiu prestar o 
juramento.

As dores de cabea ocorriam com frequncia e, quando vinham, a 
pequena Josephine tinha a impresso de que duas mos gigantescas 
estavam lhe apertando as tmporas. Tentava no chorar, porque 
isso aborrecia sua me. A Sra. Czinski havia descoberto a 
religio. Sempre sentira secretamente que, de alguma maneira, ela 
e o beb eram responsveis pela morte do marido. Tinha entrado 
por acaso numa reunio do Culto de Revivificao, e o pastor 
gritava como um trovo:

- Vocs esto todos embebidos em pecado e maldade. O Deus que os 
segura sobre o abismo do inferno, como um insecto detestvel 
sobre uma fogueira, os abomina. Vocs esto presos por um fio 
muito tnue, amaldioados, e as chamas da Sua ira os consumir a 
menos que se arrependam!
A Sra. Czinski se sentiu melhor imediatamente, pois sabia que 
estava ouvindo a palavra do Senhor.
-  uma punio de Deus, porque ns matamos seu pai - dizia ela a 
Josephine.
Embora fosse muito pequena para compreender o que aquelas 
palavras significavam, sabia o que era, para que pudesse dizer  
me que sentia muito o que acontecera.

5

No incio, a guerra foi um pesadelo para Toby Temple.
No exrcito, ele era um joo-ningum, um nmero de srie enfiado 
num uniforme, como milhares de outros, sem rosto, sem nome, 
annimo.
Foi mandado para um campo de treinamento bsico na Gergia, e 
depois embarcara para a Inglaterra, onde sua unidade fora 
designada para armar um acampamento em Sussex. Toby disse ao 
sargento que queria ver o comandante-em-chefe Conseguiu chegar 
at o capito. O nome do capito era Sam Winters, um homem 
moreno, de expresso inteligente, de trinta e poucos anos.
- Qual  o seu problema, soldado?
-  o seguinte, capito - comeou Toby. - Sou um artista, sou um 
cmico. Era isso que eu fazia quando era civil.
O Capito Winters sorriu da seriedade dele.
- O que  exactamente que voc faz? - perguntou.
- Um pouquinho de tudo - respondeu Toby. - Fao imitaes, 
pardias e...
Viu a expresso nos olhos do capito e terminou sem jeito:
- Coisas assim.
- Onde foi que voc j trabalhou?
Toby ia comear a falar, mas parou. No adiantava. O capito s 
ficaria impressionado com lugares como Nova York e Hollywood.
- Nenhum lugar de que o senhor j tenha ouvido falar - respondeu 
Toby, e agora sabia que estava perdendo tempo.
O Capito Winters disse:
- No sou eu que decido, mas vou ver o que posso fazer.
- Claro - disse Toby. - Muito obrigado, capito.
Bateu continncia e saiu.
O Capito Sam Winters ficou sentado  sua escrivaninha pensando 
em Toby, muito tempo depois de o rapaz ter ido embora. Sam 
Winters tinha se alistado porque sentia que aquela era uma guerra 
que tinha que ser feita e tinha que ser vencida. Ao mesmo tempo, 
ele a odiava pelo que estava fazendo com garotos como Toby 
Temple. Mas se Temple realmente tivesse talento, apareceria mais 
cedo ou mais tarde, pois o talento era como uma florzinha frgil 
crescendo sob a rocha slida. No fim, nada podia impedi-la de 
interromper atravs da rocha e florir. Sam Winters tinha 
abandonado um bom emprego de produtor na indstria 
cinematogrfica, em Hollywood, para se alistar no Exrcito. J 
tinha produzido vrios filmes de sucesso para os Pan-Pacific 
Studios e j vira dzias de jovens esperanosos como Toby Temple 
ir e vir. O mnimo que eles mereciam era uma chance. Mais tarde 
naquele mesmo dia, falou com o Coronel Beech sobre Toby.
- Acho que devamos deixar os Servios Especiais test-lo - disse 
o Capito Winters. - Tenho a impresso de que ele  bom. E Deus 
sabe que os rapazes vo precisar de toda a diverso que puderem 
ter.
O Coronel Beech olhou para o Capito Winters e disse num tom 
frio:
- Certo, capito. Mande-me um memorando a respeito disso.

Ficou observando enquanto o Capito Winters saa. O Coronel Beech 
era um soldado profissional, um homem de West Point. Desprezava 
todos os civis, e para ele o Capito Winters era um civil. Vestir 
um uniforme e pr os gales de capito no tornava um homem um 
soldado. Quando o Coronel Beech recebeu o memorando do Capito 
Winters a respeito de Toby Temple, apenas passou os olhos nele, 
garatujou com selvageria: "PEDIDO NEGADO", e rubricou.
E sentiu-se melhor.

O que fazia mais falta a Toby era uma plateia. Precisava 
exercitar seu sentido de tempo, suas habilidades. Contava piadas 
e fazia imitaes e demonstraes em todas as oportunidades. No 
importava que o pblico fosse GIs2 montando guarda com ele num 
campo solitrio, um nibus cheio de soldados a caminho de uma 
cidade ou um lavador de pratos em KP3.Toby tinha que faz-los 
rir, ganhar o aplauso deles.
Um dia o Capito Winters assistiu a um de seus nmeros no salo 
de recreao. Depois que acabou, aproximou-se de Toby e disse:
- Sinto muito que o seu pedido de transferncia no tenha sido 
aprovado, Temple. Acho que voc tem talento. Quando a guerra 
acabar, se for a Hollywood, v me procurar.
Sorriu e acrescentou:
- Presumindo-se que eu ainda tenha um emprego por l.
Na semana seguinte o batalho de Toby foi mandado para a frente 
de combate.

Nos anos posteriores, quando Toby rememorava a guerra, o que ele 
lembrava no eram as batalhas. Em Saint-L, tinha sido um sucesso 
fazendo um nmero de mmica com um disco de Bing Crosby. Em 
Aachen, tinha entrado s escondidas no hospital e contado piadas 
durante horas para os feridos, antes que as enfermeiras o 
pusessem para fora. Lembrava-se com satisfao que um pracinha 
tinha rido tanto que arrebentou todos os pontos. Fora em Metz que 
tivera um fracasso, mas Toby achava que aquilo s acontecera 
porque o pblico estava tenso e nervoso com os avies nazistas 
voando l em cima.
Os combates de que Toby participou foram meros incidentes. 
Recebeu uma meno de bravura por ter participado na captura de 
um posto de comando alemo. Na realidade no tivera nenhuma idia 
do que estava acontecendo. Estivera fazendo o papel de John 
Wayne, e se deixara levar de tal maneira que tudo tinha acabado 
antes que ele tivesse tido tempo de sentir medo.
Para Toby, fazer rir  que era o importante. Em Cherbourg, 
visitou um bordel com dois amigos, e enquanto eles estavam l em 
cima, Toby ficou no salo apresentando um nmero para caftina e 
duas de suas garotas. Quando acabou, a caftina o mandou subir, 
por conta da casa.
Essa foi a guerra de Toby. Considerando tudo, no foi uma guerra 
ruim, e o tempo passou muito depressa. Quando a guerra acabou, em 
1945, Toby j estava com quase vinte e cinco anos. Na aparncia 
exterior, no envelhecera nem um dia. Tinha o mesmo rosto doce, 
olhos azuis sedutores e aquela expresso infeliz de inocncia.
Todo mundo estava falando em ir para casa. Uma noiva esperando em 
Kansas City, pai e me em Bayonne, um negcio em St. Louis. No 
havia nada esperando por Toby. Excepto a fama.
Decidiu ir para Hollywood. J estava na hora de Deus cumprir Sua 
promessa.


- Voc conhece Deus? J viu o rosto de Jesus? Eu O vi irmos e 
irms, ouvi a Sua voz, mas Ele s fala com aqueles que se 
ajoelham diante Dele e confessam os seus pecados. Deus odeia 
aqueles que no se arrependem. O arco da ira de Deus est vergado 
e a flecha chamejante da Sua fria cheia de justia est apontada 
para o corao maligno de vocs, e a qualquer momento Ele a 
lanar e a flecha da Sua retaliao golpear seus coraes! 
Olhem para Ele agora, antes que seja tarde demais!

Josephine olhava para cima para o topo da tenda, aterrorizada, 
esperando ver uma flecha chamejante apontando para ela. Agarrava 
a mo da me, mas a Sra. Czinski no se apercebia disso. Seu 
rosto estava corado e os olhos brilhantes de fervor.
- Louvado seja Jesus! - urava a congregao.
As reunies do Culto da Revivificao se realizavam numa grande 
tenda, nos arredores de Odessa, e a Sra. Czinski sempre levava 
Josephine. O plpito era uma plataforma de madeira que se erguia 
a um metro e oitenta do cho. Imediatamente em frente  
plataforma ficava o cercado da glorificao, para onde os 
pecadores eram trazidos para se arrependerem e serem convertidos. 
Alm do cercado ficavam fileiras e mais fileiras de bancos duros 
de madeira, cheios de fanticos cantando em busca de salvao, 
aterrados pelas ameaas do inferno e da danao. Era 
aterrorizantes para uma criana de seis anos. Os evangelistas 
eram fundamentalistas, pentecostais, metodistas e adventistas, e 
todos eles pregavam o fogo do inferno e a danao.
- Ajoelhai-vos, pecadores, e tremei diante do poderio de Jeov! 
Pois vossas prticas malignas partiram o corao de Jesus Cristo, 
e por isso vs recebereis a punio da ira de Seu Pai! Olhai em 
volta, para os rostos das criancinhas, concebidas na luxria e 
cheia de pecado.
E a pequena Josephine ardia de vergonha, achando que todos 
estavam olhando para ela. Quando as dores de cabea comeavam, 
Josephine sabia que eram uma punio de Deus. Rezava todas as 
noites para que fossem embora, de forma que pudesse saber que 
Deus a perdoava. Desejava poder saber o que tinha feito de to 
mau.
- E eu cantarei Aleluia, e vocs cantaro Aleluia, e todos ns 
cantaremos Aleluia quando chegarmos a Casa!

- O lcool  o sangue do Demnio, e o tabaco o seu bafo, e a 
fornicao o seu prazer. Vocs so culpados de negociar com Sat? 
Ento ardero para sempre no inferno, malditos para sempre, 
porque Lcifer vir busc-los!
E Josephine tremia e olhava em volta apavorada, agarrando o banco 
de madeira com toda a sua fora, de forma que o Diabo no pudesse 
lev-la.
Eles cantavam:
- "Quero ir para o cu, o meu descanso h tanto tempo buscado".
Mas a pequena Josephine compreendia mal e cantava"
- "Quero ir para o cu, com o meu vestido curto comprido".

Depois dos sermes violentos vinham os milagres. Josephine olhava 
com fascinao e pavor uma procisso de homens e mulheres 
aleijados que mancavam e se arrastavam, ou vinham em cadeiras de 
rodas para o cercado da glorificao, onde o pregador punha as 
mos sobre eles e invocava os poderes do cu para cur-los. Eles 
atiravam longe as bengalas e muletas, e alguns balbuciavam 
histericamente em lnguas estranhas, e Josephine recuava 
apavorada.
As reunies do Culto da Revivificao sempre terminavam com a 
bandeja sendo passada.
- Jesus est vigiando voc, e Ele detesta a avareza.
E ento estava acabado. Mas o medo ficava com Josephine por muito 
tempo.

Em 1946, a cidade de Odessa, Texas, tinha um rosto marrom-escuro. 
H muito tempo, quando os ndios viviam ali, fora o gosto da 
areia do deserto. Agora era o gosto do petrleo.
Havia dois tipos de pessoas em Odessa: a gente do petrleo e os 
outros. A gente do petrleo no olhava para baixo, para os outros 
- simplesmente tinha pena deles, pois sem dvida Deus achava que 
todo mundo devia ter avies particulares, Cadillacs e piscinas, e 
devia dar festas regadas a champanha para cem pessoas. Fora por 
isso que ele pusera petrleo no Texas.
Josephine Czinski no sabia que ela fazia parte dos outros. Aos 
seis anos, era uma bela criana, com cabelos negros, brilhantes, 
olhos castanhos profundos e um rostinho oval adorvel.
A me de Josephine era uma ptima costureira, que trabalhava para 
as pessoas ricas da cidade e costumava levar Josephine junto 
quando ia provar as roupas das senhoras do petrleo, e 
transformava peas de magnficas fazendas em vestidos de noite 
deslumbrantes. A gente do petrleo gostava de Josephine porque 
ela era uma criana educada e simptica, e gostava de si mesma 
por gostar dela. Achava que era democrtico permitir que uma 
criana pobre, do outro lado da cidade, fizesse amizade com seus 
filhos. Josephine era polonesa, mas no parecia ser polonesa e, 
muito embora nunca pudesse ser membro do clube, eles ficavam 
felizes em lhe conceder os privilgios de visitante. Josephine 
podia brincar com as crianas do petrleo e usar suas bicicletas, 
pneis e bonecas de cem dlares, de forma que ela comeou a viver 
uma vida dupla. Havia a sua vida em casa, na casinha minscula de 
madeira, com a moblia gasta, o encanamento externo e portas 
bambas nas dobradias. E depois, havia a vida de Josephine em 
lindas manses coloniais ou em grandes propriedades no campo. Se 
Josephine ficava para passar a noite em casa de Cissy Topping ou 
em casas de Lindy Ferguson, davam-lhe um grande quarto s para 
ela, com o caf servido por copeiras e mordomos. Josephine 
adorava levantar-se no meio da noite, quando todo mundo estava 
dormindo, e descer para olhar as coisas bonitas da casa, os 
lindos quadros, a prataria pesada com monogramas gravados e as 
antiguidades polidas pelo tempo e pela histria. Ela as 
examinava, as acariciava e dizia a si mesma que um dia viveria 
numa grande casa e seria rodeada por beleza.

Mas nos seus dois mundos Josephine se sentia solitria. Tinha 
medo de falar com a me sobre as dores de cabea e sobre o seu 
medo de Deus, porque ela tinha se tornado uma fantica sombria, 
obcecada com o castigo de Deus, at invocando esse castigo. 
Josephine no queria discutir seus medos com as crianas do 
petrleo, porque esperavam que ela fosse alegre e despreocupada, 
como todas eram. E assim, Josephine era forada a guardar os seus 
terrores para si mesma.
No dia do stimo aniversrio de Josephine, a Brubaker Store 
anunciou que promoveria um concurso para escolher a criana mais 
bonita de Odessa. A fotografia de inscrio seria tirada no 
departamento fotogrfico da loja. O prmio era uma taa de ouro, 
gravada com o nome do vencedor. A taa estava exposta na vitrine 
da loja, e Josephine passava por ali todos os dias para 
admir-la. Desejava aquela taa mais do que desejara qualquer 
coisa na vida. A me de Josephine no queria deix-la entrar no 
concurso.
- A vaidade  o espelho do Diabo - dizia ela.
Mas uma das mulheres de petrleo que gostava de Josephine pagou a 
fotografia.
A partir daquele momento Josephine sabia que a taa de ouro seria 
sua. Podia imagin-la na sua penteadeira, dar-lhe-ia brilho todos 
os dias. Quando Josephine descobriu que estava nas finais, ficou 
excitada demais para ir  escola. Ficou na cama o dia inteiro, 
passando mal do estmago, com uma felicidade demasiado grande 
para ser suportada. Aquela seria a primeira vez que ela possuiria 
alguma coisa bonita.
No dia seguinte Josephine soube que o concurso fora vencido por 
Tina Hudson, uma das crianas do petrleo. Tina no era nem de 
perto to bonita quanto Josephine, mas o pai de Tina fazia parte 
do conselho dos directores da cadeia que era proprietria da 
Brubaker Store.
Quando Josephine soube da notcia, teve uma dor de cabea que a 
fez ter vontade de gritar de dor. Tinha medo de que Deus soubesse 
o quanto aquela linda taa de ouro significava para ela, mas Ele 
deve ter sabido, porque as dores de cabea continuaram. Durante a 
noite ela gritava no travesseiro, para que sua me no pudesse 
ouvi-la.
Alguns dias depois do concurso, Josephine foi convidada para 
passar o fim de semana na casa de Tina. A taa de ouro estava no 
quarto dela, num pequeno pedestal. Josephine olhou para ela 
durante muito tempo.
Quando voltou para casa, a taa estava escondida em sua maleta. 
Ainda estava l quando a me de Tina veio busc-la e levou-a de 
volta.
A me de Josephine lhe deu uma boa sura com uma chibata feita de 
varetas finas. Mas ela no ficou zangada com a me.
Os poucos minutos em que Josephine tivera a linda taa de ouro 
nas mos tinham valido a pena.

6

Hollywood, na Califrnia, em 1946, era a capital do cinema do 
mundo inteiro, um m que atraa os talentosos, os ambiciosos, os 
esperanosos e os excntricos. Era a terra das palmeiras, de Rita 
Hayworth, do Templo Sagrado do Esprito Universal e de Santa 
Anita. Era o agente que ia fazer de voc um astro da noite para o 
dia; era uma fraude, um prostbulo, uma plantao de laranjas, um 
santurio. Era um caleidoscpio mgico, e para cada pessoa que 
olhava para o seu interior via a sua prpria imagem.
Para Toby Temple, Hollywood era um lugar para onde ele estava 
destinado a ir. Chegou  cidade com uma mochila do Exrcito e 
trezentos dlares, hospedou-se numa penso barata no Cahuenga 
Boulevard. Tinha que agir depressa, antes que ficasse sem 
dinheiro. Toby sabia tudo a respeito de Hollywood. Era uma cidade 
onde se tinha que ter uma fachada. Toby foi a uma camisaria, 
encomendou um novo guarda-roupa e com vinte dlares de sobra no 
bolso foi a p at o Hollywood Brown Derby, onde todos os astros 
e estrelas jantavam. As paredes eram cobertas de caricaturas dos 
actores mais famosos de Hollywood. Toby podia sentir a trepidao 
da vida do mundo dos espectculos ali dentro, o poder que emanava 
do aposento. Viu a recepcionista caminhar em sua direco. Era 
uma ruiva bonita, de cerca de vinte anos, e tinha um corpo 
sensual.
Sorriu para Toby e disse:
- Em que posso servi-lo?
Toby no pde resistir. Estendeu as duas mos e agarrou-lhe os 
seios, como meles maduros. Uma expresso de choque surgiu no 
rosto dela. Quando ia abrindo a boca para gritar, Toby a fitou 
com os olhos fixos, vidrados, e disse em tom de desculpas:
- Desculpe-me, senhorita, eu no enxergo.
- Oh! Sinto muito!
Ela estava arrependida pelo que pensara e foi simptica. Levou 
Toby at uma das mesas, segurando-lhe o brao, ajudou-o a sentar 
e depois anotou o seu pedido. Quando voltou  mesa alguns minutos 
depois, e o apanhou examinando os desenhos na parede, Toby sorriu 
radiante e disse:
-  um milagre! Posso ver de novo!
Ele era to inocente e to engraado que ela no pde deixar de 
rir. Riu durante todo o jantar com Toby, e das suas piadas, na 
cama, naquela noite.
Toby fez biscates em Hollywood porque eles o levavam aos limites 
do mundo do espectculo. Manobrou automveis no Ciro's, e quando 
as celebridades apareciam Toby abria a porta do carro com um 
grande sorriso e uma piada ligeira. No prestavam ateno. Era 
apenas um manobrista, e eles nem sabiam que estava vivo. Toby 
admirava as lindas garotas que saltavam do carro com vestidos 
caros e justos e pensava: "Se voc ao menos soubesse que grande 
astro eu vou ser, largaria logo todos estes sujeitinhos 
horrendos".
Toby fazia a ronda dos agentes, mas descobriu que estava perdendo 
tempo. Os agentes eram uns sacanas de primeira ordem. No se 
podia procur-los. Eles tinham que procurar voc. O nome que Toby 
ouvia com maior frequncia era o de Clifton Lawrence. S se 
ocupava dos maiores talentos e fazia os contratos mais incrveis. 
"Um dia", pensava Toby "Clifton Lawrence vai ser meu agente."

Toby fez a assinatura das duas bblias do mundo dos espectculos: 
Daily Variety e Hollywood Reporter. Isso fez com que se sentisse 
algum dentro do negcio. Forever amber tinha sido comprado pela 
Twentieth Century-Fox, e Otto Preminger ia ser o director. Ava 
Gardner tinha sido contratada para estrelar Whitle stop com 
George Raft e Jorja Curtright, e Life with father tinha sido 
comprado pela Warner Brothers. Ento Toby viu uma notcia que fez 
seu pulso acelerar: "O produtor Sam Winters foi nomeado 
vice-presidente executivo encarregado da produo nos Pan-Pacific 
Studios".

7

Quando Sam Winters voltou da guerra, seu emprego nos Pan-Pacific 
Studios estava esperando por ele. Seis meses depois, houve uma 
mudana repentina e completa. O chefe do estdio foi despedido e 
pediram a Sam que assumisse o cargo at que um novo chefe de 
produo fosse encontrado. Sam fez um trabalho to fantstico que 
a busca foi abandonada e ele foi nomeado oficialmente 
vice-presidente encarregado da produo. Era um emprego de 
arrasar com os nervos e de provocar lceras, mas Sam o amava mais 
do que qualquer coisa no mundo.
Hollywood era um circo de trs picadeiros, cheios de tipos 
selvagens e malucos, um campo minado por um bloco de idiotas 
danando em toda a sua extenso. A maioria dos actores, 
directores e produtores eram megalomanacos egostas, ingratos, 
depravados e destrutivos. Mas no que dizia respeito a Sam, se 
tivesse talento, nada mais importava. Talento era a senha mgica.
A porta do escritrio de Sam se abriu e Lucille Elkins, sua 
secretria, entrou com a correspondncia que tinha acabado de 
abrir. Lucille era uma contratada permanente, uma das 
profissionais competentes que sempre permaneciam e viam seus 
chefes ir e vir.
- Clifton Lawrence est aqui para v-lo - disse Lucille.
- Diga-lhe para entrar.
Sam gostava de Lawrence. Ele tinha estilo. Fred Allen havia dito: 
"Toda a sinceridade existente em Hollywood poderia ser escondida 
no umbigo de um mosquito e ainda haveria lugar para quatro 
sementes de alcaravia e o corao de um agente".
Clifton Lawrence era mais sincero do que a maioria dos agentes. 
Era uma lenda em Hollywood e sua lista de clientes cobria a 
escala completa do quem  quem no mundo dos espectculos. Tinha 
um escritrio de um s homem e estava constantemente em 
movimento, atendendo clientes em Londres, na Sua, em Roma e em 
Nova York. Era ntimo de todos os executivos importantes de 
Hollywood e jogava gin rummy semanalmente numa mesa que inclua 
os chefes de produo de trs estdios. Duas vezes por ano, 
Lawrence alugava um iate, reunia meia dzia de lindos "modelos" e 
convidava os principais executivos dos estdios para "uma viagem 
de pescaria" de uma semana de durao. Clifton Lawrence mantinha 
uma casa de praia totalmente equipada, em Malibu,  disposio 
dos amigos quando quisessem us-la. Clifton tinha um 
relacionamento simbitico com Hollywood, o que era proveitoso 
para todo mundo.
Sam observou a porta se abrir e Lawrence entrar, elegante num 
terno muito bem cortado. Foi at junto de Sam, estendeu a mo 
tratada com perfeio e disse:
- S queria dizer um al. Como vo as coisas, meu caro?
- Deixe-me colocar assim - disse Sam. - Se os dias fossem navios, 
hoje seria o Titanic.
Clifton Lawrence emitiu um som de comiserao.
- Que foi que voc achou da pr-estreia de ontem  noite? - 
perguntou Sam.
- D um jeito nos primeiros vinte minutos e filme um outro final 
que voc ter um grande sucesso.
- Conversa fiada - Sam sorriu. -  exactamente isso que estamos 
fazendo. Tem algum cliente para me vender hoje?

Lawrence sorriu.
- Sinto muito. Esto todos trabalhando.
E era verdade. A selecta equipa de grandes astros e estrelas de 
Lawrence, com uns poucos de directores e produtores, estava 
sempre sendo requisitada.
- Encontro voc na sexta-feira para jantar, Sam. - disse, 
virando-se para sair.
A voz de Lucille veio pelo intercomunicador:
- Dallas Burke est aqui.
- Mande-o entrar.
- E Mel Foss gostara de v-lo. Diz que  urgente.
Mel Foss era o chefe da diviso de televiso dos Pan-Pacific 
Studios.
Sam olhou para o seu calendrio de mesa.
- Diga-lhe para aguentar at o caf, amanh de manh. Oito horas, 
no Polo Lounge.
No escritrio exterior, o telefone tocou e Lucille atendeu:
- Gabinete do Sr. Winters.
Uma voz desconhecida disse:
- Al. O grande homem est por a?
- Quem est falando, por favor?
- Diga a ele que  um velho companheiro. Toby Temple. Estivemos 
juntos no Exrcito. Ele disse que o procurasse se algum dia eu 
chegasse a Hollywood, e estou aqui.
- Ele est em reunio, Sr. Temple. Ser que ele poderia lhe 
telefonar mais tarde?
-  claro.
Deu a ela o nmero do seu telefone, e Lucille o atirou na lata de 
lixo. Aquela no era a primeira vez que algum tinha tentado 
faz-la cair na velha conversa do ex-companheiro do Exrcito.

Dallas Burke era um dos directores pioneiros da indstria 
cinematogrfica. Os filmes de Burke eram exibidos em todas as 
universidades que tinham curso de cinema. Meia dzia de seus 
primeiros filmes eram considerados clssicos, e nenhum trabalho 
seu era menos que brilhante e inovador. Burke estava agora com 
seus setenta e tantos anos, e seu corpo outrora macio tinha 
murchado tanto que as roupas pareciam esvoaar em volta dele.
-  bom v-lo de novo, Dallas - disse Sam quando o velho ia 
entrando.
- Tambm estou feliz em v-lo, menino.
Indicou o homem que o acompanhava.
- Voc conhece o meu agente?
-  claro. Como vai, Peter?
Todos se sentaram.
- Ouvi dizer que voc tem uma histria para me contar - disse Sam 
a Dallas Burke.
- Essa  uma beleza - havia um tremor de excitao na voz do 
velho.
- Estou morrendo de vontade de ouvi-la, Dallas - disse Sam. - V 
em frente.
Dallas Burke se inclinou mais para a frente e comeou a falar.
- Em que  que todas as pessoas do mundo inteiro esto mais 
interessadas, menino? Amor, certo? E esta idia  sobre o tipo de 
amor mais sagrado que pode existir... o amor de uma me pelo seu 
filho.

A voz dele foi ficando mais forte  medida que foi se 
concentrando na sua histria.
- Comeamos em Long Island, com uma garota de dezanove anos 
trabalhando como secretria para uma famlia rica. Velha cepa. 
Isso nos d a oportunidade de enfocar as origens brilhantes - 
sabe o que estou querendo dizer? Negcio de alta sociedade. O 
homem para quem ela trabalha  casado com uma enjoada de sangue 
azul. Ele gosta da secretria e ela gosta dele, apesar de ele ser 
muito mais velho.
Ouvindo sem prestar muita ateno, Sam se perguntou se a histria 
ia ser Back street ou Imitation of life. No que tivesse 
importncia, porque qualquer que fosse, Sam ia compr-la. J 
fazia quase vinte anos desde que algum dera um filme para Burke 
dirigir pela ltima vez. Sam no podia culpar a indstria. Os 
trs ltimos filmes de Burke tinham sido caros, fora da moda e 
fracasso de bilheteira. Dallas Burke estava acabado como autor de 
filmes. Mas ele era um ser humano e ainda estava vivo, e de 
alguma maneira era preciso que se cuidasse dele, pois no tinha 
economizado um centavo. Tinham lhe oferecido um quarto na Casa de 
Retiro da Indstria Cinematogrfica, mas ele recusara, indignado.
- No quero a porra da caridade de voc! - gritara ele. - Esto 
falando com o homem que dirigiu Douglas Fairbank, Jack Barry, 
Milton Sills e Bill Farnum. Sou um gigante, seus pigmeus filhos 
de uma cadela!
E ele era. Era uma lenda; mas mesmo as lendas tinham que comer.
Quando Sam se tornara produtor, telefonara para um agente que 
conhecia e lhe dissera para trazer Dallas Burke com uma idia 
para um filme. Desde ento, Sam tinha passado a comprar histrias 
insossas de Dallas Burke todo o ano, por uma quantia suficiente 
para que o velho pudesse ir vivendo, e quando Sam estivera fora, 
no Exrcito, tratara para que o arranjo continuasse.
- assim voc v - Dallas Burke estava dizendo - o beb cresce sem 
saber quem  sua me. Mas a me no o perde de vista. No final, 
quando a filha se casa com esse mdico rico, temos um grande 
casamento. E sabe qual  a grande surpresa, Sam? Escute s este 
pedao,  magnfico! No querem deixar a me entrar! Ela tem que 
entrar s escondidas, pelos fundos da igreja, para ver a sua 
prpria filha se casar. No haver um nico olho seco na 
plateia... Bem,  isto. Que  que voc acha?
Sam tinha errado o palpite. Stella Dallas. Lanou um olhar para o 
agente, que desviou os olhos e examinou as pontas dos sapatos 
caros, embaraado.
-  fantstico.  exactamente o tipo de filme que o estdio tem 
estado procurando.
 Sam virou-se para o agente.
- Telefone para o sector financeiro e prepare um contrato com 
eles, Peter. Vou avis-los para aguardarem o seu telefonema.
O agente concordou.
- Diga-lhes que vo ter que pagar um preo salgado por esta aqui, 
seno vou oferec-la  Warner Brothers - disse Dallas Burke. - 
Estou dando a primeira opo a vocs porque so velhos amigos.
- Eu lhe agradeo - disse Sam.

Observou os dois homens sarem do gabinete. Falando em termos 
estritos, Sam sabia que no tinha nenhum direito de gastar o 
dinheiro da companhia numa atitude sentimental como aquela. Mas a 
indstria cinematogrfica devia alguma coisa a homens como Dallas 
Burke, pois sem ele e outros como ele, no teria havido nenhuma 
indstria.
s oito horas da manh seguinte, Sam Winters estacionou o carro 
sob o prtico do Beverly Hills Hotel. Alguns minutos depois, 
estava atravessando o Polo Lounge, cumprimentando amigos, 
conhecidos, e competidores. Faziam-se mais negcios ali, naquela 
sala, durante o caf, almoo e coqueteis do que em todos os 
escritrios de todos os estdios juntos. Mel Foss ergueu o olhar 
quando Sam se aproximou.
- Bom dia, Sam.
Os dois homens trocaram um aperto de mo e Sam acomodou-se na 
banqueta defronte a Foss. H seis meses atrs, Sam tinha 
contratado Foss para dirigir a diviso de televiso dos 
Pan-Pacific Studios. A televiso era a nova coqueluche do mundo 
dos espectculos, e estava crescendo com uma rapidez incrvel. 
Todos os estdios que outrora tinham olhado para a televiso com 
desprezo agora estavam envolvidos com ela.
A garonete veio anotar os pedidos, e depois que ela se foi 
disse:
- Qual  a boa notcia, Mel?
Mel Foss sacudiu a cabea.
- No h boas notcias. Estamos numa encrenca.
Sam esperou, sem dizer nada.
- No vamos conseguir o contrato de continuao de The Raiders.
Sam olhou para ele surpreendido.
- Os ndices de audincia esto ptimos. Por que a rede quereria 
cancel-lo?  um bocado difcil conseguir um programa de grande 
sucesso.
- No  o programa - disse Foss. -  Jack Nolan.
Jack Nolan era o astro de The Raiders, e tinha sido um sucesso 
imediato, tanto de crtica quanto de pblico.
- Que  que h com ele? - perguntou Sam.
Detestava o hbito de Mel Foss de for-lo a arrancar dele as 
informaes.
- Voc j leu o nmero dessa semana da Peek Magazine?
- Eu no leio em nenhuma semana.  o monte de lixo.
De repente ele percebeu aonde  que Fosse estava querendo chegar.
- Eles caram em cima de Nolan!
- E sem meias medidas - replicou Foss. - O estpido filho da puta 
ps o seu vestido de renda mais bonito e foi a uma festa. Algum 
tirou retratos.
-  muito ruim?
- No podia ser pior. Recebi uma dzia de telefonemas da TV 
ontem. Os patrocinadores e a rede querem cair fora. Ningum quer 
ser associado a um veado escandaloso.
- Travesti - disse Sam.
Ele pretendia apresentar um bom relatrio de televiso na reunio 
do conselho, em Nova York, no ms seguinte. A notcia de Foss 
poria fim naquilo. Perder The Raiders ia ser um golpe violento.
A menos que ele pudesse fazer alguma coisa.
Quando Sam voltou para o escritrio, Lucille acenou com uma pilha 
de recados para ele.

- As emergncias esto em cima - disse ela. - Esto precisando...
- Mais tarde. Quero falar com William Hunt na IBC.
 Dois minutos depois, Sam estava falando com o chefe da 
International Broadcasting Company. Sam conhecia Hunt 
superficialmente h vrios anos, e gostava dele. Hunt tinha 
comeado como um jovem advogado brilhante na companhia e fora 
abrindo o seu caminho at o topo da hierarquia da rede de 
televiso. Raramente tratavam de negcios directamente um com o 
outro, porque Sam no estava ligado de maneira directa  
televiso. Naquele momento desejou que tivesse dedicado algum 
tempo a cultivar a amizade com Hunt. Quando Hunt entrou na linha, 
Sam se obrigou a falar num tom descontrado e casual:
- Bom dia, Bill.
-  uma surpresa agradvel - disse Hunt. - J faz um bocado de 
tempo, Sam.
- Tempo demais.  o problema com este negcio, Bill. A gente 
nunca tem tempo para as pessoas de quem gosta.
-  verdade.
Sam fez com que sua voz soasse bem casual. - A propsito, voc 
por acaso viu aquele artigo idiota na Peek?
- Voc sabe que vi.  por isso que vamos cancelar o programa, Sam 
- disse Hunt num tom calmo, mas com firmeza.
- Bill - disse Sam -, que  que voc diria se eu lhe contasse que 
Jack Nolan foi falsamente inculpado?
Houve uma gargalhada do outro lado da linha.
- Eu diria que voc deveria pensar em se tornar escritor.
- Estou falando srio - disse Sam, com sinceridade. - Eu conheo 
Jack Nolan. Ele  to normal quanto ns. Aquela fotografia foi 
tirada numa festa  fantasia. Era aniversrio da namorada dele, e 
ele ps o vestido de farra.
Sam podia sentir as palmas das mos suando.
- Eu no.
- Vou lhe dizer como confio em Jack. Acabei de escolh-lo para o 
papel principal de Laredo, o nosso grande faroeste para o ano que 
vem.
Houve uma pausa.
- Est falando srio, Sam?
- Pode ficar certo de que estou.  um filme de trs milhes de 
dlares. Os exibidores no quiseram participar. Acha que eu 
correria esse tipo de risco se no soubesse do que estou falando?
- Bem. - havia hesitao na voz de Bill Hunt.
- Ora, vamos, Bill, voc no vai deixar que uma porcaria de 
revista de fofocas como a Peek destrua a carreira de um bom 
homem. Ns lhe demos um programa de sucesso. No vamos brincar 
com um sucesso.
- Bem.
- Mel Foss j falou com voc sobre os planos do estdio para The 
Raiders na prxima temporada?
- No.
- Acho que ele estava planejando fazer-lhe uma surpresa - disse 
Sam. - Espere s at ouvir o que ele imaginou! Astros convidados, 
grandes escritores de faroeste, filmagens no prprio local, todas 
as honras! Se The Raiders no subir como um foguete para o 
primeiro lugar, estou no negcio errado.
Houve uma breve hesitao. Ento Bill Hunt disse:
- Diga a Mel para me telefonar. Talvez todos ns aqui tenhamos 
entrado em pnico  toa.

- Ele lhe telefonar - prometeu Sam.
- Sam, voc compreende a minha posio. Eu no estava tentando 
prejudicar ningum.
-  claro que no - disse Sam com sinceridade. - Conheo voc bem 
demais para pensar isso, Bill. Foi por isso que achei que lhe 
devia a oportunidade de deix-lo ouvir a verdade.
- Eu lhe fico muito grato.
- Que tal um almoo na semana que vem?
- Seria ptimo. Telefono na segunda-feira.
Eles se despediram e desligaram. Sam ficou sentado ali, exausto. 
Jack Nolan era decididamente um veado. Algum j deveria ter dado 
sumio nele h muito tempo. E todo o futuro de Sam dependia de 
manacos como ele. Dirigir um estdio era como andar num arame 
suspenso sobre as cataratas do Nigara num nevoeiro. "Qualquer um 
estaria louco de fazer um trabalho como esse", pensou Sam. Pegou 
o telefone interno e discou. Alguns minutos depois estava falando 
com Mel Foss.
- The Raiders vai continuar no ar.
- Qu? - havia incredulidade e surpresa na voz de Foss.
-  isso mesmo. Quero que voc tenha uma conversinha sria com 
Jack Nolan. Diga a ele que se sair da linha de novo eu o porei 
para fora desta cidade pessoalmente e o levarei de volta para a 
Ilha do Fogo! Estou falando srio. Se ele sentir uma terrvel 
necessidade de chupar alguma coisa, diga para experimentar uma 
banana!
Sam desligou o telefone com violncia. Recostou-se na cadeira, 
pensando. Tinha esquecido de avisar Foss das invenes que havia 
contado a Bill Hunt. Ia ter que arranjar um escritor para 
produzir o script de um faroeste chamado Laredo.
A porta se abriu violentamente e Lucille ficou parada ali, seu 
rosto muito plido.
- Pode ir imediatamente at o cenrio 10? Algum o incendiou.

8

Toby Temple tinha tentado entrar em contacto com Sam Winters uma 
meia dzia de vezes, mas nunca tinha conseguido ir alm da cadela 
da secretria, e finalmente desistiu. Toby fez as rondas dos 
clubes nocturnos e dois estdios sem ter sucesso. Durante o ano 
seguinte, aceitou vrios empregos e, nesse nterim, 
apresentava-se em bares e clubes nocturnos obscuros. Mas no 
conseguiu passar dos portes dos estdios.
- Voc est tentando pelo caminho errado - disse-lhe um amigo. - 
Faa com que eles venham at voc.
- Como  que eu vou fazer isso? - perguntou Toby, com cinismo.
- Entre para a Actors West.
- Uma escola de arte dramtica?
-  mais do que isso. Eles encenam peas, e todos os estdios da 
cidade fazem coberturas delas.

A Actors West tinha cheiro de profissionalismo. Toby pde 
senti-lo quando passou pela porta. Na parede havia fotografias 
dos ex-alunos da escola. Toby reconheceu muitos deles como 
actores de sucesso.
A recepcionista atrs da escrivaninha disse:
- Em que posso ajud-lo?
- Bem, sou Toby Temple. Gostaria de me matricular.
- J teve alguma experincia teatral?
- Bem, no - disse Toby. - Mas eu...
Ela sacudiu a cabea. - Sinto muito. A Sra. Tanner no entrevista 
ningum que no tenha tido experincia profissional.
Toby ficou olhando para ela por um momento.
- Est brincando comigo?
- No.  o nosso regulamento. Ela nunca...
- No estou falando nisso - disse Toby. - Quero dizer, voc 
realmente no sabe quem eu sou?
A loura olhou para ele e disse:
- No.
Toby soltou a respirao devagar.
- Jesus - disse ele. - Leland Hayward tinha razo. Se a gente 
trabalha na Inglaterra, Hollywood no sabe nem que a gente est 
vivo.
Sorriu e disse num tom de desculpa:
- Eu estava brincando. Achei que me reconheceria.
Agora a recepcionista estava confusa, sem saber em que acreditar.
- Ento j trabalhou profissionalmente?
- Eu diria que sim - Toby riu.
A loura pegou um formulrio.
- Que papis desempenhou e onde?
- No fiz nada aqui - disse Toby depressa. - Estive na Inglaterra 
os ltimos dois anos, trabalhando em teatro.
A loura concordou com a cabea. 
- Compreendo. Bem, deixe-me falar com a Sra. Tanner.
A loura desapareceu num outro escritrio, voltando alguns minutos 
depois.
- A Sra. Tanner o receber. Boa sorte.
Toby piscou o olho para a recepcionista, respirou fundo e entrou 
no escritrio da Sra. Tanner.

Alice Tanner era uma mulher de cabelos escuros, com um rosto 
atraente e aristocrtico. Parecia estar com seus trinta e poucos 
anos, cerca de dez anos mais que Toby. Estava sentada atrs da 
escrivaninha, mas o que ele podia ver de seu corpo era 
sensacional. "Este lugar vai ser mesmo muito bom", reflectiu 
Toby.
Toby lhe deu um sorriso cativante e disse:
- Sou Toby Temple.
Alice Tanner levantou-se e caminhou at ele. Sua perna esquerda 
estava envolta numa armao pesada de metal e ela mancava com o 
andar rpido e  vontade de algum que tinha vivido com aquilo 
por muito tempo.
"Plio", concluiu Toby. No sabia se devia fazer algum comentrio 
sobre aquilo ou no.
- Ento, quer se matricular nos nossos cursos.
- Quero muito - disse Toby.
- Posso lhe perguntar por qu?
Ele fez a sua voz soar sincera.
- Porque em todos os lugares aonde vou, Sra. Tanner, as pessoas 
falam sobre a sua escola e sobre as peas maravilhosas que 
encenam aqui. Aposto que no tem idia da reputao que este 
lugar tem.
Ela o examinou por um momento.
- Eu tenho idia.  por isso que tenho que ter cuidado para 
manter os impostores de fora.
Toby sentiu o seu rosto comear a corar, mas sorriu inocentemente 
e disse:
- Aposto que sim. Muitos deles devem tentar entrar de qualquer 
maneira.
- So poucos - concordou a Sra. Tanner, olhando de relance para o 
carto que tinha na mo. - Toby Temple.
- Provavelmente no conhece meu nome - explicou ele - porque 
durante os ltimos dois anos estive...
- Trabalhando em teatro na Inglaterra.
Ele concordou com a cabea.
- Certo.
Alice Tanner olhou para ele e disse com calma: - Sr. Temple, 
americanos no podem trabalhar em teatro na Inglaterra. A Lei da 
Equidade para Actores Ingleses no permite.
 Toby sentiu de repente um vazio no fundo do estmago.
- Poderia ter verificado antes e nos pouparia a ambos esta 
situao embaraosa. Sinto muito, mas aqui ns s admitimos 
talentos profissionais.
Comeou a voltar para a escrivaninha. A entrevista tinha acabado.
- Espere! - a voz dele soou como uma chicotada.
Ela se virou espantada. Naquele instante, Toby no tinha idia do 
que ia dizer ou fazer. Sabia apenas que todo o seu futuro 
dependia daquilo. A mulher parada na sua frente era a pedra 
inicial para tudo que ele queria, tudo por que tinha trabalhado e 
lutado, e no deixaria que ela o detivesse.
- Talento no se julga atravs de regras, minha senhora! Ok, eu 
nunca representei. E por qu? Porque pessoas como a senhora se 
recusa a me dar uma oportunidade. Compreende o que estou querendo 
dizer? - era a voz de W. C. Fields.

Alice Tanner abriu a boca para interromp-lo, mas Toby no lhe 
deu oportunidade. Ela era Jimmy Cagney, dizendo-lhe que desse uma 
chance ao pobre garoto, e James Stewart, concordando com ele, e 
Clark Gable, dizendo que estava louco para trabalhar com o 
garoto, e Cary Grant, acrescentando que achava o garoto 
brilhante. Uma horta de astros de Hollywood estava naquela sala, 
e todos eles estavam dizendo coisas engraadas, coisas em que 
Toby Temple nunca tinha pensado antes. As palavras, as piadas 
jorravam num frenesi de desespero. Era um homem se afogando na 
escurido da sua obscuridade, agarrando-se a uma tbua de 
salvao de palavras, e as palavras eram a nica coisa que o 
mantinha  superfcie. Estava ensopado de suor, correndo pelo 
aposento, imitando cada gesto de cada personagem que fazia. 
Estava louco, totalmente fora de si, inteiramente esquecido de 
onde estava e do que estava fazendo ali, at que ouviu Alice 
Tanner dizendo:
- Pare! Pare!
Ela chorava de rir, as lgrimas lhe escorrendo pelo rosto.
- Pare! - repetiu ela, arquejando para respirar.
E lentamente Toby desceu de volta  terra. A Sra. Tanner tinha 
puxado um leno e estava enxugando os olhos.
- Voc, voc  maluco - disse ela. - Sabe disso?
Toby a encarou, um sentimento de euforia tomando conta dele 
lentamente, levantando-o, exaltando-o.
- Gostou?
Alice Tanner sacudiu a cabea e respirou fundo para controlar o 
riso, e disse:
- No muito.
Toby olhou para ela cheio de raiva. Estivera rindo dele, no com 
ele. Ele estivera fazendo papel de palhao.
- Ento de que  que estava rindo? - perguntou Toby.
Ela sorriu e disse com calma:
- Voc. Este foi o desempenho mais frentico que j vi em minha 
vida. Em algum lugar, escondido debaixo de todos esses artistas 
de cinema, est um rapaz com um bocado de talento. Voc no tem 
que imitar outras pessoas, voc  naturalmente engraado.
Toby sentiu a sua raiva comear a se esvair.
- Acho que um dia voc poder ser realmente bom, se estiver 
disposto a dar duro para isso. Est?
Ele lhe lanou um sorriso lento e radiante e disse:
- Vamos arregaar as mangas e trabalhar.

Josephine trabalhou muito naquela manh de sbado, ajudando a me 
a limpar a casa. Ao meio-dia, Cissy e alguns outros amigos vinham 
apanh-la para lev-la a um piquenique.
A Sra. Czinski observou Josephine saindo na grande limusine cheia 
de crianas da gente do petrleo e pensou: "Um dia alguma coisa 
de ruim vai acontecer a Josephine. Eu no devia deixar ela sair 
com essa gente. So filhos do diabo".
E ela se perguntou se haveria um demnio em Josephine. Ia falar 
com o Reverendo Damian, ele saberia o que fazer.

9

A Actors West era dividida em duas seces: Grupo Mostrurio, que 
era constitudo de actores mais experimentados, e o Grupo 
Oficina. Eram os actores do Grupo Mostrurio que encenavam as 
peas que eram assistidas com ateno pelos caadores de talentos 
dos estdios. Toby tinha sido designado para o Grupo Oficina. 
Alice Tanner lhe havia dito que poderia levar de seis meses a um 
ano at que ele estivesse pronto para fazer uma pea com o Grupo 
Mostrurio.
Toby achava as aulas interessantes, mas o ingrediente mgico 
estava faltando: o pblico, os aplausos, os risos, pessoas para 
ador-lo.
Nas semanas seguintes ao incio de suas aulas, Toby quase no 
tinha visto a directora da Escola. Ocasionalmente Alice Tanner 
aparecia para observar as improvisaes e para dar uma palavra de 
encorajamento, ou Toby cruzava com ela a caminho das aulas; mas 
havia esperado um relacionamento mais ntimo. Descobriu-se 
pensando um bocado em Alice Tanner. Era a imagem que Toby fazia 
de uma senhora de classe, e aquilo o atraa; achava que era o que 
merecia. A idia da sua perna aleijada o incomodava a princpio, 
mas pouco a pouco comeara adquirir um fascnio sexual.
Toby tornou a falar com ela a respeito de inclu-lo numa pea do 
mostrurio, onde os crticos e os caadores de talentos pudessem 
v-lo.
- Voc ainda no est pronto - disse-lhe Alice Tanner.
Ela estava no seu caminho, mantendo-o afastado do seu sucesso. 
"Tenho que fazer alguma coisa a respeito disso", resolveu Toby.
Uma pea do Grupo Mostrurio ia ser encenada e, no dia da 
estreia, Toby estava sentado numa fileira do meio da plateia ao 
lado de uma estudante chamada Karen, uma gorduchinha que 
representava personagens caricatas e era da sua turma. Toby 
contracenava com ela em alguns nmeros, e sabia duas coisas a seu 
respeito: nunca usava roupa de baixo e tinha mau hlito. Tinha 
feito tudo excepto enviar sinais de fumaa para dizer a Toby que 
queria ir para a cama com ele, "trepar com ela deve assemelhar-se 
a ser sugado para uma banheira cheia de bainha fervendo."
Enquanto estavam sentados ali, esperando que a cortina subisse, 
Karen mostrava animadamente os crticos do Times e do Herald 
Express de Los Angeles, e os caadores de talentos da Twentith 
Century-Fox, da MGM e da Warner Brothers. Toby ficou furioso. 
Estava ali para ver os actores no palco, enquanto ele estava 
sentado ali na plateia como um idiota. Teve um impulso 
incontrolvel de se levantar e executar um de seus nmeros, de 
estonte-los, de lhe mostrar o que era talento de verdade.
O pblico gostou da pea, mas Toby estava obcecado com os 
caadores de talentos, sentados ao seu alcance, os homens que 
tinham o seu futuro nas mos. Bem, se a Actors West era a isca 
que os traria at ele, Toby a usaria; mas no tinha a inteno de 
esperar seis meses, nem mesmo seis semanas.
Na manh seguinte, Toby foi at o escritrio de Alice Tanner.
- Que foi que achou da pea? - perguntou ela. 
- Foi maravilhosa - respondeu. - Aqueles actores estavam 
realmente ptimos.
Ele deu um sorriso de desculpas.

- Compreendi o que estava querendo dizer quando falou que ainda 
no estava pronto.
- Eles tm mais experincia do que voc, isto  tudo, mas voc 
tem uma personalidade nica. Voc vai conseguir.  s ter 
pacincia.
Ele suspirou:
- No sei. Talvez fosse melhor se eu esquecesse essa histria 
toda e fosse vender seguros ou coisa assim.
Alice olhou para ele, surpresa.
- No deve fazer isso.
Toby sacudiu a cabea.
- Depois de ver esses profissionais, ontem  noite, eu acho que 
no tenho jeito.
-  claro que tem, Toby. No vou deixar voc falar desse jeito.
Na voz dela havia o tom que ele estivera querendo ouvir. Agora 
no era mais uma professora falando com um aluno, era uma mulher 
falando com um homem,  encorajando-o, importando-se com ele. Toby 
sentiu um pequeno mpeto de satisfao.
Encolheu os ombros com uma expresso de impotncia.
- No sei mais. Estou completamente sozinho nesta cidade. No 
tenho ningum com quem falar.
- Voc pode falar comigo Toby. Gostaria de ser sua amiga.
Podia ouvir a rouquido lasciva surgindo na voz dela. Os olhos 
azuis de Toby revelavam todo o encanto do mundo enquanto olhava 
para ela. Ela ainda o observava quando ele foi at a porta do 
escritrio e a trancou. Voltou para junto dela, ajoelhou-se, 
enterrou a cabea no seu colo e, enquanto seus dedos lhe tocavam 
o cabelo, comeou a levantar-lhe a saia lentamente retirou o 
suporte, beijando com ternura as marcas vermelhas deixadas pelas 
talas de ao. Desabotoou lentamente a cinta-liga, sempre falando 
a Alice do seu amor e da sua necessidade dela, e a cobriu de 
beijos descendo at os lbios midos. Ele a carregou at o grande 
sof de couro e a possuiu.
Naquela noite, Toby mudou-se para a casa de Alice.
Na cama, naquela noite, Toby descobriu que Alice Tanner era uma 
mulher solitria, digna de pena, desesperada e ansiosa para ter 
algum com quem falar, algum a quem amar.
Tinha nascido em Boston, seu pai era um industrial rico que lhe 
havia dado uma grande mesada e nenhuma ateno. Alice adorava o 
teatro e tinha estudado para ser actriz, mas na universidade 
contrara poliomielite e aquilo pusera fim ao seu sonho. Ela 
contou a Toby como aquilo havia afectado sua vida. O rapaz de 
quem estava noiva a abandonara quando soubera da notcia. Alice 
tinha sado de casa, casando-se com um psiquiatra, que se 
suicidara seis meses depois. Era como se todas as emoes e 
sentimentos tivessem sido engarrafados sob presso no seu ntimo. 
Agora tinham jorrado para fora numa exploso que a deixara 
exausta, em paz e maravilhosamente satisfeita.
Toby possuiu Alice repetidamente, at que ela quase desmaiou de 
prazer, penetrando-a com seu enorme pnis e fazendo movimentos 
circulares bem lentos com os quadris, at parecer estar tocando 
todas as partes do seu corpo. Ela gemia:
- Oh, querido, eu o amo tanto. Oh, Deus, como eu adoro isso!

Mas no que dizia respeito  escola, Toby descobriu que no tinha 
nenhuma influncia sobre Alice. Pediu a ela que o pusesse na 
prxima pea do Mostrurio, que o apresentasse aos directores que 
distribuam papis, que falasse a respeito dele com as pessoas de 
influncia nos estdios, mas ela permaneceu firme.
- Voc vai se prejudicar se for rpido demais, querido. Regra 
nmero 1: a primeira impresso  a mais importante. Se no 
gostarem de voc da primeira vez, nunca voltaro a v-lo uma 
segunda. Voc tem que estar pronto.
No instante em que as palavras foram ditas, ela se tornou o 
Inimigo. Estava contra ele. Toby engoliu a sua fria e se obrigou 
a sorrir.
-  claro.  s que estou impaciente. Quero faz-lo tanto por 
voc quanto por mim.
- Quer mesmo? Oh, Toby, eu o amo tanto!
- Eu tambm a amo, Alice.
E sorriu para os olhos que o adoravam. Sabia que tinha que dar um 
jeito naquela cadela que estava entre ele e o que ele queria. 
Toby a odiava e a punia.
Quando iam para a cama, obrigava-a a fazer coisas que ela nunca 
tinha feito, coisas que nunca pedira a uma prostituta que 
fizesse, usando a boca de Alice, seus dedos e sua lngua. Fazia 
com que ela fosse cada vez mais longe, levando-a  fora a uma 
srie de humilhaes. E cada vez que a obrigava a fazer algo mais 
degradante, a elogiava, da mesma maneira que se elogia um 
cachorro por ter aprendido mais um truque, e ela ficava feliz por 
ter-lhe agradado. E quanto mais a degradava, mais degradado se 
sentia. Estava punindo a si mesmo, e no sabia por qu.
Toby tinha um plano em mente, e sua oportunidade de p-lo em 
prtica surgiu mais cedo do que previra. Alice Tanner anunciou 
que o Grupo Oficina ia dar um espectculo fechado para as turmas 
adiantadas e seus convidados, na sexta-feira seguinte. Toby 
preparou um monlogo e o ensaiou exaustivamente.
Na manh do dia do espectculo, Toby esperou at que as aulas 
terminassem e foi procurar Karen, a actriz gorda que tinha se 
sentado junto dele durante a pea.
- Voc me faria um favor? - perguntou num tom casual.
- Claro, Toby - a voz dela revelava surpresa e ansiedade.
Toby recuou para fugir do hlito de Karen.
- Quero pregar uma pea num velho amigo meu. Quero que voc 
telefone para a secretria de Clifton Lawrence fingindo ser a 
secretria de Sam Goldwyn, e diga-lhe que ele gostaria que o Sr. 
Lawrence viesse ao espectculo, hoje  noite, para ver um novo 
cmico brilhante. Haver uma entrada esperando por ele na 
bilheteira.
Karen olhou para ele.
- Jesus, a velha Tanner me arrancaria a cabea! Voc sabe que ela 
nunca permitiu que gente de fora assistisse aos espectculos do 
Oficina.
- Confie em mim, no haver nenhum problema - Toby segurou o 
brao dela e o apertou. - Vai estar ocupada esta tarde?
Ela engoliu em seco, com a respirao um pouco acelerada.
- No, no se voc quiser fazer alguma coisa.
- Eu gostaria de fazer alguma coisa.
Trs horas depois, uma Karen em xtase fez o telefonema.


O auditrio estava cheio de actores das vrias turmas e seus 
convidados, mas a nica pessoa para quem Toby tinha olhos era o 
homem sentado numa poltrona lateral, na terceira fila. Toby 
estivera em pnico, com medo que o seu ardil falhasse. Sem dvida 
um homem esperto como Clifton Lawrence perceberia a artimanha. 
Mas no tinha percebido. Estava ali.
Naquele momento, um rapaz e uma moa estavam no palco, encenando 
um trecho de The sea gull. Toby esperava que eles no fizessem 
com que Clifton Lawrence sasse do teatro. Finalmente o nmero 
acabou, e os actores agradeceram e saram do palco.
Era a vez de Toby. Alice apareceu de repente, ao seu lado, nos 
bastidores, murmurando: - Boa sorte, querido -, sem saber que a 
sorte dele estava sentada na plateia.
- Obrigado, Alice.
Toby fez uma prece muda, endireitou os ombros, irrompeu palco 
adentro e deu o seu sorriso inocente para a plateia.
- Al, amigos. Sou Toby Temple. Ei, vocs alguma vez pararam para 
pensar a respeito de nomes, e como os nossos pai os escolhem?  
uma loucura. Perguntei  minha me por que ela tinha me chamado 
Toby. Ela disse que deu uma olhada para a minha careta e que no 
viu outra coisa.
Foi a expresso dele que arrancou o riso. Toby parecia to 
inocente e ansioso para agradar, de p ali sozinho naquele palco, 
que eles o adoraram. As piadas que ele contou eram terrveis, mas 
no tinha importncia. Ele era to vulnervel que queriam 
proteg-lo, e o fizeram com seus aplausos e suas gargalhadas. Era 
como uma ddiva de amor que flua para dentro de Toby, enchendo o 
seu ntimo de uma euforia quase insuportvel. Ele era Edward G. 
Robinson e Jimmy Cagney, e Cagney estava dizendo:
- Seu rato imundo! A quem voc pensa que est dando ordens?
- A voc, seu vagabundo. Sou o Pequeno Csar. Sou o chefe. Voc 
no  nada. Sabe o que  que isso quer dizer? - respondia 
Robinson.
- Sei, rato imundo. Voc no  chefe de nada.
Uma exploso de riso. O pblico adorava Toby.
Bogart estava ali, rosnando com rispidez:
- Eu cuspiria no seu olho, seu vagabundo, se o meu lbio no 
estivesse preso em cima dos meus dentes.
E o pblico estava encantado.
Toby lhes ofereceu a sua verso de Peter Lorre.
- Vi a tal garotinha no quarto dela, brincando com o negcio, e 
fiquei excitado. No sei o que foi que deu em mim. No consegui 
me controlar. Entrei bem devagarinho no quarto e puxei a corda 
com toda a fora, quebrando o ioi dela.
Uma grande risada. Ele estava radiante.
Passou para Laurel e Hardy, e um movimento na plateia atraiu sua 
ateno, obrigando-o a olhar para cima. Clifton Lawrence estava 
saindo do teatro.
O resto da noite foi um borro para Toby.
Quando o espectculo acabou, Alice Tanner se aproximou de Toby.
- Voc estava maravilhoso, querido! Eu...

No suportava ter que olhar para ela, olhar para qualquer pessoa, 
que qualquer pessoa o olhasse. Queria estar sozinho com a sua 
desgraa, para tentar lutar com a dor que o estraalhava. Seu 
mundo tinha desmoronado  sua volta. Tinha tido a sua 
oportunidade e fracassado. Clifton Lawrence desertara, no 
esperava nem mesmo que ele acabasse. Clifton Lawrence era um 
homem que conhecia o que era talento, que s cuidava dos 
melhores. Se Lawrence no achava que Toby tinha alguma coisa que 
valesse a pena. Toby se sentiu enjoado.
- Vou dar uma volta - disse a Alice.
Desceu pela Vine Street e Gower Street, passando pela Columbia 
Pictures, pela RKO e pela Paramount. Todos os portes estavam 
fechados. Desceu o Hollywood Boulevard e olhou para cima, para o 
anncio enorme, zombeteiro, na colina, que dizia: "HOLLYWOODAND". 
No existia nenhuma Hollywoodland. Era um estado de esprito, um 
sonho mentiroso que levava milhares de pessoas, que de outra 
forma seriam normais,  insanidade de tentar alcanar o 
estrelato. A palavra "Hollywood" tinha se tornado um m, uma 
armadilha que seduzia as pessoas com promessas maravilhosas, 
cantos de sereia de sonhos realizados, e depois as destrua.
Toby andou pelas ruas a noite inteira, perguntando-se o que iria 
fazer da sua vida. A f que tinha em si mesmo fora destruda, e 
sentia-se desarraigado e sem rumo. Nunca se imaginara fazendo 
outra coisa qualquer a no ser representar, tudo que lhe restava 
eram empregos montonos e entediantes, onde estaria aprisionado 
para o resto da vida. Sr. Annimo. Ningum nunca saberia quem ele 
era. Pensou nos longos anos sombrios,, na solido amarga dos 
milhares de cidades sem nome, das pessoas que o tinham aplaudido, 
rido com ele, que o tinham amado. Toby chorou. chorou pelo 
passado e pelo futuro.
Chorou porque estava morto.

O dia estava amanhecendo quando Toby voltou para o bangal branco 
que dividia com Alice. Entrou no quarto e olhou para o vulto 
adormecido. Tinha pensado que ela seria o "abra-te ssamo" para o 
reino mgico. Mas no existia nenhum reino mgico. No para ele. 
Ia partir. No tinha idia de para onde iria. Estava com quase 
vinte e sete anos e no tinha futuro.
Deitou-se no sof, exausto. Fechou os olhos, ouvindo os rudos 
matinais da cidade despertando para a vida. Os rudos matinais 
das cidades so sempre os mesmos, e pensou em Detroit. Sua me. 
Ela estava em p na cozinha, preparando tortinhas de ma para 
ele. Podia sentir o seu maravilhoso cheiro almiscarado de fmea, 
misturado com o cheiro das mas cozinhando na manteiga, e ela 
estava dizendo: "Deus quer que voc seja famoso".
Estava de p sozinho num palco enorme, ofuscando pelos 
reflectores, tentando se lembrar de seu texto. Tentou falar mas 
tinha perdido a voz. Entrou em pnico. Um rudo trovejante vinha 
da plateia e, atravs das luzes ofuscantes, Toby podia ver os 
espectadores correndo para o palco para agredi-lo, para mat-lo. 
O amor deles se transformara em dio. Eles o cercavam, o 
agarravam, entoando: "Toby! Toby! Toby!"
Toby acordou com um sobressalto, a boca seca de medo. Alice 
Tanner estava inclinada sobre ele, sacudindo-lhe o brao.
- Toby! Telefone.  Clifton Lawrence.

O escritrio de Clifton Lawrence ficava num prdio pequeno e 
elegante em Beverly Drive, ao sul de Wilshire. Havia quadros de 
impressionistas franceses nas paredes revestidas de madeira 
entalhada em frente  lareira de mrmore verde-escuro. Um sof e 
algumas cadeiras de poca estavam agrupados em torno de uma 
mesinha de ch encantadora. Toby nunca tinha visto nada assim.

Uma secretria ruiva, bem-feita de corpo, estava servindo o ch.
- Como  que gosta do seu ch, Sr. Temple?
"Sr. Temple!"
- Uma colher de acar, por favor.
- Aqui est - um pequeno sorriso e ela foi embora.
Toby no sabia que o ch era de uma marca especial, importado de 
Fortnum and Mason, nem que estava enriquecido com uma infuso de 
Irish Baleek, mas sabia que o gosto era maravilhoso. De facto, 
tudo naquele escritrio era maravilhoso, especialmente aquele 
homenzinho elegante que examinava, sentado em uma poltrona. 
Clifton Lawrence era menor do que Toby imaginara, mas irradiava 
autoridade e poder.
- No posso lhe dizer o quanto aprecio o facto de o senhor me 
receber - disse Toby. - Sinto muito por t-lo enganado e...
Clifton Lawrence atirou a cabea para trs e riu.
- Enganar a mim? Eu almocei com Goldwyn ontem. Fui v-lo ontem  
noite porque queria ver se o seu talento ficava  altura da sua 
coragem. E ficava.
- Mas o senhor saiu. - exclamou Toby.
- Meu caro rapaz, no se precisa comer o pote inteiro de caviar 
para saber se  bom, certo? Eu soube o que voc valia em sessenta 
segundos.
Toby sentiu aquela sensao de euforia crescendo dentro dele 
outra vez. Depois do desespero negro da noite anterior, ser 
levantado s alturas daquele jeito, ter a sua vida de volta...
- Tenho um palpite a seu respeito, Temple - disse Clifton 
Lawrence. - Acho que seria estimulante pegar algum jovem e 
construir sua carreira. Decidi aceitar voc como cliente.
O sentimento de felicidade estava explodindo de felicidade no 
ntimo de Toby. Queria se levantar e gritar bem alto. Clifton 
Lawrence ia ser seu agente!
- me encarregarei de voc sob uma condio - dizia Clifton 
Lawrence. - Que voc faa o que eu lhe disser. No tolero 
temperamentais. Saia da linha uma nica vez e estar acabado. 
Est compreendendo?
Toby concordou depressa, balanando a cabea.
- Sim, senhor. Compreendo.
- A primeira coisa que tem que fazer  encarar a verdade - sorriu 
para Toby e disse: - Seu nmero  horroroso. Definitivamente o 
fim.
Foi como se Toby estivesse levado um chute no estmago. Clifton 
Lawrence o trouxera at ali para puni-lo por aquele telefonema 
idiota; no pretendia empreg-lo. Ele.
Mas o agente baixinho continuou:
- A noite passada foi uma noite de amadores, e isto  o que voc 
, um amador.
Clifton Lawrence levantou-se da cadeira e comeou a caminhar de 
um lado para outro.
- Vou lhe dizer o que voc tem e o que voc precisa ter para se 
tornar um astro.
Toby ficou sentado, imvel.
- Vamos comear pelo seu material - disse Clifton. - Voc poderia 
pr sal e manteiga nele e mascate-lo em salas de esperas de 
cinemas.
- Sim, senhor. Bem, parte dele , de facto, um pouco batidas, 
mas...
- Nmero 2. Voc no tem estilo.
Toby sentiu suas mos comearem a se cerrar.

- O pblico pareceu...
- Nmero 3. Voc no sabe se mexer.  desajeitado.
Toby no disse nada.
O agente baixinho andou at junto dele e disse num tom suave, 
lendo os pensamentos de Toby.
- Se voc  to ruim, o que  que voc est fazendo aqui? Voc 
est aqui porque tem uma coisa que o dinheiro no pode comprar. 
Quando voc entra naquele palco, a plateia quer engolir voc. 
Eles o adoraram. Tem alguma idia de quanto isso poderia valer?
- Diga-me.
- Mais do que voc poderia sonhar. Com o material certo e a 
orientao apropriada, voc pode ser um astro.
Toby ficou sentado ali, aquecendo-se na brasa morna das palavras 
de Clifton Lawrence, e era como se tudo que fizera durante a sua 
vida inteira tivesse levado quele momento, como se ele j fosse 
um astro, e tudo j houvesse acontecido. Exactamente como sua me 
havia prometido.
- A chave do sucesso de um comediante  a personalidade - dizia 
Clifton Lawrence. - No se pode compr-la e no se pode 
falsific-la.  preciso nascer com ela. Voc  um dos 
afortunados, meu caro rapaz.
Olhou para o relgio Piaget de ouro no pulso.
- Marquei um encontro para voc com O'Hanlon e Rainger s duas 
horas. So os melhores escritores cmicos do mercado. Trabalham 
para todos os grandes comediantes.
Toby disse com nervosismo:
- Sinto muito, mas acho que no tenho muito dinheiro...
Clifton Lawrence afastou a idia com um aceno de mo.
- No precisa se preocupar, meu caro rapaz. Voc me pagar 
depois.
Muito tempo depois de Toby ter ido embora, Clifton Lawrence 
continuava sentado ali pensando nele, sorrindo do rosto inocente 
e daqueles olhos azuis confiantes, sem malcia. J fazia muito 
tempo desde que Clifton Lawrence agenciara um desconhecido pela 
ltima vez. Todos os seus clientes eram astros importantes, e 
todos os estdios disputavam os seus servios. O estmulo 
desaparecera h muito tempo. No incio tinha sido muito mais 
divertido, mais estimulante. Seria um desafio pegar aquele garoto 
cru, jovem, e desenvolv-lo, transform-lo numa mercadoria 
quente. Clifton tinha a impresso de que realmente ia gostar 
daquela experincia. Gostava do garoto. Gostava muito dele, 
mesmo.

A reunio se realizou nos estdios da Twentieth Century-Fox, no 
Pico Boulevard, zona oeste de Los Angeles, onde O'Hanlon e 
Rainger tinham seus escritrios. Toby esperava algo de muito 
luxuoso, no estilo de Clifton Lawrence, mas os escritrios dos 
escritores eram sujos e tristes, instalados num pequeno bangal 
nos limites da propriedade.

Uma secretria de meia-idade, de aparncia desleixada, vestida 
com um casaco de malha, acompanhou Toby at o gabinete. As 
paredes eram de um verde-limo sujo, e o nico ornamento era um 
alvo para jogar dados, j bem velho e gasto, e uma plaqueta com 
os dizeres: "PLANEJE COM ANTECEDNCIA", com as trs ltimas 
letras espremidas umas nas outras. Uma persiana quebrada filtrava 
parcialmente os raios do sol que caam sobre um velho tapete 
marrom imundo e j gasto a ponto de quase no ter mais plos. 
Havia duas escrivaninhas muito arranhadas, uma de costas para a 
outra, ambas cobertas de papis, lpis e copinhos de papel com 
restos de caf frio.
- Al, Toby. Desculpe a baguna.  o dia de folga da empregada - 
disse O'Hanlon a ttulo de cumprimento. - Eu sou O'Hanlon.. - 
Apontou para o companheiro. - Este ...
- Rainger.
- Oh, sim. Este  Rainger.
O'Hanlon era grandalho e rechonchudo, e usava culos com aros de 
osso. Rainger era baixinho e franzino. Ambos tinham cerca de 
trinta anos e escreviam juntos, com sucesso, j h dez anos. 
Posteriormente, durante todo o tempo que Toby trabalhou com eles, 
sempre se referia a eles como "os meninos". 
- Soube que vocs vo escrever algumas piadas para mim - disse 
Toby.
O'Hanlon e Rainger trocaram olhares. Rainger disse: - Clifton 
Lawrence acha que voc  capaz de ser o prximo smbolo sexual da 
Amrica. Vejamos o que voc sabe fazer. Voc tem algum nmero?
-  claro - respondeu Toby.
Lembrou-se do que Clifton Lawrence havia dito a respeito dele. 
Sentiu-se acanhado de repente.
Os dois escritores se sentaram no sof e cruzaram os braos.
- Faa-nos rir - disse O'Hanlon.
Toby olhou para eles. - Assim sem mais nem menos?
- Que  que voc queria? - perguntou Rainger. - Uma introduo de 
uma orquestra de sessenta instrumentos? - Virou-se para O'Hanlon. 
D um telefonema para o departamento de msica.
"Seus cretinos", pensou Toby. "Vocs esto na minha lista negra, 
vocs dois." Sabia o que eles estavam tentando fazer. Estavam 
tentando fazer com que ele ficasse mal, de forma que pudesse ir 
procurar Clifton e dizer: "No podemos ajud-lo.  ruim demais 
para ter conserto". Bem, no ia deixar que conseguissem. Forou 
um sorriso que no sentia, e atacou com a sua imitao de Abbott 
e Costello.
- Ei, Lou, voc no tem vergonha? Est se tornando um verdadeiro 
vagabundo. Por que no tenta arranjar um emprego?
- Eu tenho um emprego.
- Que tipo de emprego?
- De procurar emprego.
- Voc chama isso de emprego?
- Mas  claro. Isto me mantm ocupado o dia inteiro, tenho um 
horrio regular e chego na hora do jantar todos os dias.
Agora os dois estavam examinando Toby, avaliando, analisando, e 
no meio do nmero comearam a falar, como se Toby no estivesse 
presente.
- No sabe ficar em p numa postura correcta.
- Usa as mos como se estivesse cortando madeira. Quem sabe 
poderamos escrever alguma coisa sobre um lenhador para ele.
- Ele fora demais.
- Jesus, com esse material, voc no faria o mesmo?
Toby estava ficando cada vez mais aborrecido. No era obrigado a 
ficar ali para ser insultado por aqueles dois manacos. E de 
qualquer maneira, o material deles devia ser horrvel.
Finalmente no pde aguentar mais. Parou, a voz trmula de raiva.
- No preciso de vocs, seus miserveis! Obrigado pela 
hospitalidade.

Saiu em direco  porta.
Rainger se levantou demonstrando um espanto genuno.
- Ei! Que  que h com voc?
Toby se virou, furioso.
- Que porra voc acha que h?
Estava frustrado,  beira das lgrimas. Rainger se virou para 
olhar para O'Hanlon com total perplexidade.
- Devemos ter ferido os sentimentos dele.
- Cristo!
Toby respirou fundo.
- Olhem aqui vocs dois, eu no me importo se no gostam de mim, 
mas...
- Ns amamos voc! - exclamou O'Hanlon.
- Achamos voc uma gracinha! - acompanhou Rainger.
Toby olhou de um para outro com total espanto.
- Qu? Vocs agiram como...
- Sabe qual  o seu problema, Toby? Voc  inseguro. 
Descontraia-se. Claro que voc tem muito que aprender, mas por 
outro lado, se fosse voc Bob Hope, no estaria aqui.
O'Hanlon acrescentou:
- E sabe por qu? Porque o Bob est l em Carnel hoje.
- Jogando golfe. Voc joga golfe? - perguntou -Rainger.
- No.
Os dois escritores se entreolharam com desapontamento. - L se 
vo todas as piadas sobre golfe. Merda!
O'Hanlon tirou o telefone do gancho.
- Traga um cafezinho, por favor.
Desligou e virou-se para Toby.
- Sabe quantos cmicos em potencial existem querendo entrar neste 
pequeno e esquisito negcio em que nos metemos?
Toby sacudiu a cabea. 
- Posso lhe dizer com exactido. Trs bilhes setecentos e vinte 
oito milhes, at as seis horas da noite de ontem. E isso sem 
incluir o irmo de Milton Berle. Quando a lua est cheia, todos 
saem dos buracos. S existe uma meia dzia de cmicos realmente 
grandes. A comdia  o negcio mais srio do mundo.  um trabalho 
danado e difcil ser engraado, quer voc seja cmico, quer 
comediante.
- Qual  a diferena. Um cmico abre portas engraadas, um 
comediante abre portas engraado.
Rainger perguntou:
- Voc alguma vez parou para pensar o que  que faz um comediante 
ser um sucesso e um outro ser fracasso?
- O material - disse Toby, querendo lisonje-los.
- Merda. A ltima piada nova foi inventada por Aristfanes. As 
piadas so basicamente as mesmas. George Burns pode contar seis 
piadas que o sujeito do programa anterior ao dele acabou de 
contar, e obter sempre mais risadas. Sabe por qu? 
Personalidade.
Era o que Clifton Lawrence lhe havia dito.

- Sem isso, voc no  nada, ningum. Comece com personalidade e 
transforme-a em um gnero seu. Veja Hope, por exemplo. Se ele 
aparecer e fizesse um monlogo  la Jack Benny, Entraria pelo 
cano. Por qu? Porque ele criou um gnero.  aquele tipo que as 
plateias esperam dele. Quando Hope aparece, elas querem ouvir 
aquele fogo cerrado de piadas rpidas. Ele  um espertalho 
simptico, o malandro da cidade grande que tambm leva as suas. 
Jack Benny  o externo oposto. Ele no saberia o que fazer com um 
monlogo no gnero de Bob Hope, mas  capaz de fazer a plateia 
numa pausa de dois minutos. Cada um dos Irmos Marx tinha o seu 
prprio tipo. Fred Allen  nico. Isso nos traz a voc. Sabe qual 
 o seu problema, Toby? Voc  um pouquinho de todo mundo. Voc 
est imitando todos os grandes. Bem, est ptimo se voc quiser 
continuar fazendo espectculos mambembes para o resto da vida. 
Mas se quer subir, tem que criar seu prprio tipo. Quando voc 
estiver no palco, antes mesmo que abra a boca, a plateia tem que 
saber que  Toby Temple quem est l em cima. Compreendeu?
- Sim.
Foi O'Hanlon quem prosseguiu.
- Sabe o que  que voc tem, Toby? Um rosto encantador. Se eu j 
no estivesse noivo de Clark Gable, ficaria louco por voc. Voc 
tem uma doura ingnua que, bem aproveitada poderia valer uma 
puta futura.
- Para no falar de uma fortuna em trepadas - completou Rainger.
- Voc pode sair impune em coisas que os outros no podem.  como 
um garotinho de coro dizendo palavres,  uma gracinha porque 
ningum acredita que compreenda realmente o que est dizendo. 
Quando voc entrou aqui, perguntou se ns ramos os caras que iam 
escrever as suas piadas. A resposta  no. Isto aqui no  uma 
loja de piadas. O que ns vamos fazer  mostrar a voc o que tem 
e como us-lo. Ns vamos talhar um tipo sob medida para voc. 
Bem, que  que acha?
Toby olhou de um para outro, sorriu e disse:
- Vamos arregaar as mangas e dar duro.

Depois daquilo, Toby almoava com O'Hanlon e Rainger no estdio 
todos os dias. O refeitrio da Twentieth Century-Fox era um 
enorme salo cheio de astros de primeira grandeza. Qualquer que 
fosse o dia, Toby podia sempre ser Tyrone Power, Loretta Young, 
Betty Grable, Don Ameche, Alice Faye, Richard Widmark, Victor 
Mature, os Irmos Ritz e dzias de outros. Alguns estavam 
sentados nas mesas do grande salo, e outros na sala de jantar 
dos executivos, que era um pouco menor e ficava vizinha ao 
refeitrio principal. Toby adorava observ-los. Dentro de pouco 
tempo seria um deles, as pessoas estariam pedindo o seu 
autgrafo. Estava no caminho certo, e ia ser maior do que 
qualquer um deles.
Alice Tanner ficou radiante com o que havia acontecido a Toby.
- Eu sei que voc vai conseguir, querido. Estou to orgulhosa de 
voc.
Toby sorriu para ela e no dizia nada.

Toby, O'Hanlon e Rainger tinham longas discusses sobre o novo 
gnero que Toby deveria personificar.
- Ele deveria pensar que  um homem mundano sofisticado - disse 
O'Hanlon. - Mas toda vez que vai tentar acertar uma jogada se d 
mal.
- Que  que ele faz? - perguntou Rainger. - Mistura metforas?
- Essa personagem mora com a me. Ele est apaixonado por uma 
garota, mas tem medo de sair de casa e se casar com ela. J so 
noivos h cinco anos.
- Dez  um nmero mais engraado.

- Certo! Dez anos. A me dele  uma desgraada que no devia 
acontecer nem a um cachorro. Toda vez que Toby quer se casar, ela 
aparece com uma doena nova. A Time Magazine telefona para ela 
todas as semanas para saber o que h de novo na medicina.
Toby ficava sentado ouvindo, fascinado com o fluxo rpido do 
dilogo. Nunca tinha trabalhado com verdadeiros profissionais 
antes, e estava gostando. Especialmente porque era o centro das 
atenes. O'Hanlon e Rainger levaram trs semanas para escrever 
um espectculo para Toby. Quando finalmente o mostraram a ele, 
ficou encantado. Era bom. Fez algumas sugestes, acrescentando e 
cortando algumas linhas, e Toby Temple estava pronto. Clifton 
Lawrence mandou cham-lo.
- Voc estreia sbado  noite, no Bowling Ball.
Toby ficou olhando para ele. Tinha esperana de ser lanado no 
Ciro's ou no Trocadero.
- Que, que  esse tal de Bowling Ball?
-  uma boatezinha na Western Avenue.
O desapontamento ficou evidente no rosto de Toby.
- Nunca ouvi falar nela.
- E eles nunca ouviram falar em voc. Esse  que  o objectivo, 
meu caro rapaz. Se voc fracassar l, ningum jamais saber.
Excepto Clifton Lawrence.

O Bowling Ball era uma espelunca. No havia nenhuma outra palavra 
para descrev-lo. Era uma cpia de dez milhes de outros bares 
miserveis espalhados por todo o pas, um osis de perdedores. 
Toby j tinha se apresentado ali milhares de vezes, em milhares 
de cidades. Os clientes eram na sua maioria homens de meia-idade, 
trabalhadores assalariados namorando com os olhos as garonetes 
cansadas nas suas saias justas e blusas decotadas, trocando 
piadas sujas entre uma e outra dose de usque barato ou um copo 
de cerveja. O espectculo se realizava numa pequena rea 
desimpedida na extremidade da sala, onde trs msicos entediados 
tocavam. Um cantor homossexual deu incio ao espectculo, sendo 
seguido por uma danarina acrobata que s vestia uma malha, e 
depois uma danarina de strip-tease que se apresentava junto com 
uma cobra sonolenta.
Toby sentou-se numa mesa no fundo da sala com Clifton Lawrence, 
O'Hanlon e Rainger, assistindo aos outros nmeros, ouvindo a 
plateia, tentando determinar o seu estado de esprito.
- Bebedores de cerveja - disse Toby com desprezo.
Clifton comeou a responder, ento olhou para o rosto de Toby e 
se conteve. Toby estava com medo. Clifton sabia que Toby j tinha 
se apresentado em lugares como aqueles antes, mas daquela vez ia 
ser diferente, aquele era o teste.
Clifton disse com delicadeza:
- Se voc conseguir pr os bebedores de cerveja no bolso, a turma 
do champanha vai ser moleza. Essa gente trabalha duro o dia 
inteiro, Toby. Quando saem  noite querem um espectculo  altura 
do dinheiro que gastam,. Se conseguir fazer com que eles riam, 
ser capaz de fazer qualquer pessoa rir. 
Naquele momento Toby ouviu o mestre-de-cerimnias entediado 
anunciar o seu nome.
- Mande ver, menino! - disse O'Hanlon.
Toby estava em cena.
Ficou parado no palco, em guarda e tenso, medindo a plateia como 
um animal cauteloso farejando o perigo numa floresta.

Uma plateia era uma fera com cem cabeas, cada uma diferente da 
outra: "Gostem de mim", rezou.
Comeou o seu nmero.
E ningum o ouviu. Ningum estava rindo. Toby podia sentir o suor 
frio comear a brotar na sua testa. O nmero no estava sendo bem 
acolhido. Manteve o sorriso pregado no rosto e continuou falando 
alto para ser ouvido apesar da barulheira e da conversa. No 
conseguia atrair a ateno deles. Queriam as garotas nuas de 
volta. Haviam estado expostos a demasiadas noites de sbado, a 
demasiados canastres sem talento, comediantes sem graa. Toby 
continuou falando para a indiferena deles. Continuou porque no 
havia mais nada que pudesse fazer. Olhou l para o fundo e viu 
Clifton Lawrence e os meninos, observando-o com expresso 
preocupada.
Toby continuou. No havia plateia naquela sala, s gente, pessoas 
falando umas com as outras, discutindo seus problemas e suas 
vidas. No que dizia respeito a elas, Toby Temple podia estar a um 
milho de milhas de distncia. Ou morto. Agora sentia a garganta 
seca de medo e estava ficando difcil fazer as palavras sarem. 
Pelo canto do olho viu o gerente sair em direco  orquestra. Ia 
mandar comear a msica, fazer com que ele acabasse de afundar. 
Estava tudo acabado. As palmas das mos de Toby estavam molhadas 
e seus intestinos tinham virado gua. Podia sentir a urina quente 
escorrendo pelas suas pernas. Estava to nervoso que tinha 
comeado a trocar as falas. No usava olhar para Clifton Lawrence 
nem para os escritores. Estava envergonhado demais. O gerente 
estava junto da orquestra, falando com os msicos. Eles olharam 
para Toby e sacudiram a cabea. Toby continuou, falando 
desesperadamente, querendo que acabasse logo, querendo fugir para 
algum lugar e se esconder.
Uma mulher de meia-idade, sentada numa mesa bem defronte a Toby, 
riu de umas das piadas. Seus companheiros de mesa pararam para 
ouvir. Toby continuou falando, num frenesi. Agora as outras 
pessoas da mesa estavam ouvindo, rindo. E depois a mesa do lado.
E a seguinte. E lentamente, a conversa comeou a morrer. Eles 
estavam ouvindo. os risos comearam a aparecer, prolongada e 
regularmente, e as gargalhadas estavam ficando maiores, e 
crescendo. E crescendo. As pessoas na sala tinham se tornado uma 
plateia. Ele as apanhara. Ele as apanhara, porra! J no 
importava mais que estivesse num botequim barato, cheio de 
idiotas tomando cerveja. O que importava eram o riso e o amor 
deles. Fluam para Toby em ondas. Primeiro eles os fez rir, 
depois os fez gritar. Nunca tinham ouvido nada semelhante, no 
naquele lugar vagabundo, nem em lugar nenhum.
Aplaudiram e deram vivas e quase puseram a casa abaixo antes de 
se darem por satisfeitos. Presenciavam o nascimento de um 
fenmeno.  claro, no podiam saber disso, mas Clifton Lawrence, 
O'Hanlon e Rainger o sabiam. E Toby Temple sabia.
Finalmente Deus havia cumprido o prometido.

O Reverendo Damian agitou a tocha ardente bem perto do rosto de 
Josephine e gritou:
-  Deus Todo-Poderoso, consumi pelo fogo o mal que existe nesta 
criana pecadora!
- Amm!

Josephine podia sentir as chamas lambendo-lhe o rosto e o 
Reverendo Damian berrou:
- Ajudai esta pecadora a exorcizar o Demnio,  Deus. Ns o 
faremos sair  fora de oraes, ns o queimaremos, ns o 
afogaremos.
E suas mos agarraram Josephine, seu rosto foi mergulhado de 
repente num tanque de madeira cheio d'gua enquanto vozes 
entoavam cnticos no ar frio da noite, implorando ao 
Todo-Poderoso pela Sua ajuda. Josephine se debateu tentando se 
soltar, lutando para respirar, e quando finalmente a tiraram, 
semi-inconsciente, o Reverendo Damian declarou:
- Ns Vos agradecemos, doce Jesus, pela Vossa misericrdia. Ela 
estava salva! Ela est salva!
Houve um grande regozijo, e todos se sentiram espiritualmente 
reanimados. Excepto Josephine, cujas dores de cabea foram 
ficando cada vez piores.

10

- Consegui um contrato para voc em Las Vegas - disse Clifton 
Lawrence a Toby. - Contratei Dick Landry para trabalhar no seu 
nmero. Ele  o melhor director de cena do momento.
- Fantstico! Qual  o hotel? O Flamingo? O Thunderbird?
- O Oasis.
- O Oasis?
Toby olhou para Clifton para ver se ele estava brincando.
- Eu nunca...
- Eu sei. - Clifton sorriu. - Voc nunca ouviu falar nele. Muito 
menos Eles ouviram falar de voc. Na realidade eles no esto 
contratando voc, eles esto contratando a mim. Esto se fiando 
na minha palavra de que voc  bom.
- No se preocupe - prometeu Toby. - Eu serei.

Toby deu a notcia da sua contratao a Alice Tanner pouco antes 
da partida.
- Eu sei que voc vai ser um grande astro - disse ela. - A sua 
hora chegou. Vo adorar voc, querido.
Abraou-o e disse:
- Quando  que partimos, e o que  que devo vestir na noite da 
estreia de um jovem cmico genial?
Toby sacudiu a cabea com pesar.
- Gostaria de poder levar voc, Alice. O problema  que vou 
trabalhar dia e noite, preparando o novo material.
Ela tentou esconder o desapontamento.
- Compreendo. Quanto tempo voc vai ficar fora? - perguntou, 
abraando-o mais forte ainda.
- No sei ainda. Sabe como ,  uma espcie de contrato em 
aberto.
Alice sentiu uma pequenina pontada de preocupao, mas sabia que 
estava sendo boba.
- Telefone-me sempre que puder - disse.
Toby a beijou e saiu feliz da vida.

Era como se Las Vegas, em Nevada, tivesse sido criada nica e 
exclusivamente para o prazer de Toby Temple. Ele o sentiu no 
momento em que viu a cidade. Tinha uma maravilhosa energia 
cintica  qual era sensvel, um poder vivo e pulsante comparvel 
ao que ardia dentro dele. Toby foi de avio com O'Hanlon e 
Rainger, e quando chegaram ao aeroporto havia uma limusine do 
Oasis Hotel  espera deles. Era o primeiro gostinho que Toby 
saboreava do mundo maravilhoso que dentro em breve seria seu. 
Adorou recostar-se no grande carro negro e ouvir o motorista 
perguntar:
- Fez uma boa viagem, Sr. Temple?
Era a gente humilde que farejava o sucesso antes mesmo que 
estourasse, pensou Toby.
- Foi a chateao habitual - disse Toby despreocupadamente.
Surpreendeu o sorriso que O'Hanlon e Rainger trocaram, e sorriu 
para eles. Sentiu-se muito prximo deles. Formavam um time, o 
melhor time do mundo dos espectculos.

O Oasis ficava bem afastado da glamourosa Strip, muito distante 
dos hotis mais famosos. Quando a limusine se aproximou do hotel, 
Toby viu que no era nem to grande nem to elegante quanto o 
Flamingo ou o Thunderbird, mas tinha algo de melhor, muito 
melhor. Tinha um enorme letreiro na frente que anunciava:

ESTRIA 4 DE SETEMBRO
LILI WALLACE
TOBY TEMPLE

O nome de Toby estava escrito em letras luminosas que pareciam 
ter trs mil metros de altura. No havia nada mais bonito do que 
aquilo na porcaria do mundo inteiro.
- Olhe s aquilo! - disse ele num tom reverente.
O'Hanlon olhou de relance para o letreiro e disse:
- Pois ! Que  que acha daquilo? Lili Wallace! - E riu. - No se 
preocupe, Toby. Depois da estria seu nome estar em cima dela.
O gerente do Oasis, um homem de meia-idade e rosto plido chamado 
Parker, veio receber Toby e o acompanhou pessoalmente at a sute 
que lhe fora reservada, desfiando lisonjas durante todo o 
percurso:
- No posso lhe dizer como estamos satisfeitos por t-lo aqui 
connosco, Sr. Temple. Se precisar de qualquer coisa que seja - 
qualquer coisa -  s me dar um telefonema.
As boas-vindas, Toby se deu conta, eram para Clifton Lawrence. 
Aquela era a primeira vez que o fabuloso agente havia se dignado 
a apresentar um de seus clientes naquele hotel. O gerente do 
Oasis tinha esperana de que dali em diante o hotel fosse 
conseguir alguns dos verdadeiros grandes astros de Lawrence.
A sute era enorme. Consistia em trs quartos, uma grande sala, 
uma cozinha, um bar e um terrao. Numa mesinha na sala havia uma 
variedade de garrafas de bebidas, flores e uma enorme cesta de 
frutas frescas e queijos., com os comprimentos das gerncia.
- Espero que seja satisfatrio, Sr. Temple? - disse Parker.
Toby olhou em volta e pensou em todos os quartinhos sujos e 
infectados de baratas e moscas em que tinha vivido.
- Sim. Est ok.
- O Sr. Landry se registou uma hora atrs. Preparei a Sala Mirage 
para os seus ensaios s trs horas.
- Obrigado.
- Lembre-se, se houver alguma coisa de que precise - e o gerente 
saiu fazendo uma reverncia.
Toby ficou parado ali saboreando suas acomodaes. Ia viver em 
lugares como aquele para o resto da vida. Teria tudo - mulheres, 
dinheiro, aplausos. Mais do que tudo, os aplausos. Gente sentada 
ali, rindo, aclamando-o e amando-o. Isto era a sua comida e a sua 
bebida. No precisava de mais nada.


Dick Landry estava com vinte e tantos anos, era um homem 
franzino, magro, calvo e tinha pernas longas e graciosas. Havia 
comeado como extra, na Broadway, e fora progredindo de figurante 
ocasional a primeiro bailarino, depois a coregrafo e a director. 
Landry tinha gosto e a percepo do que uma plateia queria. No 
podia fazer um nmero ruim ficar bom, mas podia fazer com que 
parecesse bom, e se lhe dessem um bom nmero era capaz de 
torn-lo sensacional. At dez dias antes, Landry nunca tinha 
ouvido falar de Toby Temple, e a nica razo por que tinha 
interrompido a sua programao frentica para vir a Las Vegas e 
dirigir Toby fora o pedido de Clifton Lawrence. Fora ele quem lhe 
dera a primeira chance.
Quinze minutos depois de ter conhecido Toby Temple, Landry soube 
que estava trabalhando com um gnio. Ouvindo o monlogo de Toby, 
surpreendeu-se rindo alto coisa que raramente fazia. No eram 
tanto as piadas, mas sim o jeito encantador com que ele as 
contava. Era to pateticamente sincero que partia o corao da 
gente. Era um adorvel Chicken Little, morrendo de medo que o cu 
estivesse prestes a cair sobre a sua cabea. A gente sentiu 
vontade de correr prestes a cair nele, abra-lo e garantir-lhe 
que estava tudo bem.
Quando Toby acabou, tudo que Landry pde fazer foi se conter para 
no aplaudi-lo. Foi at o palco, onde Toby estava. 
- Voc  bom - disse com entusiasmo. - Bom mesmo.
Satisfeito, Toby disse:
- Obrigado. Clifton disse que voc pode me ensinar a ser grande.
- Vou tentar - disse Landry. - A primeira coisa que voc precisa 
 aprender a diversificar seus talentos. Enquanto s for capaz de 
ficar de p no palco e contar piadas, no ser mais que um cmico 
comum. Deixe-me ouvi-lo cantar.
Toby sorriu.
- Alugue um canrio, No sei cantar.
- Tente.
Toby tentou. Landry ficou satisfeito.
- Sua voz no  grande coisa - disse a Toby -, mas voc tem 
ouvido. Com as msicas certas, poder disfar-la to bem que vo 
pensar que voc  o Sinatra. Arranjaremos alguns compositores 
para preparar o material especialmente para voc. No quero que 
voc cante as mesmas canes que todo mundo est cantando. Vamos 
ver como  que voc se movimenta.
Toby se movimentou.
Landry o observou cuidadosamente.
- Bom, bom. Voc nunca ser um danarino, mas vou fazer com que 
parea que .
- Por qu? - perguntou Toby. - Gente que canta e dana tem por a 
aos montes.
- E cmico tambm - retrucou Landry. - Vou transform-lo num 
artista completo.
Toby sorriu e disse:
- Vamos arregaar as mangas e dar duro.
E puseram mos  obra. O'Hanlon e Rainger estavam em todos os 
ensaios, acrescentando falas, criando novos nmeros, vendo Landry 
dirigir Toby. Era uma programao exaustiva. Toby ensaiou at 
todos os msculos do corpo ficarem doridos, mas perdeu dois 
quilos e ficou esguio e rijo. Tomava uma aula de canto por dia, e 
fez exerccios at comear a cantar dormindo. Trabalhava nos 
novos nmeros cmicos com os "meninos", ento parava para 
aprender novas canes que haviam sido escritas para ele, e j 
estava na hora de ensaiar de novo.
Quase todos os dias, Toby encontrava um recado de que Alice 
Tanner havia telefonado. Lembrava-se de como ela tinha tentado 
impedir o seu progresso. "Voc ainda no est pronto." Bem, agora 
estava pronto, e o fizera apesar dela. Que fosse para o inferno. 
Jogava fora os recados. Finalmente pararam de vir. Mas os ensaios 
continuaram.
De repente a noite da estria havia chegado.


H uma mstica que envolve o nascimento de um novo astro.  como 
se uma mensagem teleptica misteriosa fosse transmitida 
instantaneamente para os quatro cantos do mundo dos espectculos. 
Atravs de uma espcie de alquimia mgica a notcia se espalha 
por Londres e Paris, por Nova York e Sydney; onde quer que haja 
um teatro a notcia chega.
Cinco minutos depois de Toby ter entrado no palco do Oasis Hotel, 
j corria a notcia de que havia um novo astro no horizonte.

Clifton Lawrence veio de avio para assistir  estria e ficou 
para o segundo espectculo. Toby ficou lisonjeado. Clifton estava 
negligenciando os outros clientes por causa dele. Quando o 
espectculo acabou, os dois foram at o bar do hotel.
- Viu s todas as celebridades presentes? - perguntou Toby. - 
Quando vieram at meu camarim quase morri.
Clifton sorriu do entusiasmo dele. Era agradavelmente diferente 
de seus outros clientes, j saturados. Toby era um gatinho. Um 
gatinho doce e inocente.
- Eles sabem reconhecer um talento quando o vem - disse Clifton. 
E o Oasis tambm. Querem fazer um novo contrato com voc. Querem 
aumentar seu salrio de sessenta e cinco para cem por semana.
Toby deixou cair a colher.
- Cem por semana?  fantstico, Clifton!
- E recebi umas duas propostas de caras do Thunderbird e do El 
Rancho Hotel.
- J? - perguntou Toby , eufrico.
- No molhe as calas.  s para se apresentar no bar - sorriu. - 
 aquela velha histria, Toby. Para mim voc  manchete, e para 
voc voc  manchete, mas para algum que  manchete voc  
manchete?
Levantou-se.
- Tenho que pegar um avio para Nova York. Viajo para Londres 
amanh.
- Londres? Quando  que vai estar de volta?
- Dentro de algumas semanas.
Clifton se inclinou para ele e disse:
- Oua, meu caro rapaz. Voc tem mais duas semanas aqui, trate-as 
como se fosse uma escola. Toda a noite, quando estiver naquele 
palco, quero que voc fique tentando descobrir como poderia ser 
melhor. Convenci O'Hanlon e Rainger a no irem embora. Esto 
dispostos a trabalhar com voc noite e dia. Use-os. Landry 
voltar nos fins de semana para ver como as coisas esto indo.
- Certo - disse Toby. - Obrigado, Clifton.
- Oh, eu quase esqueci - disse Clifton Lawrence de maneira 
casual; tirou um embrulhinho do bolso e entregou-o a Toby.
No embrulho havia um para de lindas abotoaduras de brilhantes. 
Tinham o formato de estrela.


Sempre que Toby tinha algum tempo livre, descontraa-se na grande 
piscina nos fundos do hotel. Vinte e cinco moas tomavam parte no 
espectculo e sempre havia uma dzia delas por ali, com roupas de 
banho, tomando sol. Apareciam na atmosfera trrida do meio-dia 
com flores tardias na primavera, cada uma mais bonita que a 
outra. Toby nunca tinha tido problemas para arranjar grotas, mas 
o que lhe estava acontecendo era uma experincia totalmente nova. 
As danarinas nunca tinham ouvido falar em Toby Temple antes, mas 
o nome dele estava l em cima no letreiro luminoso, aquilo era o 
suficiente. Ele era um astro, e elas lutavam entre si pelo 
privilgio de ir para a cama com ele.

As duas semanas seguintes foram maravilhosas para Toby. Acordava 
por volta do meio-dia, tomava caf no restaurante, onde o 
mantinham ocupado dando autgrafos, e ento ensaiava durante uma 
ou duas horas. Depois, apanhava uma ou duas das beldades de 
pernas bem-feitas na piscina e subia com elas para a sute, para 
uma tarde de actividade na cama.
E Toby aprendeu uma coisa nova. Por causa dos biquinis 
cavadssmos que usavam no palco, elas tinham que se livrar dos 
plos pblicos, mas depilavam-se com cera de tal maneira que 
apenas uma tirinha de plos encaracolados ficava no centro da 
protuberncia carnosa, tornando a fenda mais convidativa.
-  como um afrodisaco - confessou uma das moas a Toby. - 
Algumas horas num par de calas bem justas e a gente fica com uma 
ninfomanaca alucinada.
Toby no se deu o trabalho de aprender o nome de nenhuma delas. 
Eram todas "benzinho" ou "querida", e se tornaram um maravilhoso 
borro indistinto e sensual de coxas, lbios e corpos vidos.
Na ltima semana de seu contrato no Oasis, Toby recebeu uma 
visita. Tinha acabado o primeiro espectculo e estava no camarim, 
tirando a maquilhagem com creme, quando o matre d'btel abriu a 
porta e disse num tom reverente:
- O Sr. Al Caruso gostaria que se reunisse a ele na sua mesa.
Al Caruso era um dos grandes nomes mais importantes de Las Vegas. 
Sabia-se publicamente que era dono de um hotel, e dizia-se que 
tinha participao em mais dois ou trs. Tambm se dizia que ele 
tinha conexes com o mundo do crime, mas aquilo no era conta de 
Toby. O que era importante era que se Al Caruso gostasse dele 
poderia conseguir contratos em Las Vegas pelo resto da vida. 
Acabou de se vestir apressadamente e foi para o restaurante 
encontrar-se com Caruso.
Al Caruso era um homem baixo, de cinquenta anos, cabelos 
grisalhos, olhos castanhos e um pouco barrigudo. Lembrava a Toby 
um Papai Noel em miniatura. Quando Toby se aproximou da mesa, 
Caruso se levantou, estendeu a mo, sorriu acolhedoramente disse:
- Al Caruso. Eu s queria dizer o que acho de voc, Toby. Puxe 
uma cadeira.
Havia mais dois homens na mesa de Caruso. Ambos vestiam ternos 
escuros, eram corpulentos, bebericavam Coca-Cola, e no disseram 
uma palavra durante todo o encontro. Toby nunca soube como se 
chamavam. Normalmente jantava depois do primeiro espectculo. 
Naquele momento estava faminto, mas Caruso obviamente tinha 
acabado de comer, e Toby no queria parecer mais interessado em 
comida do que no seu encontro com o grande homem.
- Estou impressionado com voc, garoto - disse Caruso. - 
Realmente impressionado
E sorriu para Toby com aqueles olhos castanhos enganadores.
- Obrigado, Sr. Caruso - disse Toby satisfeito. - Isso significa 
muito para mim.
- Chame-me de Al. 
- Sim, senhor. Al.

- Voc tem futuro, Toby. J vi muita gente subir e j vi muita 
gente desaparecer, mas os que tm talento duram muito tempo. Voc 
tem talento.
Toby podia sentir um calor agradvel ir se espalhando pelo seu 
corpo. Considerou rapidamente se deveria dizer a Al Caruso para 
discutir negcios com Clifton Lawrence; mas decidiu que poderia 
ser melhor se ele mesmo cuidasse do assunto. "Se Caruso est 
entusiasmado a este ponto comigo", pensou Toby, "poderia 
conseguir um negcio melhor do que Clifton." Decidiu que deixaria 
Al Caruso fazer a primeira oferta e depois tentaria seriamente 
obter o melhor preo.
- Quase molhei as calas - dizia-lhe Caruso. - Aquele seu nmero 
do macaco  a coisa mais engraada que j ouvi. 
- Vindo do senhor,  realmente um grande elogio - disse Toby com 
sinceridade.
Os olhinhos do Papai Noel em miniatura estavam cheios de lgrimas 
de riso. Ele puxou um leno branco de seda e as enxugou. Virou-se 
para os dois acompanhantes:
- Eu no disse que ele era um homem engraado?
Os dois concordaram.
Al Caruso tornou a se virar para Toby.
- Vou lhe dizer por que vim procur-lo, Toby.
Aquele era o momento mgico, a sua entrada nos tempos ureos. 
Clifton Lawrence estava fora, em algum lugar na Europa, tratando 
de negcios para seus clientes antigos, quando devia estar 
fazendo aquele negcio. Bem, Lawrence teria uma surpresa de 
verdade esperando por ele quando voltasse.
Toby se reclinou e disse, sorrindo de maneira cativante:
- Estou ouvindo, Al.
- Millie ama voc.
Toby piscou, certo de que no tinha entendido alguma coisa. O 
velho o olhava, os olhos cintilando.
- Eu, eu sinto muito - disse Toby confuso. - Que foi que disse?
Al Caruso deu um sorriso carinhoso.
- Millie ama voc. Ela me disse.
Millie? Seria a mulher de Caruso? A filha? Toby comeou a falar, 
mas Al Caruso o interrompeu.
- Ela  uma grande garota. Eu j a sustentei h uns trs ou 
quatro anos.
Virou-se para os outros dois homens:
- Quatro anos?
Eles concordaram.
Al Caruso tornou a se virar para Toby. - Eu amo aquela garota, 
rapaz. Realmente sou louco por ela.
Toby sentiu o sangue comear a lhe fugir do rosto. - Sr. 
Caruso...
Al Caruso disse:
- Millie e eu temos um trato. Eu no a engano, a no ser com 
minha mulher, e ela no me engana, a no ser que me diga. - Sorri 
radiante para Toby, e daquela vez ele viu algo alm daquele 
sorriso angelical que fez com que seu sangue gelasse.
- Sr. Caruso...
- Sabe de uma coisa, Toby? Voc  o primeiro sujeito com quem ela 
me engana. - Virou-se para os outros dois. - No  a pura 
verdade?
Eles concordaram.
Quando Toby falou, sua voz estava trmula.

- Eu... eu juro por Deus que no sabia que Millie era a sua 
garota. Se eu tivesse ao menos sonhando isso, nunca teria tocado 
nela. No teria chegado nem a cem metros de distncia dela, Sr. 
Caruso...
O Papai Noel sorriu para ele.
- Pode me chamar de Al.
- Al
Sara como grasnido. Toby podia sentir a transpirao escorrendo 
pelos seus braos.
- Escute, Al. Eu, eu nunca mais a verei. Nunca. Acredite-me, 
eu...
Caruso estava olhando fixo para ele.
- Ei! Acho que voc no estava ouvindo o que eu disse. 
Toby engoliu em seco.
- Sim. Sim, estava. Ouviu cada palavra que voc disse. E voc 
nunca mais ter que se preocupar com...
- Eu disse que a garota ama voc. Se ela quer voc, ento eu 
quero que ela tenha voc. Quero que ela seja feliz. Compreende?
- Eu...
A mente de Toby girava em crculos. Durante um momento louco, 
havia realmente pensado que o homem sentado defronte dele estava 
querendo uma vingana. Em vez disso Al Caruso estava lhe 
oferecendo a sua garota. Toby quase riu alto de alvio.
- Jesus, Al - disse Toby. - Claro, o que voc quiser.
- O que Millie quiser.
- Sim. O que Millie quiser.
- Eu sabia que voc era um bom homem - disse Al Caruso, 
virando-se para os outros dois. - Eu no disse que Toby Temple 
era um bom homem?
Eles balanaram a cabea em silncio e bebericaram as Coca-Colas.
Al Caruso levantou-se, e os dois homens que o acompanhavam 
puseram-se de p imediatamente, postando-se um de cada lado dele.
- Eu mesmo vou oferecer a vocs a festa de casamento - disse Al 
Caruso. - Alugaremos o grande salo de banquetes no Morocco. No 
precisa se preocupar com nada, cuidarei de tudo.
As palavras chegaram at Toby como se estivessem sendo filtradas, 
vindas de uma enorme distncia. Sua mente registava o que Al 
Caruso dizia, mas no fazia nenhum sentido para ele.
- Espere um minuto - protestou Toby. - Eu no posso...
Caruso ps uma mo poderosa no ombro de Toby.
- Voc  um homem de sorte - disse. Isto , se Millie no tivesse 
me dito que vocs realmente se amam, se eu achasse que s estava 
trepando com ela, como se fosse uma putinha de dois dlares 
qualquer, este negcio todo poderia ter um final diferente. 
Entende o que estou querendo dizer?
Toby se surpreendeu olhando involuntariamente para os dois homens 
de preto, e os dois balanaram a cabea, concordando.
- Voc encerra a sua temporada aqui no sbado  noite - disse 
Caruso. - Faremos o casamento no domingo.
A garganta de Toby tinha ficado seca novamente.
- Eu... o negcio  que, Al, infelizmente tenho alguns 
compromissos. Eu...
- Eles esperaro. - o rosto angelical tornou a se abrir num 
sorriso. - Eu mesmo vou escolher o vestido de noiva de Millie. 
Boa noite, Toby.

Toby ficou parado ali, olhando fixo por muito tempo na direco 
onde os trs vultos haviam desaparecido.
No tinha a menor idia de quem fosse Millie.
Na manh seguinte o medo de Toby havia se evaporado. O imprevisto 
do que havia acontecido fizera com que ele abrisse a guarda. Mas 
aqueles no eram mais os tempos de Al Caruso. Ningum podia 
obrig-lo a se casar com algum com que ele no quisesse se 
casar. Al Caruso no era um malfeitor barato, um brutamontes; era 
um proprietrio de hotel respeitvel. Quanto mais Toby pensava na 
situao, mais engraada lhe parecia. Comeou a retoc-la em sua 
mente, buscando mais razes para rir. Na verdade no tinha 
deixado Caruso assust-lo,  claro que no, mas contaria como se 
tivesse ficado aterrorizado. "Vou at a tal mesa, e l est 
Caruso, sentado com os seis gorilas, est imaginando? Todos eles 
esto armados, d para perceber o volume das armas sob as 
roupas." Oh, sim, ia dar uma grande histria. Quem sabe ele no 
criaria um nmero hilariante a partir dela?
Durante o resto da semana Toby se manteve afastado da piscina e 
do cassino, e evitou todas as garotas. No estava com medo de Al 
Caruso, mas para que correr riscos desnecessrios? Toby tinha 
planejado deixar Las Vegas de avio, no domingo ao meio-dia. Em 
vez disso, conseguiu que um carro de aluguel fosse trazido at o 
estacionamento dos fundos do hotel no sbado  noite. O carro 
estaria ali esperando por ele. Arrumou as malas antes de descer 
para fazer o ltimo espectculo, de forma que estaria pronto para 
partir para Los Angeles no momento que acabasse. Ficaria longe de 
Las Vegas durante algum tempo. Se Al Caruso estivesse realmente 
falando srio, Clifton Lawrence podia dar um jeito.
O ltimo desempenho de Toby foi sensacional. Recebeu uma enorme 
ovao, a primeira de sua vida. Ficou parado no meio do palco, 
sentindo as ondas de amor que emanavam da plateia banh-lo numa 
incandescncia clida e suave. Bisou um dos nmeros, pediu 
licena para se retirar e saiu apressado para o quarto. Aquelas 
haviam sido as melhores trs semanas da sua vida. Naquele curto 
perodo de tempo, transformara-se de um joo-ningum, que ia para 
a cama com garonetes e aleijadas, num astro que tinha trepado 
com a amante de Al Caruso. Garotas bonitas estavam suplicando que 
ele as levasse para a cama, as plateias o admiravam e os grandes 
hotis o queriam. Tinha conseguido, e sabia que aquilo era apenas 
o comeo. Tirou a chave do quarto do bolso. Quando abriu a porta, 
uma voz familiar gritou:
- Entre, menino.
Muito lentamente, Toby entrou no quarto. Al Caruso e seus dois 
amigos estavam l dentro. Um rpido tremor de apreenso percorreu 
seu corpo. Mas estava tudo bem, Caruso estava sorrindo 
benignamente e dizendo:
- Voc esteve ptimo esta noite, Toby, realmente fantstico.
Toby comeou a se descontrair.
- Obrigado, Al.
Queria que todos eles sassem, de forma que pudesse ir embora.
- Voc trabalha demais - disse Al Caruso, virou-se para os dois 
guarda-costas. - Eu no disse que nunca tinha visto ningum 
trabalhar tanto?
Os dois concordaram.
Caruso tornou a se virar para Toby.

- Ei, Millie ficou meio chateada porque voc no telefonou para 
ela. Disse a ela que era porque voc estava trabalhando demais.
-  isso mesmo - concordou Toby rapidamente. - Fico satisfeito 
que voc compreenda, Al.
Al sorriu de maneira compreensiva.
- Claro. Mas voc sabe o que eu no compreendo? Voc nem 
telefonou para perguntar a que horas vai ser o casamento.
- Eu ia telefonar de manh.
Al Caruso deu uma gargalhada e disse num tom de censura:
- De Los Angeles?
Toby teve um pequeno sobressalto de ansiedade.
- De que  que est falando, Al?
Caruso olhou para ele reprovadoramente.
- Voc est com as malas feitas ali dentro. - Beliscou a bochecha 
de Toby galhofeiramente. - Eu lhe disse que mataria qualquer um 
que ferisse Millie.
- Espere um minuto! Juro por Deus, eu no ia...
- Voc  um bom garoto, mas  burro, Toby. Acho que  porque voc 
 um gnio, no ?
Toby olhou para o rosto gorducho e sorridente, sem saber o que 
dizer.
- Voc tem que acreditar em mim - disse Al Caruso, num tom 
carinhoso. - Sou seu amigo. Quero me assegurar de que nada de mau 
lhe acontea. Pelo bem de Millie. Mas se voc no quer me ouvir, 
que  que posso fazer? Voc sabe como se faz uma mula obedecer?
Toby sacudiu a cabea idiotamente.
- Primeiro a gente bate na cabea dela com um pedao de pau, bem 
grosso e comprido.
Toby sentiu o medo ir-lhe subindo pela garganta acima.
- Qual  o seu brao bom?
- O meu... meu brao direito - murmurou Toby.
Caruso assentiu alegremente e se virou para os dois homens.- 
Quebrem-no - disse ele.
Sado de algum lugar, apareceu um pedao de cano nas mos de um 
dos homens. Os dois comearam a avanar para cima de Toby. O rio 
de medo se transformou numa enchente repentina que fez seu corpo 
tremer.
- Pelo amor de Deus - Toby se ouviu dizer, em vo. - No podem 
fazer isso.
Um dos homens o golpeou com violncia no estmago. No segundo 
seguinte, Toby sentiu uma dor torturante, enquanto o pedao de 
cano atingia repetida e brutalmente o seu brao direito, 
esmigalhando os ossos. Ele caiu no cho, contorcendo-se numa 
agonia insuportvel. Tentou gritar, mas no conseguia recobrar o 
flego. Com os olhos cheios de lgrimas, olhou para cima e viu Al 
Caruso debruado sobre ele, sorrindo.
- Agora ser que terei sua ateno?
Toby assentiu, agoniado.
- Bem - disse Caruso. Virando-se para um dos homens. - Abra a 
braguilha dele.
O homem se abaixou e abriu o zper da braguilha de Toby. Apanhou 
o cano e puxou com ele o pnis de Toby para fora.
Caruso ficou parado ali um momento, olhando para ele.
- Voc  um homem de sorte, rapaz. Voc  muito bem servido.
Toby estava tomado por um horror como jamais havia sentido.

- Oh, meu Deus... por favor... no... no faa isso comigo - 
balbuciou.
- Eu seria incapaz de lhe fazer mal - disse-lhe Caruso. - 
Enquanto voc tratar bem Millie, serei seu amigo. Se algum dia 
ela me disser que voc fez alguma coisa para feri-la... qualquer 
coisa.. est me compreendendo?
Cutucou o brao quebrado de Toby com a ponta do sapato e Toby 
gritou de dor.
- Estou satisfeito porque nos compreendemos um ao outro - Caruso 
sorriu prazerosamente. - O casamento   uma hora.
A voz de Caruso estava indo e vindo e Toby sentiu que estava 
perdendo a conscincia. Mas sabia que tinha que aguentar mais um 
pouco.
- Eu no... posso - choramingou. - Meu brao...
- No se preocupe com isso - disse Al Caruso. - Um mdico j est 
a caminho para cuidar de voc. Ele vai engessar o seu brao e lhe 
dar um negcio para que voc no sinta dor. Os rapazes passaro 
aqui amanh para apanh-lo. Esteja pronto, hein?
Toby ficou ali deitado, num pesadelo de agonia, olhando para 
aquele rosto sorridente de Papai Noel, sem conseguir acreditar 
que aquilo estivesse acontecendo. Viu o p de Caruso se mover na 
direco do seu brao de novo.
- Claro - gemeu Toby. - Eu estarei pronto...
E perdeu a conscincia.

11

O casamento, um acontecimento de grande pompa, realizou-se no 
salo de baile do Morocco Hotel. Parecia que a metade de Las 
Vegas estava presente. Havia artistas e proprietrios de todos os 
outros hotis presentes, Al Caruso e umas duas dzias dos seus 
amigos, homens discretos, vestidos de maneira conservadora, a 
maioria dos quais no bebia. Os arranjos de flores luxuriantes 
estavam espalhados por toda a parte, havia conjuntos de msicos 
circulando, um banquete gigantesco e duas fontes de onde jorrava 
champanha. Al Caruso tinha cuidado de tudo.
Todo mundo se solidarizava com o noivo, cujo brao estava 
engessado, resultado de uma queda acidental numas escadas. Mas 
todos comentavam que casal maravilhoso formavam o noivo e a 
noiva, e que casamento maravilhoso era aquele.
Toby estivera to entorpecido por causa dos remdios que o mdico 
lhe dera que passara toda a cerimnia alheio ao que estava 
acontecendo. Ento,  medida que o efeito dos remdios comeou a 
passar, e a dor tomou conta dele de novo, a raiva e o dio 
despertaram com mais fora. Tinha vontade de berrar, contando a 
todo mundo presente ali na sala a indescritvel humilhao que 
lhe fora imposta.
Toby virou-se para olhar sua noiva do outro lado da sala. Agora 
se lembrava de Millie. Era uma garota bonita, de vinte anos, 
cabelo louro cor de mel e um corpo bem-feito. Toby se lembrava 
que ela havia rido mais alto do que as outras das histrias que 
contara, e que o seguiu por toda a parte. Uma outra coisa tambm 
lhe voltou  memria. Ela havia sido uma das poucas que tinha se 
recusado a ir para a cama com ele, o que servira apenas para 
espicaar seu apetite. Agora tudo estava lhe voltando.
- Sou louco por voc - havia dito. - No gosta de mim?
-  claro que gosto - ela tinha respondido. - Mas eu tenho um 
namorado.
Por que no lhe dera ouvidos? Em vez disso ele a persuadira a 
subir at o seu quarto para um drinque e ento havia comeado a 
lhe contar histrias engraadas. Millie estava rindo tanto que 
mal percebeu o que Toby estava fazendo at o momento em que se 
viu nua e na cama.
- Por favor, Toby - ela havia suplicado. - No. O meu namorado 
vai ficar zangado.
- Esquea o seu namorado. Cuidarei desse chato mais tarde - 
dissera Toby. - Agora vou cuidar de voc.
Tinham tido uma noite louca de paixo. De manh, quando Toby 
acordara, Millie estava deitada ao seu lado, chorando. Num humor 
benevolente, ele a tomara nos braos e perguntara:
- Ei, querida, o que  que houve? Voc no gostou?
- Voc sabe que sim. Mas...
- Ora, vamos, pare com isso - Toby havia dito. - Eu amo voc.
Ela havia se levantado apoiada nos cotovelos, e olhando bem nos 
olhos dele, dissera:
- Ama mesmo, de verdade, Toby? Mas de verdade mesmo?
- Droga, mas  claro que sim.
Tudo de que ela precisava era o que ele lhe daria dali a dois 
segundos. Demonstrou ser um tnico revigorante.

Millie o havia observado voltar do banheiro, enxugando o cabelo 
ainda molhado e assobiando trechos da sua cano-tema. Feliz da 
vida, ela tinha sorrido e dito:
- Acho que me apaixonei por voc no momento em que o vi pela 
primeira vez, Toby.
- Puxa, isso  maravilhoso. Vamos pedir o caf.
E aquilo fora tudo... At aquele momento. Por causa de uma idiota 
com quem s tinha trepado uma noite, sua vida inteira tinha 
virado uma terrvel trapalhada.
Toby ficou parado ali, naquele momento, observando Millie vir 
andando na sua direco, no seu vestido de noiva branco, e 
amaldioou a si mesmo, amaldioou o seu pnis e amaldioou o dia 
em que tinha nascido.

Na limusine, o homem no banco da frente riu e disse cheio de 
admirao:
- Eu realmente tenho que dar os parabns ao senhor, chefe. O 
pobre coitado no soube nem o que o acertou.
Caruso sorriu com benevolncia. Tinha dado certo. Desde que sua 
esposa, que tinha temperamento de uma megera, descobrira sobre o 
seu caso com Millie, Caruso soubera que ia ter que arranjar um 
jeito de se livrar da corista loura.
- Lembre-me de verificar s ele est tratando bem Millie - disse 
num tom suave.

Toby e Millie se instalaram numa casinha em Benedict Canyon. No 
princpio, Toby passava horas imaginando meios de se livrar do 
casamento. Ia fazer Millie to infeliz que ela pediria o 
divrcio. Ou ento armaria uma cilada para apanh-la com outro 
homem, e ento pediria o divrcio. Ou simplesmente a deixaria e 
desafiaria Caruso a fazer alguma coisa a respeito do assunto. Mas 
mudou de idia depois de uma conversa com Dick Landry, o 
director.
Estavam almoando no Bel Air Hotel, algumas semanas depois do 
casamento, e Landry perguntou:
- Voc conhece bem Al Caruso?
Toby olhou para ele.
- Por qu?
- No se meta com ele, Toby.  um assassino. Vou lhe contar uma 
histria que sei que  verdadeira. O irmo caula de Caruso se 
casou com uma garota de dezanove anos, recm-sada de um 
convento. Um ano depois, o rapaz apanhou a mulher na cama com 
outro sujeito. Ele contou para Al.
Toby estava ouvindo, os olhos pregados em Landry.
- Que foi que aconteceu?
- Os capangas de Caruso pegaram um cutelo de aougueiro e 
cortaram fora a pica do sujeito. Encharcaram-na de gasolina e 
puseram fogo nela enquanto o cara assistia. Ento o largaram 
sangrando at a morte.
Toby se recordou de Caruso dizendo: "Abra a braguilha dele" e as 
mos speras mexendo no zper, e comeou a suar frio. De repente 
sentiu-se nauseado. Agora sabia com uma terrvel certeza que no 
havia jeito de escapar.


Josephine descobriu um jeito de escapar quando tinha dez anos. 
Era uma porta para um outro mundo, onde podia se esconder dos 
castigos de sua me e das ameaas constantes do jogo do inferno e 
da danao. Era um mundo cheio de mgica e de beleza. Sentava-se 
na sala escura de projeces de um cinema, hora aps hora, e 
ficava admirando as pessoas encantadoras na tela. Todas viviam em 
casas lindas e usavam roupas maravilhosas, e eram todas to 
felizes. E Josephine pensava: "Um dia irei para Hollywood e 
viverei assim". Esperava que sua me compreendesse.
A me achava que os filmes eram pensamentos do Demnio, de forma 
que Josephine ia escondida ao cinema, usando o dinheiro que 
ganhava tomando conta de crianas. Os filmes em cartaz naquele 
dia era uma histria de amor, e Josephine inclinou-se para a 
frente, numa expectativa feliz quando comeou. Primeiro apareceu 
a ficha tcnica. Dizia: "Produzido por Sam Winters".

12

Havia dias em que Sam Winters tinha a impresso que estava 
dirigindo um hospcio em vez de um estdio de cinema, e que todos 
os pacientes estavam  solta, dispostos a apanh-lo. Aquele era 
um desses dias, pois as crises tinham se empilhado, alcanado 
meio metro de altura. Tinha havido um outro incndio no estdio 
na noite anterior - o quarto; o patrocinador de My Man Frday 
tinha sido insultado pelo astro do programa e queria suspender a 
srie; Bert Firestone, o menino prodgio entre directores do 
estdio, havia interrompido no meio a produo de um filme de 
cinco milhes de dlares; e Tessie Brand acabara de suspender a 
sua participao num filme que devia comear a ser filmado dentro 
de poucos dias.
O chefe dos bombeiros e o superintendente do estdio estavam no 
gabinete de Sam.
- Quais foram as propores do incndio de ontem  noite? - 
perguntou Sam.
O superintendente respondeu:
- Perda total dos cenrios, Sr. Winters. Vamos ter que 
reconstruir o cenrio 15 inteiro. O 16 d para consertar, mas vo 
ser precisos trs meses.
- Ns no temos trs meses - retrucou Sam. - Pegue o telefone e 
alugue algum espao com Goldwyn. Aproveite este fim de semana 
para comear a construir novos cenrios. Ponha todo o mundo para 
trabalhar.
Virou-se para o chefe dos bombeiros, um homem chamado Reilly, que 
lembrava a Sam um actor chamado George Bancroft.
- Tem algum que realmente no gosta do senhor, Sr. Winters - 
disse Reilly. - Todos esses incndios foram evidentemente actos 
criminosos. O senhor j deu uma checada nos resmunges?
"Resmunges" eram empregados descontentes que haviam sido 
despedidos recentemente ou que se sentiam injustiados ou tinham 
queixas contra o empregador.
- J examinamos os arquivos de pessoal duas vezes - respondeu 
Sam. - No descobrimos nada.
- Quem quer que esteja preparando essas gracinhas sabe muito bem 
o que est fazendo. Est usando um dispositivo de regulagem de 
tempo, combinado com uma bomba incendiria de fabricao caseira. 
Poderia ser um electricista ou um mecnico.
- Obrigado - disse Sam. - Vou passar essa informao adiante.

- Roger Tapp telefonando do Taiti.
- Ponha-o na linha - disse Sam.
Tapp era o produtor de My Man Friday, a srie de televiso que 
estava sendo filmada no Taiti, estrelada por Tony Fletcher.
- Qual  o problema? - perguntou Sam.
- Porra, voc no vai acreditar, Sam. Philip Heller, o presidente 
do conselho da companhia que est patrocinando o show, est aqui 
de visita com a famlia. Apareceram no local das filmagens ontem 
 tarde, e Tony Fletcher estava no meio de uma cena. Virou-se 
para eles e os insultou.
- Que foi que ele disse?
- Disse que dessem o fora da ilha dele.
- Jesus Cristo!
-  quem ele pensa que . Heller est to furioso que quer 
cancelar a srie.

- V procurar Heller e pea-lhe desculpas. Faa isso agora mesmo. 
Diga-lhe que Tony Fletcher est sofrendo um colapso nervoso. 
Mande flores a Sra. Fletcher, convide-os para jantar. Eu mesmo 
vou falar com Tony Fletcher.

A conversa durou trinta minutos. Comeou com Sam dizendo: "Escute 
aqui, seu chupador de pica idiota..." e terminou com: "Eu tambm 
o amo, nenm. Vou at a para v-lo assim que puder. E pelo amor 
de Deus, Tony., no v levar a Sra. Fletcher para a cama!"

O problema seguinte era Bert Firestone, o director prodgio que 
estava levando os Pan-Pacific Studios  falncia. O filme de 
Firestone, There's always tomorrow, j tivera cento e dez dias de 
filmagem e estava com mais de um milho de dlares acima do 
oramento. Agora Bert Firestone tinha interrompido as filmagens, 
o que significava que, alm dos astros, havia cento e cinquenta 
extras sentados, sem fazer nada. Bert Firestone era um menino 
prodgio de trinta anos que passara de director de shows 
premiados de televiso a director de cinema em Hollywood. Os trs 
primeiros filmes de Firestone tinham sido sucessos razoveis, mas 
o quarto fora recorde de bilheteira. Com base naquele sucesso 
financeiro, ele tinha se transformado numa propriedade valiosa. 
Sam se lembrava do seu primeiro encontro com ele. Firestone 
parecia um garoto de quinze anos ainda imberbe, plido tmido, 
com culos de armao escura de osso, que escondiam minsculos 
olhinhos mopes irritados. Sam tivera pena do garoto. Firestone 
no conhecia ningum em Hollywood, por isso Sam havia se 
esforado bastante para convid-lo para jantares e para assegurar 
que ele fosse convidado para festas. Quando tinham discutido 
There's always tomorrow pela primeira vez, Firestone se mostrara 
muito respeitoso. Havia dito que estava ansioso para aprender e 
bebera cada palavra que Sam havia dito. No podia ter estado mais 
cordato. Se fosse contratado para fazer aquele filme, dissera a 
Sam, sem dvida faria muito uso dos conhecimentos e experincia 
do Sr. Winters.
Aquilo fora antes de Firestone assinar o contrato. Depois de 
t-lo assinado, fez Adolf Hitler parecer Albert Schweitzer. O 
garotinho de rosto redondo se transformara num matador da noite 
para o dia. Cortara toda e qualquer comunicao. Ignorara por 
completo as sugestes de Sam com relao ao elenco e  
distribuio dos papis, insistira em rescrever do comeo ao fim 
um script excelente que Sam havia aprovado e modificara a maioria 
das locaes que j haviam sido escolhidas. Sam quis afast-lo do 
filme, mas o escritrio de Nova York lhe havia dito para ser 
paciente. Rudolph Hergershorn, o presidente da companhia, estava 
hipnotizado com os enormes lucros do filme de Firestone. Assim 
Sam fora forado a manter a calma e a no fazer nada. Parecia-lhe 
que a arrogncia de Firestone crescia dia a dia. Sentava-se em 
silncio nas reunies da produo, e quando todos os chefes de 
departamento experientes acabavam de falar, comeava a derrubar 
todo mundo. Sam rangia os dentes e aguentava calado. Em 
pouqussimo tempo, Firestone ganhou o apelido de Imperador, e 
quando seus colaboradores no o chamavam assim, referiam-se a ele 
como o Escrotinho de Chicago. Algum dissera a respeito dele:

- Ele  um hermafrodita. Provavelmente  capaz de se foder e dar 
 luz um monstro de duas cabeas.
Agora no meio das filmagens, Firestone tinha feito a companhia 
parar.
Sam foi falar com Devlin Kelly, o chefe do departamento de arte.
- Dev, me d esse negcio, rpido - disse Sam.
- Certo. O Escrotinho mandou...
- Pare com isso.  Sr. Firestone.
- Desculpe. O Sr. Firestone me pediu para construir um castelo 
como cenrio. Ele mesmo desenhou os esboos. Voc aprovou.
- Eram bons. Que foi que aconteceu?
- O que aconteceu foi que construmos exactamente o que aquele... 
o que ele queria. Mas ontem, quando foi dar uma olhada, decidiu 
que no o queria mais. Meio milho de dlares descendo pela...
- Vou falar com ele.

Bert Firestone estava do lado de fora, nos fundos do cenrio 23, 
jogando basquete com a equipe. Tinham improvisado uma quadra, 
pintado as marcaes e armado duas cestas.
Sam ficou ali, observando por um momento. O jogo estava custando 
ao estdio dois mil dlares por hora.
- Bert!
Firestone se virou, viu Sam, sorriu e acenou. A bola foi em sua 
direco, ele a apanhou, fez um drible, saltou e marcou uma 
cesta. Ento veio andando na direco de Sam.
Enquanto olhava para o rosto infantil e sorridente, ocorreu-lhe 
que Bert Firestone era um psictico. Talentoso, talvez at um 
gnio, mas um doido que devia ser internado. E cinco milhes de 
dlares do dinheiro da companhia estavam nas suas mos.
- Ouvi dizer que h um problema com o novo cenrio - disse Sam. - 
Vamos resolv-lo.
Bert Firestone sorriu preguiosamente e disse:
- No h nada para resolver Sam. O cenrio no serve.
Sam olhou para ele.
- Ns no temos um navio nos cenrios, Bert.
Bert Firestone abriu os braos, sorriu preguiosamente e disse:
- Construa um para mim, Sam.

- Claro,, tambm estou chateado - disse Rudolph Hergershorn, na 
chamada interurbana -, mas voc no pode substitu-lo, Sam. Agora 
estamos enterrados demais. No temos grandes astros no filme. 
Bert Firestone  nosso astro.
- Voc sabe o quanto ele j ultrapassou o oramento.
- Eu sei.  como Goldwyn disse: "Nunca mais empregarei esse filho 
da puta, at precisar dele". Ns precisamos dele para acabar este 
filme.
-  um erro - argumentou Sam. - No devia permitir que ele faa 
isso impunemente.
- Sam, voc est gostando do que Firestone filmou at agora?
Sam teve que ser honesto.
-  excelente.
- Construa o navio dele.

O cenrio ficou pronto em dez dias, e Bert reiniciou as filmagens 
de There's always tomorrow. Acabou sendo o maior sucesso de 
bilheteira do ano.

O problema seguinte era Tessie Brand.
Tessie era a cantora de maior sucesso no mundo dos espectculos. 
Fora um grande golpe de Sam Winters conseguir faz-la assinar um 
contrato de trs filmes com os Pan-Pacific Studios. Enquanto os 
outros estdios estavam negociando com os empresrios de Tessie, 
sorrateiramente Sam tinha tomado um avio para Nova York e 
assistira ao show de Tessie. Depois a levara para jantar. O 
jantar havia se prolongado at as sete horas da manh seguinte.
Tessie Brand era uma das moas mais feias que Sam j tinha visto, 
e provavelmente a de maior talento. E o talento era o que levava 
a melhor. Filha de um alfaiate do Brooklyn, Tessie nunca tivera 
uma aula de canto na vida. Mas quando entrava no palco e comeava 
a cantar uma cano numa voz que estremecia as fundaes, as 
plateias enlouqueciam. Tessie era a substituta num musical da 
Broadway que havia ficado apenas seis semanas em cartaz. Na 
ltima noite, a ingnua que fazia o papel principal havia 
cometido o erro de telefonar dizendo que estava doente e ia ficar 
em casa. Tessie Brand fez a sua estreia naquela noite, cantando 
com o corao para o pequeno punhado de gente na plateia. Entre 
eles, por acaso estava Paul Varrick, um produtor da Broadway. 
Tessie estrelou o musical que ele produziu logo a seguir. 
Transformou o show, que era razovel, num estouro de bilheteira. 
Os crticos esgotaram superlativos tentando descrever Tessie, a 
feiosa, e sua voz incrvel. Gravou o primeiro compacto e do dia 
para a noite ele se transformou no primeiro das paradas. Gravou 
um lbum e vendeu dois milhes de cpias no primeiro ms. Era a 
Rainha Midas, pois tudo que tocava se transformava em ouro. Os 
produtores da Broadway e as companhias de discos estavam fazendo 
fortunas com Tessie Brand, e Hollywood queria entrar em cena. O 
entusiasmo diminuiu quando viram o rosto de Tessie, mas as 
bilheteiras que ela obtinha lhe davam uma beleza irresistvel.
Depois de passar cinco minutos com ela, Sam j sabia como iria 
manej-la.
- O que me deixa nervosa - confessou Tessie a Sam, na noite em 
que se conheceram -  pensar em como  que vou ficar naquela tela 
enorme. J sou bastante feia em tamanho natural, certo? Todos os 
estdios me dizem que me faro ficar bonita, mas acho tudo isso 
um monte de merda.
- E  um monte de merda - disse Sam.
Tessie olhou para ele, surpresa.
- No deixe ningum tentar mudar voc, Tessie. Eles arruinaro 
voc.
- Ah, ?
- Quando a MGM contratou Danny Thomas, Louie Mayer queria que ele 
fizesse uma plateia no nariz. Em vez disso, era ele mesmo.  isso 
que voc tem que vender: Tessie Brand, no uma estranha feita com 
plstica.
- Voc  a primeira pessoa que foi franca comigo - disse Tessie. 
- Voc  mesmo um Mensch. Voc  casado?
- No - disse Sam.
- Voc transa por a?
Sam riu.
- Nunca com cantoras... No tenho ouvido.

- No precisa ter ouvido - Tessie sorriu. - Gosto de voc.
- Voc gosta de mim o bastante para fazer alguns filmes comigo?
Tessie olhou para ele e disse:
- Sim.
- ptimo. Vou preparar o contrato com seu empresrio.
Ela acariciou o brao de Sam e disse:
- Voc tem certeza de que no transa por a?

Os dois primeiros filmes de Tessie estouraram a bilheteira. Ela 
recebeu a indicao da Academia pelo primeiro e o Oscar pelo 
segundo. Plateias por todo mundo faziam fila nos cinemas para ver 
Tessie e ouvir sua voz incrvel. Ela tinha tudo: era engraada, 
sabia cantar e sabia representar. A sua feira acabou se tornando 
mais um recurso, porque o pblico se identificava com ela. Tessie 
Brand se tornou um paliativo para todos os feios, mal-amados e 
rejeitados do mundo.
Tessie casou-se com o actor principal do seu primeiro filme, 
divorciou-se depois das refilmagens de cenas e casou-se com o 
actor principal do filme seguinte. Sam tinha ouvido boatos de que 
aquele casamento tambm estava chegando ao fim, mas Hollywood era 
um antro de fofocas. No deu ateno aos boatos, pois achava que 
no eram de sua conta.
Como viu depois, estava enganado.
Sam estava falando ao telefone com Barry Herman, o empresrio de 
Tessie.
- Qual  o problema, Barry?
-  o novo filme de Tessie. Ela no est satisfeita, Sam.
Sam sentiu sua irritao ir aumentando.
- Espere a! Tessie aprovou o produtor, o director e o roteiro 
das filmagens. Mandamos construir os cenrios e estamos prontos 
para filmar. No h jeito de nos deixar na mo agora. Eu vou...
- Ela no quer deixar vocs na mo.
Sam foi apanhado de surpresa.
- Que diabo  que ela quer?
- Ela quer um novo produtor no filme.
Sam berrou para o telefone.
- Ela o qu?
- Ralph Dastin no a compreende.
- Dastin  um dos melhores produtores que existem. Tessie tem 
sorte de t-lo no filme.
- Estou de pleno acordo com voc. Mas eles no combinam, Sam. Ela 
diz que no faz o filme a menos que ele saia.
- Ela assinou um contrato, Barry.
- Sei disso, corao. E, acredite-me, Tessie tem a inteno de 
cumpri-lo. Desde que esteja apta fisicamente. O negcio  que ela 
fica nervosa quando no est satisfeita, e parece que no 
consegue se lembrar das falas.
- Voltarei a telefonar para voc - disse Sam, furioso, e desligou 
o telefone com violncia.
A cadelinha miservel! No havia nenhuma razo para despedir 
Dastin e tir-lo do filme. Provavelmente tinha se recusado a ir 
para a cama com ela, ou alguma coisa igualmente ridcula. Disse a 
Lucille:
- Pea a Ralph Dastin para vir at aqui.

Ralph Dastin era um homem gentil de cerca de cinquenta anos. 
Tinha comeado como escritor e acabara se tornando produtor. Seus 
filmes eram caracterizados pelo bom gosto e charme.
- Ralph - comeou Sam. - No sei como...
Dastin levantou a mo.
- No precisa nem falar, Sam. Eu estava a caminho daqui para lhe 
dizer que estou demitido.
- Que diabo est acontecendo? - perguntou Sam.
Dastin encolheu os ombros.
- A nossa estrela est com uma coceira, e quer que uma outra 
pessoa a coce.
- Quer dizer que ela j est com seu substituto escolhido?
- Jesus, por onde foi que voc andou, em Marte? No l as colunas 
de fofocas?
- No se eu puder evitar. Quem  ele?
- No  ele.
Sam sentou-se bem devagar.
- Qu?
-  a figurinista do filme. O nome dela  Barbara Carter... como 
aqueles comprimidos para o fgado.
- Tem certeza disso? - perguntou Sam.
- Voc  a nica pessoa do hemisfrio ocidental que no est 
sabendo da novidade.
Sam sacudiu a cabea.
- Eu sempre pensei que Tessie fosse direita.
- Sam, a vida  uma lanchonete. Tessie  uma menina com fome.
- Bem, no estou disposto a pr uma maldita de uma figurinista 
como encarregada de um filme de quatro milhes de dlares.
Dastin sorriu.
- Voc acabou de dizer a coisa errada.
- Que  que isso quer dizer?
- Quer dizer que metade da argumentao de Tessie  de que as 
mulheres no tm oportunidades iguais nesse negcio. A nossa 
estrelinha ficou muito feminista.
- Eu me recuso a fazer isso - disse Sam.
- Faa como quiser. Mas vou lhe dar um conselho:  a nica 
maneira que voc vai encontrar de fazer esse filme.
Sam telefonou para Barry Herman.
- Diga a Tessie que Ralph Dastin se demitiu e no vai fazer o 
filme.
- Ela vai ficar satisfeita em saber disso.
Sam rangeu os dentes, ento perguntou:
- Ela tinha algum em mente para produzir o filme?
- Para falar a verdade, tinha - disse Herman com suavidade. - 
Tessie descobriu uma moa muito talentosa que ela acha que est 
pronta para um desafio como este. Com a orientao de algum 
brilhante como voc, Sam...
- Corte os comerciais - disse Sam. - Isso  definitivo?
- Creio que sim, Sam. Sinto muito.
Barbara Carter tinha um rostinho bonito, um corpo bem-feito e, 
pelo que Sam podia dizer, era completamente feminina. Ele a 
observou enquanto se sentava no sof de couro do seu gabinete e 
graciosamente cruzava as pernas longas e bem-feitas. Quando 
falou, sua voz pareceu um pouco rouca e grave, mas aquilo podia 
ser porque Sam estivera  procura de uma espcie qualquer de 
sinal. Ela o examinou com os olhos cinzentos claros e disse:

- Parece que estou numa posio terrvel, Sr. Winters. Eu no 
tinha inteno de tomar o emprego de ningum. E no entanto - 
levantou as mos num gesto de impotncia - a Senhorita Brand diz 
que simplesmente no vai fazer o filme a menos que eu produza. 
Que  que acha que devo fazer?
Por um instante, Sam se sentiu tentado a lhe dizer. Em vez disso, 
perguntou:
- J teve alguma experincia no mundo dos espectculos, alm de 
ser figurinista?
- Fui lanterninha, e vi uma poro de filmes.
"Fantstico!"
- Que  que faz a Senhorita Brand pensar que a senhora poderia 
produzir um filme?
Foi como se Sam tivesse accionado uma mola oculta. De repente 
Barbara Carter se encheu de animao.
- Tessie e eu conversamos muito a respeito desse filme.
Sam notou que no era mais Senhorita Brand.
- Eu acho que h umas coisinhas erradas no script, e quando 
comentei com ela e as mostrei, concordou comigo.
- Acha que sabe mais sobre como escrever um script do que um 
escritor premiado pela Academia que j fez meia dzia de filmes 
de sucesso e no sei quantas peas na Broadway?
- Oh, no, Sr. Winters! Eu apenas acho que sei mais sobre 
mulheres.
Agora os olhos cinzentos tinham uma expresso mais dura, a voz, 
um tom mais obstinado.
- No acha que  ridculo os homens estarem sempre escrevendo 
papis femininos? S ns  que sabemos realmente como nos 
sentimos. Isso no faz sentido?
Sam estava cansado do jogo. Sabia que ia contrat-la, e se odiava 
por faz-lo, mas estava dirigindo um estdio e sua funo era 
tomar providncias para que os filmes fossem concludos. Se 
Tessie Brand quisesse que o esquilo de estimao produzisse 
aquele filme, Sam comearia a encomendar nozes. Um filme de 
Tessie Brand podia significar, brincando, um lucro de vinte a 
trinta milhes de dlares. Alm disso, Barbara Carter no poderia 
fazer nada que realmente fosse prejudicar o filme. Naquela altura 
j no era possvel fazer grandes mudanas.

- Conseguiu me convencer - disse Sam, com ironia. - O emprego  
seu.
Na manh seguinte, Hollywood Reporter e variety anunciaram com 
manchete de primeira pgina que Barbara Carter produziria o novo 
filme de Tessie Brand. Quando Sam ia jogar os jornais na lata de 
lixo, uma pequena notcia no canto inferior da pgina atraiu sua 
ateno: "Toby Temple contratado pelo Tahoe Hotel".
Toby Temple. Sam se lembrava dos jovem cmico impetuoso que 
conhecera no Exrcito, e a lembrana lhe trouxe um sorriso no 
rosto. Tomou a resoluo de ir ver o show de Temple se algum dia 
se apresentasse em Los Angeles.
Perguntou-se por que Toby nunca havia tentado entrar em contacto 
com ele.

13

Estranhamente, Millie foi a responsvel pela chegada de Toby ao 
estrelato. Antes do casamento, ele fora apenas mais um cmico 
promissor em princpio de carreira, um entre dezenas de outros. A 
partir do casamento, um novo ingrediente foi acrescentado: dio. 
Toby havia sido forado a um casamento com uma moa que 
desprezava, e havia tamanha raiva no seu ntimo que teria sido 
capaz de mat-la com as suas prprias mos.
Embora Toby no se desse conta, Millie era uma ptima esposa. Ela 
o adorava, fazia tudo que podia para agradar-lhe. Decorou a casa 
em Benedic Canyon e o fez bem. Mas quanto mais Millie tentava 
agradar a Toby, mais ele a odiava. Era sempre extremamente 
educado com ela, tomando cuidado para nunca dizer ou fazer nada 
que pudesse aborrec-la o bastante para chamar Al Caruso. Pelo 
resto da vida, Toby nunca se esqueceria da terrvel agonia 
daquele macaco golpeando o seu brao, ou da expresso no rosto de 
Al Caruso quando dissera:
- Se algum dia voc fizer Millie sofrer...

Porque Toby no podia descarregar a sua agressividade sobre a 
esposa, desviou sua fria para as plateias. Qualquer um que 
esbarrasse num prato, se levantasse para ir ao banheiro ou 
ousasse falar enquanto Toby estava no palco, era imediatamente 
objecto de uma violenta gozao. Toby o fazia com um encanto to 
inocente e ingnuo que as plateias o adoravam, as pessoas 
choravam de rir. A combinao do rosto inocente e ingnuo com a 
lngua maldosa e engraada o tornava irresistvel. Podia dizer as 
coisas mais ofensivas e se sair bem. Tornou-se uma honra ser 
escolhido para ser ridicularizado por Toby Temple. Nunca ocorreu 
s suas vtimas que ele realmente estivesse a levar a srio cada 
uma das palavras. Toby, que antes no passava de mais um jovem 
cmico promissor, agora tinha-se tornado o assunto do dia do 
mundo dos espectculos.
Quando Clifton Lawrence voltou da Europa, ficou perplexo ao saber 
que Toby se casara com uma corista. Pareceu-lhe estranho, sem 
sentido, pelo que conhecia das atitudes de Toby, mas quando lhe 
perguntou, Toby o olhou bem nos olhos e disse:
- Que  que h para se dizer, Clifton? Conheci Millie, me 
apaixonei por ela e isso foi tudo.
De alguma forma, no lhe soara verdadeiro. E havia uma outra 
coisa que intrigava o empresrio. Um dia, no seu escritrio, 
Clifton disse a Toby:
- Voc est realmente ficando famoso. Acertei um contrato de 
quatro semanas no Thunderbird para voc. Dois mil dlares por 
semana.
- E aquela tourne?
- Esquea. Las Vegas paga dez vezes mais, e todo mundo vai ver o 
seu espectculo.
- Cancele Las Vegas. Quero fazer a tourne.
Clifton olhou para ele surpreso.
- Mas Las Vegas ...
- Quero fazer a tourne.
Havia um tom na voz de Toby que Clifton Lawrence nunca ouvira 
antes. No era arrogncia ou teimosia, era algo alm disso, uma 
profunda raiva controlada.
O que o tornava assustador era que provinha daquele rosto que se 
havia tornado mais inocente e simptico do que nunca.


Daquela ocasio em diante, Toby esteve sempre viajando. Era a sua 
nica forma de fugir de sua priso. Apresentou-se em clubes 
nocturnos, teatros e auditrios, e quando esse tipo de contratos 
no aparecia, pressionava Clifton para lhe arranjar apresentaes 
em universidades. Qualquer coisa para ficar longe de Millie.
As oportunidades de ir para a cama com mulheres jovens, atraentes 
e vidas eram ilimitadas. Era a mesma coisa em todas as cidades. 
Elas o esperavam no camarim antes e depois das apresentaes e 
ficavam de tocaia no vestbulo do hotel.
Toby no ia para a cama com nenhuma delas. Pensava no homem 
castrado, no pnis em chamas, e em Al Caruso lhe dizendo: 'Voc  
realmente bem-dotado. Eu no faria mal a voc. Voc  meu amigo. 
Desde que no faa Millie sofrer...
E Toby mandara andar todas as mulheres.
- Estou apaixonado por minha mulher - dizia timidamente.
Acreditavam nele e o admiravam por isso, e a histria se espalhou 
como ele queria que se espalhasse: Toby no pulava a cerca; era 
um verdadeiro homem caseiro.
Mas as adorveis moas continuavam andando atrs dele, e quanto 
mais Toby as desprezava, mais elas o queriam. Estava to faminto 
por uma mulher que sofria dores fsicas constantes. Suas virilhas 
doam tanto que s vezes sentia dificuldade de trabalhar. Comeou 
a se masturbar de novo. Cada vez que o fazia; pensava em todas as 
lindas garotas, esperando para ir para a cama com ele, e 
amaldioava e se enfurecia com seu destino.
S porque no podia t-lo, o sexo no deixava sua mente. Sempre 
que voltava para casa depois de uma tourne, Millie estava 
esperando por ele, vida e apaixonada. E no momento em que Toby a 
via, todo o seu desejo sexual desaparecia. Ela era o inimigo, e 
Toby a desprezava pelo que estava fazendo com ele. Obrigava-se a 
ir para a cama com ela, mas era a Al Caruso que estava 
satisfazendo. Sempre que Toby tinha relaes com Millie, fazia-o 
com uma brutalidade selvagem que provocava arquejos de dor. 
Fingia pensar que eram expresses de prazer, e a penetrava cada 
vez mais profundamente, at que finalmente gozava numa exploso 
que despejava o seu smem venenoso dentro dela. No estava 
fazendo amor.
Estava fazendo dio.

Em junho de 1950, os norte-coreanos atravessaram o Paralelo 38 e 
atacaram a Coria do Sul, e o Presidente Truman ordenou a 
interveno das tropas americanas. Pouco se importando com o que 
o resto do mundo pensasse, Toby achou a Guerra da Coria a melhor 
coisa que podia lhe acontecer.
No princpio de dezembro, saiu uma notcia no Daily Variety 
dizendo que Bob Hope estava se preparando para fazer uma excurso 
de Natal para se apresentar para as tropas em Seul. Trinta 
segundos depois de ter lido a notcia, Toby estava ao telefone, 
falando com Clifton Lawrence.
- Voc tem que conseguir me encaixar, Clifton.
- Para qu? Voc est com quase trinta anos. Acredite-me, caro 
rapaz, essas viagens no so brincadeira. Eu...
- Pouco me importa se so ou no brincadeira - berrou Toby. - 
Aqueles soldados esto l arriscando a vida. O mnimo que posso 
fazer  proporcionar-lhes umas boas gargalhadas.

Era uma faceta de Toby Temple que Clifton ainda no tinha visto. 
Ficou comovido e satisfeito.
- OK. Se isso  to importante para voc, vou ver o que posso 
fazer - prometeu Clifton.
Uma hora depois ele telefonou para Toby.
- Falei com Bob. Ele ficaria satisfeito em ter voc. Mas se mudar 
de idia...
- No h perigo - disse Toby e desligou.
Clifton Lawrence ficou sentado ali durante muito tempo, pensando 
em Toby. Estava orgulhoso dele. Toby era um ser humano 
maravilhoso, e Clifton Lawrence estava encantado de ser seu 
empresrio, encantado por ser o homem que estava ajudando a dar 
forma quela carreira em ascenso.

Toby apresentou-se em Taegu, em Pusan e em Chonju, e encontrou 
alvio no riso dos soldados. Millie foi desaparecendo de sua 
mente.
Ento passou o Natal. Em vez de voltar para casa, Toby foi para 
Guam. Os rapazes o adoraram. Foi para Tquio e se apresentou para 
os feridos no hospital do Exrcito. Mas finalmente chegou a hora 
de voltar para casa.

Em abril, quando Toby voltou de uma viagem de trs semanas no 
meio-oeste, Millie estava esperando por ele no aeroporto. Suas 
primeiras palavras foram:
- Querido, vou ter um beb!
Olhou para ela, estupefacto. Interpretando mal sua expresso, 
Millie pensou que fosse alegria.
- No  maravilhoso? - exclamou ela. - Agora, quando voc estiver 
fora, terei o beb para me fazer companhia. Espero que seja um 
menino para que voc possa lev-lo aos jogos de beisebol e...
Toby no ouviu o resto das bobagens que ela estava falando. Era 
como se as palavras estivessem chegando a ele vindas de muito 
longe, atravs de um filtro. Em algum lugar, nos recantos de sua 
conscincia, Toby tinha acreditado que algum dia, de alguma 
forma, haveria um jeito qualquer de escapar. Estavam casados h 
dois anos, e parecia uma eternidade. Agora aquilo. Millie nunca o 
deixaria.
Nunca.
O beb devia nascer na poca do Natal. Toby havia se comprometido 
a ir para Guam com um grupo de comediantes, mas no sabia se Al 
Caruso aprovaria o facto de ele estar longe quando Millie fosse 
ter o beb. S havia uma maneira de saber. Telefonou para Las 
Vegas.
A voz alegre e familiar de Caruso entrou na linha imediatamente e 
disse:
- Ol, garoto.  bom falar com voc.
- Tambm estou satisfeito por falar com voc, Al.
- Ouvi dizer que voc vai ser pai. Deve estar radiante.
- Radiante no  bem a palavra - disse Toby, com sinceridade, 
deixando que sua voz adquirisse uma nota de cuidadosa 
preocupao. -  por isso que estou lhe telefonando, Al. O beb 
vai nascer na poca de Natal e - tinha que ser muito cuidadoso - 
eu no sei o que fazer. Quero estar aqui com Millie quando o 
menino nascer, mas me pediram para voltar para a Coria, l para 
Guam, para fazer apresentaes para as tropas.

Houve uma longa pausa.
-  uma posio difcil.
- No quero deixar os rapazes na mo, mas tambm no quero deixar 
Millie.
- Sei.
Houve uma outra pausa.
- Vou lhe dizer o que acho, garoto. Ns todos somos bons 
americanos, certo? Aqueles garotos esto l lutando por ns, 
certo?
Toby sentiu o corpo se descontrair de repente.
- Claro. Mas detesto ter que...
- Vai estar tudo bem com Millie - disse Caruso. - J faz um 
bocado de tempo que as mulheres tm filhos. V para a Coria.
Seis semanas depois, na vspera de Natal, quando Toby deixava o 
palco sob estrondoso aplauso no acampamento militar de Pusan, 
entregaram-lhe um telegrama, informando que Millie morrera 
durante o parto e a criana nascera morta.
Toby estava livre.

14

No dia 14 de agosto de 1952, Josephine Czinski fez treze anos. 
Foi convidada para uma festa por Mary Lou Kenyon, que fazia anos 
no mesmo dia. A me de Josephine a proibira de ir:
- Essa gente no presta,  gente ruim.  melhor ficar em casa e 
ler a Bblia.
Mas Josephine no tinha nenhuma inteno de ficar em casa. Seus 
amigos no eram ruins. Gostaria que houvesse alguma maneira de 
fazer com que a me compreendesse. To logo sua me saiu, 
Josephine apanhou cinco dlares que tinha ganho como bab e foi 
para o centro, onde comprou um lindo mai branco. Ento foi para 
a casa de Mary Lou. Tinha o pressentimento de que ia ser um dia 
maravilhoso.
Mary Lou morava na mais bonita de todas as casas da gente do 
petrleo. Era uma casa cheia de peas de poca, tapearias que 
eram verdadeiras preciosidades e lindos quadros. A propriedade 
tinha bangals para hspedes, estbulos, uma quadra de tnis, uma 
pista de pouso particular e duas piscinas, uma enorme para os 
Kenyon e seus convidados e uma menor, nos fundos para os 
empregados.
Mary Lou tinha um irmo mais velho, David, que Josephine via de 
relance de vez em quando. Era o rapaz mais bonito que conhecera. 
Parecia ter trs metros de altura, seus ombros eram largos e os 
olhos cinzentos, intimidados. Era membro da equipa dos melhores 
jogadores de futebol americano e ganhava uma bolsa de estudos da 
Fundao Rhodes. Mary Lou tambm tinha uma irm mais velha, Beth, 
que morrera quando Josephine era pequena.
Na festa, Josephine ficou olhando ao redor, na esperana de ver 
David, mas ele no estava ali. No passado, ele havia parado para 
falar com ela vrias vezes, mas em todas elas Josephine ficara 
corada e imvel, sem conseguir falar.
A festa foi um grande sucesso. Havia catorze rapazes e garotas. 
Tinham feito um grande almoo - churrasco de carne, galinha, 
salada de batata e limonada -, servido no terrao por mordomos e 
copeiras uniformizados. Depois Mary Lou e Josephine abriram os 
presentes, enquanto os outros as rodeavam e faziam comentrios 
sobre o que haviam ganho.
Mary Lou disse:
- Vamos nadar um pouco.
Todos saram correndo para as cabines prximas  piscina. 
Enquanto vestia o mai, Josephine pensava que nunca havia sido 
to feliz. Havia sido um dia perfeito, passado em companhia de 
seus amigos. Fazia parte do grupo, partilhando a beleza que os 
rodeava. No havia nada maligno naquilo. Gostaria de poder fazer 
o tempo parar e imobilizar aquele dia de forma que nunca 
acabasse.
Josephine saiu para a luz ofuscante do sol. Enquanto caminhava 
para a piscina, percebeu que os outros a observavam, as meninas 
com franca inveja, os rapazes com olhares maldisfarados de 
cobia. Naqueles ltimos meses, o corpo de Josephine havia 
amadurecido de maneira impressionante. Os seios firmes e cheios 
se delineando contra a malha do mai, e os quadris insinuando as 
curvas generosas e sedutoras de uma mulher. Josephine mergulhou 
na piscina, juntando-se aos outros.
- Vamos brincar de Marco Plo - gritou algum.

Josephine adorava aquela brincadeira. Adorava mover-se na gua 
clida, com os olhos bem fechados. Ento gritava "Marco!" e os 
outros tinham que responder "Plo!" Mergulhava na direco do som 
das vozes antes que fugissem, at pegar algum, que ento 
tentaria pegar os outros.
Comearam a brincadeira com Cissy Topping. Ela saiu atrs do 
menino de quem gostava, Bob Jackson, mas no conseguiu apanh-lo, 
e sim Josephine. Ela fechou os olhos e ficou tentando ouvir os 
outros se moverem na gua.
- Marco! - gritou.
Houve um coro de "Plo!" Mergulhou em direco  voz mais 
prxima. Tacteou na gua, no havia ningum.
- Marco! - gritou.
De novo, um coro de "Plo!" Agarrou s cegas mas s apanhou ar. 
Josephine no se importava que eles fossem mais rpidos do que 
ela; queria que aquela brincadeira continuasse para sempre, da 
mesma forma que queria que aquele dia durasse uma eternidade.
Ficou imvel, tentando ouvir algum espadanar na gua, uma 
risadinha, um murmrio. Foi se movendo pela piscina, os olhos 
fechados, os braos estendidos, e alcanou os degraus. Subiu um 
degrau para silenciar seus movimentos.
- Marco! - gritou.
E no houve resposta. Ficou parada ali, imvel.
- Marco!
Silncio. Era como se estivesse num mundo clido, molhado, 
deserto, sozinha. Estavam lhe pregando uma pea. Tinham resolvido 
que ningum responderia. Josephine sorriu e abriu os olhos.
Estava sozinha na piscina. Alguma coisa fez com que olhasse para 
baixo. Seu mai branco estava manchado de vermelho e havia sangue 
escorrendo entre suas coxas. As crianas estavam todas de p em 
volta da piscina, olhando para ela. Josephine ergueu o olhar 
naquela direco, confusa.
- Eu...
Parou sem saber o que dizer. Desceu os degraus depressa, entrando 
na gua para esconder sua vergonha.
- Ns no costumamos fazer isso na piscina - disse Mary Lou.
- Mas polacas fazem - algum deu uma risada zombeteira.
- Ei, vamos tomar um banho de chuveiro.
- Vamos! Estou com frio.
- Quem vai nadar naquilo?
Josephine fechou os olhos de novo e os ouviu indo em direco aos 
vestirios, abandonando-a. Ficou parada ali, mantendo os olhos 
bem fechados, apertando as pernas para tentar deter aquele fluxo 
vergonhoso. Era a primeira vez que ficava menstruada. Fora 
completamente inesperado. Eles voltariam, em seguida, e lhe 
diriam que estavam apenas implicando com ela, que ainda eram seus 
amigos, que aquela felicidade no acabaria nunca. Voltariam e 
explicariam que era tudo brincadeira. Talvez j tivessem voltado, 
prontos para brincar. Com os olhos bem fechados, ela murmurou: 
"Marco!" - e o eco morreu no ar da tarde. No tinha idia de 
quanto tempo ficou parada ali, na gua, com os olhos fechados.
"Ns no costumamos fazer isso na piscina."
"Mas polacas fazem."

Sua cabea comeou a latejar violentamente. Estava nauseada, e de 
repente comeou a ter clicas. Mas Josephine sabia que tinha que 
ficar ali de p, com os olhos fechados. S at que eles voltassem 
e lhe dissessem que era brincadeira.
Ouviu passos e um farfalhar de tecido, e de repente soube que 
estava tudo bem. Eles tinham voltado. Abriu os olhos e olhou para 
cima.
David, o irmo mais velho de Mary Lou, estava de p na borda da 
piscina, com um robe de tecido aveludado na mo.
- Peo desculpas por todos eles - disse ele, a voz sria, 
estendendo-lhe o robe. - Tome. Saia da e vista isso.
Mas Josephine fechou os olhos e ficou ali, rgida. Queria morrer 
o mais rapidamente possvel.

15

Era um dos bons dias para Sam Winters. As primeiras cpias do 
filme de Tessie Brand tinham ficado maravilhosas. Em parte,  
claro, porque Tessie tinha se matado de trabalhar para compensar 
seu comportamento. Mas, de qualquer modo, Barbara Carter surgiria 
como a melhor nova produtora do ano. Ia ser um ano e tanto para 
figurinistas.
Os programas de televiso produzidos pela Pan-Pacific estavam 
indo bem, e My Man Friday era o grande sucesso. A companhia 
estava cogitando fazer um novo contrato de cinco anos para o 
seriado.
Sam j se preparava para ir almoar quando Lucille entrou 
correndo e disse:
- Acabaram de apanhar algum tentando iniciar um incndio no 
guarda-roupa. Esto trazendo o homem para c agora.

O homem estava sentado numa cadeira diante de Sam, em absoluto 
silncio, com dois guardas da segurana do estdio de p atrs 
dele. Sam ainda no havia se recuperado do choque.
- Por qu? - perguntou. - Pelo amor de Deus... Por qu?
- Porque no quero a porra da caridade de vocs - disse Dallas 
Burke. - Odeio voc, este estdio e todo esse negcio podre. Eu 
construi este negcio, seu filho da puta. Eu sustentei metade dos 
estdios desta cidade nojenta. Todo mundo ficou rico s minhas 
custas. Por que  que voc no me deu um filme para dirigir, em 
vez de tentar me subornar fingindo que estava comprando uma porra 
de um monte de contos de fadas roubados? Voc teria comprado at 
um catlogo telefnico de mim, Sam. Eu no queria favores... eu 
queria um emprego. Voc est fazendo com que eu morra como um 
fracasso, seu escroto, e nunca lhe perdoarei isso.
Muito tempo depois de terem levado Dallas Burke, Sam ainda estava 
sentado ali, pensando nele, lembrando as coisas fantsticas que 
ele fizera, dos seus filmes maravilhosos. Em qualquer outro ramo 
de negcios, ele seria um heri, o presidente do conselho, ou 
estaria aposentado com uma penso generosa e coberto de glria.
Mas aquele era o maravilhoso mundo dos espectculos.

16

No princpio da dcada de 50, o sucesso de Toby crescia. 
Apresentou-se nas casas nocturnas de maior sucesso - Chez Paree, 
em Chicago; Latin Casino, em Filadlfia; Copacabana, em Nova 
York. Dava espectculos beneficentes, apresentou-se em hospitais 
infantis e chs de caridade - para qualquer pessoa, em qualquer 
lugar, a qualquer hora. O pblico era o sangue que o mantinha 
vivo. Estava totalmente absorvido pelo mundo dos espectculos. 
Acontecimentos importantes ocorriam no mundo inteiro, mas para 
Toby eram apenas assunto para as suas piadas.
Em 1951, quando o General MacArthur se aposentou e declarou: 
"Velhos soldados no morrem, eles apenas desaparecem 
gradualmente", Toby disse:
- Jesus, acho que ns usamos a mesma lavanderia.
Em 1952, quando a bomba de hidrognio foi lanada, o comentrio 
de Toby foi:
- Isso no foi nada. Vocs precisavam ter visto a minha estreia 
em Atlanta.
Quando Nixon fez o seu famoso "discurso Checkers", Toby disse:
- Votaria nele sem pensar duas vezes. No no Nixon... no 
Checkers.
Ike foi eleito presidente, Stlin morreu, a Amrica jovem usa 
chapu estilo David Crockett e houve um boicote aos nibus em 
Montgomery.
E tudo era material para as piadas de Toby.
Quando lanava seus dardos com aquela expresso infantil de 
inocncia perplexa, a plateia gritava.
Mas intimamente sentia uma inquietao profunda e violenta. 
Estava sempre buscando alguma coisa mais. No conseguia se 
divertir nunca, porque temia sempre estar perdendo uma festa 
melhor em algum outro lugar, ou se apresentando para uma plateia 
melhor, ou beijando uma garota mais bonita. Trocava de namorada 
como trocava de camisas. Depois da experincia com Millie, tinha 
medo de se envolver mais seriamente com quem quer que fosse. 
Lembrava-se da poca em que se apresentava no circuito dos 
banheiros e invejava os cmicos que tinham grandes limusines e 
mulheres bonitas. Tinha conseguido tudo aquilo, e estava to 
sozinho quanto antes. Quem era mesmo que havia dito: "Quando a 
gente chega l, o l no existe"?
Estava decidido a se tornar o nmero 1 e sabia que conseguiria. A 
nica coisa que lamentava era que sua me no estaria l para ver 
sua previso se tornar realidade.
A nica recordao que lhe restava dela era seu pai.

A clnica em Detroit era um prdio feio de tijolos, pertencente a 
u outro sculo. Suas paredes abrigavam um fedor adocicado de 
velhice, de doena e de morte.
O pai de Toby havia sofrido um derrame, e agora era quase um 
vegetal, um homem de olhos apticos e sem brilho, com uma mente 
que no se preocupava com nada, excepto as visitas do filho, Toby 
ficou parado no vestbulo sujo, atapetado de verde, da clnica 
onde agora estava seu pai. As enfermeiras e os internos o 
rodeavam cheios de admirao.
- Vi o senhor no show de Harold Hobson, na semana passada, Sr. 
Toby. Achei que estava maravilhoso. Como  que consegue inventar 
todas essas coisas incrveis para dizer?

- Os meus escritores as inventam - disse Toby, e eles riram da 
sua modstia.
Um enfermeiro vinha descendo pelo corredor, empurrando a cadeira 
de rodas do Sr. Temple. Ele estava recm-barbeado e o cabelo fora 
penteado. Tinha deixado que lhe estriassem um terno em honra  
visita do filho.
- Ei,  o Belo Brummel! - exclamou Toby, e todo mundo se virou 
para olhar para o Sr. Temple com inveja, desejando ter um filho 
maravilhoso e famoso como Toby que viesse visit-los.
Toby foi para junto do pai, inclinou-se e o abraou.
- Quem  que est querendo enganar? - perguntou Toby, apontando 
para o enfermeiro. - Voc  quem devia estar empurrando esse 
cara, papai.
Todo mundo riu, guardando a anedota na memria para poder contar 
aos amigos o que tinha ouvido Toby Temple dizer. "Eu estava com 
Toby Temple no outro dia, e ele disse. Eu estava de p junto 
dele, assim como estou de voc, e o ouvi dizer...
E ele ficou l, divertindo, insultando com gentilezas, e eles o 
adoravam. Fazia brincadeiras a respeito da vida sexual deles, da 
sade deles, de seus filhos, e por um curto espao de tempo 
conseguiram rir dos prprios problemas. Finalmente, Toby disse, 
pesaroso:
- Detesto ter que deix-los, so a plateia mais bonita que j 
tive em muitos anos - eles tambm iam se lembrar daquilo -, mas 
preciso passar algum tempo a ss com meu pai. Ele prometeu que me 
daria umas piadas novas.
Eles sorriam e riam e o adoravam.
Toby estava sozinho na salinha de visitantes com seu pai. At 
aquela sala tinha cheiro de morte. "Mas  disso que este lugar 
trata, no ?", pensou Toby. "Morte?" Estava cheio de pais e mes 
gastos, que haviam se tornado empecilhos no caminho dos filhos. 
Tinham sido tirados dos quartinhos dos fundos das casas, postos 
para fora de salas de jantar e salas de visitas, onde estavam se 
tornando fontes de embarao sempre que havia convidados, e tinham 
sido mandados para aquela clnica geritrica por seus filhos, 
sobrinhas e sobrinhos. "Acredite,  para o seu prprio bem, 
papai, mame, tio George, tia Bess. Vai estar com uma poro de 
gente adorvel, da sua idade. Entendeu o que estou querendo 
dizer? Vai ter companhia o tempo todo." O que eles realmente 
queriam dizer era: "Estou mandando voc para l para morrer junto 
com todos os outros velhos inteis. Estou cheio de ver voc 
babando na mesa, contando as mesmas histrias seguidamente, 
infernizando a vida das crianas e molhando a cama". Os esquims 
eram mais honestos a respeito daquilo. Mandavam os velhos para o 
gelo, e os abandonavam ali para morrer.
- Estou realmente satisfeito por voc ter vindo hoje - disse o 
pai de Toby, com sua dico lenta. - Queria falar com voc. Tenho 
boas notcias. O velho Art Riley aqui do lado morreu ontem.
Toby ficou olhando para ele espantado.
- Chama isso de boa notcia?
- Significa que eu posso me mudar para o quarto dele - explicou o 
velho. -  um quarto de solteiro particular.

E era aquilo que significava a velhice: sobrevivncia, o apego s 
poucas coisas materiais que restavam. Toby tinha visto gente ali 
que estaria melhor se estivesse morta, mas que se agarrava  vida 
com ferocidade. "Feliz aniversrio, Sr. Dorset. Como  que se 
sente completamente os seus noventa e cinco anos hoje?" "Quando 
penso na alternativa, sinto-me ptimo."
Finalmente, estava na hora de ir embora.
- Volto para ver voc assim que eu puder - prometeu Toby.
Deu algum dinheiro ao pai e distribuiu gorjetas generosas entre 
as enfermeiras e funcionrios.
- Cuidem bem dele, hein? Preciso do velho para o meu nmero.
E Toby foi embora. No momento em que passou pela porta, 
esqueceu-se de todos eles. Estava pensando no seu desempenho 
naquela noite.
Durante a semana no falariam de nada alm da sua visita.

17

Aos dezassete anos, Josephine Czinski era a moa mais bonita de 
Odessa, Texas. Tinha a tez dourada, queimada do sol; os longos 
cabelos negros tinham um tom de cobre ao sol e os olhos castanhos 
profundos, minsculas partculas douradas. O corpo era 
estonteante, com o busto cheio e arredondado, a cintura fina que 
se abria nas curvas dos quadris com suavidade, afilando-se nas 
longas pernas bem-feitas.
Josephine no se dava mais com a gente do petrleo. Agora ela 
saa com outros. Depois das aulas, trabalhava como garonete no 
Golden Derrick, um drive-in muito popular. Mary Lou, Cissy 
Topping e seus amigos costumavam ir l com seus acompanhantes. 
Ela sempre os cumprimentava com polidez; mas tudo havia mudado.
Josephine estava tomada de uma inquietao, uma nsia pelo que 
nunca conhecera. Era indefinida, mas estava ali. Queria deixar 
aquela cidade feia e triste, mas no sabia para onde queria ir ou 
o que fazer. Ficar pensando durante muito tempo a respeito 
daquilo fazia as dores de cabea comearem.
Saa com uma dzia de rapazes e jovens diferentes. O predilecto 
de sua me era Warren Hoffman.
- Hoffman seria um bom marido para voc. Frequenta a igreja 
regularmente, ganha muito bem como bombeiro e est maluco por 
voc.
- Ele tem vinte e cinco anos e  gordo.
A Sra. Czinski lanou um olhar crtico para Josephine.
- Polonesas pobres no encontram cavaleiros de armadura 
brilhantes. Nem no Texas nem em nenhum outro lugar do mundo. Pare 
de se enganar a si mesma.
Josephine permitia que Warren Hoffman a levasse ao cinema uma vez 
por semana. Ele segurava-lhe a mo entre as palmas suadas e 
calejadas e a apertava durante o filme inteiro. Mas ela mal se 
dava conta dele. Estava entretida demais com o que estava 
acontecendo na tela. Aquilo que se passava l na frente era uma 
extenso do mundo de gente e de coisas bonitas com as quais ela 
tinha crescido, s que era maior e ainda mais emocionante. Num 
recanto distante de sua mente, Josephine sentia que Hollywood 
poderia lhe dar tudo que desejava: beleza, diverso, riso e 
felicidade. A no ser que se casasse com um homem rico, ela sabia 
que no havia nenhuma outra maneira pela qual pudesse algum dia 
ter aquele tipo de vida. E os rapazes ricos eram todos 
conquistados por moas ricas.
Excepto um.

David Kenyon. Josephine pensava nele com frequncia. Tinha 
roubado uma fotografia dele da casa de Mary Lou h muito tempo 
atrs. Estava escondida no seu armrio e ela a tirava de vez em 
quando, para olh-la sempre que se sentia infeliz. Fazia com que 
se lembrasse de David, de p na borda da piscina, dizendo: "Peo 
desculpas por todos eles", e da mgoa e do sofrimento 
desaparecendo pouco a pouco, cedendo lugar  ternura. S tinha 
visto David uma vez depois daquele dia terrvel, na piscina, 
quando ele lhe trouxera um roupo. Tinha passado de carro, com 
toda a famlia, e Josephine depois soubera que iam para a estao 
ferroviria. Ele estava a caminho de Oxford, Inglaterra. Isto 
fora h quatro anos, em 1952. David havia voltado para as frias 
de vero e para o Natal, mas seus caminhos no se cruzaram. 
Frequentemente ouvia outras moas falando a respeito dele. Alm 
da fortuna que David tinha herdado do pai, sua av havia lhe 
deixado um fundo de cinco milhes de dlares. Ele era realmente 
um bom partido. Mas no para a filha de uma costureira polonesa.

Josephine no sabia que David Kenyon tinha voltado da Europa. 
Numa noite de sbado, em julho, j bastante tarde, ela estava 
trabalhando no Golden Derrick e parecia-lhe que a metade da 
populao de Odessa tinha decidido ir ao drive-in para combater a 
onda de calor com limonada, sorvete e refrigerante. O movimento 
estivera to intenso que Josephine no pudera parar um s minuto. 
Uma fileira de automveis circulava ininterruptamente no drive-in 
iluminado por lmpadas non como animais metlicos enfileirados 
em torno de um bebedouro surrealista. Josephine entregou uma 
bandeja, com o que lhe parecia ser o milionsimo pedido de 
cheeseburger e Coca-Cola, puxou um cardpio e dirigiu-se para um 
carro esporte branco que tinha acabado de entrar.
- Boa noite - disse Josephine num tom alegre. - Gostariam de ver 
o cardpio?
- Al, desconhecida.
Ao ouvir a voz de David Kenyon, seu corao disparou de repente. 
Estava exactamente como ela se lembrava, s que ainda mais 
bonito. Agora havia uma maturidade, uma segurana, que havia 
adquirido vivendo no exterior. Cissy Topping estava sentada ao 
lado dele, com a aparncia fresca e muito bonita num caro 
conjunto de saia e blusa de seda.
- Oi, Josie. Voc no devia estar trabalhando numa noite quente 
como esta, querida - disse Cissy.
Como se aquilo fosse alguma coisa que Josephine tivesse decidido 
fazer em vez de ir a um cinema com ar condicionado ou passear num 
carro esporte com David Kenyon.
Josephine respondeu sem se alterar:
- Assim pelo menos no fico pelas ruas.
Viu que David sorriu para ela. Sabia que ele compreendia.
Muito tempo depois de terem ido embora, Josephine ainda estava 
pensando em David. Repetiu todas as palavras -"Al desconhecida, 
Quero uma panqueca com salsichas e uma cerveja; no, caf em vez 
de cerveja. Faz mal tomar bebidas geladas numa noite quente. Voc 
gosta de trabalhar aqui?... Pode me dar a conta... Fique com o 
troco... Foi bom ver voc de novo, Josephine" - em busca de 
significados ocultos, de nuances que pudesse ter deixado escapar. 
 claro que ele no podia ter dito nada com Cissy sentada ao 
lado, mas a verdade era que ele no tinha nada a dizer a 
Josephine. Estava surpresa at por ele ter se lembrado do seu 
nome.
Estava de p, diante da pia da minscula cozinha do drive-in, 
perdida em seus pensamentos, quando Paco, o jovem cozinheiro 
mexicano, chegou junto dela e disse:
- Que se passa, Josita? Voc est com aquele brilho nos olhos.
Gostava de Paco. Estava com vinte e tantos anos, era um homem 
magro, de olhos escuros, sempre com um sorriso e uma brincadeira 
simptica engatilhados para os momentos em que a presso crescia 
e todo mundo ficava tenso.
- Quem  ele?
Josephine sorriu.
- Ningum, Paco

- Bueno. Porque h seis carros famintos enlouquecendo l fora. 
Vamos!

Ele telefonou na manh seguinte, e Josephine sabia quem era antes 
de tirar o telefone do gancho. No tinha conseguido tir-lo da 
cabea a noite inteira. Era como se aquele telefonema fosse a 
continuao do seu sonho.
As primeiras palavras dele foram:
- Vou dizer o que todo mundo deve dizer. Enquanto estive fora 
voc cresceu e se tornou uma verdadeira beleza - e ela podia ter 
morrido de felicidade.
Levou-a para jantar fora naquela noite. Josephine estivera 
preparada para ir a um restaurante pouco frequentado, onde fosse 
improvvel que David encontrasse seus amigos. Mas em vez disso 
foram ao clube, onde todo mundo foi at a mesa deles para dizer 
al. Ele no se envergonhava de ser visto na sua companhia, ao 
contrrio, parecia orgulhar-se dela. E ela o amava por aquilo, e 
por mais cem razes. Sua expresso, a gentileza e a compreenso, 
o prazer que era estar com ele. Nunca soubera que algum 
maravilhoso como David Kenyon pudesse existir.
Todos os dias, depois que Josephine saa do trabalho, estavam 
juntos. Aprendera a repelir os avanos masculinos desde os 
catorze anos, pois havia nela uma sexualidade que era um desafio. 
Os homens estavam sempre querendo se encostar nela, agarr-la, 
tentando passar a mo nos seus seios ou meter a mo debaixo da 
sua saia, achando que aquele era o meio de excit-la, sem saber o 
quanto a repugnava.
David Kenyon era diferente. Ocasionalmente punha o brao no seu 
ombro ou tocava-a casualmente, e seu corpo inteiro correspondia. 
Nunca antes tinha sentido isso por algum. Nos dias em que no 
via David no conseguia pensar em mais nada.
Constatou que estava apaixonada por ele.  medida que as semanas 
transcorriam, e que passavam cada vez mais tempo juntos, 
Josephine se deu conta de que se realizara um milagre. David 
estava apaixonado por ela.
Discutia seus problemas com ela e lhe contava as suas 
dificuldades com a famlia.
- Mame quer que eu assuma a direco dos negcios - disse-lhe 
David -, mas no tenho certeza de que quero passar o resto da 
minha vida fazendo isso.
Os negcios da famlia Kenyon incluam, alm de poos de petrleo 
e refinaria, um dos maiores ranchos de criao de gado do 
sudoeste, uma cadeia de hotis, alguns bancos e uma grande 
companhia de seguros.
- Voc no pode simplesmente dizer-lhe no, David?
Ele suspirou.
- Voc no conhece minha me.
Josephine havia sido apresentada  me de David. Era uma 
mulherzinha minscula (parecia impossvel que David tivesse sado 
daquele corpinho frgil) que dera  luz trs filhos. Ficara 
seriamente doente aps cada gravidez e logo depois do terceiro 
parto teve um ataque cardaco. Ano aps ano, ela descrevia 
repetidamente os seus sofrimentos para os filhos, que cresceram 
com a crena de que a me arriscara deliberadamente a prpria 
vida para ter cada um deles. Aquilo lhe dera um poderoso domnio 
sobre a famlia, que ela governava impiedosamente.

- Quero ter a minha prpria vida - disse David a Josephine -, mas 
no posso fazer nada que v ferir mame. A verdade  que... o Dr. 
Young acha que ela no continuar connosco por muito mais tempo.
Uma noite, Josephine falou a David de seu sonho de ir para 
Hollywood e tornar-se uma estrela. Ele olhou para ela e disse 
baixinho:
- Eu no vou deixar voc ir.
Ela sentiu o corao bater loucamente. A cada vez que estavam 
juntos, o sentimento de intimidade entre eles crescia. O facto de 
Josephine vir de uma famlia pobre nada significava para David. 
Era uma pessoa desprovida de esnobismo. Isso fez com que um 
incidente ocorrido no drive-in, uma noite, ficasse ainda mais 
chocante.
Estava na hora de fechar, e David estava sentado no carro, 
esperando por ela. Josephine estava na cozinha com Paco, limpando 
apressadamente as ltimas bandejas.
- Encontro importante, hein?
Josephine sorriu.
- Como  que voc sabe?
- Porque voc est uma festa. Sua carinha bonita est radiante. 
Diga a ele por mim que  um homem de sorte! 
Josephine sorriu e disse:
- Vou dizer. - Impulsivamente, ela se inclinou e deu um beijo no 
rosto de Paco. Um segundo depois, ouviu o rugido do motor de um 
carro e em seguida o cantar de pneus. Virou-se a tempo. Viu o 
conversvel branco de David amassar o pra-choque de outro carro 
e sair em disparada do drive-in. Ficou parada olhando, sem 
conseguir acreditar, para as luzes das lanternas traseiras 
desaparecerem na noite.
s trs horas da manh, quando se virava de um lado para outro na 
cama, Josephine ouviu um carro estacionar l fora. Correu at a 
janela para olhar. David estava sentado na direco do automvel. 
Estava terrivelmente bbado. Rapidamente Josephine vestiu um robe 
sobre a camisola e saiu.
- Entre - disse David.
Josephine abriu a porta do carro e se sentou ao lado dele. Houve 
um silncio longo e pesado. Quando David comeou a falar, estava 
com a voz embargada, mas no apenas pelo usque que tinha bebido. 
Havia uma raiva, uma fria selvagem que fazia com que as palavras 
sassem como pequenas exploses.
- Eu no sou seu dono - disse David. - Voc  livre para fazer o 
que quiser. Mas enquanto estiver saindo comigo, no quero que 
beije nenhum maldito mexicano. Entendeu?
Olhou para ele sem saber o que fazer, depois disse:
- Quando beijei Paco, foi porque... ele tinha dito uma coisa que 
me deixou feliz. Ele  meu amigo.
David respirou fundo, tentando controlar as emoes que se 
agitavam no seu ntimo.
- Vou lhe contar uma coisa que nunca contei a ningum.
Josephine ficou sentada ali, perguntando-se o que viria a seguir.
- Eu tenho uma irm mais velha - disse David. - Beth. Eu... eu a 
adoro.
Josephine tinha uma vaga lembrana de Beth, uma beldade loura, de 
pele clara, que ela costumava ver quando ia brincar com Mary Lou. 
Josephine tinha oito anos quando Beth morreu. David devia estar 
com quinze anos mais ou menos.
- Eu me lembro de quando Beth morreu.

- Beth est viva.
Olhou para ele com incredulidade.
- Mas, eu... todo mundo pensou... 
Virou-se para olhar para ela, a voz inexpressiva.
- Ela foi estuprada por um dos nossos jardineiros, um mexicano. O 
quarto de Beth ficava defronte ao meu, do outro lado do corredor. 
Ouvi os gritos e corri para o quarto dela. Ele tinha rasgado sua 
camisola e estava em cima dela e...
A voz de David ficou embargada pela lembrana.
- Lutei com ele at que minha me apareceu e chamou a polcia. 
Eles finalmente chegaram e levaram o homem para a cadeia. Ele se 
suicidou na cela, naquela noite. Mas Beth tinha enlouquecido. Ela 
nunca vai sair daquele lugar. Nunca. Eu no posso lhe dizer o 
quanto a amo, Josie. Sinto tanta falta dela. Desde aquela noite, 
eu... eu... no... posso...
Ela ps a mo sobre a dele e disse:
- Sinto muito, David. Eu compreendo. Estou satisfeita por voc 
ter me contado.

Estranhamente, o incidente serviu para uni-los ainda mais. 
Comearam a conversar sobre coisas de que nunca tinham falado. 
David sorriu quando Josephine lhe falou sobre o fanatismo 
religioso da me.
- Eu tinha um tio que era assim - disse. - Ele foi para um 
monastrio qualquer, no Tibete.
- Vou fazer vinte e quatro anos no ms que vem - disse David um 
dia. -  uma velha tradio da famlia Kenyon que os homens se 
casem aos vinte e quatro anos - e o corao de Josephine deu um 
salto.
Na noite seguinte, David tinha comprado bilhetes para uma pea 
que estava em cartaz no Globe Theatre. Quando chegou para buscar 
Josephine, disse:
- Vamos esquecer a pea e conversar sobre o nosso futuro.
No momento em que Josephine ouviu aquelas palavras, soube que 
tudo por que tinha rezado ia se tornar realidade. Podia v-lo 
escrito nos olhos de David. Estavam cheios de amor e de desejo.
- Vamos at o lago Dewey - disse ela.
Queria que fosse o pedido de casamento mais romntico do mundo, 
de forma que um dia se tornasse a histria cheia de encanto que 
contaria a seus filhos. Queria se lembrar de cada minuto daquela 
noite.
O lago Dewey era uma pequena extenso de gua a cerca de quarenta 
milhas de Odessa. A noite estava bonita e estrelada, com uma lua 
resplandecente, quase cheia. As estrelas danavam na gua e a 
atmosfera transbordava com os sons misteriosos seres invisveis 
se amavam e consumiam e eram consumidos e morriam.
Josephine e David ficaram sentados no carro, em silncio, ouvindo 
os sons da noite. Ela o observava, sentado na direco do 
automvel, o rosto bonito srio e carregado de intensidade. Nunca 
o amara tanto como naquele momento. Queria fazer alguma coisa 
maravilhosa para ele, dar-lhe alguma coisa capaz de mostrar o 
quanto o amava. E de repente soube o que iria fazer.
- Vamos nadar um pouco, David - disse ela.
- No trouxemos roupas de banho.
- No faz mal.

Ele se virou para olh-la e comeou a dizer alguma coisa, mas ela 
j tinha sado do carro e estava correndo para a praia na margem 
do lago. Quando comeava a se despir, ouviu-o aproximar-se. 
Josephine mergulhou nas guas mornas do lago. Um minuto depois 
David estava ao seu lado.
- Josie...
Ela se virou para ele, depois o abraou, seu corpo inteiro 
ardendo de desejo, ansiando por ele, faminto. Seus corpos se 
uniram dentro d'gua e Josephine sentiu a rigidez do membro 
erecto de David contra o seu corpo, e ele disse:
- Ns no podemos, Josie.
Sua voz estava embargada pela intensidade com que a queria. 
Josephine tomou o pnis de David nas mos e disse:
- Sim. Sim, David.
Voltaram para a praia e ele estava em cima dela e dentro dela e 
formando um todo com ela e eles eram ambos parte das estrelas e 
da terra e da noite aveludada.
Ficaram deitados lado a lado durante muito tempo, abraados. S 
muito mais tarde, depois de David t-la deixado em casa, foi que 
se lembrou de que ele no fizera o pedido. Mas aquilo no tinha 
mais importncia. O que tinham partilhado juntos era um elo mais 
forte do que qualquer cerimnia de casamento. No dia seguinte ele 
faria o pedido.
Josephine dormiu at ao meio-dia, no dia seguinte. Acordou com um 
sorriso no rosto. Ainda estava sorrindo quando sua me entrou no 
quarto trazendo um lindo vestido de noiva antigo.
- V at a Brubaker e me traga dez metros de tule. A Sra. Topping 
acabou de me trazer seu vestido de noiva. Tenho que ajust-lo na 
medida de Cissy at sbado. Ela e David Kenyon vo se casar.


David Kenyon tinha ido procurar a me logo depois de deixar 
Josephine em casa. Ela estava na cama, uma mulherzinha frgil, 
que outrora fora muito bonita.
Abriu os olhos quando David entrou no quarto, que estava na 
penumbra. Sorriu quando viu quem era.
- Al,, meu filho.  tarde para voc estar acordado.
- Eu sa com Josephine, mame.
Ela no disse nada, apenas o observou com os olhos cinzentos 
inteligentes.
- Vou me casar com ela - disse David.
Ela sacudiu a cabea lentamente.
- No posso deixar voc cometer um erro desses, David.
- A senhora no conhece Josephine. Ela ...
- Tenho certeza que ela  uma moa adorvel. Mas no serve para 
ser a esposa de um Kenyon. Cissy Topping faria voc feliz. Se 
voc se casasse com ela, me faria muito feliz.
David tomou a mo frgil nas suas e disse:
- Eu a amo muito mame, mas posso decidir isso por mim mesmo.
- Pode mesmo? - perguntou ela num tom suave. - Voc faz sempre a 
coisa certa?
David olhou para ela surpreso, e ela prosseguiu:
- Pode-se realmente confiar em voc, tem certeza de que vai agir 
correctamente, David? De que no vai perder a cabea? De que no 
vai fazer coisas terrveis...
Ele puxou a mo com violncia.
- Voc sempre sabe o que est fazendo, meu filho? - a voz dela 
estava ainda mais suave.

- Me, pelo amor de Deus!
- Voc j fez bastante mal a esta famlia, David. No me 
sobrecarregue ainda mais. No creio que pudesse suport-lo. 
O rosto dele estava de uma palidez doentia.
- Voc sabe que no quis... eu no pude...
- Voc j est muito grande para ser mandado para longe outra 
vez. Agora voc  um homem. Quero que aja como um homem.
A voz dele estava angustiada.
- Eu... eu a amo...
Ela teve uma crise, e David chamou o mdico. Mais tarde, o mdico 
e ele tiveram uma conversa.
- Creio que sua me no ter muito mais tempo de vida, David.
E assim a deciso foi tomada por ele.
Foi ver Cissy Topping.
- Estou apaixonado por uma outra pessoa - disse David. - Minha 
me sempre pensou que voc e eu...
- E eu tambm, querido.
- Eu sei que  uma forma terrvel de se pedir, mas... voc 
estaria disposta a se casar comigo at... at que minha me 
morra, e ento me daria o divrcio?
Cissy olhou para ele e disse baixinho.
- Se  o que voc quer, David.
Teve a sensao de que um peso insustentvel havia sido tirado de 
seus ombros.
- Obrigado, Cissy, no posso lhe dizer o quanto...
Ela sorriu e disse:
- Para que servem os velhos amigos?
No momento em que David saiu, Cissy Topping telefonou para a me 
dele. Tudo o que disse foi:
- Est tudo arranjado.

A nica coisa que David Kenyon no havia previsto era que 
Josephine fosse ouvir a notcia do casamento antes que ele 
pudesse lhe explicar tudo. Quando David chegou a sua casa foi 
recebido pela Sra. Czinski.
- Eu gostaria de ver Josephine - disse ele.
Ela lhe lanou um olhar furioso, os olhos cheios de um triunfo 
maligno.
- O Senhor Jesus vencer e aniquilar os seus inimigos e os maus 
estaro condenados  danao eterna.
David repetiu pacientemente:
- Eu gostaria de falar com Josephine.
- Ela foi embora - disse a Sra. Czinski. - Ela foi embora!

18

O nibus empoeirado da linha Odessa-El Paso-San Bernardino-Los 
Angeles entrou na estao rodoviria da Vine Street s sete horas 
da manh, e em algum lugar, durante a viagem de mil e quinhentas 
milhas, dois dias de viagem, Josephine Czinski se tornara Jill 
Castle. Na aparncia exterior ela era a mesma pessoa. Por dentro 
 que ela tinha mudado. Alguma coisa nela havia desaparecido. O 
riso tinha morrido.
No momento em que ouviu a notcia, Josephine soube que tinha que 
fugir. Comeou a atirar as roupas para dentro da mala, sem 
pensar. No tinha idia de para onde iria ou o que faria quando 
l chegasse. Sabia apenas que tinha que sair daquele lugar 
imediatamente.
Foi quando saa de seu quarto e viu as fotografias dos artistas 
de cinema na parede que soube de repente para onde iria. Duas 
horas depois estava no nibus, a caminho de Hollywood. Odessa e 
todas as pessoas foram ficando para trs em sua mente, 
desaparecendo cada vez mais depressa  medida que o nibus 
rapidamente a levava para o seu novo destino. Tentou obrigar-se a 
esquecer a terrvel dor de cabea. Talvez devesse ter consultado 
um mdico para ver o que eram aquelas violentas dores. Mas agora 
no se importava mais. Aquilo era parte do passado, e tinha 
certeza de que desapareceriam. De agora em diante a vida ia ser 
maravilhosa. Josephine Czinski estava morta.
Longa vida para Jill Castle.

19

Toby Temple tornou-se um superastro por causa da improvvel 
justaposio de uma aco de reconhecimento de paternidade, de um 
apndice supurado e do presidente dos Estados Unidos.

O Clube da Imprensa de Washington estava oferecendo um jantar 
anual, e o convidado de honra era o presidente. Ia ser um evento 
de grande importncia, com a presena do vice-presidente, dos 
senadores, membros do gabinete, juzes do Supremo e de quem quer 
que pudesse comprar, pedir ou roubar um convite. Como aquele 
acontecimento sempre recebia cobertura da imprensa internacional, 
a funo do mestre-de-cerimnias havia se tornado uma lurea 
muito disputada Naquele ano, um dos maiores comediantes da 
Amrica havia sido escolhido para ser o mestre-de-cerimnias do 
show. Uma semana depois de ele ter aceite, foi citado como ru 
numa aco de reconhecimento de paternidade envolvendo uma menina 
de quinze anos de idade. A conselho de seu advogado, o comediante 
imediatamente deixou o pas, em frias por tempo indefinido. O 
comet organizador do jantar voltou-se ento para sua escolha 
nmero 2, um astro de cinema e televiso de grande popularidade. 
Ele deixou a Washington na noite anterior ao jantar. Na tarde 
seguinte, no dia do banquete, seu agente telefonou para avisar 
que o actor principal estava no hospital, sendo submetido a uma 
operao de emergncia de apndice supurado.
S faltavam seis horas para o jantar. O comit examinou 
freneticamente uma lista de possveis substitutos. Os mais 
importantes estavam ocupados, uns filmando, outros fazendo shows 
para a televiso, ou ento longe demais para chegar a Washington 
a tempo. Um por um, os candidatos foram sendo eliminados e 
finalmente, quase no fim da lista, apareceu o nome de Toby 
Temple. Um dos membros do comit balanou a cabea.
- Temple  um cmico de cabar. No tem nenhuma moderao. No 
podemos nem sonhar solt-lo diante do presidente.
- Ele at que serviria se consegussemos dar uma burilada no seu 
material.
O presidente do comit olhou  sua volta e disse:
- Vou dizer a vocs o que  fantstico nele, amigos. Ele est em 
Nova York e pode estar aqui dentro de uma hora. O maldito jantar 
 hoje  noite!
Foi assim que o comit escolheu Toby Temple.

Quando Toby correu o olhar pelo grande salo de banquetes, pensou 
que se uma bomba fosse lanada ali dentro, naquela noite, o 
governo dos Estados Unidos estaria sem lderes.
O presidente estava sentado no centro da mesa dos oradores, na 
plataforma. Meia dzia de homens do servio secreto estavam 
postados atrs dele. Na correria de ltimo minuto para organizar 
tudo, ningum tinha se lembrado de apresentar Toby ao presidente, 
mas ele no se importou. "O presidente vai se lembrar de mim", 
pensou. Recordou seu encontro com Downey, o presidente do comit 
organizador do jantar. Downey havia dito:

- Ns adoramos suas piadas, Toby. Voc  engraadssimo quando 
ridiculariza as pessoas. Enquanto... - fez uma pausa para 
pigarrear - temos um grupo de pessoas muito... muito sensveis 
aqui, hoje  noite. No me compreenda mal. No  que no possam 
suportar uma piadinha, mas tudo que for dito aqui hoje  noite 
ser repetido pela imprensa no mundo inteiro. Naturalmente, 
nenhum de ns quer que seja dita alguma coisa capaz de expor ao 
ridculo o presidente dos Estados Unidos ou os membros do 
Congresso. Em outras palavras, queremos que voc seja engraado, 
mas no que deixe algum zangado.
- Pode confiar em mim.
E Toby havia sorrido.
As travessas do jantar estavam sendo retiradas, e Downey estava 
de p diante do microfone.
- Senhor presidente, ilustres convidados, tenho o prazer de 
apresentar-lhes o nosso mestre-de-cerimnia, um de nossos mais 
brilhante jovens comediantes, Sr. Toby Temple!
O pblico aplaudiu polidamente quando Toby se levantou e foi 
andando em direco ao microfone. Olhou para a plateia, depois 
virou-se para o presidente dos Estados Unidos.
O presidente era um homem simples e caseiro. No acreditava no 
que chamava diplomacia de cartola.
"De pessoa para pessoa", havia dito num pronunciamento  nao, 
" desse tipo de dilogo que precisamos. Temos que acabar com 
essa histria de viver na dependncia de computadores e comear a 
confiar nos nossos instintos de novo. Quando me sento para 
conversar com os lderes de potncias estrangeiras, gosto de 
negociar pelos fundilhos das minhas calas."
Esta frase tinha se tornado um dito popular.
Naquele momento Toby olhou para o presidente dos Estados Unidos e 
disse, com a voz embargada pelo orgulho:
- Senhor presidente, no posso nem lhe dizer que emoo  para 
mim estar aqui no mesmo palco que o homem que tem o mundo inteiro 
directamente ligado ao seu rabo.
Um murmrio de horror percorreu a sala por um longo momento. 
Ento o presidente sorriu, depois deu uma gargalhada, e a plateia 
explodiu de repente, rindo e aplaudindo. Daquele momento em 
diante, nada que Toby fizesse poderia ter maus resultados. Ele 
atacou os senadores presentes, a Suprema Corte, a imprensa. Eles 
adoraram. Gritavam, davam vivas e aplaudiam porque sabiam que 
Toby no estava falando srio nem por um segundo. Era 
extremamente engraado ouvir aqueles insultos da boca daquele 
rapaz de rosto inocente e infantil. Havia representantes de 
pases estrangeiros  festa, naquela noite. Toby dirigiu-se a 
eles num arremedo incoerente de seus idiomas, mas cujo som e 
ritmo eram to plausveis e verdadeiros que eles balanavam a 
cabea, concordando. Ele era um sbio idiota, fazendo um discurso 
de insultos que os engrandecia, os repreendia, e o significado 
daquele louco linguajar inarticulado era to popular que todas as 
pessoas presentes naquela sala compreendiam o que estava dizendo.
O pblico o aplaudiu de p. O presidente foi at junto dele e 
disse:
- Foi brilhante, realmente brilhante. Vamos oferecer um jantar na 
Casa Branca, na segunda-feira  noite, Toby , e eu ficaria 
encantado...
No dia seguinte, todos os jornais escreveram a respeito do 
triunfo de Toby. Seus comentrios foram repetidos por toda a 
parte. Foi convidado a se apresentar na Casa Branca. L, causou 
ainda maior sensao. Convites importantes comearam a chover, 
vindos do mundo inteiro.

Toby apresentou-se no Paladium de Londres, deu um espectculo 
particular para a rainha, foi convidado para ser 
mestre-de-cerimnias em concertos de caridade e fazer parte do 
comit Nacional de Arte. Jogava golfe frequentemente com o 
presidente e era convidado para jantar na Casa Branca com 
regularidade. Toby conheceu legisladores, governadores e os 
homens que dirigiam as maiores empresas americanas. Insultou 
todos eles, e quanto mais os atacava mais encantados ficavam. 
Adoravam ter Toby presente em suas reunies, lanando o seu humor 
custico sobre seus convidados. A amizade de Toby tornou-se um 
smbolo de prestgio.
As ofertas que surgiam eram fenomenais. Clifton Lawrence estava 
to entusiasmado com elas quanto Toby, e seu entusiasmo nada 
tinha a ver com negcios e dinheiro. Toby havia sido a coisa mais 
maravilhosa que lhe acontecera em anos, pois para ele era como se 
fosse seu filho. Tinha consagrado mais tempo  sua carreira do 
que  de qualquer outro cliente, mas valera a pena. O rapaz 
trabalhava seriamente, aperfeioara seu talento at que brilhasse 
como um diamante. E era reconhecido e generoso, coisa rara 
naquele ramo de negcio.
- Todos os grandes hotis de Las Vegas esto atrs de voc - 
disse Clifton Lawrence a Toby. - Dinheiro no  problema. Eles 
querem voc e ponto final. Tenho uma srie de scripts na minha 
escrivaninha, da Fox, da Universal, da Pan-Pacific... em todos o 
papel principal. Voc pode fazer uma tourne pela Europa, ou ter 
o seu show de televiso em qualquer uma das redes. Isso ainda lhe 
daria tempo para fazer a temporada de Las Vegas e um filme por 
ano.
- Quanto  que eu poderia ganhar com um show na televiso, 
Clifton?- Acho que posso faz-los subir at doze mil por semana 
por uma hora de espectculo de variedades. Tero que nos dar um 
contrato de dois anos, talvez trs. Se realmente quiserem voc, 
aceitaro. 
Toby recostou-se no sof, exultante. Dez mil por um show, 
digamos, quarenta shows por ano. Em trs anos aquilo lhe renderia 
mais de um milho de dlares, s para dizer ao mundo o que achava 
dele! Olhou para Clifton. O homenzinho estava tentando manter uma 
fachada impassvel, mas Toby podia ver que ele estava ansioso. 
Queria que ele fizesse o negcio com a televiso. Por que no? 
Clifton recebia uma comisso de cento e vinte mil dlares s 
custas do talento e do suor de Toby. Ser que Clifton merecia uma 
quantia daquelas? Nunca tivera que trabalhar como um louco em 
boatezinhas imundas ou aguentar plateias de bbados atirando 
garrafas de cerveja vazias, ou ento procurar curandeiros 
gananciosos para se tratar de gonorria, porque as nicas 
mulheres disponveis eram as prostitutas ordinrias e doentes do 
circuito dos banheiros. Que  que Clifton Lawrence sabia dos 
quartinhos cheios de baratas, da comida gordurosa e da procisso 
interminvel de viagens nocturnas de nibus, indo de um buraco 
infernal para outro? Ele nunca poderia compreender. Um crtico 
havia-lhe prognosticado um sucesso passageiro, e Toby achara 
graa. Agora, sentado no escritrio de Clifton Lawrence, ele 
disse:
- Quero o meu show de televiso.
Seis semanas depois, o contrato foi assinado com a Consolidated 
Broadcasting.

- A rede de tev quer que um estdio faa o financiamento dos 
custos da produo - disse Clifton Lawrence. - Gosto dessa idia 
porque posso aproveitar a oportunidade para ver se negocio um 
contrato para um filme.
- Qual  o estdio?
- Pan-Pacific. 
Toby franziu o cenho.
- Sam Winters?
- Isso mesmo. Para mim, ele  o melhor executivo do ramo. Alm 
disso, ele tem um negcio que eu quero ver se consigo para voc, 
o script de The kid goes west.
- Servi o Exrcito com Winters. Est bem. Mas ele fez uma sujeira 
comigo. Seja duro com ele!
Clifton Lawrence e Sam Winters estavam na sauna do Pan-Pacific 
Studios, respirando a essncia do eucalipto do ar.
- Isto  que  vida - o empresrio baixinho suspirou. - Quem quer 
saber de dinheiro?
Sam sorriu.
- Por que  que voc no fala assim quando estamos tratando de 
negcios, Clifton?
- No quero mimar voc, meu caro rapaz.
- Ouvi dizer que voc fechou um contrato para Toby Temple com a 
Consolidated Broadcasting.
- Pois . Foi o maior contrato que eles j fizeram.
- Onde  que voc vai fazer o financiamento da produo do show?
- Por qu, Sam?
- Isso poderia nos interessar. Eu poderia at juntar uma proposta 
de contrato de filmagem. Acabei de comprar uma comdia chamada 
The kid goes west. Ainda no foi anunciado. Acho que seria 
perfeito para o papel.
Clifton Lawrence franziu o cenho e disse:
- Merda! Gostaria de ter sabido isso antes, Sam. J negociei o 
contrato com a MGM.
- Mas voc j fechou?
- Bem, praticamente. Eu dei a minha palavra...
Vinte minutos depois, Clifton Lawrence tinha negociado um 
contrato muito lucrativo para Toby Temple, segundo o qual a 
Pan-Pacific produziria o Toby Temple Shows, dando-lhe o papel 
principal no filme The kid goes west.
As negociaes poderiam ter durado mais, mas a sala de vapor 
tornara-se insuportavelmente quente.
Uma das clusulas do contrato estabelecia que Toby no teria que 
estar presente aos ensaios. Um substituto ensaiaria os quadros 
cmicos e os nmeros de dana com os astros convidados e ele s 
aparecia para o ensaio final e para a gravao. Desta maneira, 
Toby fazia com que seu nmero se mantivesse interessante e 
divertido.
Na tarde da estria do show, em setembro de 1959, Toby entrou no 
teatro da Vine Street onde o show seria gravado e sentou-se para 
assistir ao ensaio. Quando terminou, tomou o lugar de seu 
substituto. De repente, o teatro se encheu de electricidade. O 
show ganhou vida, crepitou e soltou fagulhas. E quando depois de 
gravado foi para o ar, naquela noite, quarenta milhes de pessoas 
assistiram a ele. Era como se a televiso tivesse sido inventada 
especialmente para Toby Temple. Em closeup, ele era ainda mais 
adorvel, e todo mundo o queria presente na sua sala. O show foi 
um sucesso imediato. Saltou directo para o primeiro lugar nos 
ndices de audincia e ali permaneceu. Toby Temple no era mais 
um astro.

Ele tinha se tornado um superastro.

20

Hollywood era muito mais cheia de vida e de animao do que Jill 
Castle jamais podia imaginar. Ela fez excurses tursticas e viu 
as casas de alguns artistas. Sabia que um dia teria uma casa 
bonita em Bel Air ou em Beverly Hills. Enquanto isso no 
acontecia, morava numa velha penso, um horrendo prdio de 
madeira que havia sido convertido numa casa de doze cmodos, 
ainda mais horrenda, com quartinhos minsculos. O quarto era 
barato, o que significava que ela poderia fazer render os 
duzentos dlares que economizara. A casa ficava no bairro de 
Bronson, a alguns minutos de Hollywood e da Vine Street, o 
corao de Hollywood, e era conveniente pela proximidade dos 
estdios de cinema.
Havia um outro aspecto na casa que atraa Jill. Havia uma dzia 
de pensionistas, e todos eles estavam tentando trabalhar em 
cinema ou j trabalhavam como extras ou em papis secundrios, ou 
ento tinham se aposentado. Os mais antigos vagueavam pela casa 
com robes amarelados e rolinhos nos cabelos, ternos pudos e 
sapatos to arranhados que nenhum graxa daria jeito neles. Os 
pensionistas tinham aparncia acabada, cansada, pior que a 
velhice. Havia um salo de uso comum , com a moblia gasta e 
quebrada, onde todos se reuniam durante a noite para tagarelar e 
falar mal da vida alheia. Todos davam conselhos a Jill, a maioria 
deles contraditrios.
- Querida, a melhor maneira de conseguir um papel num filme  
arranjar um AD que goste de voc.
Este ela ouviu de uma senhora de rosto azedo que havia sido 
recentemente despedida de uma srie de televiso.
- O que  um AD? - perguntou Jill.
- Um assistente de direco - respondeu num tom que lamentava a 
ignorncia de Jill. -  quem contrata os figurantes.
Jill estava embaraada demais para perguntar o que eram 
figurantes.
- Se voc quiser o meu conselho, trate de arranjar um director de 
elenco. Um AD s poder encaixar voc no filme dele. Um director 
de elenco pode encaixar voc em tudo - disse uma velha desdentada 
que devia estar com cerca de oitenta anos.
- Ah, ? A maioria deles  bicha - disse um actor calvo.
- Qual  a diferena? Isto , se d um empurro na gente? - disse 
um rapazinho de culos que ansiava desesperadamente tornar-se 
escritor.
- E que tal comear como extra? - perguntou Jill. - A central de 
elenco...
- Esquea. Os livros da central de elenco esto fechados. Eles 
nem ao menos o inscrevem, a menos que voc seja uma 
especialidade.
- Des... desculpe, mas o que  uma especialidade?

- Se, por exemplo, voc tiver um membro amputado. Isso paga 
trinta e trs e cinquenta e oito em vez dos vinte e um e 
cinquenta habituais. Se voc tem trajes a rigor, ou sabe montar 
um cavalo, voc recebe vinte e oito e trinta e trs. Se voc 
souber manipular bem as cartas ou os dados, pagam-lhe vinte e 
oito e trinta e trs... Se voc souber jogar futebol americano ou 
beisebol, pagam trinta e trs e cinquenta e oito, o mesmo que um 
membro amputado. Se souber montar um camelo ou um elefante, so 
cinquenta e cinco e noventa e quatro. Oua meu conselho, esquea 
essa histria de ser extra. Tente conseguir uma ponta.
- No sei muito bem qual  a diferena - admitiu Jill.
- Fazendo ponta voc tem pelo menos uma frase para dizer. Os 
extras no tm direito a falar, excepto os omnipresentes.
- Os qu?
- Os omnipresentes... os que fazem os rudos de fundo.
- A primeira coisa que voc tem que fazer  arranjar um 
empresrio.
- Como arranjo um?
- H uma lista com os nomes de todos eles na Screen Actor.  a 
revista do Sindicato dos Artistas de Cinema. Tenho um exemplar no 
meu quarto. Vou buscar.
Todos examinaram a lista com Jill, e finalmente a limitaram a uma 
dzia de empresrios de menor porte. A opinio unnime era que 
Jill no teria nenhuma chance numa agncia maior.
Armada de sua lista, Jill comeou a fazer as rondas. Os seis 
primeiros empresrios nem quiseram receb-la. Encontrou o stimo 
quando ia saindo do escritrio.
- Com licena - disse Jill. - Estou procurando um empresrio.
Ele a examinou um momento e disse:
- Deixe-me ver seu portfolio.
Ela olhou para ele sem compreender.
- Meu qu?
- Voc deve ter acabado de descer do nibus. No vai conseguir 
nada nesta cidade sem portfolio. Trate de tirar algumas 
fotografias. Em poses diferentes e atraentes. Mostrando os peitos 
e o traseiro.
Jill arranjou um fotgrafo em Culver City, perto dos David 
Selznick Studios, que fez seu portfolio por trinta e cinco 
dlares. Foi apanhar as fotografias uma semana depois e ficou 
muito satisfeita com elas. Estava bonita, todos os seus estados 
de esprito haviam sido capturados pela cmara. Estava 
pensativa... zangada... apaixonada... sexi. O fotografo havia 
reunido as fotos num livro, intercaladas com pginas de celofane.
- Aqui na frente - explicou - voc relaciona os trabalhos que j 
fez, a sua experincia.
Experincia profissional. Aquele era o prximo passo.
Ao fim das duas semanas que se seguiram, Jill j tinha visto ou 
tentado ver todos os empresrios de sua lista. Nenhum estava nem 
remotamente interessado. Um deles lhe disse:
- Voc esteve aqui ontem, querida.
Ela sacudiu a cabea.
- No, no estive.
- Bem, ela era igualzinha a voc. Este  que  o problema. Vocs 
so todas parecidas com Elizabeth Taylor ou com Lana Turner ou 
com Ava Gardner. Se estivesse em qualquer outra cidade, tentando 
arranjar outro tipo de emprego, logo contratariam voc.  bonita, 
atraente e tem um belo corpo. Mas, em Hollywood, a beleza  como 
remdio  venda nas farmCIAS. MOAS BONITAS VM PARA C DE TODAS AS PARTES DO MUNDO. FIZERAM O PAPEL PRINCIPAL NA PEA DA ESCOLA SECUNDRIA OU GANHARAM UM CONCURSO 
DE BELEZA OU OS NAMORADOS DISSERAM QUE DEVERIAM ESTAR FAZENDO CINEMA... E PIMBA C ESTO ELAS AOS MILHARES, E SO TODAS A MESMA GAROTA. ACREDITE-ME, QUERIDA, VOC 
ESTEVE AQUI ONTEM.OS PENSIONISTAS AJUDARAM JILL A FAZER UMA OUTRA LISTA DE EMPRESRIOS. OS ESCRITRIOS ERAM MENORES, LOCALIZADOS NOS BAIRROS DE ALUGUIS MAIS BARATOS, 
MAS OS RESULTADOS FORAM OS MESMOS.- VOLTE QUANDO TIVER ALGUMA EXPERINCIA, MENINA. VOC TEM ESTAMPA, E NO QUE ME DIZ RESPEITO PODERIA SER O MAIOR ACONTECIMENTO DESDE 
A DESCOBERTA DE GARBO, MAS NO POSSO PERDER O MEU TEMPO TENTANDO DESCOBRIR. TRATE DE ARRANJAR ALGUMA EXPERINCIA NA TELA E SEREI SEU EMPRESRIO.- COMO  QUE VOU 
ARRANJAR ALGUMA EXPERINCIA NA TELA SE NINGUM ME D UM EMPREGO?ELE BALANOU A CABEA.-  ISSO A.  ESSE O PROBLEMA.S RESTAVA UMA AGNCIA NA LISTA DE JILL. HAVIA 
SIDO RECOMENDADA POR UMA GAROTA AO LADO DE QUEM SE SENTARA NO BAR MAYFLOWER, NO HOLLYWOOD BOULEVARD. A AGNCIA DUNNING FICAVA NUM BANGALOZINHO NA ALTURA DE LA CIENEGA, 
NUMA REA RESIDENCIAL. JILL HAVIA TELEFONADO MARCANDO UMA ENTREVISTA E UMA MULHER LHE DISSERA QUE FOSSE S SEIS HORAS.JILL ENTROU NUM PEQUENO ESCRITRIO QUE FORA 
OUTRORA A SALA DE VISITAS DE ALGUM. HAVIA UMA VELHA ESCRIVANINHA TODA ARRANHADA E CHEIA DE PAPIS, UM SOF FORRADO COM UMA IMITAO DE COURO, REMENDADO COM ESPARADRAPO 
BRANCO, E TRS CADEIRAS ESPALHADAS PELO APOSENTO. UMA MULHER ALTA, CORPULENTA, DE ROSTO MARCADO PELA VAROLA, SAIU DE UM OUTRO CMODO E DISSE:- AL. EM QUE POSSO 
AJUD-LA?- SOU JILL CASTLE. TENHO UMA HORA MARCADA PARA VER O SR. DUNNING.- SENHORITA DUNNING - DISSE A MULHER. - SOU EU.- OH - EXCLAMOU JILL, SURPREENDIDA. - DESCULPE-ME, 
EU PENSEI...A MULHER RI DE MANEIRA SIMPTICA E AMISTOSA.- NO TEM IMPORTNCIA.MAS TEM IMPORTNCIA, PENSOU JILL, CHEIA DE UMA ANIMAO REPENTINA. POR QUE  QUE NO 
LHE HAVIA OCORRIDO ANTES? UMA EMPRESRIA ALGUM QUE PASSARA POR TODOS OS TRAUMAS, ALGUM QUE COMPREENDERIA O QUE SIGNIFICAVA SER UMA JOVEM QUERENDO RECOMEAR. TERIA 
MAIS SIMPATIA POR SEU CASO DO QUE QUALQUER HOMEM PODERIA TER.- ESTOU VENDO QUE VOC TROUXE SEU PORTFOLIO - DISSE A SENHORITA DUNNING. - POSSO EXAMIN-LO?-  CLARO 
- DISSE JILL, ENTREGANDO-O.A MULHER SE SENTOU, ABRIU O PORTFOLIO E COMEOU A VIRAR AS PGINAS, BALANANDO A CABEA DE MANEIRA APROVADORA.- A CMARA GOSTA DE VOC.JILL 
NO SABIA O QUE DIZER.- OBRIGADA.A EMPRESRIA EXAMINOU AS FOTOGRAFIAS DE JILL EM ROUPA DE BANHO.- VOC TEM UM PTIMO CORPO. ISSO  IMPORTANTE. DE ONDE VOC ?- DO 
TEXAS - DISSE JILL. - ODESSA.- H QUANTO TEMPO EST EM HOLLYWOOD, JILL?- H CERCA DE DOIS MESES.- QUANTOS EMPRESRIOS J PROCUROU?POR UM INSTANTE JILL SE SENTIU 
TENTADA A MENTIR, MAS S HAVIA COMPAIXO E COMPREENSO NOS OLHOS DA MULHER. CERCA DE UNS TRINTA, ACHO.A EMPRESRIA RIU.- ENTO VOC FINALMENTE VEIO PROCURAR ROSE 
DUNNING. BEM, PODERIA TER SIDO PIOR. NO SOU MCA OU WILLIAM MORRIS. EU SOU UMA ESPCIE DE PORTA DE ENTRADA. DOU UM EMPURRO INICIAL NOS JOVENS DE TALENTO E ENTO 
AS GRANDES AGNCIAS OS TOMAM DE MIM.PELA PRIMEIRA VEZ EM SEMANAS, JILL COMEOU A SENTIR ALGUMA ESPERANA.- ACHA... ACHA QUE ESTARIA INTERESSADA EM SER MINHA EMPRESRIA? 
- PERGUNTOU.A MULHER SORRIU.- TENHO CLIENTES TRABALHANDO QUE NO TM NEM A METADE DE SUA BELEZA. ACHO QUE POSSO ARRANJAR TRABALHO PARA VOC.  A NICA MANEIRA DE 
CONSEGUIR UM POUCO DE EXPERINCIA, CERTO?JILL SENTIU-SE TOMADA POR GRATIDO.- O PROBLEMA DESTA MALDITA CIDADE  QUE ELES NO DO UMA OPORTUNIDADE A GENTE JOVEM COMO 
VOC. TODOS OS ESTDIOS VIVEM ALARDEANDO QUE ESTO LOUCOS ATRS DE NOVOS TALENTOS E DEPOIS LEVANTAM UM PAREDO E NO DEIXAM NINGUM ENTRAR. BEM, NS OS ENGANAREMOS. 
SEI DE TRS COISAS QUE VOC PODERIA FAZER. UM PROGRAMA CMICO VESPERTINO, UMA PONTA NO FILME DE TOBY TEMPLE E UM PAPEL SECUNDRIO NO NOVO FILME DE TESSIE BRAND.A 
CABEA DE JILL ESTAVA GIRANDO.- MAS ACHA QUE ELES...- SE EU RECOMENDAR VOC, ELES ACEITARO. EU NO MANDO CLIENTES QUE NO SIRVAM. SO APENAS PONTAS, MAS SER UM 
COMEO. - NEM POSSO LHE DIZER COMO LHE FICARIA GRATA - DISSE JILL.- ACHO QUE TENHO UM SCRIPT.ROSE DUNNING LEVANTOU-SE COM ESFORO E DIRIGIU-SE A OUTRO APOSENTO, 
FAZENDO SINAL A JILL PARA SEGUI-LA.ERA UM QUARTO COM UMA CAMA DE CASAL NUM CANTO, SOB A JANELA, E UM ARQUIVO, ABRIU UMA GAVETA, TIROU O SCRIPT E O LEVOU AT JILL.- 
AQUI EST. O DIRECTOR DE ELENCO  UM BOM AMIGO MEU E, SE VOC SE SAIR BEM NISSO, ELE A MANTER OCUPADA.- EU ME SAIREI BEM - PROMETEU JILL COM FERVOR.A MULHER SORRIU 
E DISSE:-  CLARO QUE NO POSSO RECOMENDAR O QUE NO CONHEO. VOC SE IMPORTA DE LER ISTO PARA MIM?- NO,  CLARO QUE NO.A EMPRESRIA ABRIU A PASTA COM O SCRIPT 
E SENTOU-SE NA CAMA.- VAMOS LER ESTA CENA.JILL SENTOU-SE NA CAMA AO LADO DELA E OLHOU PARA O SCRIPT.- SUA PERSONAGEM  NATALIE.  UMA MOA RICA, CASADA COM UM FRACOTE. 
DECIDIU-SE DIVORCIAR-SE DELE, MAS ELE NO CONCORDA. VOC ENTRA AQUI.JILL PASSOU OS OLHOS PELA CENA RAPIDAMENTE, GOSTARIA DE TER TIDO A OPORTUNIDADE DE ESTUDAR O 
SCRIPT DURANTE A NOITE OU PELO MENOS POR UMA HORA. ESTAVA DESESPERADAMENTE ANSIOSA PARA CAUSAR BOA IMPRESSO.- PRONTA?- EU... EU ACHO QUE SIM - DISSE JILL.FECHOU 
OS OLHOS E TENTOU PENSAR COMO A PERSONAGEM. UMA MULHER RICA. COMO AS MES DAS SUAS AMIGAS COM QUEM TINHA CRESCIDO, QUE ACHAVAM NATURAL TER TUDO QUE QUISESSEM NA 
VIDA E QUE AS OUTRAS PESSOAS ESTAVAM ALI PARA ATENDER S SUAS CONVENINCIAS. AS CISSY TOPPING DO MUNDO. ELA ABRIU OS OLHOS, OLHOU PARA O SCRIPT E COMEOU A LER.- 
QUERO FALAR COM VOC, PETER.- NO PODE ESPERAR? - ERA ROSE DUNNING, DANDO-LHE A DEIXA.- ACHO QUE J ESPEREI TEMPO DEMAIS. VOU APANHAR O AVIO PARA RENO ESTA TARDE.- 
ASSIM, SEM MAIS NEM MENOS?- NO, VENHO TENTANDO APANHAR ESTE AVIO H CINCO ANOS, PETER, . DESTA VEZ VOU CONSEGUIR.JILL SENTIU A MO DE ROSE DUNNING BATENDO DE LEVE 
NA SUA COXA.- EST MUITO BOM - DISSE ELA EM TOM APROVADOR. - CONTINUE LENDO - E DEIXOU A MO FICAR NA PERNA DE JILL.- SEU PROBLEMA  QUE VOC AINDA NO CRESCEU. 
AINDA VIVE BRINCANDO. BEM, DE AGORA EM DIANTE, VAI TER QUE BRINCAR SOZINHO.A MO DE ROSE DUNNING ACARICIAVA A SUA COXA. ERA DESCONCERTANTE.- PTIMO. CONTINUE - DISSE 
ELA.- EU... EU NO QUERO QUE VOC TENTE ENTRAR EM CONTACTO COMIGO NUNCA MAIS. ESTOU SENDO BASTANTE CLARA?A MO ACARICIAVA MAIS RPIDO, SUBINDO EM DIRECO  VIRILHA 
DE JILL. ELA BAIXOU O SCRIPT E OLHOU PARA ROSE DUNNING. O ROSTO DA MULHER ESTAVA CORADO, OS OLHOS VIDRADOS.- CONTINUE LENDO - DISSE ELA COM VOZ ROUCA.- EU... EU 
NO POSSO - DISSE JILL. - SE VOC...A MO DA MULHER COMEOU A SE MOVER MAIS DEPRESSA.- ISSO  PARA QUE VOC ENTRE NO ESTADO DE ESPRITO CERTO.  UMA BRIGA LIGADA 
A SEXO, SABE. QUERO QUE VOC SINTA O SEXO EM VOC.AGORA A MO DELA ESTAVA PRESSIONANDO COM MAIS FORA, MOVENDO-SE ENTRE AS PERNAS DE JILL.- NO - JILL SE LEVANTOU, 
TREMENDO DOS PS  CABEA.A SALIVA IA ESCORRENDO PELO CANTO DA BOCA DA MULHER.- SEJA BOAZINHA COMIGO E EU SEREI COM VOC - IMPLORAVA. - VENHA C, QUERIDA - ESTENDEU 
OS BRAOS, TENTANDO AGARR-LA, E JILL FUGIU CORRENDO.NA RUA, VOMITOU. MESMO DEPOIS QUE OS TERRVEIS ESPASMOS PASSARAM E O ESTMAGO SE ACALMOU, NO SE SENTIU MELHOR. 
A DOR DE CABEA TINHA COMEADO DE NOVO.NO ERA JUSTO. AS DORES DE CABEA NO LHE PERTENCIAM, MAS A JOSEPHINE CZINSKI.DURANTE OS QUINZE MESES SEGUINTES, JILL CASTLE 
TORNOU-SE UM MEMBRO EFECTIVO DOS SOBREVIVENTES, A TRIBO DE PESSOAS QUE VIVIAM  MARGEM DO MUNDO DOS ESPECTCULOS, QUE PASSAVA ANOS E S VEZES UMA VIDA INTEIRA TENTANDO 
ENTRAR NO NEGCIO, TRABALHANDO TEMPORARIAMENTE EM OUTROS EMPREGOS. O FACTO DE OS EMPREGOS TEMPORRIOS DURAREM S VEZES DEZ OU QUINZE ANOS NO OS DESENCORAJAVA.COMO 
AS TRIBOS ANTIGAS QUE OUTRORA SE SENTAVAM EM VOLTA DA FOGUEIRA PARA CONTAR E REPETIR SAGAS DE FEITOS E ACTOS DE BRAVURA, OS SOBREVIVENTES SE SENTAVAM NA SCHWABS, 
SEMPRE REPETINDO OS CONTOS HISTRICOS DO MUNDO DOS ESPECTCULOS, FAZENDO RENDER XCARAS DE CAF FRIO ENQUANTO TROCAVAM AS LTIMAS FOFOCAS E DICAS DE COXIA. ESTAVAM 
FORA DO NEGCIO E, NO ENTANTO, DE ALGUMA MANEIRA MISTERIOSA, ACHAVAM-SE BEM NO MAGO DE TUDO. SABIAM QUAL ERA A ESTRELA QUE IA SER SUBSTITUDA, QUE PRODUTOR TINHA 
SIDO APANHADO DORMINDO COM O DIRECTOR, QUE EXECUTIVO IA SER PROMOVIDO. SABIAM ESSAS COISAS ANTES DE QUALQUER OUTRA PESSOA, ATRAVS DA SUA ESPCIE PARTICULAR DE TAMBORES 
DE SELVA. POIS O NEGCIO ERA UMA SELVA. NO TINHAM ILUSES A RESPEITO DISSO. AS QUE LHES RESTAVAM ESTAVAM VOLTADAS PARA UM OUTRO RUMO. ACHAVAM QUE PODERIAM ENCONTRAR 
UMA MANEIRA DE PASSAR PELOS PORTES DOS ESTDIOS, ESCALAR SEUS MUROS. ERAM ARTISTAS, ERAM OS ESCOLHIDOS. HOLLYWOOD PARA ELES ERA JERIC. JOSU FARIA SOAR SUA TROMBETA 
DE OURO, OS PODEROSOS PORTES TOMBARIAM DIANTE DELES, SEUS INIMIGOS SERIAM ANIQUILADOS E ENTO A VARINHA DE CONDO DE SAM WINTERS SE MOVERIA E ELES, DE REPENTE, 
ESTARIAM VESTINDO ROUPAS DE SEDA E SERIAM ASTROS DE CINEMA E SERIAM ADORADOS PARA TODO O SEMPRE POR UM PBLICO AGRADECIDO, AMM. O CAF DA SCHWABS ERA UM INEBRIANTE 
VINHO SACRAMENTAL, E ELES ERAM OS DISCPULOS DO FUTURO, ACONCHEGANDO-SE UNS AOS OUTROS EM BUSCA DE CONFORTO, AQUECENDO-SE UNS AOS OUTROS COM SEUS SONHOS, PRESTES 
A REALMENTE CONSEGUIR. TINHAM CONHECIDO UM ASSISTENTE DE DIRECO, QUE LHES HAVIA FALADO DE UM PRODUTOR, QUE TINHA DITO QUE UM DIRECTOR DE ELENCO HAVIA PROMETIDO, 
E ENTO, A QUALQUER MOMENTO, A REALIDADE ESTARIA AO ALCANCE DELES.NESSE MEIO TEMPO, TRABALHAVAM EM SUPERMERCADOS, GARAGENS, SALES DE BELEZA E LAVADORES DE AUTOMVEIS. 
VIVIAM UNS COM OS OUTROS E SE CASAVAM ENTRE SI E SE DIVORCIAVAM E NUNCA PERCEBIAM COMO O TEMPO OS ESTAVA TRAINDO. NO SE DAVAM CONTA DAS NOVAS RUGAS QUE SURGIAM, 
DAS TMPERAS FICANDO GRISALHAS E DE QUE ERA PRECISO MAIS MEIA HORA, TODA A MANH, PARA FAZER A MAQUILHAGEM. TINHAM FICADO GASTO SEM TEREM SIDO USADOS, ENVELHECIDO 
SEM TER AMADURECIDO, VELHOS DEMAIS PARA UMA CARREIRA EM UMA AGNCIA DE MODELOS, VELHOS DEMAIS PARA TER FILHOS, VELHOS DEMAIS PARA AQUELES PAPIS MAIS JOVENS, OUTRORA 
TO COBIADOS.AGORA ERAM ACTORES QUE REPRESENTAVAM PERSONAGENS CARICATAS. MAS AINDA SONHAVAM.AS MOAS MAIS JOVENS E MAIS BONITAS ESTAVAM GANHANDO O QUE SE CHAMAVA 
DINHEIRO DE COLCHO.- POR QUE SE ESGOTA NUM EMPREGUINHO QUALQUER DAS NOVE S CINCO QUANDO TUDO O QUE SE TEM DE FAZER  DEITAR ALGUNS MINUTOS E GANHAR VINTE DLARES 
FCEIS? S AT O EMPRESRIO TELEFONAR.JILL NO ESTAVA INTERESSADA. SEU NICO INTERESSE NA VIDA ERA SUA CARREIRA. UMA GAROTA POLONESA SEM DINHEIRO NUNCA PODERIA SE 
CASAR COM DAVID KENYON. AGORA ELA SABIA DISSO. Mas Jill Castle, a 
estrela de cinema, poderia ser qualquer pessoa e qualquer coisa 
que quisesse. A menos que no o conseguisse. Ento voltaria a ser 
Josephine Czinski de novo.
Nunca deixaria que isso acontecesse.
O primeiro trabalho de Jill como actriz veio atravs de Harriet 
Marcus, uma sobrevivente que tinha um primo em terceiro grau, 
cujo ex-cunhado era subassistente de direco num seriado de 
televiso sobre mdicos que estava sendo filmado nos Universal 
Studios. Ele concordou em dar uma oportunidade a Jill. O papel 
consistia em uma nica linha, pela qual Jill receberia cinquenta 
e sete dlares, menos as dedues do seguro, impostos e 
contribuio para a Casa dos Artistas de Cinema. Jill ia 
desempenhar o papel de uma enfermeira. De acordo com o script, 
ela estava num quarto de hospital ao lado de um paciente, 
tomando-lhe o pulso quando o mdico entrava.
MDICO: - Como vai ele, enfermeira?
ENFERMEIRA: - Acho que nada bem, doutor.
E isso era tudo.

Jill recebeu uma nica folha mimeografada de script, numa 
segunda-feira  noite, e disseram-lhe que devia apresentar-se 
para fazer a maquilhagem s seis horas da manh seguinte. Ela 
ensaiou a cena dezenas de vezes. Desejava que o estdio tivesse 
lhe mandado o script inteiro. Como  que esperavam que ela 
descobrisse como era a personagem atravs de apenas uma pgina? 
Jill tentou analisar que tipo de mulher a enfermeira poderia ser. 
Ser que ela era casada? Solteira? Poderia estar secretamente 
apaixonada pelo mdico. Ou quem sabe eles haviam tido um caso que 
chegara ao fim? Que  que ela sentia com relao ao paciente? 
Ser que ela detestava a idia de que ele fosse morrer? Ou isso 
seria uma bno?
- Acho que nada bem, doutor -, ela tentou dar uma nota de 
preocupao  sua voz.
Tentou de novo:
- Nada bem, doutor. Acho - assustada. Ele ia morrer.
- Acho que nada bem, doutor - acusadora. Era culpa do mdico. Se 
ele no tivesse sado com a amante...
Jill passou a noite inteira acordada, preparando o papel, tensa 
demais para dormir, mas pela manh, quando se apresentou no 
estdio, sentia-se feliz e cheia de vida. Ainda estava escuro 
quando chegou  guarita do vigia  direita do Lankershin 
Boulevard, num carro emprestado por sua amiga Harriet. Jill deu 
seu nome ao vigia, ele consultou a lista e fez sinal para que 
entrasse.
- Cenrio 7 - disse ele. - Siga em frente, depois de dois 
quarteires vire  direita.
O nome dela estava na lista de escalao. A Universal estava 
esperando por ela. Era como um sonho maravilhoso. Enquanto se ia 
dirigindo at o cenrio, decidiu que discutiria seu papel com o 
director, deixaria que ele soubesse que era capaz de lhe dar a 
interpretao que quisesse. Jill entrou no grande estacionamento 
e foi para o cenrio 7.
O cenrio estava cheio de gente apressada cuidando da iluminao, 
carregando equipamento elctrico, preparando as cmaras, dando 
ordens numa lngua estrangeira que ela no compreendia.
"Mete o malho que eu no quero nem um furo aqui..." 'Aqui eu vou 
querer um rebu pra valer..." "Pode matar a criana..."
Jill ficou parada ali olhando, saboreando as imagens, os odores e 
os rudos do mundo dos espectculos. Aquele era o seu mundo, o 
seu futuro. Arranjaria uma maneira de impressionar o director, de 
mostrar-lhe que ela era algum especial. Ele a conheceria como 
pessoa, no apenas como mais uma actriz. 
O subassistente de direco levou Jill e mais uma dzia de outras 
actrizes para o local onde ficavam as roupas, entregaram um 
uniforme de enfermeira a Jill e mandaram-na de volta para o 
cenrio, onde foi maquilhada junto com todos os outros figurantes 
e pontas num canto do cenrio de gravao. Assim que acabaram, o 
assistente de direco chamou seu nome. Jill saiu apressada para 
o cenrio de quarto do hospital onde o director estava de p 
junto da cmara, falando com o astro de srie. O nome do astro 
era Rod Hanson, e fazia o papel de um cirurgio cheio de 
compaixo e sabedoria. Quando Jill se aproximou deles, Rod Hanson 
estava dizendo:
- Tenho um pastor alemo capaz de peidar um dilogo melhor do que 
esta merda. Por que  que os escritores nunca me do um pouquinho 
mais de personalidade, pelo amor de Deus?
- Rod, estamos no ar h cinco anos. No se melhora um sucesso. O 
pblico adora voc como .
O cmara aproximou-se do director.
- A iluminao est pronta, chefe.

- Obrigado, Hal - disse o director, e virou-se para Rod Hanson. - 
Podemos fazer isso, amigo? Acabaremos essa discusso mais tarde.
- Um dia desses, vou mandar este estdio  merda - replicou 
Hanson, afastando-se furioso.
Jill virou-se para o director, que agora estava sozinho. Era a 
sua oportunidade de discutir a interpretao da personagem, de 
mostrar a ele que compreendia os seus problemas e que estava ali 
para ajudar a fazer com que aquela cena fosse magnfica. Abriu um 
sorriso terno e amistoso.
- Sou Jill Castle - disse ela. - Fao o papel da enfermeira. Acho 
que realmente ela pode ser muito interessante e tenho algumas 
idias sobre...
Ele balanou a cabea distrado e disse:
- V para junto da cama - e afastou-se para ir falar com o 
cmara.
Jill ficou parada olhando para ele, estupefacta. O subassistente 
de direco, ex-cunhado do primo em terceiro grau de Harriet, 
aproximou-se depressa de Jill e disse em voz baixa:
- Pelo amor de Deus, no ouviu o que ele disse? V para junto da 
cama!
- Queria perguntar a ele...
- No estrague tudo! - murmurou num tom furioso. - V para l!
Jill foi para junto da cama do paciente.
- Muito bem, vamos fazer silncio, todo mundo.
O assistente de direco olhou para o director.
- Quer um ensaio, chefe?
- Para isso? Vamos gravar logo.
- D o sinal. Todo mundo quieto. Isso, direitinho. Estamos 
rodando. Agora!
Sem conseguir acreditar, Jill ouviu o toque. Olhou agoniada para 
o director, querendo perguntar como gostaria que ela 
interpretasse a cena, qual era o seu relacionamento com o homem 
moribundo, o que ela deveria...
Uma voz gritou:
- Aco!
Estavam todos olhando para Jill cheios de expectativa. Ela se 
perguntou se teria coragem de pedir que parassem as cmaras s 
por um segundo, de forma que ela pudesse discutir a cena e...
O director berrou:
- Jesus Cristo! Enfermeira! Isso no  um necrotrio,  um 
hospital! Tome o pulso dele antes que ele morra de velhice!
Jill olhou cheia de ansiedade para o crculo de luzes brilhantes 
 sua volta. Respirou fundo e ergueu a mo do paciente para lhe 
tomar o pulso. Uma vez que no queriam ajud-la, teria que 
interpretar a cena  sua maneira. O paciente era o pai do mdico, 
os dois tinham brigado. O pai tinha sofrido um acidente e o 
mdico acabava de saber do ocorrido. Jill olhou para cima e viu 
Rod Hanson vir se aproximando. Chegou junto dela e perguntou:
- Como est ele, enfermeira?
Jill olhou bem nos olhos do mdico e viu a preocupao presente 
neles. Queria dizer a verdade a ele, que seu pai estava morrendo, 
que era tarde demais para fazerem as pazes. Entretanto, tinha de 
faz-lo de uma maneira que no fosse destru-lo e...
O director estava gritando:

- Corta! Corta! Corta! Que merda, essa idiota s tem uma fala e 
no consegue se lembrar. Onde foi que voc a encontrou... nas 
Pginas Amarelas?
Jill virou-se para a voz que gritava na escurido, enrubescida de 
constrangimento.
- Eu... eu sei a minha fala - disse trmula. - Eu estava 
tentando...
- Bem, pelo amor de Deus, se voc sabe, ser que se importaria de 
diz-la? Dava para ter passado um trem naquela pausa que voc 
fez. Quando ele lhe fizer a porra da pergunta, responda. OK?
- Eu s estava querendo saber se...
- Vamos l outra vez, agora mesmo. D o sinal.
- L vai. Um momento. Estamos rodando.
- Cmara.
- Aco.
As pernas de Jill estavam tremendo. Era como se ela fosse a nica 
pessoa ali que se importasse com aquela cena. Tudo que quisera 
fazer fora criar alguma coisa bonita. As luzes quentes dos 
reflectores estavam fazendo com que ficasse tonta, e podia sentir 
a transpirao lhe escorrendo pelos braos abaixo, estragando o 
uniforme impecvel e bem-engomado.
- Aco! Enfermeira!
Jill inclinou-se sobre o paciente e ps a mo no pulso dele. Se 
errasse a cena de novo, eles nunca mais lhe dariam uma 
oportunidade. Pensou em Harriet e nos seus amigos da penso e no 
que eles diriam.
O mdico entrou e veio at junto dela.
- Como est ele, enfermeira?
Ela no seria mais um deles. Seria motivo de piadas. Hollywood 
era uma cidade pequena. Sabia-se de tudo muito depressa.
- Acho que nada bem, doutor.
Nenhum outro estdio iria quer-la. Aquele seria o seu ltimo 
trabalho, o fim de tudo, de todo o seu mundo.
O mdico disse:
- Quero que ponham este homem na unidade de tratamento intensivo 
imediatamente.
- ptimo! - exclamou o director. - Corte e mande para o 
laboratrio.
Jill mal se deu conta das pessoas passando apressadas  sua 
volta, comeando a desmontar o set para dar lugar ao seguinte. 
Tinha feito a sua primeira filmagem - e estivera pensando numa 
outra coisa o tempo todo. No podia acreditar que tinha acabado. 
Perguntou-se se deveria procurar o director para agradecer a 
oportunidade, mas ele estava do outro lado, conversando com um 
grupo de pessoas. O subassistente de direco veio at junto 
dela, apertou-lhe o brao e disse:
- Voc se saiu muito bem, menina. S que da prxima vez veja se 
aprende suas falas.
Tinha participado de um filme; tinha a sua primeira experincia 
de trabalho.
"De agora em diante", pensou Jill, "terei trabalho o tempo todo."
O trabalho seguinte s apareceu treze meses depois, quando fez 
uma ponta para a MGM. Nesse meio tempo, teve uma srie de 
empregos. Foi vendedora da Avon, trabalhou como balconista em um 
bar e - durante um curto espao de tempo - foi motorista de 
txis.

Comeando a ficar sem dinheiro, Jill decidiu dividir um 
apartamento com Harriet Marcus. Era um apartamento de dois 
quartos e Harriet mantinha o seu em funcionamento ininterrupto. 
Trabalhava numa loja no centro da cidade como modelo; era uma 
moa atraente, de cabelos negros e curtos, olhos negros, corpo de 
adolescente e muito senso de humor.
- Quando se vem de um lugar como Hoboken - disse ela a Jill -  
melhor ter muito senso de humor.
No incio, Jill tinha ficado um pouco intimidada com a fria 
auto-suficincia de Harriet, mas logo descobriu que debaixo 
daquela fachada sofisticada Harriet era uma criana terna e 
assustada. Estava sempre apaixonada. No dia em que Jill a 
conhecera, dissera:
- Quero que voc conhea Ralph. Vamos nos casar no ms que vem.
Uma semana depois Ralph havia partido com destino ignorado, 
levando consigo o carro de Harriet.
Alguns dias depois de Ralph ter partido, Harriet conheceu Tony. 
Trabalhava em importao e exportao e ela apaixonou-se 
perdidamente por ele.
- Ele  muito importante - confidenciou Harriet.
Mas algum obviamente no pensava assim, pois um ms depois Tony 
foi encontrado flutuando no rio Los Angeles, com uma ma enfiada 
na boca.
Alex, foi a seguinte paixo de Harriet.
-  a coisa mais bonita que voc j viu - contou Harriet a Jill.
Alex era bonito. Vestia-se com roupas caras, dirigia um 
conversvel e passava muito tempo nas corridas de cavalos. O 
romance durou at ela comear a ficar sem dinheiro. Jill ficava 
furiosa com a falta de bom senso de Harriet no que dizia respeito 
aos homens com quem se relacionava.
- No posso fazer nada - confessou Harriet. - Sinto-me atrada 
por homens com problemas. Acho que  o meu instinto maternal.
Sorriu e acrescentou:
- Minha me era uma idiota.
Jill observava a procisso de noivos de Harriet ir e vir. Houve 
Nick, Bobby, John e Raymond, at que finalmente Jill no 
conseguia mais distingui-los.
Alguns meses depois de terem comeado a viver juntas, Harriet 
anunciou que estava grvida.
- Acho que  de Leonard - disse em tom de galhofa -, mas, voc 
sabe, eles so todos parecidos no escuro.
- Onde est Leonard?
- Ele deve estar em Omaha ou ento em Okinawa. Eu sempre fui 
pssima em geografia.
- Que  que voc vai fazer?
- Vou ter meu beb.
Por causa do seu corpo esguio, a gravidez tornou-se evidente em 
poucas semanas e ela teve que desistir do emprego de modelo. Jill 
arranjou trabalho num supermercado, de maneira a poder sustentar 
Harriet e a si mesma.
Uma tarde, quando Jill voltou para casa depois do trabalho, 
encontrou um bilhete de Harriet, dizendo: "Sempre quis que o meu 
beb nascesse em Hoboken. Estou voltando para a casa dos meus 
pais e para minha terra. Tenho certeza de que h um cara 
maravilhoso por l, esperando por mim. Muito obrigada por tudo". 
Estava assinado: "Harriet, a freira".

O apartamento tinha se tornado, de repente, um lugar muito 
solitrio.

21

Era um perodo inebriante para Toby Temple. Estava com quarenta e 
dois anos e era dono do mundo. Divertia-se com reis e jogava 
golfe com presidentes, mas seus milhes de fs apreciadores de 
cerveja no se importavam, porque sabiam que Toby era um deles, o 
paladino que ordenhava todas as vacas sagradas, ridicularizava os 
grandes e poderosos e arrasava as fundaes do sistema. Eles 
amavam Toby da mesma maneira que sabiam que ele os amava.
Toby lhes falava sobre sua me em todas as entrevistas, e ela ia 
ficando cada vez mais parecida com uma santa. Era a nica maneira 
que achava de dividir seu sucesso com ela.
Toby adquiriu uma bela propriedade em Bel Air. A casa era estilo 
Tudor, com oito quartos e uma enorme escadaria e arcadas em 
madeira entalhada  mo vinda da Inglaterra. Tinha uma sala de 
projeco, uma sala de jogos, uma adega e, no terreno que a 
rodeava, uma enorme piscina, um quarto para o caseiro e dois 
chals para hspedes. Comprou uma casa muito luxuosa em Palm 
Springs, cavalos de corrida e contratou um trio de criados. Toby 
chama todos de "Mac" e eles o adoravam. Prestavam-lhe todo o tipo 
de servio, dirigiam seu carro, arranjavam garotas a qualquer 
hora do dia ou da noite, acompanhavam-no em viagens, e faziam-lhe 
massagens. O que quer que o patro desejasse, os trs Macs 
estavam sempre ali para atend-lo. Eram os bobos da corte do bobo 
da corte do pas. Toby tinha quatro secretrias, duas apenas para 
atender ao enorme fluxo de correspondncia dos fs. A secretria 
particular era uma loura bonita, de vinte e um anos, chamada 
Sherry. Seu corpo havia sido desenhado por um manaco sexual, e 
Toby insistia em que usasse saias curtas sem nada por baixo. 
Poupava um bocado de tempo a ambos.
A estria do primeiro filme de Toby fora um sucesso 
extraordinrio. Sam Winters e Clifton Lawrence estiveram 
presentes e depois foram todos ao Chasen's para conversar a 
respeito do filme.
Toby gostara desse primeiro encontro com Sam depois de o contrato 
ter sido assinado.
- Teria sido mais barato se voc tivesse respondido aos meus 
telefonemas - disse Toby, e contou a Sam como havia tentado 
entrar em contacto com ele.
- Que falta de sorte a minha - disse Sam, com pesar.
Ento, ainda sentados no Chasen's, Sam virou-se para Clifton 
Lawrence.
- Se voc no me tomar um brao e uma perna, gostaria de fazer um 
novo contrato para trs filmes com Toby.
- S um brao. Eu lhe telefono amanh de manh - disse o 
empresrio a Sam e olhou o relgio. - Tenho que ir embora.
- Aonde  que voc vai? - perguntou Toby.
- Vou ver um outro cliente. Eu tenho outros clientes, meu caro 
rapaz.
Toby lanou-lhe um olhar estranho, depois disse:
- Claro.

Os jornais estavam delirantes na manh seguinte. Todos os 
crticos prediziam que Toby seria um grande astro no cinema, como 
j o era na televiso.

Toby leu todas as crticas, depois telefonou para Clifton 
Lawrence.
- Meus parabns, meu rapaz - disse o empresrio. - Viu o Reporter 
e o Variety? Aquelas crticas eram cartas de amor.
- Pois .  um mundo de queijo fresco e eu sou um grande rato 
gordo. Ser que ainda posso me divertir mais?
- Eu lhe disse que um dia voc seria dono do mundo, Toby, e agora 
voc .  todo seu. - Havia uma profunda satisfao na voz do 
empresrio.
- Clifton, gostaria de falar com voc. Poderia vir at aqui?
- Claro, estarei livre por volta das cinco horas e...
- Quero dizer agora mesmo.
Houve uma breve hesitao, ento Clifton disse:
- Tenho compromissos at...
- Oh, se voc est muito ocupado, esquea - e Toby desligou o 
telefone.
Um minuto depois a secretria de Clifton Lawrence telefonou e 
disse:
- O Sr. Lawrence est a caminho para v-lo, Sr. Temple.
Clifton Lawrence estava sentado no sof da sala de Toby.
- Pelo amor de Deus, voc sabe que eu nunca estou ocupado demais 
para voc. No imaginava que fosse querer me ver hoje, seno no 
teria assumido outros compromissos.
Toby ficou sentado ali, olhando para ele, deixando que ele suasse 
no seu desconforto. Clifton pigarreou e disse:
- Ora, vamos! Voc  o meu cliente favorito. No sabia disso?
"E  verdade", pensou Clifton. "Eu o fiz. Ele  criao minha. 
Estou gozando tanto o seu sucesso quanto ele mesmo."
Toby sorriu.
- Sou mesmo, Clifton?
Podia ver a tenso ir deixando o pequeno corpo do empresrio.
- Estava comeando a ter dvidas.
- Que  que est querendo dizer?
- Voc tem tantos clientes que s vezes eu acho que no me d 
ateno suficiente.
- Isso no  verdade. Passo mais tempo...
- Eu gostaria que voc s se ocupasse de mim, Clifton.
Clifton sorriu.
- Voc est brincando.
- No, estou falando srio. - Observou o sorriso deixar o rosto 
de Clifton. - Acho que sou suficientemente importante para ter o 
meu prprio empresrio... e quando digo o meu prprio empresrio 
no quero dizer algum que esteja ocupado demais para mim porque 
tem que se ocupar de mais uma dzia de pessoas.  como sexo em 
grupo, Clifton. Sempre sobra um de pau duro.
Clifton observou-o por um tempo, ento disse:
- Prepare-nos um drinque.
Enquanto Toby ia at o bar, Clifton ficou sentado ali, pensando. 
Sabia qual era o verdadeiro problema, e no era o ego de Toby, ou 
o seu sentimento de importncia.
Tinha a ver com a solido dele. Era o homem mais sozinho que 
Clifton jamais conhecera. Tinha visto Toby comprar mulheres s 
dzias e tentar comprar amigos com presentes caros. Ningum podia 
pagar uma conta quando ele estava por perto. Uma vez ouvira um 
msico dizer-lhe: "Voc no precisa comprar amor, Toby. Todo 
mundo ama voc sem precisar de nada disso". Toby piscara o olho e 
dissera: "Por que correu o risco?"
O msico nunca mais trabalhou em seu show.

Toby queria tudo de todo mundo. Tinha uma carncia insacivel, e, 
quanto mais obtinha, mais sua carncia crescia.
Clifton tinha ouvido dizer que ele s vezes chegava a ir para a 
cama com meia dzia de garotas ao mesmo tempo, tentando saciar a 
nsia que o roa. Mas,  claro, no adiantava. O que Toby 
precisava era de uma garota, e ele ainda no a encontrara. Assim 
continuava jogando nos nmeros.
Tinha uma necessidade desesperada de ter gente  sua volta o 
tempo todo.
Solido. O nico momento que ela no estava presente era quando 
Toby enfrentava uma plateia, quando podia ouvir os aplausos e 
sentir a adorao. " tudo realmente muito simples", pensou 
Clifton. Quando no estava no palco, levava uma plateia consigo. 
Estava sempre rodeado por msicos, empregados, coristas, cmicos 
de todos os tipos, e qualquer outro tipo de pessoas que pudesse 
atrair para a sua rbita.
E agora ele queria Clifton Lawrence. Exclusivamente para si.
Clifton se ocupava de uma dzia de clientes, mas o total da renda 
de todos eles reunidos no era muito maior que o que Toby recebia 
de clubes nocturnos, televiso e cinema, pois os contratos que 
ele lhe conseguira eram fenomenais.. No obstante, Clifton no 
tomou sua deciso com base no dinheiro. Ele a tomou porque amava 
Toby Temple, e o rapaz precisava dele. Da mesma forma que ele 
precisava de Toby. Clifton lembrava-se da monotonia de sua vida 
antes que Toby passasse a fazer parte dela: durante anos no 
houvera nenhum novo desafio e ele se limitara a desfrutar os 
antigos sucessos. Agora, pensava no entusiasmo electrizante que 
circundava Toby, no divertimento, nos risos e na profunda 
camaradagem que os dois partilhavam.
Quando Toby voltou e entregou-lhe o drinque, Clifton levantou o 
copo num brinde e disse:
- A ns dois, meu caro rapaz.

Era a temporada dos sucessos, diverses e festas e Toby estava 
sempre "na moda". As pessoas esperavam que ele as divertisse. Um 
actor sempre pode se esconder por trs das palavras de 
Shakespeare, Shaw ou Moire; um cantor pode contar com a ajuda de 
Gershwin, Rodgers e Hart ou Cole Porter; mas um comediante est 
sempre despojado. Sua nica arma  o humor.
As tiradas de Toby Temple logo se tornaram famosas em Hollywood. 
Durante uma festa em homenagem ao idoso fundador de certo 
estdio, algum perguntou a Toby:
-  verdade que ele tem mesmo noventa e dois anos?
- No duro - respondeu ele. - Quando chegar aos cem, vo dividi-lo 
em dois.
Num jantar, certa noite, um famoso mdico que tinha muitas 
estrelas entre seus clientes contou a um grupo de comediantes uma 
longa e complicada piada.
- Doutor - implorou Toby -, no nos divirta, poupe-nos!
Em certa ocasio o estdio usou lees num filme e ao v-los 
passar num camio Toby berrou:
- Cristos! Dez minutos!
As brincadeiras de Toby tornaram-se lendrias. Um de seus amigos, 
catlico, internou-se para uma pequena cirurgia. Certo dia, 
quando estava convalescendo, uma freira jovem e bonita parou ao 
lado de sua cama e passou-lhe a mo pela testa.
- Voc parece estar bem, descansando... Sua pele  to macia.

- Obrigado, irm.
Ela se debruou e comeou a ajeitar os travesseiros, os seios 
roaram no rosto do homem. Involuntariamente, o pobre coitado 
comeou a ter uma ereco. Quando a freira passou a mo a arrumar 
os cobertores, a mo dela tocou seu membro, o homem estava 
mortificado de agonia.
- Santo Deus - disse a freira. - Que  isso aqui?
Ela afastou as cobertas, deixando  mostra o pnis duro como 
pedra.
- Eu... sinto... sinto muito, irm - gaguejou o homem. - Eu...
- No pea desculpas.  um pau formidvel - respondeu ela, 
enquanto se inclinava sobre o corpo dele.
Passaram-se seis meses at o amigo ficar sabendo que fora Toby 
quem lhe mandara a mulher.
Certo dia, quando Toby saa de um elevador, virou-se para um 
solene executivo de certa rede de televiso e disse:
- A propsito, Will, como foi que voc se saiu daquela acusao 
de atentado ao pudor?
A porta do elevador se fechou, deixando o homem entre meia dzia 
de pessoas a encar-lo com olhares desconfiados.
Por ocasio da negociao de um novo contrato, Toby encomendou 
uma pantera treinada, a ser-lhe entregue no estdio. Depois, 
abriu a porta do escritrio de Sam Winters quando este se 
encontrava no meio de uma reunio e disse:
- Meu agente quer falar com voc. - Empurrou a pantera para 
dentro do escritrio e fechou a porta.
Ao contar a histria mais tarde, Toby disse:
- Trs dos caras que estavam l dentro quase tiveram um enfarte. 
O pessoal levou um ms para livrar a sala do cheiro de mijo da 
pantera.
Havia uma equipe de dez redactores trabalhando para Toby, sob a 
direco de O'Hanlon e Rainger. Ele se queixava frequentemente do 
material produzido por esse pessoal. Certa vez, incluiu uma 
prostituta na equipe, mas, quando soube que os redactores estavam 
passando a maior parte do tempo no quarto, teve de despedi-la. 
Noutra ocasio, levou um tocador de realejo e seu mico para uma 
reunio. Foi uma situao humilhante e aviltrante, mas os 
redactores a aguentaram porque Toby transformou o material que 
haviam preparado em puro ouro. Ele era o melhor em seu gnero.
Sua generosidade era prdiga. Presenteava seus empregados e 
amigos com relgios e isqueiros de ouro, guarda-roupas completos 
e viagens  Europa. Andava sempre com enorme quantidade de 
dinheiro e pagava tudo em espcie, inclusive dois Rolls-Royce. 
Era um mo-aberta. Todas as sexta-feiras uma dzia de parasitas 
de indstria cinematogrfica fazia fila para receber auxlio. 
Certa vez, Toby disse a um dos habituais frequentadores:
- Ei, que  que voc est fazendo aqui hoje? Acabei de ler no 
Variety que voc arranjou trabalho num filme.
O homem olhou para Toby e disse:
- Droga, ento no tenho direito a aviso prvio de duas semanas?
Havia milhares de histrias sobre Toby e quase todas eram 
verdadeiras. Certo dia, durante uma reunio, um dos redactores 
chegou atrasado, pecado imperdovel.
- Perdo pelo atraso - desculpou-se. - Meu filho foi atropelado 
por um carro esta manh.

Toby olhou para o homem e perguntou:
- Voc trouxe as piadas?
Todos os presentes ficaram chocados. Aps a reunio, um dos 
redactores disse a O'Hanlon:
- Ele  o maior filho da puta deste mundo. Se voc estivesse 
pegando fogo, ele lhe venderia gua.
Toby mandou buscar um grande especialista em cirurgia cerebral 
para operar o menino e pagou todas as despesas do hospital. Ao 
pai do garoto, ele disse:
- Se voc contar isso a algum, est no olho da rua.
O trabalho era a nica coisa que fazia Toby esquecer sua solido, 
a nica coisa que lhe proporcionava alegria genuna. Se um 
espectculo fazia sucesso, Toby era a companhia mais divertida do 
mundo; mas, se a coisa corria mal, transformava-se num demnio, 
atacando todo o alvo a seu alcance com o selvagem humor de que 
era dotado.
Era um possessivo. Certa vez, durante uma reunio, segurou a 
cabea de Rainger com as duas mos e proclamou para os presentes:
- Isto aqui  meu. Isto me pertence.
Ao mesmo tempo, passou a odiar os redactores, porque precisava 
deles e no queria precisar de ningum. Por isso, tratava-os com 
desprezo. No dia de pagamento, Toby fazia aviezinhos com os 
cheques deles e lanava-os ao ar. Despedia-os pelas faltas mais 
insignificantes. Certo dia um deles apareceu queimado de sol e 
Toby mandou que fosse imediatamente dispensado.
- Por que fez isso? - perguntou O'Hanlon. - Ele  um dos nossos 
melhores redactores.
- Se estivesse trabalhando - respondeu Toby -, no teria tido 
tempo de pegar aquela cor.
Um novo redactor apresentou uma piada sobre mes e foi despedido.
Se um dos convidados de seu show provocasse grandes gargalhadas, 
Toby exclamava:
- Voc  genial! Quero voc no show toda a semana.
Olhava para o produtor e dizia:
- Est me ouvindo? - e o produtor sabia que aquele actor jamais 
deveria participar do show outra vez.
Toby era um conjunto de contradies. Tinha cimes do sucesso de 
outros cmicos, mas certa vez teve uma atitude notvel. Um dia, 
quando saa de um ensaio, passou pelo camarim do antigo astro da 
comdia Vinnie Turkel, cuja carreira h muito entrara em 
declnio. Vinnie fora contratado para seu primeiro papel 
dramtico numa pea ao vivo na televiso e tinha esperana de que 
isso viesse a marcar seu retorno. Nessa ocasio, espiando para 
dentro do camarim, Toby viu Vinnie no sof, bbado. O director do 
show aproximou-se e disse:
- Deixe-o, Toby. Ele est acabado.
- Que aconteceu?
- Bem, voc sabe que a marca registada de Vinnie sempre foi a voz 
aguda e trmula. Ele comeou os ensaios e cada vez que abriu a 
boca e tentava parecer srio, todo mundo caa na gargalhada. Isso 
destruiu o velho.
- Ele estava contando com esse papel, no estava? - perguntou 
Toby.
- Todo actor sempre conta com todo papel - disse o director, 
dando de ombros.

Toby levou Vinnie Turkel para sua casa e fez-lhe companhia, 
obrigando-o a ficar sbrio.
- Esse  o melhor papel que voc j teve na vida. Ser que vai 
estragar tudo?
Vinnie abanou a cabea, deprimido.
- J estraguei, Toby. No posso faz-lo.
- Quem falou que no? - pressionou Toby. - Voc pode fazer aquele 
papel melhor do que ningum.
O velho sacudiu a cabea:
- Eles riram de mim.
- Claro que riram. E sabe por qu? Porque voc passou a vida 
fazendo-os rir. Eles esperam que voc fosse engraado. Mas, se 
continuar tentando, acabar convencendo-os. Voc os liquidar.
Toby passou o resto da tarde restaurando a confiana de Vinnie. 
Nessa noite, telefonou para a casa do director.
- Turkel est bem agora - disse Toby. - Voc no precisa se 
preocupar.
- Sei disso - retrucou o director. - J o substitu.
- Cancele a substituio - falou Toby. - Voc tem de dar um 
estmulo a ele.
- No posso correr o risco, Toby. Ele vai se embriagar de novo 
e...
- Sabe, vou fazer o seguinte - props Toby. - Ficarei com ele 
aqui. Se aps o ensaio geral voc ainda no quiser conserv-lo, 
assumirei o papel dele e trabalharei sem cobrar nada.
Houve uma pausa e o director disse:
- Ei! Voc est falando srio?
- Pode apostar.
- Negcio fechado - replicou o director apressadamente. - Diga a 
Vinnie que o ensaio  amanh, s nove. 
Quando o show foi ao ar, tornou-se o sucesso da temporada. E o 
trabalho que os crticos destacaram foi o de Vinnie Turkel. Ele 
ganhou todos os prmios da televiso e se lanou numa nova 
carreira como actor dramtico. Quando enviou um presente caro a 
Toby, para demonstrar sua gratido, este o devolveu com um 
bilhete: "No sou eu o responsvel,  voc". Assim era Toby 
Temple.
Poucos meses mais tarde, contratou Vinnie Turkel para um nmero 
em seu show. Vinnie invadiu uma de suas piadas e desse momento em 
diante Toby passou a lhe dar deixas erradas, destruiu suas piadas 
e humilhou-o diante de quarenta milhes de pessoas.
Isso tambm era Toby Temple.
Algum perguntou a O'Hanlon como era realmente e a resposta foi:
- Voc se lembra do filme em que Charles Chaplim, encontrou o 
milionrio? Quando o milionrio fica bbado,  amigo de Chaplim; 
quando est sbrio, joga-o na rua. Assim  Toby Temple, s que 
sem a bebida.
Certa vez, numa reunio com os directores de uma rede de 
televiso, um dos executivos pouco falou. Mais tarde, Toby disse 
a Clifton Lawrence:
- Acho que ele no gostou de mim.
- Quem?
- Aquele garoto na reunio.
- Que importncia tem isso? No passa de um assistentezinho 
qualquer.

- No me disse uma palavra - comentou Toby, deprimido. - No 
gosta mesmo de mim.
Toby ficou to impressionado que Clifton Lawrence teve de 
procurar o jovem executivo. Telefonou no meio da noite para o 
homem, que ficou estupefacto, e perguntou:
- Voc tem alguma coisa contra Toby Temple?
- Eu? Eu acho que ele  o cara mais engraado do mundo!
- Ento, meu caro rapaz, ser que voc me faria um favor? 
Telefone para ele e diga isso.
- Qu?
- TELEFONE PARA TOBY E DIGA QUE GOSTA DELE.- BEM, CLARO. TELEFONAREI LOGO DE MANH CEDO.- TELEFONE AGORA.- SO TRS HORAS DA MANH- NO TEM IMPORTNCIA. ELE EST 
ESPERANDO.QUANDO O EXECUTIVO LIGOU PARA TOBY, ESTE ATENDEU IMEDIATAMENTE. O RAPAZ OUVIU A VOZ DE TOBY DIZENDO: OI. ENGOLIU EM SECO E FALOU:- EU... EU QUERIA LHE 
DIZER QUE ACHO VOC GENIAL.- OBRIGADO, MEU CHAPA - RESPONDEU TOBY E DESLIGOU.O SQUITO DE TOBY AUMENTOU. S VEZES ELE TELEFONAVA PARA AMIGOS NO MEIO DA NOITE, CONVIDANDO-OS 
PARA JOGAR CARTAS, OU ACORDAVA OHANLON E RAINGER PARA DISCUTIR TEMAS. MUITAS VEZES PASSAVA A NOITE EM CLARO PROJECTANDO FILMES EM CASA, NA COMPANHIA DOS TRS MACS, 
CLIFTON LAWRENCE E MEIA DZIA DE STARLETS E PARASITAS.E QUANTO MAIS GENTE HOUVESSE  SUA VOLTA, MAIS SOLITRIO SE SENTIA.22ERA NOVEMBRO DE 1963 E O SOL DO OUTONO 
CEDERA LUGAR A UMA LUMINOSIDADE TNUE E FRIA. AS PRIMEIRAS HORAS DA MANH J ERAM NEVOENTAS E GELADAS; HAVIAM COMEADO AS PRIMEIRAS CHUVAS DE INVERNO.JILL CASTLE 
AINDA IA  CHWABS TODAS AS MANHS, MAS PARECIA-LHE QUE AS CONVERSAS ERAM SEMPRE AS MESMAS. OS SOBREVIVENTES FALAVAM DE QUEM PERDERA PAPIS E POR QU; ELES SE DELICIAVAM 
COM AS MS NOTCIAS QUE APARECIAM E DEPRECIAVAM AS BOAS NOVAS. ERA A TRENODIA DOS PERDEDORES E JILL COMEOU A IMAGINAR SE NO ESTARIA SE TORNANDO UM DELES. AINDA 
ESTAVA CERTA QUE SERIA ALGUM, MAS AO EXAMINAR OS ROSTOS FAMILIARES  SUA VOLTA COMPREENDEU QUE ELES SENTIAM O MESMO A RESPEITO DE SI PRPRIOS. SERIA POSSVEL QUE 
TODOS TIVESSEM PERDIDO CONTACTO COM A REALIDADE, QUE TODOS APOSTASSEM NUM SONHO QUE JAMAIS SE CONCRETIZARIA? ELA NO PODIA SUPORTAR TAL IDIA.JILL TORNARA-SE CONFIDENTE 
E CONSELHEIRA DO GRUPO. OS OUTROS LHE TRAZIAM SEUS PROBLEMAS, ELA OUVIA E TENTAVA AJUDAR, COM CONSELHOS, UNS POUCOS DE DLARES OU UM LUGAR PARA DORMIR POR UMA OU 
DUAS SEMANAS. RARAMENTE SAA COM RAPAZES PORQUE ESTAVA ABSORVIDA EM SUA CARREIRA E NO ENCONTRARA NINGUM QUE A ATRASSE.SEMPRE QUE CONSEGUIA ECONOMIZAR ALGUM DINHEIRO, 
JILL O ENVIAVA  ME JUNTAMENTE COM LONGAS E ANIMADAS CARTAS CONTANDO SEUS SUCESSOS. NO COMEO A ME RESPONDERA INCITANDO-A A ARREPENDER-SE E TORNAR-SE ESPOSA DO 
SENHOR. MAS  MEDIDA QUE COMEOU A FAZER UM OU OUTRO FILME E MANDAR MAIS DINHEIRO PARA CASA, A ME PASSOU A MOSTRAR UM RELUTANTE ORGULHO PELA CARREIRA DA FILHA. 
J NO REJEITAVA A IDIA DE V-LA ACTRIZ, MAS INSISTIA COM ELA PARA ARRANJAR PAPIS EM FILMES RELIGIOSOS. ESTOU CERTA DE QUE O SR. DEMILLE LHE DARIA UM PAPEL SE 
VOC LHE EXPLICASSE SUA FORMAO RELIGIOSA, ESCREVEU ELA.ODESSA ERA UMA CIDADE PEQUENA. SUA ME AINDA TRABALHAVA PARA A GENTE DE PETRLEO E JILL SABIA QUE ELA FALAVA 
A SEU RESPEITO, E QUE MAIS CEDO OU MAIS TARDE DAVID KENYON FICARIA SABENDO DE SEU SUCESSO. E POR ISSO, NAS CARTAS, INVENTAVA HISTRIAS SOBRE AS ESTRELAS COM QUEM 
TRABALHAVA, CUIDANDO SEMPRE DE USAR SEUS PRIMEIROS NOMES. APRENDEU O TRUQUE TPICO DOS QUE FAZEM PONTAS: CONSEGUIR QUE O FOTGRAFO DO SET A FOTOGRAFASSE AO LADO 
DA ESTRELA. ELE LHE DAVA DUAS CPIAS: JILL MANDAVA UMA PARA A ME E GUARDAVA A OUTRA. NAS CARTAS, DAVA A ENTENDER QUE ESTAVA A UM PASSO DO ESTRELATO.COMO DE COSTUME, 
NO SUL DA CALIFRNIA, ONDE NUNCA NEVA, TRS SEMANAS ANTES DO NATAL H UMA PARADA PELO HOLLYWOOD BOULEVARD E TODAS AS NOITES UM CARRO ALEGRICO DE PAPAI NOEL FAZ 
O MESMO PERCURSO. OS HABITANTES DE HOLLYWOOD LEVAM TO A SRIO A COMEMORAO DO NASCIMENTO DE CRISTO QUANTO SEUS VIZINHOS DO NORTE. NO  CULPA DELES SE NOITE FELIZ 
E OUTRAS CANES NATALINAS SE DERRAMAM PELOS RDIOS EM LARES E CARROS ONDE A POPULAO EST SE DERRETENDO NUMA TEMPERATURA DE QUARENTA GRAUS. ELES ANSEIAM PELO TRADICIONAL 
NATAL BRANCO TO ARDENTEMENTE QUANTO QUAISQUER OUTROS NORTE-AMERICANOS PATRIOTAS DE SANGUE QUENTE, MAS, COMO SABEM QUE DEUS NO LHES PROPORCIONAR ISSO, APRENDERAM 
A CRIAR SEU PRPRIO NATAL. ENGALANAM AS RUAS COM LUZES COLORIDAS E RVORES DE NATAL PLSTICAS, IMAGENS DE PAPAI NOEL FEITAS DE PAPIER MCH, COM TREN E RENAS. ESTRELAS 
E ACTORES DISPUTAM O PRIVILGIO DE PARTICIPAR DA PARADA NATALINA; NO PORQUE ESTEJAM INTERESSADOS EM ALEGRAR O CLIMA DA FESTA PARA OS MILHARES DE CRIANAS E ADULTOS 
QUE ASSISTEM AO DESFILE, MAS PORQUE ESTE  SEMPRE TELEVISIONADO, DE MODO QUE SEUS ROSTOS PODEM SER VISTOS DE COSTA A COSTA.JILL CASTLE ESTAVA NUMA ESQUINA, SOZINHA, 
ASSISTINDO AO LONGO DESFILE DE CARROS ALEGRICOS LEVANDO AS ESTRELAS, QUE ACENAVAM PARA OS FS ADMIRANDO-AS L DE BAIXO. NESSE ANO, O MESTRE-DE-CERIMNIAS DO DESFILE 
ERA TOBY TEMPLE. A MULTIDO DE ADORADORES APLAUDIA FRENETICAMENTE A PASSAGEM DE SEU CARRO ALEGRICO. JILL VIU DE RELANCE O ROSTO EXULTANTE E INOCENTE DE TOBY, QUE 
SEGUIU ADIANTE.PASSOU A BANDA DO COLGIO DE HOLLYWOOD, SEGUIDA POR UM CARRO ALEGRICO DO TEMPLO MANICO E UMA BANDA DO CORPO DE FUZILEIROS NAVAIS. DEPOIS VIERAM 
CAVALEIROS VESTIDOS DE CAWBOYS; UMA BANDA DO EXRCITO DE SALVAO, SEGUIDO POR MEMBROS DA SEITA SHRINER; GRUPOS QUE CANTAVAM, LEVANDO BANDEIRAS E FLMULAS; UM CARRO 
DA FAZENDA KNOTT BERRY COM ANIMAIS E PSSAROS FEITOS DE FLORES; CARROS DE BOMBEIROS; PALHAOS E BANDAS DE JAZZ. TALVEZ NO REFLECTISSE EXACTAMENTE O ESPRITO DO 
NATAL, MAS TRATAVA-SE DE UM ESPECTCULO PURAMENTE HOLLYWOODIANO.JILL TRABALHAVA COM ALGUNS ACTORES QUE ESTAVAM NOS CARROS ALEGRICOS. UM DELES ACENOU E GRITOU-LHE:- 
EI, JILL TUDO BEM?NA MULTIDO, VRIAS PESSOAS SE VIRARAM PARA OLH-LA COM INVEJA, O QUE DEU A JILL UMA DELICIOSA SENSAO DE IMPORTNCIA PELO FACTO DE AS PESSOAS 
SABEREM QUE ELA FAZIA PARTE DO NEGCIO. UMA VOZ PROFUNDA E GRAVE A SEU LADO FALOU:- COM LICENA, VOC  ACTRIZ?JILL SE VIROU. ERA UM RAPAZ ALTO, LOURO E BONITO, 
APARENTANDO VINTE E POUCOS ANOS. TINHA O ROSTO BRONZEADO, DENTES BRANCOS E REGULARES. VESTIA JEANS VELHOS E UM PALET DE TWEED AZUL COM REFORO DE COURO NOS COTOVELOS.- 
SOU.- EU TAMBM. ISTO , SOU ACTOR - ELE SORRIU E ACRESCENTOU: - DANDO DUROJILL APONTOU PARA SI MESMA E DISSE:- DANDO DURO.O RAPAZ RIU:- POSSO LHE OFERECER UM CAF?CHAMAVA-SE 
ALAN PRESTON E VIERA DE SALT LAKE CITY, ONDE SEU PAI ERA PRESBTERO DA IGREJA MRMON.- FUI CRIADO COM EXCESSO DE RELIGIO E FALTA DE DIVERTIMENTO - CONFIOU A JILL. 
QUASE PROFTICO, PENSOU JILL. TEMOS EXACTAMENTE O MESMO TIPO DE FORMAO.- SOU UM BOM ACTOR - DISSE ALAN COM MGOA -, MAS NO RESTA DVIDA DE QUE ESTA CIDADE  DURA. 
NA MINHA TERRA, TODO MUNDO PROCURA SE AJUDAR. AQUI, PARECE QUE TODOS ESTO DISPOSTOS A PASSAR POR CIMA UNS DOS OUTROS.OS DOIS CONVERSARAM AT A HORA DE A LANCHONETE 
FECHAR E A ESSA ALTURA J SE HAVIAM TORNADO VELHOS AMIGOS. QUANDO ALAN PERGUNTOU: QUER VIR AT MINHA CASA?, JILL HESITOU POR UM MOMENTO APENAS ANTES DE RESPONDER: 
OK.ALAN PRESTON VIVIA NUMA PENSO PERTO DE HIGHLAND AVENUE, A DOIS QUARTEIRES DE HOLLYWOOD BOWL. OCUPAVA UM QUARTO PEQUENO NOS FUNDOS.- ESTE LUGAR DEVIA SE CHAMAR 
OS REBOTALHOS - DISSE JILL. - VOC DEVIA VER OS TIPOS QUE MORAM AQUI. TODOS ACHAM QUE VO VENCER NO SHOW BUSINESS.TAL COMO NS, PENSOU JILL.A MOBLIA DO QUARTO DE 
ALAN CONSISTIA EM CAMA, ESCRIVANINHA, CADEIRA E UMA MESINHA PRESTES A DESMORONAR.- ESTOU S ESPERANDO AT MUDAR MEU PALACETE - EXPLICOU ALAN.-  O MEU CASO TAMBM 
- DISSE JILL RINDO.ALAN TENTOU ABRA-LA E JILL RESISTIU.- NO, POR FAVOR.ELE A OLHOU POR UM INSTANTE E DISSE GENTILMENTE:- OK.DE SBITO, JILL SENTIU-SE EMBARAADA. 
AFINAL DE CONTAS, QUE ESTAVA ELA FAZENDO NO QUARTO DESSE HOMEM? SABIA QUAL ERA A RESPOSTA: ESTAVA DESESPERADAMENTE S. ANSIAVA POR ALGUM COM QUEM CONVERSAR, PELA 
SENSAO DE SER ABRAADA POR UM HOMEM QUE A CONFORTASSE E LHE DISSESSE QUE TUDO DARIA CERTO. FAZIA TANTO TEMPO. ELA PENSOU EM DAVID KENYON, MAS AQUILO FAZIA PARTE 
DE OUTRA VIDA, OUTRO MUNDO. QUERIA-O TANTO QUE CHEGAVA A DOER. MAIS TARDE, QUANDO ALAN PRESTON TORNOU A ABRA-LA, JILL FECHOU OS OLHOS: ERA DAVID QUE A BEIJAVA, 
QUE A DESPIA E COM ELA FAZIA AMOR.JILL PASSOU A NOITE COM ALAN E POUCOS DIAS DEPOIS ELE SE MUDOU PARA O PEQUENO APARTAMENTO EM QUE ELA MORAVA.ALAN PRESTON ERA O 
HOMEM MENOS COMPLICADO QUE JILL CONHECERA. ERA DESPREOCUPADO E TRANQUILO, VIVENDO CADA DIA TAL COMO SE APRESENTAVA, SEM QUALQUER INTERESSE PELO AMANH. QUANDO JILL 
ARGUMENTAVA COM ELE SOBRE ESSA MANEIRA DE VIVER, ALAN DIZIA:- EI, VOC SE LEMBRA DE APPOINTMENT IN SAMARRA? SE TEM QUE ACONTECER, ACONTECER. O DESTINO VIR AO SEU 
ENCONTRO, NO PRECISA SAIR  PROCURA DELE.ALAN FICAVA DORMINDO ENQUANTO ELA SAA PARA PROCURAR EMPREGO. AO VOLTAR, ELA O ENCONTRAVA NUMA POLTRONA, LENDO OU TOMANDO 
CERVEJA COM AMIGOS. ALAN NO AJUDAVA NAS DESPESAS DA CASA.- VOC  UMA BOBA - DISSE A JILL UMA DE SUAS AMIGAS. - ELE EST USANDO SUA CAMA, COMENDO SUA COMIDA, BEBENDO 
SUA BEBIDA. LIVRE-SE DELE.MAS JILL NO FEZ NADA DISSO.PELA PRIMEIRA VEZ COMPREENDEU HARRIET, COMPREENDEU TODAS AS AMIGAS QUE SE AGARRAVAM, DESESPERADAMENTE A HOMENS 
QUE NO AMAVAM, HOMENS QUE ODIAVAM.ERA O MEDO DA SOLIDO.JILL ESTAVA SEM EMPREGO. FALTAVAM POUCOS DIAS PARA O NATAL E ELA ESTAVA REDUZIDA A SEUS LTIMOS DLARES, 
E TINHA DE MANDAR UM PRESENTE PARA A ME. FOI ALAN QUEM RESOLVEU O PROBLEMA. ELE SARA CEDO CERTA MANH, SEM DIZER AONDE IA; AO VOLTAR, DISSE A JILL:- ARRANJEI UM 
EMPREGO.- QUE TIPO DE EMPREGO?- DE ACTOR,  CLARO. NS SOMOS ARTISTAS, NO SOMOS?JILL OLHOU PARA ELE, CHEIA DE UMA SBITA ESPERANA.- VOC EST FALANDO SRIO?- LGICO 
QUE ESTOU. ENCONTREI UM AMIGO MEU QUE  DIRECTOR. ELE COMEA UMA FILMAGEM AMANH E H PAPIS PARA NS DOIS. CEM DLARES PARA CADA UM POR UM DIA DE TRABALHO.- QUE 
MARAVILHA EXCLAMOU JILL. - CEM DLARESCOM ISSO, PODERIA COMPRAR UM CORTE DE L PARA A ME FAZER UM CASACO DE INVERNO E AINDA SOBRARIA O SUFICIENTE PARA UMA BOA BOLSA 
DE COURO.-  UM FILME -TOA. A FILMAGEM  NOS FUNDOS DE UMA GARAGEM.- QUE  QUE NS TEMOS A PERDER? - FALOU JILL. -  TRABALHO.A GARAGEM FICAVA NO LADO SUL DE LOS 
ANGELES, NUM BAIRRO QUE, NO ESPAO DE UMA GERAO, PASSAVA DE EXCLUSIVO A CLASSE-MDIA E DA A LIXO.OS DOIS FORAM RECEBIDOS NA PORTA POR UM SUJEITO BAIXO E MORENO, 
QUE APERTOU A MO DE ALAN E DISSE:- PARABNS, MEU CHAPA. GENIAL.VIROU-SE PARA JILL E DEU UM ASSOBIO DE ADMIRAO.- SUA DESCRIO FOI EXACTA, MALANDRO. ELA  UM PEDAO.- 
JILL, ESTE  PETER TERRAGLIO. JILL CASTLE - APRESENTOU ALAN.- COMO VAI? - DISSE JILL.- PETER  O DIRECTOR - EXPLICOU ALAN.- DIRECTOR, PRODUTOR, CHEFE DOS LAVADORES 
DE GARRAFAS. FAO UM POUCO DE TUDO. VAMOS ENTRAR.ELE OS CONDUZIU ATRAVS DA GARAGEM VAZIA AT UMA PASSAGEM QUE LEVAVA AO QUE FORA UM DIA OS APOSENTOS DA CRIADAGEM. 
HAVIA DOIS QUARTOS DANDO PARA O CORREDOR E UM DELES TINHA A PORTA ABERTA.  MEDIDA QUE SE APROXIMAVAM, PODIAM OUVIR VOZES L DENTRO. JILL ESPIOU DA PORTA E RECUOU 
SUBITAMENTE, CHOCADA, SEM CONSEGUIR ACREDITAR. NO CENTRO DO QUARTO HAVIA UMA CAMA COM QUATRO PESSOAS DESPIDAS; UM NEGRO, UM MEXICANO E DUAS MOAS, UMA BRANCA E UMA 
NEGRA. UM CMARA ACENDIA AS LUZES DO CENRIO ENQUANTO UMA DAS MOAS PRATICAVA FELAO NO MEXICANO. A GAROTA FEZ UMA PAUSA PARA TOMAR FLEGO E DISSE:- ANDA PAU. ENDURECE.JILL 
SENTIU-SE TONTA. VIROU-SE PARA VOLTAR AO CORREDOR E SENTIU QUE SUAS PERNAS PERDIAM AS FORAS. ALAN PASSOU O BRAO EM VOLTA DELA, APOIANDO-A.- VOC EST BEM?JILL 
NO CONSEGUIU RESPONDER. SUA CABEA COMEARA A DOER TERRIVELMENTE E ELA SENTIA PONTADAS NO ESTMAGO.- ESPERE AQUI - ORDENOU ALAN.ELE VOLTOU NUM MINUTO, COM UM VIDRO 
DE PLULAS VERMELHAS E UM TRAGO DE VODCA. PEGOU DUAS PLULAS E DEU-AS A JILL.- ISSO VAI FAZER VOC MELHORAR.JILL PS AS PLULAS NA BOCA, SENTINDO A CABEA LATEJAR.- 
ENGULA ISSO - DISSE ALAN ENTREGANDO-LHE A BEBIDA.ELA OBEDECEU.- AQUI EST - ALAN DEU-LHE OUTRA PLULA, QUE ELA ENGOLIU COM VODCA. - VOC PRECISA DESCANSAR UM POUCO.CONDUZIU 
JILL AO QUARTO VAZIO E ELA SE DEITOU NA CAMA, MOVENDO-SE COM LENTIDO. AS PLULAS ESTAVAM COMEANDO A FAZER EFEITO. ELA J SE SENTIA MELHOR. O GOSTO AMARGO DE BLIS 
DESAPARECERA DE SUA BOCA.QUINZE MINUTOS DEPOIS, A DOR DE CABEA COMEOU A PASSAR. ALAN DEU-LHE OUTRA PLULA E, SEM PENSAR, JILL A ENGOLIU. TOMOU OUTRA VODCA. ERA 
UMA BNO O FACTO DE AQUELA DOR PASSAR. ALAN AGIU DE MODO ESTRANHO, ANDANDO EM VOLTA DA CAMA.- FIQUE QUIETO.- ESTOU QUIETO.JILL ACHOU GRAA E COMEOU A RIR. RIU 
AT QUE AS LGRIMAS LHE ROLARAM PELO ROSTO.- QUE... QUE PLULAS SO ESSAS?- CONTRA DOR DE CABEA, MEU BEM.TERRAGLIO ESPIOU PARA DENTRO DO QUARTO E PERGUNTOU:- COMO 
VO AS COISAS? TODO MUNDO ALEGRE?- TODO... TODO MUNDO ALEGRE - BALBUCIOU JILL.TERRAGLIO ACENOU COM A CABEA PARA ALAN:- CINCO MINUTOS - E SAIU APRESSADAMENTE.ALAN 
INCLINOU-SE SOBRE JILL, AFAGOU-LHE OS SEIOS E AS COXAS, LEVANTOU-LHE A SAIA E COMEOU A ACARICI-LA ENTRE AS PERNAS. ERA UMA SENSAO MARAVILHOSAMENTE EXCITANTE 
E DE REPENTE JILL QUIS T-LO DENTRO DE SI.- OLHE, MEU BEM - DISSE ALAN -, EU NO LHE PEDIRIA PARA FAZER NADA DE MAU. VOC S TEM DE FAZER AMOR COMIGO.  O QUE FAZEMOS 
MESMO, S QUE DESTA VEZ SEREMOS PAGOS. DUZENTOS DLARES. E  TUDO SEU.ELA ABANOU A CABEA, MAS PARECEU-LHE UMA ETERNIDADE O TEMPO QUE LEVOU PARA MOV-LA DE UM LADO 
PARA OUTRO.- NO POSSO FAZER ISSO - FALOU INDISTINTAMENTE.- POR QUE NO?JILL TEVE DE SE CONCENTRAR PARA LEMBRAR.- PORQUE EU... EU VOU SER UMA ESTRELA. NO POSSO 
FAZER FILMES PORNOGRFICOS. - QUER TREPAR COMIGO?- OH, SIM QUERO VOC, DAVID.ALAN COMEOU A DIZER ALGO E ENTO SORRIU.- CLARO, MEU BEM. TAMBM QUERO VOC. VAMOS 
L.PEGOU A MO DE JILL E ERGUEU-A DA CAMA. ELA SE SENTIU COMO SE ESTIVESSE VOANDO. ESTAVAM NO HALL, DEPOIS ENTRANDO NO OUTRO QUARTO.- OK - DISSE TERRAGLIO AO V-LOS. 
- MANTENHAM O MESMO CENRIO. VAMOS INJECTAR UM POUCO DE SANGUE NOVO.- QUER QUE EU TROQUE OS LENIS? - PERGUNTOU UM MEMBRO DA EQUIPA.- QUE MERDA ACHA QUE NS SOMOS, 
A Metro?
Jill estava agarrada a Alan.
- David, aqui tem gente.
- Eles vo sair - garantiu Alan. - Tome.
Pegou outra plula e entregou-a a Jill; encostou a garrafa de 
vodca em seus lbios e ela engoliu-a. Desse momento em diante, 
tudo aconteceu como num nevoeiro. David a estava despindo 
dizendo-lhe palavras de conforto. Seu corpo nu aproximou-se dela. 
Acendeu-se uma luz ofuscante, cegando-a.
- Ponha isso na boca - disse ele, e era David quem falava.
- Oh, sim.
Ela o afagou carinhosamente e comeou a p-lo na boca, enquanto 
algum no quarto dizia alguma coisa que Jill no conseguiu ouvir, 
e David se afastou, de modo que ela teve de virar o rosto para a 
luz e apertar os olhos por causa da claridade. Sentiu que a 
empurravam para que se deitasse de costas e de repente David 
estava dentro dela, fazendo amor, e ao mesmo tempo Jill sentiu o 
pnis dele em sua boca. Amava-o tanto. As luzes a incomodavam e 
tambm as conversas em segundo plano. Queria dizer a David que os 
fizesse parar, mas estava num xtase delirante, com um orgasmo 
aps outro, at sentir como se o corpo fosse se romper. David a 
amava, no a Cissy; voltara para ela e os dois estavam casados. 
Estavam vivendo uma lua-de-mel maravilhosa.
- David... - disse ela.

Abriu os olhos e o mexicano estava sobre ela, passando a lngua 
em seu corpo. Tentou perguntar-lhe onde estava David, mas no 
conseguiu articular as palavras. Fechou os olhos, enquanto o 
homem fazia coisas deliciosas em seu corpo. Quando tornou a 
abri-los, o homem havia de algum modo se transformado numa moa 
de longos cabelos ruivos e seios grandes que se arrastavam sobre 
o estmago de Jill. Ento a mulher comeou a fazer algo com a 
lngua e Jill fechou os olhos e perdeu a conscincia.
Os dois homens, de p, olhavam para a figura na cama.
- Ela vai ficar bem? - perguntou Terraglio.
- Claro - disse Alan.
- Voc arranja umas ptimas - comentou Terraglio com admirao. - 
Ela  fantstica. A mais bonita de todas.
- O prazer  meu - Alan estendeu a mo.
Terraglio tirou um mao de notas do bolso e separou duas.
- Aqui est. Quer aparecer para um jantarzinho de Natal? Stella 
adoraria ver voc.
- No posso - disse Alan. - Vou passar o Natal com a mulher e os 
garotos. Pego o prximo avio para a Flrida.
- Isso aqui vai dar um filmao - Terraglio balanou a cabea em 
direco  moa inconsciente. - Como  que devemos apresent-la?
Alan sorriu.
- Por que no usam o verdadeiro nome dela?  Josephine Czinski. 
Quando o filme passar em Odessa, os amigos dela vo se divertir 
um bocado.

23

Eles haviam mentido. O tempo no era um amigo que curava todas as 
feridas, era o inimigo que devastava e mutilava a juventude. As 
temporadas se sucediam e cada uma trazia nova safra do "produto" 
para Hollywood. A competio pedia carona, chegava de moto, trem 
e avio. Todos com dezoito anos, tal como Jill um dia. Tinham 
pernas longas, eram geis, com os rostos jovens, frescos e 
vidos, sorrisos brilhantes que no precisavam de jaquetas. E  
chegada de cada nova safra, Jill ficava um ano mais velha. Um dia 
olhou-se no espelho e era 1964. J tinha vinte e cinco anos.
No comeo, a experincia do filme pornogrfico deixara-a 
aterrorizada. Viera com o pavor de que algum director de elenco 
ficasse sabendo e lhe desse bilhete azul. Mas  medida que se 
passaram as semanas e os meses, Jill foi esquecendo seus 
terrores. Contudo, ela mudara. Cada ano que passara deixara-lhe 
uma marca, uma patina de dureza, como os anis que nas rvores 
marcam a passagem do tempo. Comeou a odiar as pessoas que no 
lhe davam oportunidade de representar, que faziam promessas 
jamais compridas.
Havia embarcado numa interminvel srie de empregos montonos e 
nada gratificantes. Foi secretria, recepcionista, cozinheira, 
baby-sitter, modelo, garonete, telefonista, vendedora. S 
enquanto esperava "a chamada".
Mas ela nunca veio. E a amargura de Jill aumentou. De vez em 
quando fazia pontas e dizia uma frase, mas isso jamais levava a 
nada. Olhou-se no espelho e recebeu a mensagem do tempo: 
"Depressa". Ver sua prpria imagem era como examinar camadas do 
passado: ainda havia sinais da jovem que chegara a Hollywood sete 
interminveis anos atrs. Mas a jovem tinha pequenas rugas nos 
cantos dos olhos e linhas mais fundas das asas do nariz at o 
queixo, sinais de alerta do tempo que se escoava e do sucesso 
jamais alcanado, lembranas das incontveis, terrveis, pequenas 
derrotas. "Depressa, Jill, depressa!"
Por isso, quando Fred Kapper, um dos directores-assistente da 
Fox, de dezoito anos, disse que lhe daria um bom papel se fosse 
para a cama com ele, Jill chegou  concluso de que era hora de 
aceitar.
Encontrou Fred Kapper no estdio, na hora do seu almoo.
- S tenho meia hora - disse ele. - Deixe-me pensar onde podemos 
ficar  vontade.
Parou um momento, concentrado, e ento se animou:
- A sala de som. Vamos.
A sala de som era uma cabine de projeco,  prova de som, onde 
as trilhas sonoras eram reunidas num nico carretel.
Fred Kapper examinou a sala vazia e disse:
- Merda! Costumava haver um sofazinho aqui - deu uma olhada no 
relgio. - Temos de nos arranjar assim mesmo. Tire a roupa, meu 
anjo. O pessoal do som estar de volta em vinte minutos.
Jill encarou-o por um momento, sentindo-se como uma prostituta. 
Mas no o demonstrou. Tentara  sua maneira e no deu certo. 
Agora, agiria  maneira deles. Tirou o vestido e a calcinha. 
Kapper no se deu ao trabalho de se despir; simplesmente abriu o 
zper e exps o pnis tumescente. Olhou para Jill e sorriu:
- Que beleza de traseiro. Vire de costas.

Jill procurou algo em que se apoiar. Diante dela estava a mquina 
de gargalhadas, uma mesa sobre rodas com gravaes de riso em 
fita, controlada por botes.
- Vamos, incline-se.
Jill hesitou por um momento e ento se inclinou, apoiada nas 
mos. Kapper se aproximou por trs e ela percebeu seus dedos 
abrindo-lhe as ndegas. Um instante depois sentiu a presso da 
cabea do pnis contra seu nus.
- Espere - disse ela. - Assim no! Eu... eu no posso...
- Grite para mim, querida!
E ele mergulhou o membro dentro dela, dilacerando-a com uma dor 
terrvel. A cada giro, ele enfiava mais fundo e com mais dor. Ela 
tentou desesperadamente escapar mas Fred segurava-lhe os quadris, 
entrando e saindo sucessivamente, apertando-a com firmeza. Jill 
perdeu o equilbrio e, quando procurou se apoiar, seus dedos 
tocaram os botes da mquina de gargalhadas e imediatamente na 
sala ressoou um riso louco. Enquanto se debatia numa agonia de 
dor, suas mos socavam a mquina: uma mulher riu baixinho, um 
grupo de pessoas gargalhou, uma menina deu um riso idiota, uma 
centena de vozes grasnaram, cacarejaram e gargalharam, rindo de 
alguma piada secreta e obscena. O eco ressoou histericamente 
pelas paredes enquanto ela gritava de dor.
De repente sentiu uma srie de rpidos estremecimentos e um 
segundo depois a estranha carne foi retirada de dentro dela. 
Lentamente, os risos cessaram na sala. Jill ficou imvel, os 
olhos cerrados, lutando contra a dor. Quando finalmente conseguiu 
se aprumar e virar-se, deu com Fred Kapper fechando o zper.
- Voc  sensacional, querida. Aqueles gritos realmente me 
excitaram.
E Jill imaginou que espcie de monstro seria ele quando tivesse 
dezanove anos.
Ao notar que ela sangrava, Fred disse:
- V se limpar e venha ao palco 12. Voc comea a trabalhar esta 
tarde.
Depois daquela primeira experincia, o resto foi fcil. Jill 
passou a trabalhar regularmente em todos os estdios: Warner, 
Brothers, Paramout, MGM, Universal, Columbia, Fox. Em toda a 
parte, de facto, menos no estdio de Disney, onde no havia sexo.
A performance que Jill criou na cama era uma fantasia e ela 
representava com talento, como se estivesse desempenhando um 
papel. Leu livros sobre erotismo oriental, comprou afrodisacos e 
estimulantes numa sex shop do Santa Monica Boulevard. Tinha uma 
loo trazida do Oriente por uma aeromoa, com um levssimo toque 
de ervas. Aprendeu a massagear seus amantes, lenta e 
sensualmente. "Deite-se e pense no que estou fazendo em seu 
corpo", murmurava. Passava a loo no peito do homem, descendo 
pelo estmago at a virilha, em suaves movimentos circulares. 
"Feche os olhos e aproveite."

Seu dedo era leve como uma asa de borboleta, movendo-se pelo 
corpo do homem, acariciando-o. Quando a ereco comeava, Jill 
segurava o pnis e afagava-o delicadamente, passando a lngua 
entre as pernas do homem at faz-lo torcer-se de prazer; depois 
continuava lentamente at os dedos dos ps. Em seguida fazia-o 
virar-se e comeava tudo de novo. Quando o membro de um homem 
estava flcido, Ela o colocava entre os lbios da vagina e 
fazia-o penetrar lentamente, sentindo-o crescer e endurecer. 
Ensinou aos homens a tcnica da cachoeira, como se excitar ao 
mximo e ento parar antes de ejacular, para tornar a se excitar, 
repetidas vezes, e quando orgasmo finalmente era atingido, vinha 
com uma exploso de xtase. Os homens tinham seu prazer, 
vestiam-se e iam embora. Ningum jamais ficava tempo suficiente 
para proporcionar a ela aqueles adorveis cinco minutos do sexo, 
o calmo abrao de depois, o pacfico osis nos braos de um 
amante.
Dar a Jill pequenos papis nos filmes era um preo baixo a pagar 
pelo prazer que ela proporcionava aos directores de elenco, aos 
assistentes de direco, directores e produtores. Ela passou a 
ser conhecida na cidade como um "quente pedao de traseiro" e 
todo mundo queria abocanhar sua parte. E Jill deixava. A cada vez 
que o fazia, havia nela menos amor e dignidade, mais dio e 
amargura.
No sabia como nem quando, mas tinha certeza de que um dia essa 
cidade lhe pagaria por tudo que lhe fizera.
Durante os cinco anos que se seguiram, Jill apareceu em dzias de 
filmes, programas de televiso e comerciais. Era ela a secretria 
que dizia: "Bom dia, Sr. Stevens'; a baby-siter que assegurava 
"No se preocupe, divirtam-se que eu porei as crianas para 
dormir"; a ascensorista que anunciava "Sexto andar" e a moa com 
roupas de esquiadora que afirmava "Todas as minhas amigas usam 
Daintie". Mas jamais aconteceu coisa alguma. Ela era um rosto sem 
nome na multido. Fazia parte do negcio mas ao mesmo tempo 
estava de fora, e no podia suportar a idia de passar o resto da 
vida dessa maneira.
Em 1969 a me de Jill morreu e ela foi a Odessa para o funeral. 
ERa fim de tarde e havia menos de uma dzia de pessoas presentes 
ao servio fnebre, dentre os quais no se contava nenhuma das 
mulheres para quem a me de Jill trabalhava durante todos aqueles 
anos. Havia alguns beatos da igreja, aqueles agourentos. Mas fora 
entre eles que a me de Jill encontrara alguma espcie de 
consolo, o exorcismo dos demnios, fossem l quais fossem, que 
haviam atormentado.
Uma voz conhecida falou suavemente:
- Al, Josephine.
Ela se virou e deu com ele a seu lado. Olhou em seus olhos e foi 
como se nunca se tivessem separado, como se ainda pertencessem um 
ou outro. Os anos haviam deixado a marca da maturidade em seu 
rosto, acrescentando um toque cinza a suas tmporas. Mas ele no 
mudara, ainda era David, seu David. Entretanto, eram estranhos.
- Sinto muito sobre sua me - dizia ele.
Jill ouviu-se responder:
- Obrigada, David.
Era como se estivessem recitando as peas teatrais
- Quero falar com voc. Pode se encontrar comigo esta noite?
Havia uma urgncia de splica na voz dele. Jill pensou na ltima 
vez em que haviam estado juntos, no desejo dele, na promessa e 
nos sonhos e respondeu:
- Est bem, David.
- No lago? Voc tem carro?
Ela assentiu.
- Encontrarei voc l, dentro de uma hora.


Cissy estava de p diante do espelho, nua, prestes a se vestir 
para um jantar, quando David chegou em casa. Ele entrou no quarto 
e ficou olhando para ela. Podia avaliar a esposa com total 
frieza, pois no sentia qualquer emoo com relao a ela. Cissy 
era bonita; havia cuidado de seu corpo, mantendo-se em forma com 
dieta e exerccios. O corpo era seu principal triunfo e David 
tinha razes para crer que era liberal em partilh-lo com outros, 
o treinador de golfe, o professor de esqui, o instrutor de 
pilotagem. Mas no podia culp-la. Fazia muito tempo que no ia 
para a cama com ela.
No comeo, realmente acreditara que lhe daria o divrcio quando 
Mame Kenyon morresse. Mas a me de David estava viva e saudvel, 
e ele no tinha meios de saber se fora vtima de um truque ou se 
havia ocorrido um milagre. Um ano aps o casamento, David dissera 
a Cissy:
- Acho que est na hora de conversarmos sobre o divrcio.
- Que divrcio? - respondera ela.
E ao ver a expresso de espanto no rosto dele, comeara a rir.
- Eu gosto de ser a Sra. David Kenyon, querido. Voc acreditou 
mesmo que eu iria desistir de voc por aquela prostitutazinha 
polonesa?
David dera-lhe um tapa.
No dia seguinte, fora conversar com seu advogado. Ao terminar o 
que tinha a dizer, o advogado falou:
- Posso conseguir-lhe o divrcio. Mas se Cissy est disposta a 
segurar voc, David, vai custar tremendamente caro.
- Providencie-o.
Quando lhe entregaram os documentos do divrcio, Cissy trancou-se 
no banheiro e tomou uma dose excessiva de comprimidos para 
dormir. Foi preciso que David e dois empregados arrombassem a 
pesada porta. Durante dois dias, ela esteve entre a vida e a 
morte. David visitara-a na clnica particular para onde fora 
levada.
- Sinto muito, David - dissera ela. - No quero viver sem voc.  
simplesmente isso.
Na manh seguinte, ele suspendeu o processo de divrcio.
Isso fora h quase dez anos e o casamento de David se 
transformara numa trgua inquietante. Ele assumira por completo o 
imprio Kenyon, devotando todas as suas energias  direco dos 
negcios. Encontrava alvio fsico na srie de garotas que tinha 
nas vrias cidades do mundo s quais seus negcios o levavam, mas 
jamais esquecera Josephine.
David no sabia como ela se sentiria a seu respeito. Queria 
descobrir, mas tinha medo. Josephine tinha razes suficientes 
para odi-lo. Ao saber da morte de sua me, fora ao funeral 
apenas para v-la. Quando a avistou, percebeu que nada havia 
mudado. No para ele. Num instante os anos se dissiparam e ele se 
viu to apaixonado quanto antes.
"Quero falar com voc... encontre-me esta noite..."
"Est bem. David..."
"No lago."

Cissy virou-se ao v-lo observando-a pelo espelho alto.
-  melhor apressar-se e trocar de roupa, David. Vamos nos 
atrasar.
- Vou-me encontrar com Josephine. Se ainda me quiser, casarei com 
ela. Acho que j  tempo de pr um fim a essa farsa, voc 
concorda?

Ela ficou parada, olhando para David, sua imagem despida 
reflectida no espelho.
- Deixe-me vestir.
David assentiu e saiu do quarto. Foi para a ampla sala de 
visitas, andando de um lado para outro, preparando-se para 
enfrent-la. Lgico que, aps todos esses anos, Cissy no 
quereria se agarrar a um casamento que no passava de aparncia. 
Ele estava pronto para dar-lhe tudo que ela...
David ouviu o carro de Cissy sendo ligado e em seguida o ranger 
dos pneus em sua arrancada em direco  rua. Ele correu para a 
porta da frente e olhou: o Maserati de Cissy voava para a 
estrada. David correu para seu prprio carro e acelerou atrs 
dela.
Ao atingir a estrada, viu o carro desaparecer ao longe. 
Pressionou o acelerador com fora. O Maserati era mais rpido que 
o Rolls de David. Pisou com mais e mais fora: setenta... 
oitenta... noventa. O carro dela desaparecera ao longe.
David atingiu o topo de uma pequena elevao e o avistou, como um 
brinquedo distante, inclinou-se numa curva. O carro derrapava 
para o lado enquanto os pneus lutavam para manter-se colados ao 
leito da estrada. O Maserati oscilou para a frente e para trs, 
perdendo a direco na estrada. Ento aprumou-se e transps a 
curva. E de repente foi de encontro ao acostamento, lanou-se no 
ar, capotando-se vrias vezes sobre os campos.
David arrastou Cissy, inconsciente, para fora do carro momentos 
antes que o tanque de gasolina explodisse.
Eram seis horas da manh seguinte quando o cirurgio-chefe saiu 
da sala de operaes e disse a David:
- Ela vai sobreviver.

Jill chegou ao lago pouco antes de o sol se pr. Levou o carro 
bem perto da gua. Desligando o motor, ficou escutando os rudos 
do vento e aspirou o ar do lugar. "No me lembro de quando estive 
to feliz", pensou. Mas corrigiu-se em seguida: "Lembro sim. Foi 
aqui. Com David.". Recordou a sensao do corpo dele no seu e 
sentiu-se tonta de desejo. Qualquer que fosse o motivo que lhes 
destrura a felicidade, j no existia mais. Sentira-o no momento 
em que vira David. Ele ainda a amava. Jill o sabia.
Contemplou o sol, rubro como sangue, mergulhando lentamente nas 
guas ao longe e a chegada da escurido. Desejou que David 
chegasse logo.
Passou-se uma hora, depois duas e o ar ficou gelado. Jill ficou 
no carro, quieta. Observou a enorme lua branca flutuando no cu, 
ouviu os sons da noite  sua volta e disse a si mesma: "David 
est chegando".
Esperou a noite inteira e pela manh, quando o sol comeou a 
atingir o horizonte, ligou o carro e partiu para Hollywood.

24

Jill sentou-se diante da penteadeira e estudou seu rosto no 
espelho. Notou uma ruga quase invisvel no canto do olho e fez 
uma careta. " injusto", pensou. "O homem pode relaxar 
completamente, ficar grisalho, criar barriga e ter o rosto 
vincado como um mapa rodovirio e ningum acha nada de mais. Mas 
se a mulher aparece com uma minscula ruga..." Comeou a aplicar 
a maquilhagem. Bob Schiffer, o maior maquilhador de Hollywood, 
ensinara-lhe algumas de suas tcnicas. Jill passou uma base 
cremosa, em vez do p que usava antigamente; a base em p resseca 
a pele, enquanto a cremosa conserva a umidade. Em seguida 
concentrou-se nos olhos, usando sob as plpebras inferiores uma 
maquilhagem trs ou quatro tons mais clara que a outra para 
atenuar as sombras. Passou um pouco de sombra nos olhos para 
colori-los e colocou cuidadosamente os clios postios sobre os 
seus prprios, inclinando-se nos cantos externos num ngulo de 
quarenta e cinco graus. Passou um pouco de adesivo na face 
externa de seus clios naturais e ligou-os aos postios, fazendo 
os olhos parecerem maiores. Para aumentar o volume dos clios, 
fez pequenos pontinhos na plpebra inferior. Depois passou batom, 
ps p nos lbios e aplicou uma segunda camada. Passou blush e 
espalhou p no rosto, evitando a regio em torno dos olhos, onde 
ele acentuaria as pequenas rugas.
Recostou-se na cadeira e estudou o efeito no espelho. Estava 
linda. Algum dia teria de recorrer ao truque da fita adesiva, mas 
graas a Deus ainda faltava muito tempo para que isso fosse 
preciso. Conhecia algumas velhas actrizes que o usavam: prendiam 
pedacinhos de fita adesiva  pele, logo abaixo da linha de 
implantao dos cabelos; as fitas prendiam fios que elas 
amarravam em torno da cabea e escondiam sob o cabelo. Dessa 
forma, a pele flcida do rosto ficava repuxada, produzindo um 
efeito de lifting sem a despesa e a dor da cirurgia. Uma variao 
do truque servia para disfarar seios cados. Um pedao de fita 
adesiva preso ao seio e  pele mais firme acima do busto 
proporcionando uma soluo temporria simples para o problema. Os 
seios de Jill ainda estavam firmes.
Ela terminou de pentear os cabelos negros e sedosos, deu uma 
ltima olhada no espelho, consultou o relgio e verificou que 
teria de se apressar.
Tinha um entrevista marcada para o Toby Temple Show.

25

Eddie Berrigan, director de elenco do show de Toby, era um homem 
casado. Arranjara um jeito de usar o apartamento de um amigo trs 
vezes por semana; uma das tardes ficava reservado para sua amante 
e as outras duas para o que ele chamava de "velhos talentos" e 
"novos talentos".
Jill Castle era um novo talento. Vrios amigos haviam dito que 
ela proporcionava uma fantstica "volta ao mundo" e ele estivera 
ansioso para experiment-la. Agora, aparecera um papel num quadro 
que se prestava perfeitamente para ela: tudo que a personagem 
tinha a fazer era manter uma aparncia sexi, dizer algumas linhas 
e sair de cena.
Jill fez a leitura para Eddie e ele ficou satisfeito. No era 
nenhuma Kate Hepburn, mas o papel no exigia isso.
- O papel  seu - disse ele.
- Obrigada, Eddie.
- Aqui est seu script. Os ensaios comeam amanh pela manh s 
dez em ponto. Seja pontual e decore suas falas.
- Claro. - Jill esperou.
- Humm... que acha de nos encontrarmos esta tarde para um caf?
Jill assentiu.
- Um amigo meu tem um apartamento na Argyle, 9513. O Allerton.
- Sei onde fica - disse Jill.
- Apartamento 6. s trs horas.
Os ensaios decorriam sem problemas. Seria um bom show. Os 
talentos da semana incluam uma espectacular equipe de dana 
argentina, um famoso grupo de rock-and-roll, um mgico que fazia 
tudo desaparecer e um cantor de sucesso. O nico ausente era Toby 
Temple. Jill perguntou a Eddie Berrigan o que havia.
- Ele est doente?
Eddie deu um muxoxo:
- Doente coisa nenhuma. Os trabalhadores ensaiam enquanto o velho 
Toby se diverte. No sbado ele aparece para gravar o show e 
depois some.
Toby Temple apareceu na manh de sbado, irrompendo no estdio 
como um rei. De um canto do palco, Jill observou sua entrada em 
companhia de seus trs "bobos", Clifton Lawrence e uma dupla de 
antigos comediantes. O espectculo encheu-a de desprezo. Sabia 
tudo sobre Toby Temple, era um egocntrico que, segundo os 
boatos, alardeava que j fora para a cama com todas as actrizes 
bonitas de Hollywood. Ningum lhe dizia no. Sim, Jill sabia tudo 
sobre o Grande Toby Temple.
O director, um homem baixo e nervoso chamado Harry Durkin, 
apresentou o elenco a Toby, que j trabalhara com a maioria 
deles. Hollywood era uma cidade pequena e logo os rostos se 
tornavam familiares. Toby no conhecia Jill Castle. Ela estava 
maravilhosa num vestido de linho bege, distinta e elegante.
- Qual  o seu papel, meu bem?
- Estou no quadro do astronauta, Sr. Temple.
Ele lhe lanou um sorriso amvel.
- Meus amigos me chamam de Toby.
O elenco comeou a trabalhar. O ensaio correu estranhamente bem e 
Durkin logo compreendeu por qu. Toby estava se mostrando para 
Jill. J trepara com todas as outras moas do show. Ele lhe deu 
algumas linhas a mais e uma boa demonstrao. Terminando o 
ensaio, disse a ela:

- Que acha de um drinquezinho em meu camarim?
- Obrigada, eu no bebo.
Jill sorriu e se afastou. Tinha um encontro com um director de 
elenco e isso era mais importante do que Toby Temple. Ele no 
passava de um "bico", enquanto o director significava trabalho 
regular.
Gravado naquela noite, o show foi um enorme sucesso, um dos 
melhores j feitos por Toby.
- Mais um estouro - disse Clifton a Toby. - Aquele quadro do 
astronauta foi de primeira.
Toby sorriu.
- , eu gosto daquela garota. Ela tem alguma coisa.
- Ela  bonita - disse Clifton.
 Cada semana era uma garota diferente. Todas tinham alguma coisa, 
todas iam para a cama com Toby e, se transformavam no assunto de 
ontem.
- D um jeito de ela vir cear connosco, Clifton.
No se tratava de um pedido e sim de uma ordem. H alguns anos, 
Clifton teria dito a ele que se arranjasse ele mesmo, mas agora, 
se o mandasse fazer alguma coisa, ele faria. Toby era um rei e 
este era seu reino; quem no quisesse ser exilado tinha de 
conservar-se em suas boas graas.
- Claro - disse. - Vou cuidar disso.
Clifton atravessou o hall at o vestirio das danarinas e 
actrizes da equipe. Bateu uma vez e entrou; na sala havia uma 
dzia de moas em diferentes estgios de nudez, que no lhe deram 
a menor ateno, seno para cumpriment-lo. Jill removera a 
maquiagem e estava trocando de roupa. Clifton aproximou-se.
- Voc esteve muito bem - disse.
Jill deu uma olhada nele pelo espelho, desinteressada.
- Obrigada.
Noutros tempos, teria ficado entusiasmada ao ver Clifton Lawrence 
to de perto. Ele lhe poderia ter aberto todas as portas de 
Hollywood. Agora, todo mundo sabia que Lawrence nada mais era que 
o bobo de Toby Temple.
- Tenho boas notcias para voc. O Sr. Temple deseja sua 
companhia para a ceia.
Jill ajeitou ligeiramente o cabelo com as pontas dos dedos e 
disse:
- Diga-lhe que estou cansada. Vou dormir.
E saiu.
A ceia daquela noite foi uma tristeza, Toby, Clifton Lawrence e 
Durkin, o director, foram ao La Rue. Durkin sugerira convidar 
umas duas coristas, mas Toby rejeitara furiosamente a idia. O 
maitre perguntou:
- Quer fazer o pedido agora, Sr. Temple?
Toby apontou para Clifton e disse:
- Quero. Para esse idiota aqui, traga capim.
Clifton riu junto com os outros, fingindo que Toby estava apenas 
brincando. Mas ele falou com raiva.
- Pedi-lhe que fizesse algo muito simples: convidar uma garota 
para jantar. Quem lhe mandou assust-la?
- Ela estava cansada - explicou Clifton. - Disse que...
- Nenhuma garota pode estar cansada demais para jantar comigo. 
Voc deve ter dito alguma coisa que a chateou.
Toby levantou a voz e as pessoas ao lado voltaram-se para 
olh-los. Toby lanou-lhe seu sorriso de garoto e disse:

- Sabe, pessoal, este  um jantar de despedida. - Apontou para 
Clifton. - Ele doou seu crebro ao zoolgico.
Houve risos na outra mesa. Clifton forou um sorriso, mas sob a 
mesa suas mos estavam cerradas.
- Querem saber at que ponto ele  idiota? - Toby perguntou s 
pessoas vizinhas. - Na Polnia, fazem piadas sobre ele.
Os risos aumentaram. Clifton tinha vontade de se levantar e sair, 
mas no ousava. Durkin estava quieto, era esperto demais para se 
intrometer. Toby atrara a ateno de vrias pessoas em volta; 
elevou novamente a voz, distribuindo seu sorriso cheio de charme.
- Clifton Lawrence carrega a burrice honestamente. Quando nasceu, 
os pais tiveram uma briga por causa dele. A me jurara que o beb 
no era dela.
Finalmente a noite acabou, mas no dia seguinte toda a cidade 
estava comentando as histrias sobre o pobre agente.
Clifton ficou deitado aquela noite, sem conseguir dormir. 
Perguntava a si mesmo por que permitira que Toby o humilhasse e a 
resposta era simples: por dinheiro. A renda gerada por Toby 
Temple trazia-lhe mais de um quarto de milhes de dlares por 
ano. Levava uma vida cara e abundante; no economizara um s 
centavo. Sem os outros clientes, precisava dele. Esse era o 
problema. Toby sabia disso e a brincadeira de atorment-lo se 
transformara num desporto sangrento. Clifton tinha de escapar 
antes que fosse tarde demais.
Mas sabia que j era tarde demais.
Cara na armadilha dessa situao por causa de sua afeio por 
Toby: gostava realmente dele. Vira-o destruir outras pessoas, 
mulheres que se apaixonaram por ele, comediantes que tentavam 
competir com ele, crticos que emitiam opinies negativas a seu 
respeito. Mas esses eram os outros. Jamais acreditara que Toby se 
voltaria contra ele. Os dois eram ntimos demais, Clifton fizera 
demais por ele.
Tinha horror de pensar no que lhe reservava o futuro.

Normalmente, Toby no olharia duas vezes para Jill Castle. Mas 
no estava habituado a ser contrariado em seus desejos e a recusa 
da moa serviu apenas como estimulante. Ele a convidou para 
jantar e, ante a recusa, afastou a idia, acreditando tratar-se 
de algum jogo idiota que ela estivesse fazendo, e resolveu 
esquec-la. A ironia estava no facto de que, se fosse um jogo, 
ela no poderia engan-lo, porque ele compreendia demais as 
mulheres. No, ele sentiu que Jill realmente no queria sair em 
sua companhia e a idia o atormentava. No conseguia parar de 
pensar nela.
De maneira casual, disse a Eddie Berrigan que talvez fosse boa 
idia usar Jill no show outra vez. Eddie lhe telefonou e ela 
respondeu que estava ocupada fazendo uma ponta num faroeste. 
Quando deu a notcia a Toby, ele ficou furioso.
- Diga-lhe para cancelar seja l o que for que estiver fazendo. 
Pagaremos mais. Santo Deus, este  o show de maior sucesso na 
televiso. Que  que h com aquela garota doida? 
Eddie tornou a ligar para Jill e contou-lhe sobre a atitude de 
Toby.
- Ele realmente quer t-la de novo no show, Jill. Pode dar um 
jeito?
- Sinto muito - disse. - Tenho um papel na Universal, no posso 
abandon-lo.

Nem tentaria. Nenhuma actriz progredia em Hollywood se 
abandonasse um estdio. Toby Temple nada significava para ela 
alm de um dia de trabalho. Na noite seguinte, o Grande Homem em 
pessoa ligou para ela. No telefone, sua voz soava clida e 
atraente.
- Jill? Aqui  seu velho companheiro de cena, Toby.
- Oi, Sr. Toby.
- Ei, que  isso? Por que o "senhor"?
No houve resposta.
- Voc gosta de beisebol? Tenho cadeiras de camarote para 
assistir ao...
- No, no gosto.
- Nem eu - Toby riu. - Estava testando voc. Oua, que tal jantar 
comigo no sbado  noite? Roubei o chefe de cozinha do Maxim's de 
Paris. Ele...
- Sinto muito, tenho um compromisso, Sr. Toby - no havia a menor 
nota de interesse na voz dela.
Toby sentiu que segurava o telefone com mais fora.
- Quando  que voc est livre?
- Sou uma moa que trabalha duro. No saio muito. Mas obrigada 
pelo convite.
E a linha emudeceu. A cadela batera o telefone, uma puta de uma 
actrizinha de pontas batera-lhe o telefone! Toby jamais conhecera 
uma mulher que no fosse capaz de dar um ano de vida para passar 
uma noite com ele, e essa idiota fodida lhe dera um fora! Estava 
estourando de raiva e descarregou-a em todos que o cercavam. Nada 
estava direito. O script era uma droga, o director um idiota, a 
msica horrvel e os actores podres. Ordenou que Eddie Berrigan, 
o director de elenco, viesse a seu camarim.
- Que  que voc sabe sobre Jill Castle? perguntou.
- Nada - disse Eddie imediatamente.
No era bobo. Tal como todo o resto do pessoal do show, sabia 
exactamente o que estava acontecendo. Fossem quais fossem as 
consequncias, Eddie no tinha a menor inteno de se envolver.
- Ela anda trepando por a?
- No, senhor - disse Eddie com firmeza. - Se andasse, eu 
saberia.
- Quero que voc a investigue - ordenou Toby. - Descubra se tem 
namorado, aonde vai, o que faz. Voc sabe o que eu quero.
- Sim, senhor - respondeu Eddie gravemente.
s trs horas da manh seguinte Eddie foi acordado pelo telefone 
da mesinha-de- -cabeceira.
- Que foi que voc descobriu? - perguntou uma voz.
Eddie sentou-se na cama, piscando, tentando acordar.
- Diabos, que  que...
De sbito compreendeu quem estava ao telefone.
- Eu verifiquei - disse apressadamente. - A ficha de sade dela  
limpa.
- No lhe pedi a merda do atestado de sade dela - falou Toby 
irritado. - Ela anda trepando com algum?
- No, senhor. No h ningum. Conversei com meus amigos por a; 
todos gostam de Jill e lhe do papis porque ela  boa actriz.

Eddie falava depressa, ansioso por convencer o homem do outro 
lado da linha. Se viesse a saber que Jill fora para a cama com 
ele, que o preferia a Toby Temple, Eddie jamais tornaria a 
trabalhar naquela cidade. De facto falara com seus amigos 
directores e todos se encontravam na mesma posio. Ningum 
queria ter Toby Temple com inimigo e assim combinaram uma 
conspirao de silncio.
- Ela no anda com ningum.
A voz de Toby se acalmou.
- Entendo. Imagino que seja uma garota meio doida, hein?
- Acho que sim - respondeu Eddie aliviado.
- Ei! Espero no t-lo acordado.
- No, no, tudo bem, Sr. Temple.
Mas Eddie ficou acordado por muito tempo, imaginando o que 
poderia acontecer-lhe caso a verdade um dia viesse  luz.
Porque aquela cidade pertencia a Toby Temple.

Toby e Clifton Lawrence estavam almoando no Hillcrest Country 
Club, que fora fundado porque poucos clubes de campo elegantes de 
Los Angeles permitiam a entrada de judeus. Essa poltica era to 
regidamente comprida que Melinda, de dez anos, filha de Groucho 
Marx, fora expulsa da piscina de um clube ao qual fora levada por 
uma amiga no-judia. Quando Groucho ficou sabendo do facto, 
telefonou para o gerente do clube e disse:
- Oua, minha filha  apenas meio judia. Ser que voc a deixaria 
entrar na piscina at a cintura?
Em consequncia de incidentes desse tipo, um grupo de judeus 
ricos apreciadores de golfe, tnis, baralho e "malhao" de 
anti-semitas reuniu-se e fundou um clube prprio, cujos ttulos 
s podiam ser comprados por judeus. O Hillcrest foi construdo 
num belo parque, a poucas milhas do centro de Beverly Hills, e 
logo se tornou famoso por ter o melhor buf e as conversas mais 
interessantes da cidade. Os gentios queriam por fora ser 
admitidos e, num gesto de tolerncia, a directoria determinou que 
uns poucos no-judeus teriam permisso para se filiar ao clube.
Toby sempre se sentava  mesa dos comediantes, onde as 
inteligncias de Hollywood se reuniam para trocar piadas e 
competir umas com as outras. Mas nesse dia Toby pensava em outras 
coisas. Levou seu empresrio para uma mesa de canto e disse:
- Preciso de seus conselhos, Clifton.
O pequeno agente levantou os olhos para ele, surpreso. Fazia 
muito tempo que Toby no lhe pedia conselhos.
-  claro, meu rapaz.
- Trata-se daquela moa - comeou Toby, e imediatamente Clifton 
entendeu tudo.
Metade da cidade j estava sabendo da histria. Era a maior piada 
do momento em Hollywood; um colunista chegara mesmo a dar a 
notcia sem citar nomes. Toby lera e comentara: "Quem ser o 
palhao?" O grande amante estava amarrado a uma garota que lhe 
dera um fora. S havia uma maneira de abordar essa situao.
- Jill Castle - disse Toby. - Lembra-se dela? Aquela garota que 
participou do show.
- Ah, sim, uma moa muito atraente. Qual  o problema?
- No tenho a menor idia - admitiu. -  como se ela tivesse 
alguma coisa contra mim. Cada vez que a convido para um programa, 
levo um fora. Faz com que me sinta um lixo qualquer de Iowa.
Clifton arriscou:

- Por que no pra de convid-la?
- A  que entra a parte mais louca, meu chapa. No consigo. Aqui 
entre ns e o meu pau, nunca na vida desejei tanto uma garota. 
Est ficando de um jeito que no consigo pensar em outra coisa.
Sorriu embaraado, e acrescentou:
- Eu lhe disse que era loucura. Voc tem experincia, Clifton. 
Que devo fazer?
Por um momento Clifton sentiu-se tentado a dizer a verdade. Mas 
no podia contar a Toby que a garota com quem ele sonhava trepava 
pela cidade com qualquer assistente de direco de elenco que lhe 
proporcionasse um dia de trabalho. No, se quisesse conserv-lo 
como cliente.
- Tenho uma idia - sugeriu. - Ela encara a carreira com 
seriedade?
- Encara.  ambiciosa.
- Muito bem; nesse caso faa-lhe um convite que ela tenha de 
aceitar.
- Que quer dizer?
- D uma festa em sua casa.
- Mas acabei de lhe dizer que ela simplesmente no...
- Deixe-me terminar. Convide chefes de estdio, produtores, 
directores, gente que de algum modo poderia ajud-la. Se ela est 
mesmo interessada em se tornar uma actriz, morrer de vontade de 
conhecer todos eles.
Toby discou o nmero de Jill.
- Al, Jill?
- Quem fala? - perguntou ela.
O pas inteiro conhecia sua voz e ela perguntava quem estava 
falando.
- Toby. Toby Temple.
- Oh! - foi um som que poderia significar qualquer coisa.
- Oua, vou dar uma pequena festa em minha casa na quarta-feira 
e... - ouviu-a comear a recusar e se apressou: - estou 
convidando Sam Winters, chefe da Pan-Pacific, e alguns outros 
chefes de estdio, alm de uns produtores e directores. Pensei 
que talvez fosse bom para voc conhec-los. Poderia ir?
Houve uma pausa mnima e Jill Castle falou:
- Quarta-feira  noite. Sim, posso ir. Obrigada, Toby. 
E nenhum dos dois sabia que se tratava de um "encontro em 
Samarra".

No terrao uma orquestra tocava, enquanto garons de libr faziam 
circular bandejas de hors-d'aeuvres e taas de champanha.
Quando Jill chegou, com quarenta e cinco minutos de atraso, Toby 
correu nervosamente at a porta para cumpriment-la. Usava um 
vestido simples de seda branca e o cabelo negro batia-lhe 
suavemente nos ombros. Estava deslumbrante. Toby no conseguia 
tirar os olhos dela. Jill sabia que estava maravilhosa; tinha 
lavado o cabelo e penteara-se com cuidado, alm de gastar um 
tempo enorme com a maquilagem.
- H muitas pessoas aqui que quero lhe apresentar.

Toby pegou-a pela mo e conduziu-a atravs do grande saguo at a 
sala de visitas. Jill parou na porta, olhando os convidados. 
Conhecia quase todos os rostos ali presentes; vira-os nas capas 
de Times, Life, Newsweek, Paris-Match, Oggi ou na tela. Esta era 
a verdadeira Hollywood. Eram estes os fabricantes de filmes. Jill 
imaginara mil vezes esse momento: estar com estas pessoas, 
conversar com elas. Agora a realidade estava presente, era 
difcil para ela aceitar que estava mesmo acontecendo.
Toby entregou-lhe uma taa de champanha. Tomou-lhe o brao e 
levou-a at um homem cercado por um grupo de pessoas.
- Sam, quero lhe apresentar Jill Castle.
Sam se virou e disse amavelmente:
- Al, Jill Castle.
- Jill, este  Sam Winters, chefe dos Pan-Pacific Studios.
- Sei quem  o Sr. Winters - disse.
- Jill  actriz, Sam, uma ptima actriz. Voc poderia dar-lhe um 
papel: um pouco de classe para sua espelunca.
- Lembrar-me-ei disso - falou Sam polidamente.
Toby pegou a mo de Jill, segurando-a com firmeza.
- Venha, meu bem. Quero apresent-la a todos.
Antes do fim da noite, Jill conheceu trs chefes de estdios, 
meia dzia de produtores importantes, trs directores, alguns 
autores, vrios colunistas de jornais e televiso e uma dzia de 
estrelas.  mesa do jantar, sentou-se  direita de Toby. Ficou 
ouvindo as conversas, saboreando a sensao de estar por dentro 
pela primeira vez.
- o problema com esses filmes picos  que, se um fracassa, pode 
acabar com o estdio. A Fox est na corda bamba  espera do 
resultado de Clepatra.
- voc j viu o ltimo filme de Billy Wilder? Sensacional.
-  mesmo? Gostava mais dele quando trabalhava com Brackett. 
Brackett tem classe.
- Billy tem talento.
- ento, mandei o script do filme de mistrio para o Peck na 
semana passada e ele o adorou. Disse que me dar uma resposta 
definitiva dentro de um ou dois dias.
- recebi o convite para conhecer esse novo guru, Krishi 
Pramananda. Bem, meu caro, acontece que eu j o conheci; fui ao 
bar mitzvah dele.
- o problema quanto a calcular o oramento de um filme em dois 
milhes  que, quando voc pe o resultado no papel, o custo da 
inflao, mais os malditos sindicatos, j o fizeram subir para 
trs ou quatro.
"Milhes", pensou Jill excitada. "Trs ou quatro milhes." 
Recordou as interminveis e pobres conversas na Schwab's, quando 
os parasitas, os sobreviventes, lanavam avidamente uns para os 
outros migalhas de informao sobre o que faziam os estdios. 
Bem, as pessoas naquelas mesas eram os verdadeiros sobreviventes, 
os responsveis por tudo que acontecia em Hollywood.
Eram essas as pessoas que haviam mantido os portes fechados para 
ela, que se haviam recusado a dar-lhe uma chance. Qualquer um dos 
presentes  mesa poderia t-la ajudado, poderia ter modificado 
sua vida, mas nenhum dispusera de cinco minutos para dispensar a 
Jill Castle. Ela deu uma olhada para o produtor que estava 
fazendo sucesso com um grande e novo filme musical: ele se 
recusara a marcar uma entrevista com ela.
Na outra extremidade da mesa um famoso director de comdias 
conversava animadamente com a estrela de seu ltimo filme. Tambm 
ele se recusara a receb-la.

Sam Winters conversava com o chefe de outro estdio. Jill lhe 
mandara um telegrama pedindo que observasse seu trabalho num 
programa de televiso. Ele jamais se dignara responder.
Eles pagariam pelas humilhaes e insultos, eles e todo o mundo 
nessa cidade que a tratara com desprezo. Agora, ela nada 
significava para as pessoas presentes, mas iria significar. Ah, 
sim. Um dia significaria muito.
A comida estava magnfica, mas Jill estava preocupada demais para 
reparar no que comia. Terminado o jantar, Toby levantou-se e 
disse:
-  melhor nos apressarmos seno eles comeam o filme sem ns.
Segurando Jill pelo brao, abriu caminho em direco  grande 
sala de projeco onde seria exibido o filme.
A sala estava preparada para que sessenta pessoas pudessem 
assistir ao filme confortavelmente instaladas em sofs e 
poltronas. Num dos lados da entrada havia um compartimento aberto 
cheio de doces e do outro, uma mquina de pipocas.
Toby sentou-se ao lado de Jill. Ela percebeu que durante toda a 
projeco seus olhos se voltaram mais para ela do que para o 
filme. Terminada a sesso, acenderam-se as luzes e foram servidos 
caf e bolo. Meia hora mais tarde os convidados comearam a se 
despedir. A maioria tinha que estar cedo nos estdios na manh 
seguinte.
Toby estava junto  porta da frente despedindo-se de Sam Winters, 
quando Jill se aproximou, de casaco.
- Aonde vai? - perguntou Toby. - Vou levar voc em casa.
- Eu estou de carro - respondeu com delicadeza. - Obrigada pela 
noite encantadora, Toby.
Toby ficou l parado, sem poder acreditar, olhando-a afastar-se. 
Fizera planos fantsticos para o resto da noite. Levaria Jill 
para cima, at o quarto, e... chegara mesmo a escolher as fitas 
que tocaria! "Qualquer uma das mulheres que estiveram aqui esta 
noite agradeceria a oportunidade de se deitar na minha cama", 
pensou ele. E eram estrelas, no faziam pontas mudas. Jill Castle 
era burra demais para saber o que estava recusando. No que dizia 
respeito a Toby, estava tudo terminado. Aprendera a lio.
Jamais voltaria a falar com ela.
Toby ligou para Jill s nove horas da manh seguinte. Uma voz 
gravada atendeu ao telefone: "Al, aqui fala Jill Castle. Sinto 
muito no estar emm casa no momento. Se deixar seu nome e 
telefone, ligarei quando voltar. Aguarde, por favor, at ouvir o 
sinal. Obrigada". Seguiu-se um som agudo.
Toby ficou parado com o fone na mo e depois desligou com fora, 
sem deixar nenhum recado. Claro que no iria conversar com uma 
voz mecnica. Um minuto depois tornou a ligar. Ouviu de novo a 
gravao e ento falou: "Voc tem a voz mais bonita da cidade. 
Devia embal-la e vend-la. No costumo telefonar novamente para 
garotas que jantam comigo e saem correndo, mas no seu caso 
resolvi fazer uma excepo. Quais so seus planos para o jantar 
desta..." O telefone emudeceu. Ele falara demais para a maldita 
gravao. Ficou imvel, sem saber o que fazer, sentindo-se um 
idiota. Estava furioso por ter de ligar novamente, mas discou 
pela terceira vez e disse: "Como dizia antes de o rabino me 
cortar, que tal jantarmos esta noite? Espero seu telefonema". 
Disse seu nmero e desligou.

Toby esperou inquieto o dia inteiro mas Jill no ligou. s sete 
da noite, ele pensou: "V para o inferno. Foi sua ltima chance, 
baby". E dessa vez estava falando srio. Pegou o caderno de 
endereos e comeou a folhe-lo. No havia ningum que lhe 
interessasse.

26

Foi o mais extraordinrio papel da vida de Jill.
No fazia menor idia da razo pela qual Toby a queria tanto, j 
que podia ter qualquer moa em Hollywood, mas a razo no 
importava. O facto  que ele a queria.. Durante vrios dias ela 
no conseguiu pensar em outra coisa seno no jantar e no jeito 
como as pessoas - toda aquela gente importante - paparicava Toby. 
Fariam qualquer coisa por ele. De algum modo, Jill tinha de dar 
um jeito para que ele fizesse qualquer coisa por ela. Sabia que 
teria de ser muito esperta: sua reputao era de homem que levava 
uma garota para a cama e depois perdia totalmente o interesse por 
ela. Gostava de caa, do desafio. Jill pensou muito em Toby e na 
maneira como o apanharia.
Ele lhe telefonava diariamente e ela deixou passar uma semana at 
concordar com um jantar. Toby ficou to eufrico que todo o 
pessoal do elenco e da equipa notou.
- Se esse bicho existisse - disse Toby a Clifton -, eu diria que 
 amor. Cada vez que penso em Jill tenho uma ereco.
Riu e acrescentou:
- E quando tenho uma ereco, meu chapa,  como colocar um cartaz 
no Hollywood Boulevard.
Na noite em que saram pela primeira vez, Toby pegou Jill em casa 
e disse:
- Temos uma mesa reservada no Chase.
Estava certo de que seria uma festa para ela.
- Oh!
Havia uma nota de desapontamento em sua voz. Ele piscou.
- Voc prefere ir a outro lugar?
Era sbado, mas Toby sabia que poderia conseguir mesa em qualquer 
lugar: no Perino's, no Ambassador, no Derby.
-  s dizer.
Jill hesitou e disse:
- Voc vai rir.
- No, no vou.
- Ao Tommy's.

Toby submetia-se a uma massagem ao lado da piscina, sob os 
cuidados de um dos Mac, enquanto Clifton Lawrence lhe fazia 
companhia.
- Voc no acreditaria - contava Toby entusiasmado. - Ficamos 
vinte minutos naquela espelunca de lanchonete. Sabe onde  o 
Tommy's? No centro de Los Angeles. S bbados vo ao centro de 
Los Angeles. Ela  louca. Eu pronto a torrar cem dlares de 
champanha e tudo o mais com ela e a noite acaba me custando dois 
dlares e quarenta cents. Queria lev-la ao Pip's depois. Sabe 
aonde fomos? Fomos andar pela praia de Santa Monica. Meu Gucci 
ficou cheio de areia. Ningum passeia pela praia  noite. Os 
mergulhadores assaltam a gente - sacudiu a cabea, admirado. - 
Jill Castle. Voc acredita nela?
- No - respondeu Clifton secamente.
- No quis vir  minha casa para um cochilo, de modo que pensei 
em dar a trepada no apartamento dela, certo?
- Certo.
- Errado. No me deixou passar da porta. Ganhei um beijo no rosto 
e voltei para casa sozinho. Agora, que espcie de noite  essa 
para Charlie-Superstar?
- Vai v-la de novo?

- Ficou demente? Pode apostar seu doce traseiro como vou!
Desde ento, Toby e Jill se encontraram quase todas as noites. 
Quando ela se recusava a v-lo porque estava ocupada ou tinha 
compromisso cedo na manh seguinte, ele ficava desesperado. 
Telefonava-lhe uma dzia de vezes por dia.
Levou-a aos mais elegantes restaurantes e aos clubes particulares 
mais fechados da cidade. Por sua vez, Jill levou-o ao velho 
passeio de tbuas na praia de Santa Monica, ao Trancas Inn, ao 
pequeno restaurante pertencente a uma famlia francesa, o Taix, 
ao Papa De Carlos e a todos os lugares estranhos frequentados por 
uma aspirante a actriz sem dinheiro. Toby no se importava desde 
que Jill estivesse presente.
Era a primeira pessoa que conhecera capaz de fazer desaparecer 
seu sentimento de solido.
Toby quase temia ir para a cama com Jill agora, receando que a 
magia pudesse desaparecer. Contudo, desejava-a mais do que 
desejara qualquer outra mulher em sua vida. Certa vez ao fim de 
uma noite, enquanto ela lhe dava um leve beijo de boa noite. Toby 
passou a mo entre suas pernas e disse:
- Por Deus, Jill, vou enlouquecer se no tiver voc.
Ela se afastou e disse com firmeza:
- Se  isso o que voc quer, pode comprar em qualquer parte da 
cidade por vinte dlares.
Bateu a porta no rosto dele. Mais tarde, encostou-se na porta 
tremendo, com medo de ter ido longe demais. Passou a noite em 
claro, preocupada.
No dia seguinte Toby lhe enviou uma pulseira de diamantes e Jill 
percebeu que estava tudo bem. Devolveu o presente com um bilhete 
cuidadosamente pensado: "Seja como for, obrigada. Voc faz com 
que eu me sinta maravilhosa".
- Custou-me trs mil - disse Toby a Clifton com orgulho. - E ela 
me devolve! - Balanou a cabea incrdulo. - Que se pode pensar 
de uma garota assim?
Ele poderia ter dito exactamente o que pensava, mas limitou-se a 
comentar:
- No resta dvida de que ela  fora do comum.
- Fora do comum! - exclamou Toby. - Toda a garota desta cidade 
agarra o que pode deitar as mos em cima. Jill  a primeira moa 
que conheo que no d a mnima para coisas materiais. Voc me 
culpa por estar louco por ela?
- No - disse Clifton.
Mas comeava a se preocupar. Sabia tudo sobre Jill e se 
perguntava se no devia ter falado antes.
- Eu no me oporia se voc quisesse aceitar Jill como cliente - 
falou Toby. - Aposto que ela poderia se tornar uma grande 
estrela.
Clifton escapou com habilidade, mas firmemente:
- No, obrigado, Toby. Uma superestrela nas mos  suficiente - 
respondeu rindo.
Naquela noite, Toby repetiu esse comentrio a Jill.
Depois da fracassada tentativa com Jill, Toby teve o cuidado de 
no abordar mais aquele assunto. Na realidade, orgulhava-se dela 
por recus-lo; todas as outras moas com quem sara haviam se 
comportado como capachos. Jill, no. Quando fazia algo que ela 
achava errado, ela lhe dizia. Certa noite ele ofendeu um homem 
que o aborrecia pedindo autgrafos. Mais tarde, Jill lhe disse:

- Quando voc  sarcstico no palco, Toby, tem piada, mas aquele 
senhor ficou ofendido.
Toby voltou e pediu desculpas ao homem.

Jill disse que achava que Toby bebia demais e que isso no lhe 
fazia bem. Toby passou a beber menos. Fez um comentrio casual 
sobre suas roupas e ele mudou de alfaiate. Toby permitia que ela 
lhe dissesse coisas que ele no toleraria de ningum no mundo. 
Ningum jamais ousava dar-lhe ordens ou critic-lo.
Com excepo,  claro, de sua me.
Jill recusava-se de aceitar dinheiro ou presentes caros, mas Toby 
sabia que ela no podia ter muito dinheiro e seu comportamento 
corajoso fez com que ele se sentisse ainda mais orgulhoso dela. 
Certa noite, no apartamento de Jill, enquanto esperava que ela 
acabasse de se preparar para jantar, ele notou uma pilha de 
contas na sala. Ps todas no bolso e no dia seguinte mandou que 
Clifton as pagasse. Sentiu-se vitorioso, mas queria fazer algo de 
grande por ela, algo importante.
E de sbito compreendeu o que seria.

- Sam, vou lhe fazer um tremendo favor!
"Cuidado com estrelas que trazem presentes", pensou Sam Winters 
maldosamente.
- Voc tem andado louco  procura de uma garota para o filme de 
Kelker, certo? - perguntou Toby. - Bem, arranjei a garota para 
voc.
- Algum que eu conhea? - perguntou Sam.
- Voc a conheceu na minha casa. Jill Castle.
Sam lembrava-se de Jill, rosto e corpo lindos, cabelos negros. 
Velha demais para o papel da adolescente no filme de Kelker. Mas 
se Toby Temple queria que fosse testada para o papel, Sam faria 
sua vontade.
- Mande-a vir falar comigo esta tarde - disse.
Sam cuidou para que o teste de Jill Castle fosse bem trabalhado. 
Designou um dos melhores cmaras do estdio e encarregou o 
prprio Keller da direco do teste.
No dia seguinte, Sam examinou o copio. Como pensara, Jill era 
madura demais para o papel da adolescente. Fora isso, no era m, 
mas faltava-lhe carisma, a magia que emana da tela.
Ligou para Toby Temple.
- Examinei o teste de Jill esta manh, Toby. Ela fotografa bem e 
sabe dizer as falas, mas no  grande actriz. Poderia ganhar um 
bom dinheiro em papis secundrios, mas, se est decidida a ser 
estrela, acho que est no negcio errado.
Naquela noite Toby apanhou Jill para lev-la a um jantar em 
homenagem a um famoso director ingls recm-chegado a Hollywood. 
Ela queria muito ir.
Jill abriu a porta para Toby e, no momento que ele entrou, 
percebeu que havia algo errado.
- Voc tem notcias do meu teste - disse ela.
Ele assentiu, hesitante.
- Conversei com Sam Winters.
Disse a ela a opinio de Sam, tentando suavizar o choque.
Jill ficou parada ouvindo sem dizer uma palavra. Estivera to 
certa. O papel parecera to bom. Vinda de lugar nenhum, 
surgiu-lhe a lembrana da taa de ouro na vitrina da loja. A 
garotinha sofrera com a dor do desejo e da perda; agora, ela 
experimentava a mesma sensao de desespero.

- Olhe, querida, no se preocupe com isso. Winters no sabe o que 
est falando - dizia Toby.
Mas acontece que Winters sabia. Ela jamais conseguiria. Toda a 
agonia, a dor e a esperana havia sido em vo. Era como se sua 
me estivesse com a razo: um Deus vingativo parecia estar 
punindo-a por algo que ela desconhecia. Podia ouvir a voz do 
pregador gritando: "Vem aquela menina? Ela arder no inferno por 
seus pecados se no entregar a alma a Deus e pedir perdo". 
Chegara a Hollywood com amor e sonhos, mas a cidade a degradara.
Foi tomada por um insuportvel sentimento de tristeza e s 
percebeu que estava soluando quando sentiu o brao de Toby a 
enla-la.
- Calma, est tudo bem - disse ele, e seu carinho a fez chorar 
mais ainda.
Ficou parada nos braos de Toby e contou-lhe sobre o pai, que 
morrera na hora do seu nascimento, sobre a taa de ouro, sobre os 
Holy Rollers, as dores de cabea e as noites de terror, quando 
esperava que Deus lhe enviasse a morte. Contou sobre os 
cansativos e deprimentes empregos que tivera de aceitar para 
conseguir tornar-se actriz, sobre a srie de fracassos. Algum 
instinto profundamente enraizado impediu-a de mencionar os homens 
de sua vida. Embora tivesse comeado fazendo um jogo com Toby, 
agora j no podia mais fingir. Foi nesse momento de total 
vulnerabilidade que ela o alcanou: tocou numa profunda fibra de 
seu ser, jamais antes atingida por ningum.
Ele pegou o leno no bolso e secou-lhe as lgrimas.
- Ei, se acha que sua vida foi dura - falou -, escute s isso. 
Meu velho era aougueiro e...
Conversaram at as trs da manh. pela primeira vez na vida, Toby 
conversou com uma garota como ser humano. Ele a compreendia, como 
no compreender, se era ele prprio?
Nenhum dos dois jamais soube quem deu o primeiro passo. O que 
comeara como um conforto suave e cheio de compreenso 
transformou-se lentamente num desejo sensual, primitivo. 
Beijaram-se com sofreguido, Toby abraava-a fortemente. Jill 
sentiu a presso do membro contra seu corpo. Precisava dele e ele 
se despia, ela o ajudava e de repente l estava ele nu a seu 
lado, na escurido, e havia uma sensao de avidez nos dois. 
Deitaram-se no cho. Toby a penetrou e Jill soltou um gemido ao 
sentir o tamanho do membro dele; ele comeou a se afastar e ela o 
puxou para mais perto de si, segurando-o tenazmente. Ento ele 
comeou a fazer amor com ela, penetrando-a, completando-a, 
fazendo de seu corpo um todo. Foi delicado e cheio de amor a 
princpio, tornando-se depois desenfreado e exigente. Foi um 
xtase, um arrebatamento insuportvel, um acasalamento animal, 
inconsciente, e Jill gritava: "Ame-me, Toby! ame-me, ame-me!" Seu 
corpo vibrante estava sobre ela, dentro dela, era parte dela, e 
os dois se transformaram numa s pessoa. 
Amaram-se a noite inteira e conversaram e riram e foi como sempre 
houvessem pertencido um ao outro.
Se Toby pensava, antes, que gostava de Jill, agora estava 
absolutamente louco por ela. Deitaram-se na cama e ele a abraou, 
protegendo-a, enquanto pensava, admirado: " isso que  amor". 
Virou-se para olh-la: Jill parecia clida, desarrumada e 
surpreendentemente bonita. Toby jamais amara algum tanto assim e 
disse:

- Quero me casar com voc.
Era a coisa mais natural do mundo. Ela o abraou com fora e 
respondeu:
- Oh, sim, Toby!
Amava-o e ia casar-se com ele.
E foi somente horas depois que Jill se lembrou do porqu de tudo 
isso. Ela havia desejado o poder de Toby. Quisera dar a 
retribuio a todos que a haviam usado, ferido, degradado. Queria 
vingana.
E agora a teria.

27

Clifton Lawrence estava numa encrenca. De certa forma, supunha, 
era sua culpa ter deixado que as coisas chegassem a esse ponto. 
Estava sentado no bar com Toby e ele lhe dizia:
- Pedi-a em casamento esta manh, Clifton, e ela aceitou. 
Sinto-me como um garoto de dezasseis anos.
Clifton tentou impedir que seu rosto trasse o choque. Teria de 
ser extremamente cuidadoso na maneira de enfrentar o assunto. De 
uma coisa estava certo: no podia deixar a vagabundazinha se 
casar com Toby Temple. No momento em que o casamento fosse 
anunciado, todos os maches de Hollywood viriam  luz para 
proclamar que j tinha provado a sua parte. Era um milagre que 
Toby ainda no tivesse descoberto a verdade sobre Jill, mas isso 
teria de acontecer um dia. Quando ficasse sabendo, mataria 
algum. Descarregaria sua raiva sobre todo o mundo  sua volta, 
todos que tinham deixado que tal coisa acontecesse, e Clifton 
Lawrence seria o primeiro a sentir o mpeto de sua ira. No, no 
podia deixar esse casamento acontecer. Sentiu-se tentado a frisar 
que Toby era vinte anos mais velho que Jill, mas controlou-se; 
olhou para ele e falou cautelosamente:
- Talvez seja um erro apressar as coisas. Leva-se muito tempo 
para se conhecer realmente uma pessoa.  possvel que voc mude 
de...
- Voc ser meu padrinho - disse Toby, sem ligar para o 
comentrio. - Acha que devemos nos casar aqui ou em Las Vegas?
Clifton sabia que estava perdendo tempo. S havia um meio de 
impedir o desastre: tinha de achar um jeito de deter Jill.
Na mesma tarde, telefonou para Jill e pediu-lhe que viesse a seu 
escritrio. Ela chegou com uma hora de atraso, deu-lhe um beijo 
no rosto, sentou-se na ponta do sof e disse:
- No disponho de muito tempo, vou me encontrar com Toby.
- No demorar muito.
Clifton estudou-a. Era uma Jill diferente. Quase no tinha 
nenhuma semelhana com a moa que ele encontrara pela primeira 
vez h alguns meses. Agora, parecia dona de uma confiana, de uma 
segurana que antes no possua. Bem, no era a primeira vez que 
Clifton lidava com garotas dessa espcie.
- Jill, vou ser bem claro. Voc  prejudicial para Toby. Quero 
que saia de Hollywood.
Tirou um envelope branco de uma gaveta.
- Aqui esto cinco mil dlares em dinheiro.  o suficiente para 
lev-la a qualquer lugar.
Ela ficou olhando-o por um momento com uma expresso de surpresa; 
depois recostou-se no sof e comeou a rir.
- No estou brincando - disse Clifton Lawrence. - Acha que Toby 
se casaria com voc se descobrisse que voc j foi para a cama 
com Hollywood inteira?
Jill encarou Clifton por um longo momento. Queria dizer-lhe que 
era ele o responsvel por tudo que lhe acontecera, ele e os 
outros donos do poder que se haviam recusado a lhe dar uma 
chance. Eles a fizeram pagar com o corpo, o amor-prprio, a alma. 
Mas sabia que seria impossvel faz-lo compreender. Clifton 
estava blefando; no ousaria contar a Toby sobre ela, seria sua 
palavra contra a dela.
Levantou-se e saiu do escritrio.

Uma hora mais tarde Clifton recebeu uma chamada de Toby. Nunca o 
vira to excitado.
- No sei o que voc disse a Jill, meu chapa, mas tenho de lhe 
contar: ela no quer esperar. Estamos a caminho de Las Vegas para 
nos casarmos!

O Lear estava a trinta e cinco milhas do Aeroporto Internacional 
de Los Angeles, voando a duzentos e cinquenta ns. David Kenyon 
fez contacto com o controle de pouso LAX e deu sua posio.
Estava eufrico, ia ao encontro de Jill.
Cissy se recuperara da maioria dos ferimentos sofridos no 
acidente, mas seu rosto fora severamente atingido. David a 
mandara ao maior cirurgio plstico do mundo, um mdico 
brasileiro. Ela partira h seis semanas e nesse meio tempo 
mandara-lhe notcias entusiasmadas sobre o mdico.
Vinte e quatro horas antes, David recebera um telefonema de 
Cissy, dizendo que no voltaria. Estava apaixonada.
David no podia acreditar em sua sorte.
- Isso ...  maravilhoso - gaguejou. - Espero que voc e o 
doutor sejam felizes.
- Oh, no  o doutor - replicou Cissy. -  o dono de uma pequena 
plantao. Ele se parece demais com voc, David. A nica 
diferena  que me ama.
O som do rdio interrompeu-lhe os pensamentos. "Lear 3 Alfa Papa, 
aqui fala o controle de pouso de Los Angeles. Tem permisso para 
aterrissar na pista 25 da esquerda. Quando pousar, por favor, 
desloque-se para a rampa  sua direita."
- Entendido.
David comeou a descer e seu corao disparou. Estava prestes a 
encontrar Jill, a dizer-lhe que ainda a amava, a pedi-la em 
casamento.
Ao atravessar o terminal, passou por uma banca de jornais e viu a 
manchete: "TOBY TEMPLE CASA-SE COM ACTRIZ". Leu a notcia duas 
vezes e foi para o bar do aeroporto. 
Ficou bbado durante trs dias e depois voou de volta para o 
Texas.

28

Foi uma lua-de-mel fantstica, Toby e Jill voaram num jacto 
particular para Las Hadas, onde se hospedaram com os Potio em 
sua estncia encantada, incrustada entre a selva e a praia 
mexicana. Os recm-casados ficaram numa villa afastada, cercada 
de cactos, hibiscos e buganvlias de cores brilhantes, onde aves 
exticas cantavam a noite inteira. Passaram dez dias entre 
passeios, iates e festas. Tiveram jantares deliciosos no Legazpi, 
preparados por grandes chefes de cozinhas, e nadaram em piscinas 
naturais. Jill fez compras nas sofisticadas butiques de Plaza.
Do Mxico voaram para Biarritz, onde ficaram no Htel du Palais, 
a espectacular casa que Napoleo III construiu para a Imperatriz 
Eugnia. O casal em lua-de-mel jogou nos cassinos, assistiu a 
touradas e fez amor noites inteiras.
Da costa basca voaram para Gstaad, a mil e duzentos metros acima 
do nvel do mar, nos Alpes suos, passando entre os picos das 
montanhas para apreciar a vista, passando sobre o monte Branco e 
o Matterhorn. Esquiaram pelas estonteantes encostas brancas, 
andaram de tren puxado por ces, degustaram fondues em vrias 
festas e danaram. Toby nunca fora to feliz. Achava a mulher que 
tornava sua vida completa. J no estava mais solitrio.
Por ele, a lua-de-mel duraria para sempre, mas Jill estava 
ansiosa por voltar. No tinha qualquer interesse por aqueles 
lugares nem por aquelas pessoas. Sentia-se como uma rainha 
recentemente coroada que tivesse sido afastada de seu pas. Jill 
Castle mal podia voltar a Hollywood.
A Sra. Toby Temple tinha contas a acertar.

29

 possvel sentir o cheiro do fracasso: adere como miasma. Tal 
como os ces detectam o odor do medo numa pessoa, pode-se sentir 
quando um homem comea a cair.
Sobretudo em Hollywood.
Todo mundo no negcio sabia que Clifton Lawrence estava acabado 
antes mesmo de ele prprio perceber. Podia-se sentir o cheiro no 
ar  sua volta.
Clifton no tivera qualquer notcia de Toby ou Jill na semana que 
se passa desde a volta do casal da lua-de-mel. Mandara um 
presente caro e trs recados telefnicos, que no foram 
respondidos. De algum modo, Jill conseguira uma trgua. Ele e 
Toby significam demais um para outro, no podiam deixar que 
algum se intrometesse.
Clifton foi at a casa deles numa manh em que sabia que Toby 
estava no estdio. Jill viu-o chegar e abrir a porta para ele. 
Estava maravilhosa e ele lhe disse isso. Ela foi amvel. 
Sentaram-se no jardim e tomaram caf, Jill contou-lhe sobre a 
lua-de-mel e os lugares que visitara.
- Sinto muito por Toby no ter respondido a seus telefonemas, 
Clifton. Voc no imagina como ele tem andado atarefado por aqui.
Ele sorriu, desculpando-se, e ele compreendeu que se enganara. 
Jill no era sua inimiga.
- Gostaria de comear tudo de novo: vamos ser amigos.
- Concordo, Clifton. Obrigada.
Clifton teve uma imensa sensao de alvio.
- Quero dar uma festa para vocs. Aluguei o salo privado do 
Bistro, no prximo sbado. Black-tie. Cem convidados, seus amigos 
mais ntimos. Que acha?
- ptimo. Toby ficar satisfeito.
Jill esperou at a tarde do dia da festa para telefonar.
- Sinto muito, Clifton. Receio no poder ir esta noite. Estou um 
pouco cansada. Toby acha que devo ficar em casa e descansar.
Clifton deu um jeito de esconder o que sentia.
- Lamento, Jill, mas compreendo. Toby vir, no?
Ouviu seu suspiro do outro lado:
- Receio que no, meu caro. Ele no vai a lugar nenhum sem mim. 
Mas espero que a festa corra bem. - E desligou.
Era tarde demais para cancelar a festa. A conta foi de trs mil 
dlares, mas custou bem mais do que isso a Clifton. Seus 
convidados de honra lhe deram um fora, seu nico cliente, e todo 
o mundo, chefes de estdios, estrelas, directores, todo o mundo 
importante de Hollywood percebeu isso. Clifton tentou disfarar 
dizendo que Toby no estava passando bem. Foi a pior coisa que 
poderia ter dito. Ao pegar um exemplar do Horald Examiner na 
tarde seguinte, deu com a foto do Sr. e Sra. Toby Temple tirada 
no Estdio Dodgers, na noite anterior.

Clifton Lawrence sabia agora que lutava por sua prpria vida. Se 
Toby o abandonasse, no haveria ningum para lhe dar a mo. 
Nenhuma das grandes agncias o admitiria porque ele no lhes 
poderia trazer clientes importantes; e no tolerava a idia de 
comear tudo de novo sozinho. Era tarde demais para isso. Tinha 
de achar um meio de conseguir a paz com Jill. Telefonou para ela 
e disse que gostaria de visit-la.

-  claro. - disse ela. - Eu disse a Toby ontem  noite que no 
temos visto voc ultimamente.
Foi at o bar e preparou um usque duplo. Isso vinha acontecendo 
com frequncia nos ltimos tempos. Era um mau hbito beber 
durante o dia de trabalho, mas a quem estava enganando? Que 
trabalho? Recebia diariamente ofertas importantes para Toby, mas 
no conseguia fazer com que o grande homem sentasse para 
discuti-las com ele. Antigamente, costumavam conversar sobre 
tudo. Recordou os bons tempos do passado, as viagens que haviam 
feito, as festas, os risos, as garotas. Os dois eram unidos como 
irmos gmeos. Toby precisara dele, contara com ele. E agora... 
Clifton preparou mais um drinque e ficou satisfeito ao constatar 
que suas mos j no estavam tremendo tanto.
Quando Clifton chegou  casa dos Temple, encontrou Jill no 
terrao tomando caf. Ela ergueu os olhos e sorriu ao v-lo 
aproximar-se. "Voc  um vendedor", ele disse para si mesmo. 
"Convena-a."
-  bom ver voc, Clifton. Sente-se.
- Obrigado, Jill.
Sentou-se diante dela, do outro lado de uma grande mesa de ferro 
forjado, e examinou-a. Jill usava um vestido branco de vero e o 
contraste entre ele e o cabelo negro e a pele dourada, queimada 
de sol, era fabuloso. Ela parecia mais jovem e, nica palavra que 
ocorreu a Clifton, inocente. Observava-o com um olhar afectuoso e 
amvel.
- Quer tomar caf, Clifton?
- No, obrigado. J tomei.
- Toby no est.
- Eu sei. Queria conversar com voc a ss.
- Que posso fazer por voc?
- Aceitar meu pedido de desculpas - disse ele apressadamente.
Jamais implorara nada a ningum em sua vida; seria a primeira 
vez.
- Ns... eu comecei com o p esquerdo. Talvez tenha sido culpa 
minha, provavelmente foi. Toby tem sido meu cliente e amigo por 
tanto tempo que eu... eu queria proteg-lo. Voc compreende?
- Claro, Clifton - disse Jill, com os olhos castanhos fixos nele. 
Ele respirou fundo.
- No sei se ele lhe contou a histria, mas fui eu que lancei 
Toby. Soube que se tornaria um grande astro desde a primeira vez 
que o vi.
Percebeu que Jill estava prestando o mximo de ateno.
- Naquela poca, eu cuidava de uma poro de clientes. Desfiz-me 
de todos para poder concentrar-me na carreira dele.
- Toby me falou do muito que voc fez por ele - disse ela.
- Ele falou? - Clifton odiou a ansiedade que percebeu na prpria 
voz.
Jill sorriu.
- Contou-me sobre aquela vez em que fez de conta que Sam Goldwin 
havia telefonado para voc e como voc foi v-lo assim mesmo. Foi 
simptico aquilo.
Clifton inclinou-se e falou:

- No quero que nada acontea a meu relacionamento com Toby. 
Preciso ter voc do meu lado. Peo-lhe que se esquea de tudo que 
aconteceu entre ns. Peo desculpas por ter agido daquela 
maneira. Pensei estar protegendo Toby. Bem, enganei-me; acho que 
voc vai fazer muito bem a ele.
-  o que quero. Muito.
- Se Toby me abandonasse, eu... acho que me mataria. No me 
refiro apenas aos negcios. Eu e ele temos... ele tem sido como 
um filho para mim. Gosto muito dele.
Desprezou-se por faz-lo, mas voltou a implorar:
- Por favor, Jill, pelo amor de Deus... - calou-se, com a voz 
embargada.
Observou-o por um longo momento com aqueles profundos olhos 
castanhos e depois estendeu a mo.
- No guardo ressentimentos - disse. - Pode vir jantar connosco 
amanh  noite?
Clifton respirou fundo e sorriu satisfeito, dizendo:
- Obrigado. - Percebeu que de repente seus olhos ficaram midos. 
- Eu... eu no vou esquecer isso. Nunca.
Na manh seguinte, quando Clifton chegou ao escritrio, deu com 
uma carta registrada notificando-o
de que seus servios haviam sido dispensados e que j no tinha 
mais autoridade para atuar como agente de Toby Temple.

30

Jill Castle Temple foi a coisa mais sensacional a atingir 
Hollywood desde o aparecimento do cinemascope. Numa cidade em que 
todos participavam do jogo de elogiar as roupas do imperador, ela 
usava a lngua como uma foice. Numa cidade em que a adulao era 
a moeda corrente das conversas, Jill dizia o que pensava, 
destemidamente. Tinha Toby a seu lado e brandia seu poder como 
uma arma, atacando todos os importantes executivos dos estdios. 
Eles no ousavam ofend-la porque no queriam ofender Toby. Ele 
era o astro mais lucrativo de Hollywood e todos o queriam, 
precisavam dele.
Toby fazia mais sucesso do que nunca. Seu programa de televiso 
ainda ocupava o primeiro lugar nos ndices semanais, a renda dos 
cassinos duplicava. Ele era o produto mais quente dos show 
business. Queriam-no como convidado, para lbuns de discos, em 
aparies pessoais, para promoes, eventos beneficentes, filmes, 
queriam-no, queriam-no.
As pessoas mais importantes da cidade se desdobravam para 
agradar-lhe. Logo aprendera que a maneira de faz-lo era 
satisfazendo Jill. Ela passou a encarregar-se pessoalmente da 
programao dos compromissos de Toby, organizando a vida dele de 
maneira que s comportasse lugar para as pessoas que ela 
aprovava. Ergueu uma barricada intransponvel em torno dele e s 
os ricos, os famosos e os poderosos tinham permisso para 
transp-la. Jill era a guardi da chama. A garotinha polonesa de 
Odessa, no Texas, recebia e era recebida por governantes dos 
Estados Unidos. Aquela cidade lhe fizera coisas terrveis, mas 
jamais tornaria a faz-las, enquanto ela tivesse Toby Temple.
A lista de dio de Jill era integrada por aqueles que estivessem 
realmente em dificuldades.
Certa vez foi para a cama com Toby e amou-o sensualmente. Quando 
o viu relaxado embora exausto, aninhou-se em seus braos e disse:
- Querido, j lhe contei sobre a poca em que estava procurando 
um agente e fui ver aquela mulher... como era mesmo o nome dela? 
Ah, sim, Rose Dunning. Ela disse que tinha um papel para mim e 
sentou-se na cama para ler as falas comigo.
Toby virou-se para olh-la, franzindo o cenho:
- Que aconteceu?
Jill sorriu:
- Inocente e estpida como eu era, comecei a ler e senti a mo 
dela subindo pela minha coxa.
Jill inclinou a cabea para trs e riu:
- Fiquei apavorada. Nunca corri tanto na vida.
Dez dias depois, a licena de agente de Rose Dunning foi revogada 
em carcter definitivo pela comisso de licenciamento da cidade.

No fim de semana seguinte, Toby e Jill foram para sua casa de 
Palm Springs. Ele estava deitado numa mesa de massagens no ptio, 
sobre uma pesada toalha turca, enquanto Jill ministrava-lhe uma 
longa e relaxante massagem. Estava deitado de costas, com 
chumaos de algodo protegendo-lhe os olhos do sol forte. Ela 
massageava-lhe os ps usando uma suave loo cremosa.

- Voc abriu mesmo os olhos com relao a Clifton - disse ele. - 
No passava de um parasita, sugando-me. Ouvi dizer que ele anda 
pela cidade tentando encontrar um scio mas ningum o quer. Sem 
mim, ele no consegue nem ser preso.
Jill fez uma pausa e falou:
- Tenho pena de Clifton.
- Esse  o seu maldito problema, querida. Voc pensa com o 
corao e no com a cabea. Precisa aprender a ser mais dura.
Ela sorriu tranquilamente:
- No posso evitar. Sou como sou.
Comeou a massagear as pernas de Toby, passando as mos 
lentamente em direco s coxas com movimentos leves e sensuais. 
Ele comeou a ter uma ereco.
- Jesus... - gemeu.
As mos dela estavam mais acima, movendo-se em direco  virilha 
de Toby, fazendo aumentar a rigidez. Ela mergulhou as mos entre 
suas pernas, e enfiou-lhe um dedo coberto de creme. O enorme 
pnis estava duro como pedra.
- Rpido, baby - disse ele. - Suba em mim.

Estavam na marina, no veleiro Jill, o grande barco  vela e a 
motor que Toby comprara para ela. O primeiro show de televiso de 
Toby para a nova temporada devia ser gravado no dia seguinte.
- Estas so as melhores frias da minha vida - disse Toby. - 
Estou com dio de ter que voltar ao trabalho.
- Mas  um show to maravilhoso - disse Jill. - Foi divertido 
participar dele. Foram todos to gentis.
Fez uma pausa e acrescentou num tom casual:
- Quase todos.
- Que quer dizer? - a voz de Toby soou aguda. - Quem no foi 
gentil com voc?
- Ningum, querido. Nem devia ter tocado no assunto.
Mas acabou por deixar Toby extrair-lhe o nome, e no dia seguinte 
Eddie Berrigan, o director de elenco, foi despedido.

Nos meses seguintes, Jill contou a Toby uma srie de novos casos 
sobre outros directores de elenco constantes de sua lista, e um 
por um eles desapareceram. Todos que a haviam usado teriam de 
pagar. Era, pensou ela, tal como o ritual do acasalamento com a 
abelha rainha: todos haviam tido seu prazer e agora precisavam 
ser destrudos.

Desferiu o ataque contra Sam Winters, o homem que dissera a Toby 
que ela no tinha talento. Jamais disse uma s palavra contra 
ele; pelo contrrio, elogiava-o perante o marido. Mas sempre 
elogiava um pouquinho mais os colegas de Sam... Os outros 
estdios apresentavam mais vantagens para ele... directores que 
realmente o compreendiam. Acrescentava que no podia deixar que 
Sam Winters no lhe reconhecia realmente o talento. Dentro de 
pouco tempo, Toby passou a ter a mesma impresso. Sem Clifton 
Lawrence, ele no tinha ningum com quem falar, ningum para 
confiar, seno Jill. Quando decidiu passar a filmar em outro 
estdio, pensou que a idia fosse exclusivamente sua. Mas Jill 
fez com que Sam Winters soubesse a verdade.
Estava vingada.


Em torno de Toby, havia quem achasse que Jill no poderia durar 
muito, que no passava de uma intrusa passageira, uma mania 
temporria. Por isso a toleraram ou tratavam-na com um desprezo 
levemente velado. Foi a que erraram. Um por um, ela eliminou 
todos. No queria por perto ningum que tivesse sido importante 
na vida do marido ou pudesse influenci-lo contra ela. Tratou de 
fazer com que Toby mudasse de advogado e de agncia publicitria; 
contratou pessoal escolhido por ela prpria. Livrou-se dos Macs e 
da corte de parasitas de Toby. Substituiu todos os empregados: 
agora, a casa era sua e era ela quem dava as ordens.

As festas na casa dos Temple tornaram-se o programa mais quente 
da cidade. Todo mundo que era algum estava l. Actores 
misturavam-se  gente da alta sociedade, governadores e chefes de 
poderosas empresas. A imprensa sempre comparecia com fora total, 
de modo que os felizes convidados sempre ficavam recompensados: 
no apenas frequentavam a casa dos Temple e se divertiam, como 
todo mundo ficava sabendo disso.
Quando no recebiam, os Temples eram convidados. Havia uma 
avalancha de convites: para pr-estreias, jantares de caridade, 
eventos polticos, inauguraes de restaurantes e hotis.
Toby gostaria de ficar em casa a ss com Jill, mas ela adorava 
sair. Em certas noites, tinham de aparecer em trs ou quatro 
festas e ela o impelia de uma para outra.
- Jesus, voc deveria ser directora social de Grossinger - dizia 
Toby rindo.
- Fao isso por voc, querido - respondia ela.
Toby estava fazendo um filme para a mgm e tinha um horrio 
exaustivo. Chegou tarde a casa certa noite e deu com seu traje a 
rigor pronto para ser vestido.
- No vamos sair de novo, vamos, baby? No ficamos em casa  
noite nem uma vez a merda do ano inteiro!
-  a festa de aniversrio dos Davis. Ficariam magoadssimos se 
no aparecssemos.
Toby sentou-se pesadamente na cama.
- Eu contava com um bom banho quente e uma noite tranquila. S 
ns dois.
Mas foi  festa. E porque sempre tinha de aparecer, sempre ser o 
centro das atenes, recorreu ao seu enorme reservatrio de 
energia at fazer todo mundo rir, aplaudir e comentar como Toby 
Temple era brilhantemente engraado. Mais tarde, naquela noite, 
no conseguiu dormir, o corpo esgotado mas a mente ativa, 
revivendo os triunfos da noite frase por frase, riso por riso. 
Era um homem muito feliz. E tudo graas a Jill.
Como sua me a teria adorado!

Em maro, recebeu o convite para o Festival de Cinema de Cannes.
- Impossvel - disse Toby quando Jill mostrou-lhe os convites. - 
O nico Cannes que vai me ver  o que est no meu banheiro. Estou 
cansado, querida. Tenho me matado de trabalhar.
Jerry Guttman, o relaes-pblicas de Toby, dissera a Jill que 
seu filme tinha chance de ganhar o prmio de melhor filme e que a 
presena dele ajudaria muito. Achava importante o comparecimento 
do astro.

Ultimamente, Toby vinha se queixando de cansao o tempo todo, 
dizendo que no conseguia dormir. Tomava sonferos  noite, que o 
deixavam com uma sensao de torpor na manh seguinte. Jill 
combatia o cansao de Toby dando-lhe benzedrina no caf da manh, 
para que ele tivesse energia suficiente durante o dia. Agora, o 
ciclo de estimulantes e calmantes parecia que o estava afectando.
- J aceitei o convite - disse Jill a Toby -, mas vou cancelar. 
No h problema, querido.
- Vamos passar um ms em Palm Springs, deitados no sabo.
- Qu? - ela olhou para Toby, sentado, imvel.
- Queria dizer sol. No sei como foi sair sabo.
Ela riu.
- Porque voc  engraado.
Apertou a mo dele.
- Seja como for, a idia de Palm Springs  maravilhosa. Adoro 
ficar sozinha com voc.
- No sei o que h de errado comigo - suspirou Toby. - 
Simplesmente me falta aquele nimo. Acho que estou ficando velho.
- Voc nunca vai envelhecer. Vai acabar comigo.
- ? Acho que meu pau viver por muito tempo depois que eu morrer 
- disse ele, rindo.
Passou a mo pela nuca e falou:
- Acho que vou tirar um cochilo. Para dizer a verdade, no estou 
me sentindo muito bem. No temos compromisso para esta noite, 
temos?
- Nada que eu no possa cancelar. Dispensarei os empregados e eu 
mesma prepararei o jantar. S ns dois.
- Ei, boa idia.
Observou-a afastar-se e pensou: "Jesus, sou o sujeito mais 
sortudo de todos os tempos".

Estavam na cama, mais tarde, na mesma noite, Jill preparara um 
banho quente para Toby e fizera-lhe uma massagem relaxante, 
comprimindo-lhe os msculos cansados, aliviando-lhe as tenses.
- Ah, isso  maravilhoso - murmurou ele. - Como  que eu podia 
viver sem voc?
- No fao a menor idia. - Ela se aninhou junto dele. - Toby, 
fale-me do Festival de Cinema de Cannes. Como ? Nunca assisti a 
nenhum.
- No passa de uma multido de "cavadores", que vm do mundo 
inteiro vender farsa do mundo.
- Do jeito que voc fala, parece excitante.
- ? Bem, imagino que de certa forma seja excitante. O lugar fica 
cheio de tipos.
Estudou-a por um momento.
- Voc quer mesmo ir a esse festival estpido?
Ela abanou a cabea rapidamente:
- No. Ns vamos para Palm Springs.
- Droga, podemos ir a Palm Springs a qualquer hora.
- Francamente, Toby, no importa.
Ele sorriu.
- Sabe por que sou to louco por voc? Qualquer outra mulher 
estaria me enchendo para lev-la ao festival. Voc est morrendo 
de vontade de ir, mas no diz nada. No. Voc quer ir para Palm 
Springs comigo? J cancelou nossa participao?
- Ainda no, mas...

- No cancele. Ns vamos para a ndia. - Uma expresso de espanto 
cobriu-lhe o rosto. - Eu falei ndia? Queria dizer Cannes.

Quando o avio aterrissou em Orly, entregaram um cabograma a 
Toby: seu pai morrera no hospital. Era tarde demais para voltar e 
assistir ao enterro. Ele fez com que uma nova ala fosse 
acrescentada  casa de repouso, dando-lhe o nome de seus pais.

O mundo inteiro estava em Cannes. 
Hollywood, Londres, Roma, tudo junto numa Babel, numa gloriosa 
cacofonia de som e fria, em technicolor e panavision. De todos 
os pontos do globo os fabricantes de filmes fluam para a Riviera 
francesa, carregando sonhos enlatados debaixo do brao, rolos de 
celulide em ingls, francs, japons, hngaro, polons, que os 
tornariam ricos e famosos da noite para o dia. A croisette estava 
atulhada de profissionais e amadores, veteranos e estreantes, 
recm-chegados e ultrapassados, todos disputando os prestigiosos 
prmios. Ganhar um prmio no Festival de Cannes significava 
dinheiro no banco; se o vencedor no tivesse um contrato de 
distribuio, poderia consegui-lo e, se j o tivesse, poderia 
melhor-lo.
Todos os hotis de Cannes estavam lotados e os excedentes se 
espalharam ao longo da costa, at Antibes, Beaulieum, 
Saint-Tropez e Menton. Os habitantes das pequenas cidades 
contemplavam maravilhados os rostos famosos que enchiam suas 
ruas, restaurantes e bares.
Todos os quartos haviam sido reservados com meses de 
antecedncia, mas Toby Temple no teve a menor dificuldade para 
conseguir uma grande sute no Carton. Toby e Jill eram festejados 
em toda a parte; as cmaras dos fotgrafos espocavam 
incessantemente e suas imagens eram espalhadas pelo mundo 
inteiro. O "casal de ouro", o "rei e a rainha de Hollywood". Os 
reprteres entrevistavam Jill, perguntando sua opinio sobre 
tudo, desde vinhos franceses at poltica africana. Estava muito 
longe de Josephine Czinski, de Odessa, no Texas.
O filme de Toby no ganhou o prmio, mas duas noites antes do 
encerramento do festival a comisso julgadora anunciou a 
concesso de um prmio especial a Toby Temple por sua 
contribuio no campo do entretenimento.
Era uma cerimnia em black-tie e o grande salo de banquete do 
Carlton Hotel estava apinhado de convidados. Jill sentou-se ao 
lado de Toby e notou que ele no estava comendo.
- Que h, querido? - perguntou.
Toby sacudiu a cabea:
- Acho que apanhei sol demais hoje. Sinto-me um pouco tonto.
- Amanh vou faz-lo descansar.
Jill programara entrevistas para Toby com o Paris-Match e o Times 
de Londres pela manh, almoo com um grupo de reprteres de 
televiso e depois um coquetel. Resolveu cancelar o compromisso 
menos importante.
No fim do jantar, o prefeito de Cannes se levantou e apresentou 
Toby:

- Minhas senhoras, meus senhores, distintos convidados:  um 
grande privilgio apresentar-lhes um homem cuja obra proporcionou 
prazer e felicidade ao mundo inteiro. Tenho a honra de 
presente-lo com esta medalha especial, smbolo de nossa afeio 
e admirao.
Ergueu uma medalha de ouro presa por uma fita e inclinou-se num 
cumprimento a Toby.
- Monsieur Toby Temple!
Houve uma entusistica salva de palmas da audincia, enquanto 
todos se levantavam em ovao. Toby continuou sentado, imvel.
- Levante-se - sussurrou Jill.
Lentamente, Toby se ps de p, plido e trmulo. Ficou parado um 
momento, sorriu e comeou a andar em direco ao microfone. A 
meio caminho, tropeou e caiu, inconsciente.

Toby Temple foi levado de avio a Paris, num jacto de transporte 
da Fora Area francesa, e encaminhado s pressas ao Hospital 
Americano, onde foi colocado na unidade de transporte intensivo. 
Foram convocados os maiores especialistas franceses, enquanto 
Jill esperava num quarto particular do hospital. Durante trinta e 
seis horas, recusou-se a comer, beber ou atender aos telefonemas 
que chegavam aos milhares, de toda as partes do mundo.
Ela ficou s, olhando para as paredes, sem ver nem ouvir a 
actividade incessante  sua volta. Sua mente concentrava-se numa 
nica idia: Toby tinha de ficar bem. Toby era seu sol e, se se 
apagasse, a sombra pereceria. Ela no podia deixar que isso 
acontecesse.
Eram cinco horas da manh quando o Dr. Duclos, chefe da equipe, 
entrou no quarto que Jill reservava, com o fim de ficar junto de 
Toby.
- Sra. Temple, receio que no haja razo para tentar atenuar o 
choque. Seu marido sofreu um profundo derrame cerebral. Tudo 
indica que no voltar a andar nem a falar.

31

Quando finalmente permitiram que Jill entrasse no quarto de Toby 
no hospital, em Paris, ela ficou chocada com seu aspecto. Da 
noite para o dia, tornara-se velho e dessecado, como se seus 
fluidos vitais se houvessem esgotado. Perdera em parte o uso dos 
braos e das pernas e, embora conseguisse emitir sons animais, 
semelhantes a grunhidos, no podia falar.
Aps seis semanas os mdicos permitiram que Toby fosse removido. 
Quando Jill e ele chegaram  Califrnia, foram recebidos no 
aeroporto pela imprensa e pela televiso, alm de uma multido de 
amigos perguntando sobre seu estado de sade e suas melhoras; 
havia mensagens do presidente e de senadores, alm de milhares de 
cartas e postais dos fs que o amavam e estavam rezando por ele.
Mas os convites haviam cessado, ningum aparecia para saber como 
Jill se sentia, se gostaria de comparecer a um jantar tranquilo, 
dar um passeio ou ver um filme. Ningum em Hollywood se importava 
nem um pouco com ela.
Ela convocara o mdico particular de Toby, Dr. Eli Kaplan, que 
por sua vez chamara dois grandes neurologistas, um do centro 
mdico da ucla e o outro do Hospital John Hopkins. Seu 
diagnstico foi idntico ao do Dr. Duclos, de Paris.
-  importante compreender - disse o Dr. Kaplan a Jill - que a 
mente de Toby no sofreu dano algum. Ele ouve e compreende tudo 
que se diz, mas sua fala e as funes motoras foram lesadas, de 
modo que ele no responde.
- Ser que... que ele vai ficar assim para sempre?
O Dr. Kaplan hesitou.
-  impossvel ter certeza absoluta, evidentemente, mas em nossa 
opinio o sistema nervoso sofreu um dano srio demais para que a 
terapia produza qualquer efeito aprecivel.
- Mas o senhor no tem certeza.
- No...
Jill, porm, tinha.

Alm das trs enfermeiras que cuidavam de Toby vinte e quatro 
horas por dia, Jill contratou os servios de um fisioterapeuta, 
que vinha todas as manhs para os exerccios com Toby. 
Carregava-o para a piscina e segurava-o, puxando delicadamente os 
msculos e tendes enquanto Toby tentava debilmente mexer braos 
e pernas, na gua tpida. No houve qualquer melhora. Na quarta 
semana foi chamada uma fonoaudiloga; durante uma hora, todas as 
tardes, ela tentava ajudar Toby a reaprender a falar, a formar os 
sons das palavras.
Depois de dois meses, Jill no conseguiu observar qualquer 
melhora. Absolutamente nenhuma. Mandou chamar Dr. Kaplan.
- O senhor tem de fazer alguma coisa por ele - exigiu. - No pode 
deix-lo ficar assim.
O mdico olhou para ela, desanimado.
- Sinto muito, Jill. Tentei explicar-lhe...

Jill ficou sentada na biblioteca, sozinha, depois que o Dr. 
Kaplan se retirou. Sentia os primeiros sinais de uma das 
terrveis dores de cabea, mas agora no havia tempo para pensar 
em si mesma. Ela subiu.

Toby estava recostado na cama, com os profundos olhos azuis que 
se iluminaram e a acompanharam, brilhantes e cheios de vida, 
enquanto Jill se acercava da cama, observando-o. Seus lbios se 
moveram, emitindo um som ininteligvel. Lgrimas de frustrao 
comearam a inundar-lhe os olhos. Jill recordou as palavras do 
Dr. Kaplan: " importante compreender que a mente dele no sofreu 
dano algum".
Sentou-se na beira da cama.
- Toby, quero que preste ateno. Voc vai sair desta cama. Voc 
vai andar e vai falar.
As lgrimas rolaram pelas faces de Toby.
- Voc vai conseguir - disse Jill. - Voc vai conseguir, por mim.

Na manh seguinte, Jill despediu as enfermeiras, o fisioterapeuta 
e a fonoaudiloga. Logo que soube disso, o Dr. Kaplan apressou-se 
a procur-la.
- Concordo quanto ao fisioterapeuta, Jill, mas as enfermeiras! 
Toby precisa de algum cuidando dele vinte e quatro horas...
- Eu cuidarei dele.
O mdico abanou a cabea.
- Voc no faz idia do que est arranjando. Uma pessoa s no 
pode...
- Chamarei se precisar do senhor.
Mandou-o sair.

Comeou a provao.
Jill pretendia tentar aquilo que, segundo os mdicos, era 
impossvel. Quando pela primeira vez segurou Toby para p-lo na 
cadeira de rodas, ficou assustada com seu pouco peso. Levou-o 
para baixo no elevador que fora instalado na casa e comeou a 
exercit-lo na piscina, como vira fazer o fisioterapeuta. Mas o 
que acontecia agora era diferente: o fisioterapeuta se mostrava 
delicado e incentivador. Jill era severa e implacvel. Quando 
Toby tentava falar, querendo mostrar que estava cansado e no 
aguentava mais, Jill dizia:
- Ainda no acabou. Mais uma vez. Por mim, Toby.
E obrigava-o a continuar.
E outra vez, e mais outra, at que ele parava, chorando de 
exausto.
- Oo... oooooooooooo.
- Aa... aaaaaaaaaaa.
- No! Oooooooooooo. Faa um crculo com os lbios, Toby. Faa 
com que seus lbios lhe obedeam. Oooooooooooo.
- Aa... aaaaaaaaaaaa.
- No, droga! Voc vai falar! Agora, faa: Oooooooooooo!
E ele tentava mais uma vez.
Jill o alimentava todas as noites e depois se deitava a seu lado, 
enlaando-o. Fazia as mos inertes deslizarem sobre seu corpo, 
lentamente, passando pelos seios, pela fenda macia entre suas 
pernas.
- Sinta isso, Toby - murmurava. -  tudo seu, querido. Pertence a 
voc. Eu quero voc. Quero que voc fique bom para podermos fazer 
amor novamente. Quero que voc trepe em mim, Toby.
Ele olhava para Jill com aqueles olhos vivos e brilhantes, 
emitindo sons incoerentes e lamuriosos.
- Logo, Toby, logo.


Jill era incansvel. Dispensou os empregados porque no queria 
ningum por perto e da em diante passou a cozinhar; fazia todas 
as compras por telefone e jamais saa de casa. No incio andava 
muito ocupada atendendo aos telefonemas, mas logo eles comearam 
a diminuir e finalmente cessaram. Os noticirios deixaram de 
informar sobre o estado de Toby Temple. O mundo sabia que ele 
estava morrendo. Era apenas uma questo de tempo.
Mas Jill no deixaria que Toby morresse. Se isso acontecesse, ela 
morreria com ele.

Os dias se fundiam numa rotina penosa e interminvel. Jill se 
levantava s seis da manh. Primeiro, limpava Toby, cuja 
incontinncia era total. Embora usasse sonda e fraldas, sujava-se 
durante a noite, sendo preciso s vezes trocar a roupa da cama e 
seu pijama. O cheiro no quarto era quase insuportvel. Jill 
enchia uma bacia de gua morna, pegava uma esponja e um pano 
macio e limpava fezes e urina do corpo de Toby. Depois secava-o, 
punha-lhe talco, barbeava-o e penteava-lhe o cabelo.
- Pronto. Voc est lindo. Seus fs deveriam v-lo agora. Mas 
logo o vero. Vo brigar por uma chance de v-lo. O presidente 
estar presente, todo mundo estar l para ver Toby Temple.
Em seguida, ela preparava o caf da manh. Fazia mingau de aveia, 
creme de trigo e ovos mexidos, comida que podia dar-lhe com uma 
colher. Alimentava-o como se fosse um beb, falando o tempo todo, 
prometendo-lhe que iria ficar bom.
- Voc  Toby Temple - repetia ela. - Todo mundo gosta de voc, 
todo mundo quer v-lo de volta. Seus fs esto l fora, esperando 
por voc, Toby; voc tem de ficar bom, por eles.
E tinha incio mais um longo e penoso dia.

Ela levava seu corpo intil e aleijado at a piscina na cadeira 
de rodas, para os exerccios. Depois disso, fazia-lhe massagens e 
ensinava-o a falar. Nessa altura era hora de preparar o almoo, 
aps o qual comeava tudo de novo. Todo o tempo, Jill repetia 
para o marido quo maravilhoso ele era, o quanto o amava. Ele era 
Toby Temple e o mundo aguardava seu regresso.  noite, ela pegava 
um dos lbuns de recortes e mostrava-o a Toby.
- Aqui estamos ns com a rainha. Lembra-se dos aplausos naquela 
noite?  assim que vai ser outra vez. Voc ser maior do que 
nunca, Toby, maior que nunca.
Punha-o para dormir e arrastava-o para a cama porttil que 
colocara ao lado dele, exausta. No meio da noite, acordava com o 
mau cheiro das fezes de Toby na cama. Levantava-se penosamente, 
trocava sua fralda e limpava-o. J ento era hora de comear a 
preparar o caf da manh e dar incio a um outro dia. E mais 
outro, numa infinita sucesso de dias.
A cada dia Jill forava Toby um pouco mais, um pouco alm. Seus 
nervos estavam to abalados que, quando achava que ele no estava 
se esforando, dava-lhe um tapa no rosto.
- Vamos derrot-los - dizia com raiva. - Voc vai ficar bom.


O corpo de Jill estava exausto da massacrante rotina  qual 
estava se submetendo, mas quando se deitava  noite o sono lhe 
escapava. Havia muitas vises rodopiando em sua cabea, como 
cenas de filmes antigos. Ela e Toby cercados por reprteres no 
Festival de Cannes... O presidente em sua casa em Palm Springs, 
elogiando Jill por sua beleza... Fs empurrando-se em torno deles 
numa pr-estria... O casal de ouro. Toby levantando-se para 
receber a medalha e caindo... caindo... E finalmente ela 
adormecia.
'"s vezes Jill despertava com uma sbita e violenta dor de 
cabea que no passava. Ficava deitada na solido do quarto 
escuro, lutando contra a dor, at que o sol nascia e chegava a 
hora dolorosa de se levantar.
E tudo comeava de novo. Era como se ela e Toby fossem os nicos 
e solitrios sobreviventes de algum holocausto h muito 
esquecido. O mundo de Jill se reduzira s dimenses da casa, dos 
aposentos desse homem. Ela se movia incansavelmente desde o 
amanhecer at depois da meia-noite.
E guiava Toby, seu Toby prisioneiro do inferno, em um mundo que 
se limitava a ela, a quem ele devia obedecer cegamente.
As semanas, terrveis e dolorosas, sucederam-se e 
transformaram-se dele, pois sabia que ia ser castigado. A cada 
dia ela se tornava mais implacvel; forava seus membros frouxos 
e inteis a se moverem, at que o sofrimento se tornasse 
insuportveis. Ele implorava, com horrveis sons gorgolejantes, 
que ela parasse, mas Jill dizia:
- Ainda no. No enquanto voc no voltar a ser um homem, at 
mostrarmos a eles.
Continuava a torcer-lhe os msculos exaustos. Ele era um beb 
crescido, desprotegido, um vegetal, um nada. Mas quando o olhava, 
Jill o via tal como iria ser e afirmava:
- Voc vai andar!
Fazia-o levantar-se e segurava-o, ao mesmo tempo forando uma 
perna aps a outra, movendo-o numa grotesca pardia do caminhar, 
como uma marionete bbada e desengonada.
Suas dores de cabea haviam se tornado mais frequentes, geradas 
por luzes brilhantes, um som forte ou um movimento sbito. "Tenho 
de ir ao mdico", pensou ela. "Mais tarde, quando Toby estiver 
bom." Agora no havia tempo nem espao para ela prpria.
S para Toby.
Era como se Jill estivesse possuda. Suas roupas estavam largas, 
mas no imaginava quanto peso teria perdido ou como estaria sua 
aparncia. Seu rosto tornara-se magro e abatido, os olhoS FUNDOS. O OUTRORA MARAVILHOSO CABELO NEGRO ESTAVA SEM BRILHO E OLEOSO. ELA NO O NOTAVA, NEM LHE TERIA 
DADO IMPORTNCIA.UM DIA, JILL ACHOU UM TELEGRAMA EMBAIXO DA PORTA, PEDINDO-LHE QUE TELEFONASSE PARA O DR. KAPLAN. NO HAVIA TEMPO, ERA PRECISO MANTER A ROTINA.OS 
DIAS E NOITES TRANSFORMARAM-SE NUMA INDISTINTA VISO KAFKIANA: LEVAR TOBY, FAZER EXERCCIOS, TROCAR TOBY, BARBE-LO, ALIMENT-LO.E DEPOIS COMEAR TUDO DE NOVO.ELA 
ARRANJOU UM ANDADOR PARA TOBY; AMARROU-LHE OS DEDOS NA BARRA E MOVIA-LHE AS PERNAS, SEGURANDO-O, TENTANDO MOSTRAR-LHE OS MOVIMENTOS, FAZENDO-O ANDAR DE UM LADO PARA 
OUTRO PELO QUARTO AT QUE ELA ADORMECIA DE P, SEM SABER MAIS ONDE ESTAVA OU QUEM ERA, OU O QUE FAZIA.ENTO, UM DIA, JILL COMPREENDEU QUE TUDO TERMINARA.HAVIA PASSADO 
METADE DA NOITE ACORDADA COM TOBY E FINALMENTE FORA PARA SEU PRPRIO QUARTO, ONDE ADORMECERA POUCO ANTES DO AMANHECER. AO DESPERTAR, JILL VIU QUE O SOL ESTAVA ALTO, 
DORMIRA AT DEPOIS DO MEIO-DIA. TOBY NO FORA ALIMENTADO, LAVADO NEM TROCADO; ESTARIA NA CAMA, DESAMPARADO,  ESPERA DELA, PROVAVELMENTE EM PNICO. JILL TENTOU LEVANTAR-SE 
E PERCEBEU QUE NO PODIA SE MOVER. ESTAVA TOMADA POR UM CANSAO TO INFINITO E PROFUNDO QUE SEU CORPO EXAUSTO J NO LHE OBEDECIA MAIS. FICOU DEITADA, SEM AJUDA, 
COMPREENDENDO QUE HAVIA FRACASSADO, QUE TUDO FORA EM VO, TODOS OS DIAS E NOITES DE INFERNO, TRARA, TAL COMO ACONTECERA A TOBY. JILL NO TINHA MAIS FORA E ISSO 
LHE DEU VONTADE DE CHORAR. ESTAVA TUDO ACABADO.OUVIU UM SOM NA PORTA DO QUARTO E LEVANTOU OS OLHOS: TOBY ESTAVA L, DE P, SOZINHO, OS BRAOS TRMULOS SEGURANDO 
O ANDADOR, A BOCA EMITINDO INCOMPREENSVEIS RUDOS, NUM ESFORO PARA DIZER ALGO.- JIIIIIGH... JIIIIIGH...ELE ESTAVA TENTANDO DIZER JILL. ELA SE PS A SOLUAR INCONTROLAVELMENTE, 
SEM PODER PARAR.A PARTIR DESSE DIA, A MELHORA DE TOBY FOI ESPECTACULAR. PELA PRIMEIRA VEZ, ELE COMPREENDEU QUE IRIA FICAR BOM; J NO RECLAMAVA QUANDO JILL O IMPELIA 
ALM DOS LIMITES DE SUA RESISTNCIA, GOSTAVA DISSO. QUERIA FICAR BOM PARA ELA. ELA SE TRANSFORMARA NUMA DEUSA; SE ANTES A AMAVA, AGORA A ADORAVA.E ALGO ACONTECERA 
A JILL. ANTES, LUTARA POR SUA PRPRIA VIDA; TOBY ERA APENAS O INSTRUMENTO QUE ERA OBRIGADA A USAR. MAS DE ALGUM MODO ISSO MUDARA; ERA COMO ELE SE HOUVESSE TORNADO 
PARTE DELA. OS DOIS ERAM UM S CORPO, UMA S MENTE, UMA S ALMA, OBCECADOS PELO MESMO PROPSITO. HAVIAM ATRAVESSADO UMA TERRVEL PURGAO, A VIDA DELE ESTIVERA NAS 
MOS DELA, QUE LHE DERA ALIMENTO E FORAS, QUE A SALVARA, E DA NASCERA UMA ESPCIE DE AMOR. TOBY PERTENCIA A JILL, TANTO QUANTO ELA PERTENCIA A ELE.JILL MODIFICOU 
A DIETA DE TOBY, DE MODO QUE ESTE COMEOU A RECUPERAR O PESO PERDIDO. TODOS OS DIAS FICAVA ALGUM TEMPO AO SOL E DAVA LONGOS PASSEIOS PELOS JARDINS, PRIMEIRO COM 
O ANDADOR E DEPOIS COM UMA BENGALA, DESENVOLVENDO AS FORAS. QUANDO FINALMENTE TOBY CONSEGUIU ANDAR SEM QUALQUER APOIO, OS DOIS CELEBRARAM COM UM JANTAR  LUZ DE 
VELAS, NA SALA.FINALMENTE, JILL ACHOU QUE TOBY ESTAVA PRONTO PARA SER VISTO. TELEFONOU PARA O DR. KAPLAN E IMEDIATAMENTE A ENFERMEIRA LHE PASSOU O APARELHO.- JILL 
FIQUEI PREOCUPADSSIMO. TENTEI TELEFONAR PARA VOC MAS NINGUM ATENDIA NUNCA. MANDEI UM TELEGRAMA E, QUANDO NO RECEBI RESPOSTA, PENSEI QUE VOC TIVESSE LEVADO TOBY 
PARA ALGUM LUGAR. ELE EST... ELE...- VENHA VER COM SEUS PRPRIOS OLHOS, ELI.O DR. KAPLAN NO PDE DISFARAR SEU ESPANTO.-  INACREDITVEL - DISSE A JILL. - ... 
PARECE UM MILAGRE.-  UM MILAGRE - RESPONDEU JILL. S QUE NESSA VIDA A GENTE FAZ OS PRPRIOS MILAGRES, POIS DEUS EST OCUPADO COM OUTRAS COISAS.- AS PESSOAS AINDA 
ME PROCURAM PERGUNTANDO POR TOBY - DISSE O DR. KAPLAN. - PARECE QUE NINGUM CONSEGUIA SE COMUNICAR COM VOC. SAM WINTERS TELEFONA NO MNIMO UMA VEZ POR SEMANA E 
CLIFTON LAWRENCE TAMBM TEM PERGUNTADO POR ELE.JILL NO DEU IMPORTNCIA A CLIFTON LAWRENCE. MAS SAM WINTERS ISSO ERA BOM. TINHA DE DESCOBRIR UM MEIO DE DIZER AO 
MUNDO QUE TOBY TEMPLE AINDA ERA UM SUPER ASTRO, QUE OS DOIS AINDA ERAM O CASAL DE OURO.NA MANH SEGUINTE, TELEFONOU PARA SAM WINTERS E PERGUNTOU-LHE SE GOSTARIA 
DE IR VISITAR TOBY. SAM CHEGOU UMA HORA DEPOIS; JILL ABRIU A PORTA DA FRENTE PARA RECEB-LO E SAM TENTOU DISFARAR O CHOQUE QUE TEVE COM O ASPECTO DELA. PARECIA 
DEZ ANOS MAIS VELHA EM COMPARAO COM A LTIMA VEZ QUE A VIRA; SEUS OLHOS ERAM DOIS FUNDOS POOS CASTANHOS E O ROSTO ESTAVA MARCADO POR LINHAS PROFUNDAS. EMAGRECERA 
TANTO QUE PARECIA QUASE ESQUELTICA.- OBRIGADA POR TER VINDO, SAM. TOBY FICAR SATISFEITO EM V-LO.SAM PREPARAVA-SE PARA ENCONTR-LO NA CAMA, UMA SOMBRA DO HOMEM 
QUE FORA, MAS TEVE UMA SURPRESA ESPANTOSA. TOBY ESTAVA DEITADO NUMA ALMOFADA NA BEIRA DA PISCINA E AO VER SAM LEVANTOU-SE, COM CERTA LENTIDO MAS FIRMEMENTE, E SEU 
APERTO DE MO FOI SEGURO. ESTAVA BRONZEADO E PARECIA SAUDVEL, MELHOR DO QUE ANTES DO DERRAME. ERA COMO SE POR ALGUMA ALQUIMIA MISTERIOSA A SADE E A VITALIDADE 
DE JILL TIVESSE FLUDO PARA O CORPO DE TOBY E A DOENA QUE O DEVASTARA A HOUVESSE ATINGIDO TAMBM.-  BOM VER VOC, SAM.A FALA DE TOBY ESTAVA MAIS LENTA E PRECISA 
QUE ANTES, MAS ERA CLARA E FORTE. NO HAVIA SINAL DE PARALISIA SOBRE A QUAL SAM OUVIRA FALAR. L ESTAVA O MESMO ROSTO DE GAROTO, COM OS BRILHANTES OLHOS AZUIS. SAM 
ABRAOU-O E DISSE:- JESUS, VOC NOS DEU UM SUSTO.TOBY RIU E FALOU:- NO PRECISA ME CHAMAR DE JESUS QUANDO ESTIVERMOS A SS.SAM OBSERVOU TOBY COM MAIS ATENO, MARAVILHADO.- 
HONESTAMENTE, NO POSSO ACREDITAR. DIABOS, VOC EST MAIS JOVEM. A CIDADE INTEIRA ESTAVA TOMANDO PROVIDNCIA PARA O ENTERRO.- S PASSANDO POR CIMA DO MEU CADVER 
- SORRIU TOBY.-  FANTSTICO O QUE OS MDICOS DE HOJE... - COMEOU SAM.- OS MDICOS, NO. - TOBY VOLTOU-SE PARA JILL COM SEUS OLHOS BRILHANTES DE PURA ADORAO. 
- QUER SABER QUEM  O RESPONSVEL? JILL. ELA SOZINHA. COM AS PRPRIAS MOS. BOTOU TODO MUNDO PARA FORA E ME PS DE NOVO EM P.SAM LANOU UM OLHAR PARA JILL, ESPANTADO. 
NUNCA LHE PARECERA O TIPO DE MOA CAPAZ DE UM ACTO DE TAMANHO DESPRENDIMENTO. TALVEZ A HOUVESSE JULGADO MAL.- QUAIS SO SEUS PLANOS? - PERGUNTOU A TOBY. - SUPONHO 
QUE PRETENDA DESCANSAR E...- ELE VAI VOLTAR AO TRABALHO - INTERROMPEU JILL. - TOBY  TALENTOSO DEMAIS PARA FICAR SENTADO SEM FAZER NADA.- ESTOU ANSIOSO PARA TRABALHAR 
- CONCORDOU TOBY.- TALVEZ SAM TENHA UM PROJECTO PARA VOC - SUGERIU JILL.AMBOS O OBSERVAVAM. SAM NO QUERIA DESENCORAJAR TOBY, MAS TAMBM NO QUERIA ALIMENTAR FALSAS 
ESPERANAS. NO ERA POSSVEL FAZER UM FILME COM DETERMINADO ASTRO A MENOS QUE ELE ESTIVESSE SEGURADO E NENHUMA COMPANHIA DE SEGUROS COBRIRIA TOBY TEMPLE.- NO H 
NADA DISPONVEL NO MOMENTO - DISSE SAM CAUTELOSAMENTE. - MAS  CLARO QUE FICAREI DE OLHOS ABERTOS.- VOC EST COM MEDO DE US-LO, NO EST?ERA COMO SE ELA ESTIVESSE 
LENDO SEUS PENSAMENTOS.-  CLARO QUE NO.MAS AMBOS SABIAM QUE ELE ESTAVA MENTINDO.NINGUM EM HOLLYWOOD SE ARRISCARIA A USAR TOBy Temple outra vez.

Toby e Jill assistiam a um jovem comediante na televiso.
- Ele  pobre - resmungou Toby. - Droga, gostaria de voltar  
televiso. Talvez devesse arranjar um agente. Algum que pudesse 
andar por a e ver o que est se passando.
- No! - O tom de Jill foi firme. - No vamos deixar ningum 
vender voc. Voc no  nenhum miservel procurando emprego. Voc 
 Toby Temple. Vamos fazer com que venham at voc.
Ele sorriu com amargura e disse:
- Eles no esto esmurrando as portas, querida.
- Mas esmurraro - prometeu ela. - Eles no sabem como voc est. 
E est melhor do que nunca, temos s que mostrar a eles.
- Talvez eu devesse posar nu para uma dessas revistas.
Jill no prestara ateno.
- Tenho uma idia - disse ela. - Um one-man show.
- Hein?
- Um one-man show. - Havia um entusiasmo crescente em sua voz. - 
Vou programar voc para o Huntington Hartford Theatre. Todo mundo 
em Hollywood ir. E depois disso, comearo a esmurrar as portas!

E todo mundo foi: produtores, directores, estrelas, crticos, 
todo mundo que era algum no show business. O teatro da Vine 
Street h muito que estava com a lotao esgotada e centenas de 
pessoas no conseguiram entrar. Havia uma multido que aplaudia 
do lado de fora quando Toby e Jill chegaram numa limusine com 
chofer. Era seu Toby Temple. Voltara para eles, renascido, e o 
adoravam mais do que nunca.
O pblico que enchia o teatro estava l em parte por respeito a 
um homem que j fora grande, mas a razo principal era a 
curiosidade. Estavam presentes para pagar o tributo final a um 
heri agonizante, a uma estrela apagada.
A prpria Jill planejara o show. Procurara O'Hanlon e Rainger e 
estes escreveram um material sensacional, que comeava com um 
monlogo criticando a cidade por enterrar Toby enquanto ele ainda 
vivia. Procurara uma equipe de compositores premiada com trs 
Oscars, que jamais havia composto material especial para algum. 
Mas Jill disse:
- Toby insiste em que vocs so os nicos compositores do mundo 
que...
Dick Landry, o director, voou imediatamente de Londres para a 
montagem do show.
Jill reunira os maiores talentos que pde encontrar para actuarem 
como coadjuvantes de Toby, mas de facto tudo dependeria dele 
prprio. E ele estaria sozinho no palco.
O momento finalmente chegou. As luzes se atenuaram e o teatro se 
encheu daquele silncio expectante que precede o levantamento do 
pano, prece silenciosa a implorar que naquela noite se fizesse a 
mgica.
E a mgica se fez.

Quando Toby Temple caminhou para o palco, seu andar firme e 
seguro, o familiar sorriso travesso iluminando aquele rosto de 
garoto, houve um momento de silncio e depois uma selvagem 
exploso de aplausos, gritos, todos de p numa ovao que sacudiu 
o teatro por uns bons cinco minutos.
Toby ficou parado, esperando que cessasse o pandemnio, e quando 
finalmente o teatro se acalmou, disse:
- E isso  recepo que se preze?
E a assistncia gargalhou.
Toby foi sensacional. Contou histrias, cantou e danou, agrediu 
todo mundo e foi como se nunca se tivesse afastado. O pblico 
mostrou-se insacivel. Ainda era um super astro, mas agora 
transformara-se em algo mais: era uma lenda viva.
A crtica do Variety disse no dia seguinte: "O pblico compareceu 
para enterrar Toby Temple, mas ficou para elogi-lo e aclam-lo. 
E como mereceu! No h ningum no show business que tenha a 
mgica do velho mestre. Foi uma noite de ovaes e ningum que 
tenha tido a sorte de estar presente poder esquecer aquele 
memorvel...
A crtica do Hollywood Reporter disse: "A plateia foi presenciar 
o retorno de um grande astro, mas Toby Temple provou que jamais 
se ausentara".
Todas as outras crticas obedeceram ao mesmo tom. A partir desse 
momento, os telefones de Toby no pararam de tocar e houve uma 
avalanche de telegramas contendo convites.
Estavam esmurrando as portas.

Toby levou seu show a Chicago, Washington e Nova York; onde quer 
que fosse, era uma sensao. O interesse por ele era agora maior 
do que nunca; numa onda de afectuosa nostalgia, velhos filmes 
seus foram exibidos em cinemas de arte e universidades. As 
emissoras de televiso promoveram uma Semana Toby Temple, levando 
ao ar seus antigos shows.
Apareceram os bonecos Toby Temple, os jogos Toby Temple, os 
quebra-cabeas e as revistas humorsticas Toby Temple, as 
camisetas Toby Temple. Vieram os comerciais de cigarros, caf e 
dentifricos.
Toby fez uma apario num filme musical da Universal e foi 
contratado para participar como convidado de todos os grandes 
espectculos de variedades. As redes de televiso puseram em 
aco equipes de redactores, numa competio para a criao de um 
novo programa para Toby Temple.
O sol voltara a brilhar, e brilhava para Jill.
Ressurgiam as festas, recepes, este embaixador, aquele senador, 
exibies privadas e... Todos os solicitavam, para tudo. Foram 
homenageados com um jantar na Casa Branca, honra geralmente 
reservada a chefes de Estados. Eram aplaudidos aonde quer que 
fossem.
Mas agora Jill era aplaudida tanto quanto Toby. A magnfica 
histria de sua faanha, cuidar sozinha de Toby at cur-lo, 
contrariando todas as expectativas, excitara a imaginao do 
mundo. A imprensa passou a celebrar a histria de amor do sculo: 
a revista Time ps os dois na capa e a matria correspondente 
continha um belo tributo a Jill.
Foi filmado um contrato de cinco milhes de dlares para Toby 
estrelar um novo programa semanal de televiso, a comear em 
setembro, ou seja, dentro de doze semanas apenas.
- Vamos para Palm Springs e voc poder descansar at setembro - 
disse Jill.
Toby abanou a cabea:

- Voc passou muito tempo enclausurada. Vamos viver um pouco. - 
Enlaou-a e acrescentou: - No sou muito bom com palavras, 
querida, a no ser para contar piadas. No sei como lhe dizer o 
que sinto por voc. Eu... s quero que voc saiba que minha vida 
comeou no dia em que a conheci.
E afastou-se abruptamente para que Jill no visse as lgrimas em 
seus olhos.
Toby levou seu one-man show a Londres, Paris e... o maior lance 
de todos, Moscovo. Todo mundo brigava para contrat-lo. 
Transformara-se num grande dolo da Europa, tanto quanto o era na 
Amrica.

Estavam a bordo do Jill, num dia de sol brilhante, a caminho de 
Catalina. Havia uma dzia de convidados no barco, dentre os quais 
Sam Winters, alm de O'Hanlon e Rainger, que havia sido 
escolhidos para chefiar a equipe de redactor do novo programa de 
televiso. Estavam todos no salo, jogando e conversando. Jill 
olhou em volta e reparou na ausncia de Toby. Saiu para o convs.
Ele estava de p na balaustrada, olhando para o mar. Jill se 
aproximou e perguntou:
- Voc est se sentindo bem?
- Estou apenas olhando a gua, querida.
-  lindo, no?
- Lindo para os tubares - ele estremeceu. - No  assim que eu 
quero morrer. Sempre tive pavor de afogamento.
Ela ps sua mo na dele.
- Que  que o est preocupando?
Toby olhou para ela.
- Acho que no quero morrer. Tenho medo do que h do outro lado. 
Aqui, sou um homem importante, todo mundo conhece Toby Temple. 
Mas l...? Sabe como acho que seja o inferno? Um lugar onde no 
h pblico.

O Friars Club promoveu um jantar tendo Toby Temple como convidado 
de honra. Havia uma dzia de grandes cmicos no palco, ao lado de 
Toby, Jill, Sam Winters e o director da rede de televiso com a 
qual ele firmara contrato. Solicitaram a Jill que se levantasse 
para ser cumprimentada. Aplaudiram-na de p.
"Esto me aplaudindo", pensou ela. "No a Toby. A mim!"
O mestre-de-cerimnias era o apresentador do famoso programa de 
entrevistas na televiso.
- No sei como expressar minha felicidade por ver Toby aqui - 
disse ele. - Porque se hoje  noite no o estivssemos 
homenageando, este banquete estaria sendo realizado no cemitrio 
de Forest Lawn.
Risos.
- E, podem acreditar, a comida l  horrvel. Vocs j comeram no 
Forest Lawn? Eles servem restos da ltima Ceia.
Risos.
- Estamos orgulhosos de voc, Toby. Estou sendo franco. Sei que 
voc foi solicitado a doar parte de seu corpo  cincia, vo 
coloc-lo num vidro na Faculdade de Medicina de Harvard. O nico 
problema  que at agora ainda no encontraram um vidro 
suficientemente grande para cont-lo.
Gargalhadas.
Quando Toby se levantou para revidar, superou-os todos.

Acharam que aquele foi o melhor jantar j promovido pelo Friars.

Naquela noite, Clifton Lawrence estava na plateia.
Sentara-se numa mesa no fundo da sala, perto da cozinha, junto ao 
pessoal sem importncia. At mesmo para conseguir essa mesa, fora 
obrigado a recorrer a velhas amizades. Desde que Toby Temple o 
despedira, Clifton Lawrence passara a usar o distintivo de 
perdedor: tentara formar uma sociedade com uma grande agncia, 
mas, sem clientes, nada tinha a oferecer. Em seguida, procurara 
as agncias menores, mas estas no estavam interessadas num "ex" 
de meia-idade; queriam jovens agressivos. Finalmente, Clifton se 
conformara com um cargo assalariado numa pequena agncia nova. 
Ganhava por semana menos do que gastara certa noite no Romanoff.
Lembrava-se de seu primeiro dia nessa agncia. A firma pertencia 
a trs agressivos jovens - no, garotos -, todos com menos de 
trinta anos. Seus clientes eram estrelas de rock. Dois dos 
agentes usavam barba; todos usavam jeans, camisas esporte e tnis 
sem meias. Fizeram com que Clifton se sentisse um velho de mil 
anos de idade. Falavam uma lngua que ele no entendia, 
chamavam-no de "Papai" e "Velho", e Clifton pensou no respeito 
que outrora despertara nessa cidade e teve vontade de chorar.
Aquele homem, outrora animado e alegre, era agora uma pessoa 
abatida e amargurada. Toby Temple fora sua vida e Clifton falava 
compulsivamente sobre aqueles dias. S pensava nisso. Nisso e em 
Jill. Culpava-a por tudo que lhe acontecera. Toby no era o 
responsvel; fora influenciado por aquela cadela. Ah, como ele a 
odiava.
Estava sentado no fundo da sala, observando a multido que 
aplaudia Jill, quando um dos homens na mesa disse:
- O Toby  mesmo um bastardo de sorte. Eu bem que gostaria de 
provar daquilo. Ela  genial na cama.
- ? - perguntou algum cinicamente. - Como  que voc sabe?
- Ela trabalha naquele filme porn que est no Pussycat Theatre. 
Diabos. eu pensei que ela ia arrancar o fgado do cara de tanto 
sug-lo.
Clifton de repente sentiu a boca to seca que mal pde proferir 
as palavras.
- Voc... voc tem certeza de que era ela? - perguntou.
O estranho se voltou para ele.
- Tenho, tenho certeza, sim. Ela usou um nome diferente, 
Josephine qualquer coisa. Um nome polaco doido.
O homem encarou-o e falou:
- Ei! Voc no era Clifton Lawrence?

Existe uma rea no Santa Monica Boulevard, entre Fairfax e La 
Cienega, que est sob jurisdio municipal. Parte de uma ilha 
cercada pela cidade de Los Angeles, a rea opera sob leis 
municipais menos severas que as da cidade. Num conjunto de seis 
quarteires, h quatro cinemas que s exibem pornografia pesada, 
meia dzia de livrarias onde os compradores podem ocupar cabines 
privadas e assistir a filmes atravs de visores individuais e uma 
dzia de sales de massagens equipados com jovens adolescentes, 
especialistas em tudo menos massagem. O Pussycat Theatre fica no 
meio de tudo isso.

Havia talvez cerca de duas dzias de pessoas na sala escura, 
todos homens, com excepo de duas mulheres de mos dadas. 
Clifton examinou a assistncia e ficou imaginando o que impeliria 
essas pessoas a cavernas escuras no meio de um dia de sol, 
assistindo, durante horas, a outras pessoas fornicando num filme.
Comeou a principal atraco e Clifton esqueceu tudo, menos o que 
estava na tela. Inclinou-se para a frente em sua cadeira, 
concentrando-se nos rostos das actrizes. A histria era sobre um 
jovem professor universitrio que levava as alunas para seu 
quarto, para aulas nocturnas.. Todas eram jovens, espantosamente 
atraentes e incrivelmente dotadas. Faziam uma srie de exerccios 
sexuais com o desempenho.
Mas nenhuma das garotas era Jill. "Ela tem de aparecer", pensou 
Clifton. Essa era a nica chance que teria de se vingar do que 
ela lhe fizera. Faria com que Clifton visse o filme. Isso o 
magoaria, mas ele acabaria superado. Ela seria destruda. Quando 
ficasse sabendo com que tipo de prostituta se casara, chut-la-ia 
para sempre. Jill tinha de estar nesse filme.
E de repente, l estava ela, na ampla tela, em cores 
maravilhosas, gloriosas, reais. Havia mudado muito; agora estava 
mais magra, mais bonita e sofisticada. Mas era Jill. Clifton 
ficou l, contemplando a cena, deliciando-se, deleitando seus 
sentidos, inundado por uma electrizante sensao de triunfo e 
vingana.
Esperou at aparecer os crditos e l estava, Josephine Czinski. 
Levantou-se e dirigiu-se  cabine de projeco. L encontrou um 
homem em mangas de camisa, lendo uma publicao turstica. 
Levantou os olhos quando Clifton entrou e disse:
- No  permitido entrar aqui, amigo.
- Quero comprar uma cpia desse filme.
O homem abanou a cabea.
- No est  venda - e voltou a ler.
- Dou-lhe cem dlares para me fazer uma cpia. Ningum vai ficar 
sabendo.
O homem nem se dignou a levantar os olhos.
- Duzentos dlares - disse Clifton. O operador virou uma pgina.
- Trezentos.
Ele ergueu a cabea e examinou Clifton.
- Em dinheiro?
- Em dinheiro.
s 9 horas da manh seguinte Clifton chegou  casa de Toby Temple 
com uma lata de filme debaixo do brao. "No, filme no", pensou 
alegremente. "Dinamite. O bastante para mandar Jill Castle para o 
inferno."
A porta foi aberta por um mordomo ingls que Clifton jamais vira 
antes.
- Diga ao Sr. Temple que Clifton Lawrence quer v-lo.
- Sinto muito, senhor. O Sr. Temple no est.
- Eu espero - disse Clifton com firmeza.
- Receio que no seja possvel - replicou o mordomo. - O Sr. e a 
Sra. Temple viajaram para a Europa esta manh.

32

A Europa foi uma sucesso de triunfos.
Na noite da estria de Toby no Palladium, em Londres, a Oxford 
Street ficou tomada por uma multido que tentava desesperadamente 
ver Toby e Jill. A polcia metropolitana isolou toda a rea em 
torno da Argyll Street. Quando a multido se descontrolou, a 
polcia foi chamada s pressas para ajudar. Precisamente s oito 
horas a famlia real chegou e o espectculo comeou.
Toby superou as mais inusitadas expectativas. Com o rosto 
irradiando inocncia, fez ataques brilhantes ao governo britnico 
e sua antiquada presuno. Explicou como conseguiram tornar-se 
menos poderosos que Uganda e at que ponto o mereceram. Todos 
rolaram de rir, pois sabiam que Toby Temple estava brincando. 
Nada daquilo era srio. Toby os amava.
Tanto quanto eles o amavam.

A recepo em Paris foi ainda mais tumultuada. Jill e Toby 
hospedaram-se no palcio presidencial e passearam pela cidade 
numa limusine oficial. Estavam na primeira pgina dos jornais 
todos os dias e quando foram ao teatro foi preciso pedir reforo 
 polcia para conter a multido. Terminada a apresentao, o 
casal se dirigia, sob escolta, para o carro, quando de sbito a 
multido rompeu a guarda da polcia e centenas de franceses 
cercavam os dois, gritando:
"Toby, Toby... on vent Toby!"
A mar humana segurava canetas e livros de autgrafos, 
empurrando-se para tocar o grande Toby Temple e sua maravilhosa 
Jill. A polcia no teve condio de det-los; a multido afastou 
os polcias, despedaando a roupa de Toby, lutando por uma 
recordao. Toby e Jill quase foram esmagados pelos corpos que se 
comprimiam, mas Jill no teve medo. A agitao era um tributo a 
ela; seu esforo fora por eles, ela lhes devolvera Toby.

A ltima parada era Moscovo.
Moscovo em junho  uma das cidades mais encantadoras do mundo. 
rvores graciosas, berezka branca e lipa em canteiros amarelos 
enfeitam avenidas onde as pessoas passeiam ao sol.  a estao de 
turismo. Com excepo dos visitantes oficiais, todos os turistas 
que vo  Rssia ficam a cargo da Intourist, rgo do governo 
responsvel pelo transporte, hotis e passeios programados. Mas 
Toby e Jill foram recebidos no Aeroporto Internacional de 
Sheremetyevo por uma grande limusine e conduzidos ao Metropoles 
Hotel, geralmente reservado para os vips dos pases satlites. A 
sute fora provida de vodca Stolichnaya e caviar negro.
O General Iri Romanvitch, alto oficial do partido, veio ao 
hotel dar-lhe as boas-vindas.
- No exibimos muitos filmes americanos na Rssia, Sr. Temple, 
mas os seus foram vistos vrias vezes. O povo russo acha que seu 
talento transcende todas as fronteiras.


Toby programara trs apresentaes no Teatro Bolchi. Na noite da 
estria, Jill participou da ovao. Por causa da barreira da 
lngua, Toby usou quase que exclusivamente pantomima e a 
audincia adorou. Fez uma crtica falando em seu arremedo de 
russo e o som do riso e dos aplausos ecoou pelo enorme teatro 
como uma bno de amor.
Durante os dois dias seguintes, o General Romanvitch acompanhou 
Toby e Jill em excurses tursticas particulares. Foram ao Parque 
Grki, andaram na enorme roda-gigante e visitaram a histrica 
Catedral de So Baslio. Foram levados ao Circo Estatal de 
Moscovo e homenageados com um banquete em Aragvi, onde provaram o 
caviar dourado, a mais rara das oito espcies de caviar. os 
zakuchki, que significa, literalmente, "bocadinhos", e o 
pachtiet, pat delicado que  servido com torradas. Como 
sobremesa, tiveram ioblotchnaia, o delicioso doce de ma com 
molho de abric.
E mais turismo. Visitaram o Museu de Arte Pchkin, o Mausolu de 
Lnin e a Detsky Mir, encantadora loja infantil de Moscovo.
Foram levados a lugares desconhecidos pela maioria dos russos.  
Rua Granovsko, cheia de automveis Chaikas e Volgas, todos com 
motorista; l, por trs de uma porta simples com a tabuleta onde 
se lia Departamento de passes especiais, foram conduzidos a uma 
loja atulhada de luxuosos produtos alimentcios importados de 
toda a parte do mundo, onde a nachalstro, a elite da sociedade 
russa, faz suas privilegiadas compras.
Visitaram uma luxuosa dacha, onde se exibiam filmes estrangeiros 
numa sala privada para uns poucos privilegiados. Foi uma viso 
fascinante do Estado do Povo.

Na tarde do dia em que Toby faria sua ltima apresentao, o 
casal se preparava para ir fazer compras quando Toby disse:
- Por que no vai sozinha, querida? Acho que vou cochilar um 
pouco.
Jill estudou-o por um momento.
- Voc est se sentindo bem?
- Optimamente. Estou s um pouco cansado. V e compre Moscovo 
inteira.
Ela hesitou. Toby estava plido. Quando essa viagem chegasse ao 
fim, faria com que ele tivesse um bom descanso antes de iniciar o 
novo show na televiso.
- Est bem - concordou. - Durma um pouco.

Jill atravessava o saguo em direco  sada quando ouviu uma 
voz masculina que chamava: "Josephine!" Ao se voltar j sabia 
quem era, e numa fraco de segundo a mgica tornou a acontecer.
David Kenyon caminhava em sua direco, sorrindo e dizendo:
- Estou to feliz em v-la.
Jill sentiu como se seu corao fosse parar. "Ele  o nico homem 
que me faz sentir-me dessa maneira", pensou.
- Toma um drinque comigo? - perguntou David.
- Sim - disse ela.
O bar do hotel era grande e estava cheio, mas conseguiram 
encontrar uma mesa relativamente tranquila num dos cantos, onde 
poderiam conversar.
- Que est fazendo em Moscovo? - perguntou Jill.
- Vim a pedido do governo. Estamos tentando estabelecer um acordo 
sobre petrleo.
Um garo entediado aproximou-se da mesa e anotou os pedidos de 
drinques.
- Como vai Cissy?

David olhou-a por um momento e ento falou: 
- Divorciamo-nos h alguns anos.
E mudou de assunto deliberadamente.
- Acompanhei tudo que tem acontecido com voc. Sou f de Toby 
Temple desde que era garoto. - De algum modo, aquilo fazia com 
que Toby parecesse muito velho. - Fico feliz em saber que ele 
est recuperado. Quando li sobre o derrame, fiquei preocupado com 
voc.
Nos olhos dele havia uma expresso da qual Jill se lembrava h 
muito tempo, um desejo, uma necessidade.
- Achei Toby sensacional em Hollywood e em Londres - dizia David.
- Voc estava l? - perguntou Jill, surpresa.
- Estava. - E acrescentou rapidamente: - Tinha alguns negcios a 
tratar.
- Por que no veio aos bastidores?
Ele hesitou.
- No queria impor-lhe minha presena. No sabia se queria me 
ver.
Os drinques chegaram em copos pesados e curtos.
- A voc e Toby - disse David.
E havia algo em sua maneira de falar, um substrato de tristeza, 
uma carncia...
- Voc costuma ficar no Metrpole? - perguntou Jill.
- No. Para falar a verdade tive um trabalho para arranjar... - 
Percebera a armadilha tarde demais e sorriu com amargura: - Sabia 
que voc estaria aqui. Deveria ter deixado Moscovo cinco dias 
atrs, mas no parti, na esperana de encontrar voc.
- Por qu, David?
Ele custou muito a responder. Finalmente falou:
-  tarde demais agora, mas de qualquer modo quero contar-lhe. 
Acho que voc tem o direito de saber.
E contou sobre seu casamento com Cissy, como esta o enganara, a 
tentativa de suicdio e sobre a noite em que convidara Jill a 
encontr-lo no lago. Foi um desabafo de emoo que a deixou 
perturbada.
- Sempre amei voc.
Ela ficou escutando, uma sensao de felicidade percorrendo-lhe o 
corpo como um vinho clido. Era como a concretizao de um sonho 
encantador, era tudo que ela sempre quisera, sempre desejara. 
Examinou o homem  sua frente e recordou suas mos fortes a 
toc-la, a potncia de seu corpo vido, e sentiu-se estremecer. 
Mas Toby se tornara parte dela, era sua prpria carne, enquanto 
David...
Uma voz a seu lado falou:
- Sra. Temple! Procuramo-la por toda a parte! - Era o General 
Romanvitch.
Jill olhou para David.
- Telefone-me pela manh.

A ltima apresentao de Toby no Teatro Bolchi foi mais 
fantstica do que tudo que j se vira l. O pblico jogou flores, 
aplaudiu, bateu com os ps no cho, recusou-se a sair. Foi o 
clmax perfeito para a srie de triunfos de Toby. Uma grande 
festa estava programada para depois do espectculo, mas Toby 
disse a Jill:
- Estou estourando, deusa. Por que voc no vai? Voltarei para o 
hotel e dormirei um pouco.

Jill foi sozinha  festa, mas era como se David estivesse a seu 
lado o tempo todo. Ela conversou com os anfitries, danou e 
agradeceu as homenagens que lhe foram prestadas, mas sua mente 
no parava de reviver o encontro com David. "Casei com a moa 
errada. Cissy e eu nos divorciamos. Nunca deixei de amar voc."
s duas da manh o acompanhante de Jill deixou-a no hotel. Ela 
entrou na sute e encontrou Toby cado no cho no meio do quarto, 
inconsciente, a mo direita estendida em direco ao telefone.
Toby Temple foi levado s presas numa ambulncia para a 
Policlnica Diplomtica, no nmero 3 da Rua Svertchkov. Trs 
grandes especialistas foram chamados a meio da noite para 
examin-lo. Todos foram solidrios com Jill; o director do 
hospital acompanhou-a a uma sala privada, onde ela ficou  espera 
de notcias. " como uma reprise", pensou Jill. "Tudo isso j 
aconteceu antes." Parecia vago, irreal.
Horas mais tarde a porta da sala se abriu e um russo baixo e 
gordo entrou. Usava um terno que lhe caa mal e parecia um 
bombeiro malsucedido.
- Sou o Dr. Durov - disse. - Estou encarregado do caso de seu 
marido.
- Quero saber como ele est.
- Sente-se, Sra. Temple, por favor.
Jill nem mesmo reparara que havia levantado.
- Diga-me!
- Seu marido sofreu um derrame; em termos tcnicos, uma trombose 
cerebral.
-  muito grave?
-  o tipo mais - como se diz? - mais danoso, mais perigoso. Se 
ele sobreviver - e  cedo para sabermos -, jamais voltar a andar 
ou falar. Sua mente est bem, mas ele ficou completamente 
paralisado.

Antes de Jill deixar Moscovo, David telefonou-lhe.
- Nem sei como dizer o quanto sinto - disse ele. - Ficarei  sua 
disposio: a qualquer hora que precisar de mim, estarei a seu 
lado. Lembre-se disso.
Foi a nica coisa que ajudou Jill a conservar a sanidade no 
pesadelo que estava prestes a comear.

A volta para casa foi uma repetio diablica: a maca de hospital 
no avio, a ambulncia do aeroporto at a casa, o quarto de 
doente.
S que desta vez era diferente; Jill compreendeu isso no momento 
em que a deixaram ver Toby. Seu corao batia, seus rgos vitais 
funcionavam; sob todos os aspectos, era um organismo vivo. E no 
entanto no era. Era um cadver que respirava, um homem morto 
numa tenda de oxignio, com o corpo atravessado por tubos e 
agulhas, como antenas que o alimentavam com os fluidos vitais 
necessrios para mant-lo vivo. O rosto estava contorcido num 
rito pavoroso que dava a impresso de que ele estava sorrindo, os 
lbios repuxados deixando as gengivas  mostra. "Receio no poder 
dar-lhe qualquer esperana", dissera o mdico russo.

Isso fora semanas atrs. Agora estavam em casa, em Bel Air. Jill 
chamara imediatamente o Dr. Kaplan e este mandara vir outros 
especialistas, mas a resposta fora sempre a mesma: um forte 
derrame, que lesara gravemente ou destrura os centros nervosos, 
havendo muito pouca chance de reverso do dano j causado.
Havia enfermeiras trabalhando as vinte e quatro horas do dia e um 
fisioterapeuta para os exerccios, mas era tudo em vo.
O objecto de todas essas atenes era grotesco. A pele de Toby 
tornara-se amarelada e seu cabelo caa aos tufos. Os membros 
paralisados ficaram enrugados e viscosos e o rosto conservou a 
horrenda careta que ele no podia controlar. Era uma viso 
monstruosa, o rosto da morte.
Mas os olhos estavam cheios de vida. E quanta vida! Luziam com a 
fora e a frustrao da mente aprisionada naquele invlucro 
intil. Sempre que Jill entrava no quarto, os olhos de Toby a 
seguiam famintos, desesperados, implorando. O qu? Que ela o 
fizesse andar outra vez? Voltar a falar? Transform-lo de novo 
num homem?
Ela contemplava-o em silncio, pensando: "Uma parte de mim est 
deitada naquela cama, sofrendo, aprisionada". Eles estavam 
ligados um ao outro. Ela teria dado tudo para salvar Toby, para 
salvar a si mesma, mas sabia que era impossvel. Dessa vez era.
Os telefones tocavam constantemente, como uma reprise daqueles 
outros telefonemas, daquelas outras ofertas de solidariedade. Mas 
um dos telefonemas era diferente, o de David Kenyon. "S quero 
que voc saiba que para tudo que eu puder fazer, seja o que for, 
estarei s ordens."
Jill pensou nele, alto, bonito e forte - e pensou na criatura 
deformada no quarto ao lado.
- Obrigada, David, fico-lhe grata. Mas no h nada, no por 
enquanto.
- H bons mdicos em Houston - disse ele. - Dos melhores do 
mundo. Posso mand-los ver Toby.
Jill sentiu um aperto na garganta. Oh, que vontade de pedir a 
David que viesse para junto dela, que a levasse daquele lugar! 
Mas no podia. Estava ligada a Toby e sabia que jamais poderia 
deix-lo enquanto ele vivesse.
O Dr. Kaplan terminara de examinar Toby e Jill esperava por ele 
na biblioteca. Virou-se para olh-lo quando o doutor atravessou a 
porta. Ele falou, numa tentativa de humor.
- Bem, Jill, tenho boas e ms notcias.
- Conte-me primeiro as ms.
- Receio que o sistema nervoso de Toby esteja lesado demais para 
permitir uma reabilitao. Isso est fora de dvida. Desta vez 
no ser possvel: ele jamais andar ou falar de novo.
Ela o encarou por muito tempo e ento perguntou:
- E quais so as boas notcias?
O Dr. Kaplan sorriu:
- O corao de Toby  surpreendentemente forte. Com o cuidado 
adequado, poder viver por mais vinte anos.
Jill olhou-o estupefacta. Vinte anos. Era essa a boa notcia! 
Pensou em si prpria, atrelada  horrvel grgula no andar de 
cima, aprisionada num pesadelo para o qual no havia sada. 
Jamais poderia separar-se de Toby enquanto ele vivesse. Porque 
ningum compreenderia. Ela era a herona que salvara a vida dele 
e todos se sentiriam trados, enganados, se agora o abandonasse. 
At mesmo David Kenyon.

Ele telefonava todos os dias agora. Falava da lealdade e do 
maravilhoso desprendimento de Jill, e ambos sentiam a profunda 
corrente emocional que flua entre eles.
A frase jamais dita era: "Quando Toby morrer".

33

As enfermeiras revezavam-se em turnos, cuidando de Toby durante 
as vinte e quatro horas do dia; eram objectivas e eficientes como 
mquinas, totalmente impessoais. Jill dava graas pela presena 
delas, pois no aguentava aproximar-se de Toby. Sentia repulsa  
viso daquela pavorosa mscara distorcida. Arranjava desculpa 
para ficar longe do quarto. Quando se obrigava a chegar perto 
dele, imediatamente percebia uma mudana em Toby, at mesmo as 
enfermeiras o notavam. Ele permanecia imvel, impotente, 
aprisionado em sua gaiola espstica. Mas, no momento em que Jill 
entrava na sala, aqueles brilhantes olhos azuis punham-se a luzir 
de vitalidade. Jill podia ler os pensamentos de Toby to 
claramente como se ele estivesse falando. "No me deixe morrer. 
Ajude-me. Ajude-me!"
Jill ficava olhando o corpo destroado e pensava: "No posso 
ajudar voc. Voc no quer viver assim. Voc quer morrer".

A idia comeou a tomar corpo em Jill.
Os jornais estavam cheios de histrias sobre maridos cujas 
esposas livravam-nos do sofrimento. At mesmo certos mdicos 
admitiam que s vezes deixavam morrer determinados pacientes. 
Chamava-se eutansia. Assassinato por misericrdia. Mas Jill 
sabia que tambm podia ser considerado crime, mesmo se tudo que 
restava de vida em Toby fossem aqueles malditos olhos que no 
deixavam de segui-la por toda a parte.
Nas semanas que se seguiram, Jill no saiu de casa. Passou a 
maior parte do tempo em seu quarto, fechada. As dores de cabea 
voltaram e ela no conseguia alivi-las.
Os jornais e revistas contavam as humanas histrias do astro 
paraltico e sua devotada esposa, que antes cuidara dele at 
cur-lo. Todos especulavam sobre a possibilidade de Jill repetir 
o milagre, mas ela sabia que no haveria mais nenhum milagre. 
Toby jamais se recuperaria.
"Vinte anos", dissera o Dr. Kaplan. E David estava l fora 
esperando por ela. Tinha de achar um meio de escapar da priso.
Tudo comeou num sombrio e deprimente domingo. Chovera a manh 
toda e a chuva continuara pelo dia afora, batendo no telhado e 
nas janelas da casa at Jill pensar que iria enlouquecer. Estava 
em seu quarto, lendo, tentando no ouvir o odioso tamborilar da 
chuva, quando a enfermeira da noite entrou. Seu nome era Ingrid 
Johnson, uma mulher formal, de tipo nrdico.
- O fogo l de cima no est funcionando - avisou ela. - Terei 
de preparar o jantar do Sr. Temple na cozinha. Poderia ficar com 
ele alguns minutos?
Jill percebeu a reprovao no tom da enfermeira, que achava 
estranho uma esposa no se aproximar do marido acamado.
- Cuidarei dele - disse Jill.
Deixou o livro e atravessou o corredor em direco ao quarto de 
Toby; logo que entrou, suas narinas foram invadidas pelo cheiro 
familiar de doena. Num instante, todas as fibras de seu ser 
foram tomadas por lembranas daqueles longos e terrveis meses 
durante os quais lutara para salvar Toby.

Ele estava recostado num grande travesseiro. Ao ver Jill, seus 
olhos se iluminaram, lanando mensagens de desespero. "Onde voc 
esteve? Por que tem de ficar longe de mim? Preciso de voc. 
Ajude-me!" Era como seus olhos fossem dotados de voz. Jill olhou 
para o repelente corpo deformado, com aquela sorridente mscara 
da morte, e sentiu-se nauseada. "Voc nunca vai ficar bom, 
maldito! Voc tem de morrer! Eu quero que voc morra!"
Enquanto olhava para Toby, Jill viu a expresso se alterar em 
seus olhos: o choque e a perplexidade foram gradualmente 
substitudos por tamanho dio, tamanha malevolncia, que ela 
involuntariamente recuou um passo. Ento compreendeu o que 
acontecera. Expressara seus pensamentos em voz alta.
Virou-se e saiu correndo do quarto.
Pela manh, a chuva parou. A velha cadeira de rodas de Toby fora 
trazida do poro e a enfermeira do dia, Frances Gordon, estava 
levando o doente para o jardim, onde poderia ficar um pouco ao 
sol. Jill ouviu o som da cadeira de rodas no corredor, em 
direco ao elevador; esperou alguns minutos e ento desceu. 
Estava atravessando a biblioteca quando o telefone tocou; era 
David, falando de Washington.
-Como est voc hoje? - perguntou uma voz afectuosa. Jill nunca 
se sentira to satisfeita por ouvi-lo quanto nesse momento.
- Estou bem, David.
- Gostaria que voc estivesse a meu lado, querida.
- Eu tambm. Amo-o tanto. Eu quero voc. Quero me sentir 
novamente em seus braos. Oh, David...
Um instinto qualquer fez com que Jill se virasse: Toby estava no 
corredor, amarrado  sua cadeira de rodas, onde a enfermeira o 
deixara por um momento. Os olhos azuis luziam em direco a Jill 
com tanto dio, tanta malignidade, que foi como um golpe fsico. 
A mente dele falava com ela atravs dos olhos, gritando-lhe: "Eu 
vou matar voc!" Em pnico, ela deixou cair o telefone.
Jill fugiu da sala e subiu, sentindo atrs de si o dio de Toby, 
como uma fora violenta e malfica. Ficou o dia todo no quarto, 
recusando-se a comer. Sentada numa cadeira, num estado quase de 
transe, sua mente repassando continuamente a cena ao telefone. 
Toby sabia. Ele sabia. Jamais poderia olh-lo de frente.
Finalmente a noite chegou. Era julho e o ar ainda conservava o 
calor do dia. Jill abriu as janelas do quarto para aproveitar 
qualquer tnue brisa que porventura soprasse.
No quarto de Toby, a enfermeira Gallagher estava de servio. Nas 
pontas dos ps, foi dar uma olhada em seu paciente. Gostaria de 
poder ler a mente dele, assim talvez pudesse ajudar o pobre 
homem. Ajeitou as cobertas em torno de Toby.
- Agora durma um bom sono - disse ela animadamente. - Voltarei 
para ver como est. 
No ouve qualquer reaco; ele nem mesmo moveu os olhos em sua 
direco.
"Talvez seja melhor mesmo eu no poder ler sua mente", pensou a 
enfermeira Gallagher. Deu uma ltima olhada e foi para sua saleta 
assistir a algum programa tardio de televiso. Ela gostava de 
entrevistas, adorava ver estrelas de cinema conversando sobre si 
mesmas. Isso as tornava to incrivelmente humanas, iguais s 
pessoas comuns. Procurou manter o volume reduzido para no 
incomodar o doente. Mas de qualquer maneira Toby Temple no teria 
ouvido. Seus pensamentos estavam em outro lugar.


A casa estava adormecida, a salvo na segurana dos bosques de Bel 
Air. Uns poucos e atenuados rudos de trnsito subiam do Sunset 
Boulevard l embaixo. A enfermeira Gallagher assistia a um filme 
na televiso; gostaria que passassem um dos velhos filmes de Toby 
Temple. Seria excitante assistir a ele na televiso sabendo que 
ele em pessoa estava ali, a poucos metros de distncia.
s quatro da manh a enfermeira cochilou diante de um filme de 
terror.
No quarto de Toby reinava um silncio profundo.
No quarto de Jill, o nico som audvel era o tique-tique de 
relgio na mesa-de-cabeceira. Ela dormia despida, num sono 
profundo, um brao enlaando um travesseiro, seu corpo, uma 
mancha escura sobre os lenis brancos. Os rudos da rua chegavam 
ali atenuados e distantes.
Jill se virou, inquieta e estremeceu. Sonhava que estava no 
Alasca com David, em lua-de-mel. Os dois se achavam numa vasta 
plancie gelada e de repente cara uma tempestade; o vento 
lanava o ar gelado contra suas faces, dificultando-lhes a 
respirao. Ela se virou para David, mas ele desaparecera. Ela 
estava sozinha no frgido rctico, tossindo, lutando para 
recobrar o flego. Foi o som de algum sufocando que despertou 
Jill. Ouviu um horrvel chiado roufenho, um arfar agonizante e 
abriu os olhos: o som partira de sua prpria garganta. No podia 
respirar. Uma camada de ar gelado a envolvia como um cobertor 
obsceno, acariciando seu corpo nu, afagando-lhe os seios, 
beijando-lhe os lbios com um hlito frgido e de um cheiro 
ftido, que lembrava um tmulo. Seu corao batia 
desesperadamente enquanto ela tentava respirar; seus pulmes 
pareciam estar queimados pelo frio. Tentou levantar-se mas 
parecia que um peso invisvel a impedia. Sabia que aquilo tinha 
de ser um sonho, mas ao mesmo tempo ouvia aquele horrendo arfar 
de sua garganta enquanto lutava para respirar. Estava morrendo. 
Mas seria possvel algum morrer durante um pesadelo? Jill sentia 
os tentculos gelados tacteando seu corpo, movendo-se entre suas 
pernas, penetrando-a, finalmente dentro dela e de sbito, 
inesperadamente, compreendeu que era Toby. De algum modo, de 
alguma maneira, era ele. E a sbita onda de horror deu a Jill 
foras para se arrastar at os ps da cama, ofegante, mente e 
corpo lutando para sobreviver. Caiu ao cho, levantou-se com 
dificuldade e correu para a porta, sentindo o frio a persegui-la, 
cercando-a, agarrando-a. Seus dedos encontraram a maaneta e 
abriram a porta. Ela correu para fora, ofegante, enchendo de 
oxignio os pulmes famintos.
O corredor estava quente, tranquilo, silencioso. Jill ficou ali 
trmula, os dentes batendo incontrolavelmente. Virou-se para 
olhar seu quarto: tudo parecia normal e em paz. Ela tivera um 
pesadelo. Hesitou por um momento e depois caminhou lentamente de 
volta ao quarto. O aposento estava quente, nada havia a temer. 
Claro que Toby no fazeria-lhe mal.
Na saleta, a enfermeira Gallagher acordou e foi olhar seu 
paciente.
Toby Temple estava em sua cama, exactamente como ela o deixara. 
Seus olhos, voltados para o tecto, estavam fixos em algo 
invisvel para a enfermeira Gallagher.


Depois disso, o pesadelo passou a se repetir regularmente, tal 
como uma negra profecia de destruio, uma precognio de algum 
horror iminente. Lentamente, Jill foi tomada de terror. Aonde 
quer que fosse na casa, sentia a presena de Toby. Quando a 
enfermeira o levava para fora, ela o ouvia. A cadeira de rodas 
passara a ranger, emitindo um som agudo que atacava os nervos de 
Jill sempre que o ouvia. "Preciso mandar consert-la", pensou 
ela. Evitava aproximar-se do quarto de Toby, mas no fazia 
diferena: ele estava em toda a parte, esperando por ela.
As dores de cabea tornaram-se constantes, um pulsar violento, 
rtmico, que no a deixava descansar. Jill queria que a dor 
passasse por uma hora, um minuto, um segundo. precisava de 
dormir. Foi para o quarto de empregada atrs da cozinha, o mais 
longe possvel dos aposentos de Toby. O quarto estava quente e 
tranquilo. Jill deitou-se na cama e fechou os olhos: adormeceu 
quase instantaneamente.
Foi despertada pelo ar ftido e gelado enchendo o quarto, 
agarrando-a, tentando sepult-la. Saltou da cama e correu para 
fora do quarto.

Os dias eram horrveis, mas as noites eram apavorantes. Obedeciam 
sempre  mesma rotina: Jill ia para seu quarto, encolhia-se na 
cama, lutava para permanecer acordada, temendo adormecer pois, 
sabia que Toby viria. Mas seu corpo exausto acabava levando a 
melhor e ela adormecia.
O frio a despertava. Jill ficava deitada, tremendo, sentindo o ar 
gelado movendo-se em sua direco, uma presena malvola 
envolvendo-a como uma maldio terrvel. Levantava-se e fugia num 
silencioso terror.

Eram trs horas da madrugada.
Jill adormecera numa cadeira enquanto lia um livro. Acordou 
lentamente, aos poucos, e abriu os olhos para a total escurido 
do quarto, sentindo que havia algo terrivelmente errado. Ento 
compreendeu o que era. Adormecera com todas as luzes acesas. 
Sentiu o corao disparar e pensou: "No h razo para medo. A 
enfermeira deve ter apagado as luzes".
Foi ento que ouviu o rudo. Vinha do corredor, crek... crek... A 
cadeira de rodas, aproximando-se da porta de seu quarto. Jill 
sentiu um arrepio na nuca. " apenas um galho de rvore batendo 
no telhado, ou os estalidos da casa", disse consigo mesma. Mas 
sabia que no era. Conhecia bem demais aquele rudo: crek... 
crek... como a msica da morte a busc-la. "No pode ser Toby", 
pensou. "Ele est na cama, impotente. Estou ficando louca." Mas 
ouvia o som aproximar-se cada vez mais. Estava agora do outro 
lado da porta. Parara, como que esperando. E de repente ouviu o 
rudo de algo que caa com estrpito, seguido de silncio.

Jill passou o resto da noite encolhida na cadeira, no escuro, 
apavorada demais para se mover.
Na manh seguinte, do lado de fora de seu quarto, encontrou uma 
jarra quebrada, junto  mesa do corredor sobre a qual costumava 
ficar.
Jill conversou com o Dr. Kaplan.
- Voc acredita que a mente possa... possa controlar o corpo? - 
perguntava ela.
O mdico olhou-a intrigado.

- De que forma?
- Se Toby quisesse... quisesse muito levantar-se da cama, ele 
poderia faz-lo?
- Voc diz, sem ajuda? Em seu estado actual? - lanou-lhe um 
olhar incrdulo. - Ele est totalmente desprovido de mobilidade. 
Totalmente.
Mas Jill ainda no estava convencida.
- Se... se ele estivesse realmente decidido a se levantar... se 
houvesse algo que achasse que tinha de fazer...
O Dr. Kaplan abanou a cabea.
- Nossa mente envia ordens ao corpo, mas se os impulsos motores 
se acham bloqueados, se no h msculos para cumprir essas 
ordens, ento nada pode acontecer.
Jill tinha de descobrir.
- Voc acredita que a mente possa descolar objectos?
- Refere-se a psicocinese? H muitas experincias sendo feitas, 
mas ainda no encontrei nenhuma prova que me convencesse.
Havia a jarra quebrada junto  porta do quarto.
Jill teve vontade de falar ao mdico sobre aquilo, sobre o ar 
gelado que a seguia, sobre a cadeira de rodas de Toby do outro 
lado da porta, mas ele iria pensar que estava louca. Estaria? 
Havia algo de errado com ela? Estaria perdendo a razo?
Quando o Dr. Kaplan se retirou, Jill aproximou-se do espelho e 
ficou chocada com o que viu. Suas faces estavam encovadas e os 
olhos enormes, num rosto plido e ossudo. "Se continuar assim", 
pensou "morrerei antes de Toby." Examinou o cabelo oleoso e sem 
vida, as unhas rachadas e quebradas. "No posso permitir jamais 
que David me veja assim. Tenho de comear a me cuidar. De agora 
em diante", disse a si mesma, "voc vai passar a ir ao salo de 
beleza uma vez por semana, vai comer trs refeies por dia e 
dormir oito horas."
Na manh seguinte, Jill marcou uma hora no salo de beleza. 
Estava exausta e sob o morno e confortvel zumbido do secador 
acabou cochilando, e o pesadelo comeou. Estava dormindo em sua 
cama. Ouvia Toby entrar no quarto na cadeira de rodas. Crek... 
crek... Lentamente, ele se levantava da cadeira, ficava de p e 
se aproximava dela, o rosto contorcido, as mos esquelticas 
estendidas para o seu pescoo. Jill despertou gritando, 
apavorada, criando uma enorme confuso no salo de beleza. Acabou 
por sair s pressas, sem mesmo pentear o cabelo.
Depois dessa experincia, ficou com medo de sair de casa.
E com medo de ficar em casa.


Parecia que havia algo errado com sua mente. J no se tratava 
apenas das dores de cabea. Comeara a ter esquecimentos. Descia 
para apanhar alguma coisa, entrava na cozinha e ficava l parada, 
sem saber o que fora buscar. Sua memria comeou a lhe pregar 
estranhas peas. Certa vez, a enfermeira Gordon veio falar com 
ela e Jill pensou o que uma enfermeira estaria fazendo ali. De 
repente, lembrou-se: o director a esperava no set. Tentou 
recordar sua fala: "Acho que nada bem, doutor". Tinha de falar 
com o director para saber como queria que lesse a fala. A 
enfermeira Gordon segurava sua mo e dizia: "Sra. Temple! Sra. 
Temple! Est se sentindo bem?" E Jill se viu de volta a seu 
ambiente, mais uma vez no presente,  merc do terror daquilo que 
lhe estava acontecendo. Sabia que no podia continuar assim, 
tinha de descobrir se havia algo errado com sua mente ou se Toby, 
de algum modo, conseguia mover-se, se descobrira um meio de 
atac-la, de tentar mat-la.
Precisava v-lo. Obrigou-se a percorrer o longo corredor em 
direco ao quarto de Toby; ficou um momento do lado de fora, 
reunindo foras, e ento entrou.

Toby estava deitado na cama enquanto a enfermeira dava-lhe um 
banho de esponja. Ela levantou os olhos, viu Jill e disse:
- Ora, aqui est a Sra. Temple. Estamos tomando um bom banho, no 
?
Jill se voltou para olhar a figura na cama.
Os braos e as pernas de Toby haviam definhado, transformando-se 
em apndices retorcidos presos ao trax atrofiado e deformado. 
Entre suas pernas, como uma comprida e indecente serpente, jazia 
o pnis intil, flcido e repulsivo. O tom amarelo desaparecera 
de suas faces, mas a careta boquiaberta e a expresso de 
imbecilidade continuavam. O corpo estava morto, mas os olhos 
permaneciam desesperadamente vivos. Movimentavam-se bruscamente, 
procurando, planejando, odiando; penetrantes olhos azuis cheios 
de tramas secretas, de mortal determinao. Era a mente de Toby 
que Jill via. " importante lembrar que a mente dele est ilesa", 
dissera-lhe o mdico. A mente podia apenas, sentir, odiar. Aquela 
mente nada mais tinha a fazer seno planear sua vingana, 
elaborar um meio de destru-la. Toby desejava sua morte, assim 
como Jill desejava a dele.
Agora, enquanto o olhava, fixando aqueles olhos que luziam de 
dio, ela podia ouvi-lo dizer: "Vou matar voc", e sentia as 
ondas de repugnncia que a atingiam como golpes. 
Jill fixou aqueles olhos, lembrou-se da jarra quebrada e 
compreendeu que nenhum de seus pesadelos havia sido iluso. Ele 
descobrira um meio.
Ficou sabendo ento que seria a vida de Toby contra a sua 
prpria.

34

Quando o Dr. Kaplan terminou o exame em Toby, foi falar com Jill.
- Acho que voc deve suspender a terapia na piscina - disse ele. 
-  perda de tempo. Eu esperava que consegussemos alguma ligeira 
melhoria na musculatura dele, mas no est adiantando nada. Eu 
mesma falarei com o terapeuta.
- No!
Foi um grito agudo. O mdico olhou-a surpreso.
- Jill, sei o que voc fez por Toby da outra vez, mas desta vez  
intil. Eu...
- No podemos desistir. Ainda no.
Havia desespero na voz dela. O Dr. Kaplan hesitou e finalmente 
encolheu os ombros.
- Bem, se  assim to importante para voc...
- .
Naquele momento, era a coisa mais importante do mundo. Era o que 
salvaria sua vida.
Agora ela sabia o que tinha a fazer.

O dia seguinte era uma sexta-feira. David telefonou para dizer a 
Jill que teria de viajar at Madrid a negcios.
- Talvez eu no possa telefonar durante o fim de semana.
- Sentirei sua falta - disse Jill. - Sentirei muito.
- Tambm terei saudades de voc. Voc est bem? Parece estranha. 
Est cansada?
Jill lutava para manter os olhos abertos, para esquecer a 
terrvel dor de cabea. No se lembrava da ltima vez que comera 
ou dormira. Estava to fraca que mal podia ficar de p. Procurou 
pr energia na voz:
- Estou bem, David.
- Amo voc, querida. Cuide-se.
- Vou me cuidar, David. Amo voc. Por favor, lembre-se disso. 
Acontea o que acontecer.
Ouviu o carro do fisioterapeuta que chegou e desceu, a cabea 
latejando, as pernas trmulas quase incapazes de sustent-la. 
Abriu a porta da frente no momento em que ele ia tocar a 
campainha.
- Bom dia, Sra. Temple - disse ele, comeando a entrar.
Mas Jill barrou-lhe a passagem. Ele a olhou surpreso.
- O Dr. Kaplan decidiu suspender a terapia de Toby - disse ela.
O fisioterapeuta franziu o cenho. Significava que fora at ali 
inutilmente. Algum deveria t-lo avisado antes. Em condies 
normais teria reclamado, mas a Sra. Temple era uma pessoa 
admirvel, com tantos problemas... Ele sorriu e falou:
- Est bem, Sra. Temple. Eu compreendo.
E voltou para seu carro.
Jill esperou at ouvir o carro afastar-se. Ento comeou a subir 
a escada. A meio caminho foi atingida por mais uma tonteira e 
teve de se agarrar ao corrimo at sentir-se melhor. No podia 
parar agora. Se parasse, morreria.
Foi at a porta do quarto de Toby, girou a maaneta e entrou. A 
enfermeira Gallagher estava sentada numa poltrona, bordando. 
Levantou os olhos, surpresa ao ver Jill de p  porta.
- Ora! - disse ela. - Temos uma visita. Que bom!
Voltou-se para a cama:

- Sei que o Sr. Temple ficou satisfeito. No  mesmo, Sr. Temple?
Toby estava recostado, apoiado em travesseiros, os olhos 
transmitindo sua mensagem a Jill. "Vou matar voc."
Ela desviou o olhar e aproximou-se da enfermeira.
- Cheguei  concluso de que no estou passando tempo suficiente 
com meu marido.
- Bem, para falar a verdade,  exactamente o que estive pensando 
- respondeu a enfermeira Gallagher asperamente. - Mas percebi que 
a senhora tambm anda doente e ento disse a mim mesma...
- Estou me sentindo muito melhor agora - interrompeu Jill. - 
Gostaria de ficar a ss com o Sr. Temple.
A enfermeira reuniu seus apetrechos de bordado e levantou-se.
-  claro - disse. Estou certa de que ele apreciar isso. - 
Virou-se para a figura na cama. - No  mesmo, Sr. Temple? - E 
acrescentou, dirigindo-se a Jill: - Vou at a cozinha preparar 
uma boa xcara de ch para mim.
- No. Seu turno termina dentro de meia hora. Pode sair agora. 
Ficarei com ele at a enfermeira Gordon chegar.
Jill lanou-lhe um sorriso rpido e reconfortante.
- No se preocupe. Ficarei aqui com ele.
- Acho que poderia fazer algumas compras e...
- ptimo - falou Jill. - Pode ir.
Ficou ali parada, imvel, at ouvir bater a porta da frente e 
depois o som do carro da enfermeira que se afastava. Quando o 
rudo do motor desapareceu no ar do vero, Jill voltou-se para 
Toby.
Seus olhos estavam fixos no rosto dela, sem oscilar, sem piscar. 
Obrigando-se a se aproximar da cama, Jill afastou as cobertas e 
olhou para o corpo consumido e paralisado, para as pernas 
flcidas e inteis.
A cadeira de rodas estava num canto. Trouxe-a para perto da cama 
e colocou-a de maneira a permitir-lhe passar Toby da cama para a 
cadeira. Estendeu as mos para ele e parou. O rosto contorcido e 
mudificado estava a centmetros de distncia, a boca num sorriso 
idiota, os brilhantes olhos azuis lanando malevolncia. Jill 
inclinou-se e levantou-o nos braos. Ele pesava pouqussimo, mas 
em condies de exausto mal conseguiu ergu-lo. Ao tocar em seu 
corpo, sentiu o ar frio comeando a envolv-la. A presso em sua 
cabea tornava-se insuportvel. Brilhantes pontos coloridos 
luziam diante de seus olhos, numa dana cada vez mais rpida, 
fazendo-a entontecer. Sentiu que ia desmaiar mas sabia que no 
podia deixar que isso acontecesse. No, se quisesse viver. Num 
esforo sobre-humano, arrastou o corpo inerte para a cadeira de 
rodas e prendeu-o com as correias. Olhou para o relgio: 
restavam-lhe apenas vinte minutos.
Jill levou cinco minutos para ir at seu quarto, vestir um maior 
e voltar ao quarto de Toby.

Soltou o freio da cadeira de rodas e comeou a empurr-la pelo 
corredor, at o elevador. Ficou atrs de Toby enquanto o elevador 
descia, para no ver seus olhos. Mas podia senti-los. E tambm a 
humidade do ar malvolo que comeava a encher o elevador, 
envolvendo-a, acariciando-a, enchendo-lhe os pulmes com sua 
putrescncia, at que comeou a sufocar. No conseguia respirar. 
Caiu de joelhos, lutando para respirar, para permanecer 
consciente, presa ali dentro com ele. Ao sentir a escurido do 
desmaio fechar-se  sua volta, a porta do elevador abriu-se e 
Jill arrastou-se para o sol quente, deixando-se cair ao cho, 
respirando profundamente, recobrando aos poucos a energia. 
Voltou-se para o elevador: Toby estava na cadeira de rodas, 
observando, esperando. Puxou depressa para fora e dirigiu-se para 
a piscina. O dia estava lindo, sem nuvens, quente e perfumado, 
com o sol cintilando na gua azul e pura.
Empurrou a cadeira de rodas at a borda da extremidade mais funda 
da piscina e freou-a. Deu a volta at a frente da cadeira. Os 
olhos de Toby estavam fixos nela, alerta, espantados. Pegou a 
correia que o prendia  cadeira e apertou-a ao mximo, puxando-a 
com todas as foras que lhe restavam, sentindo-se tonta de novo 
com o esforo. De repente, estava terminado. Jill observou a 
mudana no olhar de Toby quando este compreendeu o que estava 
acontecendo: um pnico violento e demonaco comeou a invadi-lo.
Soltou o freio, agarrou a cadeira e comeou a empurr-la em 
direco  gua. Toby tentava mover seus lbios paralisados, num 
esforo para gritar, mas no se fez qualquer som e o resultado 
era apavorante. Jill no conseguia encar-lo nos olhos. No 
queria saber.
Empurrou a cadeira de rodas at a borda da piscina.
E a cadeira ficou presa. A pequena borda de cimento detinha sua 
passagem. Jill empurrou com mais fora, mas ela no virava. Era 
como se Toby a estivesse segurando por simples fora de vontade. 
Podia v-lo lutando para se soltar, lutando pela vida. Ia 
soltar-se, libertar-se, agarrar-lhe o pescoo com os dedos 
esquelticos... Ela ouvia seus gritos. "No quero morrer... No 
quero morrer..." e, no sabendo se era real ou efeito de sua 
imaginao, num mpeto de pnico, reuniu uma sbita fora e 
empurrou o mais que pde o encosto da cadeira de rodas. Ela se 
projectou para a frente, no ar, suspensa durante o que pareceu 
uma eternidade, e ento rolou para dentro da piscina, caindo na 
gua com estrondo. Por muito tempo pareceu flutuar e ento, 
lentamente, comeou a
afundar-se. os redemoinhos da gua fizeram-na girar, de modo que 
a ltima coisa que Jill viu foram os olhos de Toby condenando-a 
ao inferno enquanto a gua se fechava sobre ele.
Ela ficou ali de p por muito tempo, tremendo sob o sol quente do 
meio-dia, deixando que as foras flussem de volta para sua mente 
e seu corpo. Quando finalmente conseguiu se mover, desceu os 
degraus da piscina para molhar o mai.
Em seguida voltou  casa e telefonou para a polcia.

35

A morte de Toby foi manchete nos jornais do mundo inteiro. Se ele 
se havia transformado em heri popular, Jill transformara-se em 
herona. Centenas de milhares de palavras foram impressas a 
respeito deles, suas fotos apareciam em todos os jornais e 
revistas. Sua grande histria de amor era contada e repetida, o 
final trgico conferindo-lhe ainda maior pungncia. Cartas e 
telegramas de psames fluram, de chefes de Estado, 
donas-de-casa, polticos, milionrios, secretrias. O mundo 
sofrera uma perda: Toby partilhava o dom de seu riso com os fs e 
estes ser-lhe-iam eternamente gratos. As ondas radiofnicas 
encheram-se de homenagens a ele e todas as redes de televiso 
prestaram-lhe tributo.
Jamais haveria outro Toby Temple.
O inqurito teve lugar no edifcio da Corte Criminal, na Grand 
Avenue, no centro de Los Angeles, numa sala pequena e repleta. 
Havia um funcionrio encarregado do interrogatrio, chefiando um 
jri composto por seis pessoas.
A sala estava repleta at o mximo de sua capacidade. Quando Jill 
chegou, viu-se cercada de fotgrafos, reprteres e fs. Usava um 
conjunto simples, de l preta; estava sem maquilhagem e jamais 
parecera to bonita. Nos poucos dias desde a morte de Toby, ela 
milagrosamente florescera, recuperando sua antiga imagem. Pela 
primeira vez em meses, conseguia dormir profundamente e sem 
sonhos. Tinha um apetite voraz e as dores de cabea haviam 
desaparecido. O demnio que lhe sugava a vida havia partido.
Jill falara com David todos os dias; ele quisera comparecer ao 
inqurito mas ela o dissuadira. Teriam tempo bastante mais tarde.
"O resto de nossas vidas", dissera-lhe David.
Havia seis testemunhas no inqurito. As enfermeiras Gallagher, 
Gordon e Jonhson depuseram sobre a rotina geral do paciente e seu 
estado. Era a vez da enfermeira Gallagher.
- A que horas a senhora deveria deixar o servio na manh em 
questo? - perguntou o encarregado do interrogatrio.
- s dez.
- A que horas saiu?
Hesitao.
- Nove e meia.
- Era costume seu, Sra. Gallagher, deixar o paciente antes do fim 
de seu turno?
- No, senhor. Foi a primeira vez.
- Poderia explicar o que aconteceu para faz-la sair cedo naquela 
manh?
- Foi sugesto da Sra. Temple. Ela queria ficar a ss com o 
marido.
- Obrigado.  s.

A enfermeira Gallagher desceu da plataforma. "Claro que a morte 
de Toby Temple fora acidental", pensara ela. "Era lamentvel que 
tivessem de sujeitar uma mulher maravilhosa como Jill Temple a 
semelhante provao." A enfermeira deu uma olhada para Jill e 
sentiu uma rpida punhalada de culpa. Lembrou-se da noite em que 
entrara no quarto dela e encontrara-a adormecida numa cadeira. A 
enfermeira havia apagado as luzes sem fazer rudo e fechara a 
porta para que a Sra. Temple no fosse perturbada. No corredor 
escuro, batera num vaso que estava sobre um pedestal e ele cara, 
quebrando-se. Tinha pretendido falar a esse respeito com a Sra. 
Temple, mas como o vaso parecera muito caro e Jill no mencionara 
o facto, a enfermeira Gallagher decidira no falar nada.
O fisioterapeuta estava no banco das testemunhas.
- Voc costumava fazer uma sesso diria de tratamento com o Sr. 
Temple?
- Sim, senhor.
- Esse tratamento tinha lugar na piscina?
- Sim, senhor. A piscina era aquecida a uma temperatura de 
quarenta e sete graus e...
- Voc fez o tratamento do Sr. Temple no dia em questo?
- No, senhor.
- Poderia dizer-nos por qu?
- Ela me mandou embora.
- Por "ela" voc quer dizer a Sra. Temple?
- Certo.
- Ela deu alguma razo?
- Disse que o Dr. Kaplan no queria que ele continuasse o 
tratamento.
- E assim voc saiu sem ter visto o Sr Temple?
- Certo. Isso mesmo.

Chegou a vez do Dr. Kaplan.
- A Sra. Temple lhe telefonou aps o acidente, Dr. Kaplan. O 
senhor examinou o falecido logo que chegou ao local?
- Sim. A polcia havia retirado o corpo da piscina. Ainda estava 
preso  cadeira de rodas. O cirurgio da polcia e eu examinamos 
o corpo e conclumos que era tarde demais para tentar reviv-lo. 
Ambos os pulmes estavam cheios de gua. No pudemos constatar 
nenhum sinal vital.
- Que fez o senhor ento, Dr. Kaplan?
- Cuidei da Sra. Temple. Ela estava em estado de histeria aguda. 
Fiquei muito preocupado com ela.
- Dr. Kaplan, o senhor tivera uma conversa anterior com a Sra. 
Temple sobre a suspenso da fisioterapia?
- Tive. Disse a ela que achava o tratamento uma perda de tempo.
- Qual foi a reaco da Sra. Temple?
O Dr. Kaplan olhou para Jill Temple e disse:
- A reaco dela foi muito estranha. Insistiu para que 
continussemos tentando. - Hesitou. - J que estou sob juramento 
e como o jri deste inqurito est interessado em ouvir a 
verdade, sinto que h algo que tenho a obrigao de dizer.
Um silncio completo cara sobre a sala. Jill olhava-o fixamente. 
O Dr. Kaplan voltou-se para os jurados.
- Gostaria de dizer, para os autos, que a Sra. Temple  
provavelmente a melhor e mais corajosa mulher que tive a honra de 
conhecer.
Todos os olhares se voltaram para Jill.
- Quando seu marido sofreu o primeiro derrame, ningum achou que 
houvesse a menor chance de recuperao. Mas ela cuidou dele e 
curou-o sozinha. Fez por ele o que nenhum mdico que conheo 
poderia ter feito. Eu jamais poderia descrever-lhes sua dedicao 
e devoo ao marido.
Olhou para Jill e acrescentou:

- Ela  um exemplo para todos ns.
Os espectadores romperam em aplausos.
-  s, doutor - disse o examinador. - Gostaria de chamar a Sra. 
Temple para depor.
Todos observaram quando Jill se levantou e lentamente caminhou 
at o banco das testemunhas, onde prestou juramento.
- Reconheo a provao que este inqurito representa para a 
senhora, Sra. Temple, e procurarei terminar tudo o mais rpido 
possvel.
- Obrigada - a voz dela soou baixo.
- Quando o Dr. Kaplan disse que pretendia suspender a 
fisioterapia, por que  que a senhora quis prossegui-la?
Ela levantou os olhos e o examinador reconheceu a profunda dor 
neles estampados.
- Porque eu queria que meu marido tivesse todas as chances 
possveis de se recuperar. Toby amava a vida e eu queria traz-lo 
de volta a ela. Eu... - sua voz hesitou, mas Jill prosseguiu: - 
Eu mesma tinha de ajud-lo.
- No dia da morte de seu marido, o fisioterapeuta chegou e a 
senhora o dispensou.
- Sim.
- Contudo, antes, Sra. Temple, a senhora dissera que o tratamento 
continuasse. Poderia explicar sua atitude?
-  muito simples. Compreendi que nosso amor era a nica coisa 
suficientemente forte para curar Toby. J o curara uma vez...
Ela parou, sem condies de prosseguir. Depois, obviamente 
controlando-se, continuou numa voz rouca:
- Eu tinha de faz-lo ver o quanto o amava, o quanto queria v-lo 
recuperado.
Todos os presentes estavam atentos, esforando-se para no perder 
uma s palavra.
- Poderia contar-nos o que aconteceu na manh do acidente?
Houve um minuto inteiro de silncio, enquanto Jill reunia as 
foras para finalmente falar.
- Entrei no quarto de Toby. Ele parecia feliz por me ver. 
Disse-lhe que eu mesma o levaria  piscina, que iria cur-lo de 
novo. Vesti um mai para poder fazer os exerccios com ele na 
gua. Quando me pus a ergu-lo da cama para a cadeira de rodas, 
eu... senti-me tonta. Acho que deveria ter compreendido naquele 
momento que no contava com fora fsica suficiente para o que 
pretendia fazer. Mas no podia parar. No, se pretendia ajud-lo. 
Coloquei-o na cadeira e falei com ele durante todo o caminho at 
a piscina. Empurrei-o at a borda...
Ela parou e a sala ficou cheia de um tenso silncio. O nico 
rudo era o das canetas dos reprteres correndo desesperadamente 
sobre os blocos de taquigrafia.
- Abaixei-me para desatar as correias que seguravam Toby  
cadeira e me senti tonta de novo e comecei a cair... Acho que 
soltei o freio acidentalmente. A cadeira comeou a rolar para 
dentro da piscina com... com Toby preso a ela - Jill tinha a voz 
embargada. - Pulei na piscina atrs dele e tentei solt-lo, mas 
as correias estavam apertadas demais. Tentei tirar a cadeira da 
gua mas estava... estava to pesada. Estava... pesada... demais.
Ela fechou os olhos por um momento, para esconder sua profunda 
angstia, depois, quase num sussurro, falou:
- Tentei ajudar Toby e o matei.

O jri do inqurito levou menos de trs minutos para obter um 
veredicto: Toby Temple morrera num acidente.
Clifton Lawrence, sentado no fundo da sala, ouviu o veredicto. 
Tinha certeza de que Jill o assassinara, mas no maneira de 
prov-lo. Ela escapara.
O caso estava encerrado.

36

No havia mais lugar para assistir ao funeral, realizado em 
Forest Lawn, numa ensolarada manh de agosto, no dia seguinte em 
que Toby Temple deveria iniciar sua nova srie de televiso. 
Havia milhares de pessoas esmagando os belos gramados, tentando 
enxergar as celebridades que compareceram para prestar suas 
ltimas homenagens. Cmaras de televiso cobriam os servios 
fnebres em tomadas longas e tiravam closes das estrelas, 
produtores e directores junto ao tmulo. O presidente dos Estados 
Unidos enviara um representante. Estavam presentes governadores, 
chefes de estdios, presidentes de grandes empresas e 
representantes de todos os sindicatos a que Toby pertencera: sag, 
aftra, ascap e agva. O presidente da filial de Beverly Hills dos 
Veteranos de Guerra comparecera em uniforme completo. Havia 
contingentes da polcia e do corpo de bombeiros local.
E a arraia-mida estava presente. Os coadjuvantes, os extras e os 
doubls que haviam trabalhado com Toby Temple. As encarregadas do 
guarda-roupa, os mensageiros, os novatos e os veteranos, os 
assistentes de direco e outros, todos foram prestar homenagem a 
um grande americano. L estavam O'Hanlon e Rainger, recordando o 
rapazinho magricela que entrara em seu escritrio na Twentieth 
Century-Fox. "Parece que vocs vo escrever piadas para mim..." 
"Ele usa as mos como se estivesse cortando lenha. Talvez 
pudssemos escrever uma cena de lenhador para ele... Ele fora 
demais..." "Jesus, com aquele material, voc no faria o mesmo?" 
"Um cmico abre portas engraadas. Um comediante abre portas 
engraadas." E Toby Temple trabalhara, aprendera e chegara ao 
topo. "Era um furo", pensara Rainger. "Mas era o nosso furo."
Clifton Lawrence estava l. O pequeno agente fora ao barbeiro e 
mandara passar suas roupas a ferro, mas os olhos o traram. Eram 
os olhos de quem fracassara entre seus iguais. Tambm Clifton 
estava perdido em recordaes. Lembrava-se daquele primeiro e 
presunoso telefonema. "H um jovem cmico que Sam Goldwin quer 
que voc veja..." e o desempenho de Toby na escola. "No se 
precisa comer todo o vidro de caviar para saber que  bom, 
certo?... Decidi aceit-lo como cliente, Toby... Se voc for 
capaz de pr os tomadores de cerveja no bolso, o pessoal do 
champanha vir automaticamente... Posso fazer de voc a maior 
estrela do ramo." Todos haviam querido Toby Temple: os estdios, 
as redes de televiso, os night clubs. "Voc tem tantos clientes 
que s vezes acho que no me d ateno suficiente...  como sexo 
em grupo, Clifton. Sempre sobra um que fica de pau duro... 
Preciso de seus conselhos, Clifton...  sobre aquela garota..."
Clifton Lawrence tinha muito o que lembrar.
Ao lado dele estava Alice Tanner.
Ela se achava perdida na lembrana da primeira entrevista de Toby 
em seu escritrio. "Em algum lugar, escondido sob todos aqueles 
astros do cinema, est um jovem cheio de talento... Depois de ver 
aqueles profissionais ontem  noite, eu... eu acho que no tenho 
talento." E a paixo por ele. "Oh, Toby, amo-o tanto..." "Tambm 
amo voc, Alice..." E ento ele se fora. Mas Alice era grata pelo 
facto de t-lo tido um dia.

Al Caruso viera prestar seu tributo. Estava encurvado, grisalho, 
e seus olhos castanhos de Papai Noel estavam cheios de lgrimas. 
Recordara como Toby fora maravilhoso para Millie.
Sam Winters estava l. Pensava nas alegrias que Toby Temple 
proporcionara a milhes de pessoas e imaginava como avaliar 
aquilo em relao  dor que Toby causara a uns poucos.
Algum cutucou Sam, que se virou e deu com uma garota bonita, de 
cerca de dezoito anos.
- O senhor no me conhece, Sr. Winters - sorriu ela -, mas ouvi 
falar que est procurando uma garota para o novo filme de William 
Forbes. Sou de Ohio e...
David Kenyon estava l. Jill pedira-lhe que no fosse, mas ele 
insistira. Queria estar perto dela, Jill achou que agora j no 
importava, terminara de representar seu papel.
A pea estava encerrada e seu papel completo. Sentia-se to feliz 
e to cansada... Era como se a terrvel provao que enfrentara 
tivesse derretido o cerne de amargura que havia dentro dela, 
cauterizado todas as feridas, as decepes e os dios. Jill 
Castle morrera no holocausto e Josephine Czinski renascera das 
cinzas. Estava novamente em paz, cheia de amor por todo o mundo e 
uma sensao de contentamento que no experimentava desde menina. 
Jamais sentira tanta felicidade. Queria partilhar com o mundo.
Os servios fnebres aproximavam-se do fim. Algum tomou o brao 
de Jill e ela se deixou levar at a limusine. Ao chegar ao carro, 
deu com David de p, uma expresso de adorao no rosto. Sorriu 
para ele; David tomou-lhe as mos e os dois trocaram algumas 
palavras. Um fotgrafo bateu o instantneo.

Jill e David decidiram esperar alguns meses para o casamento, de 
modo a satisfazer o decoro pblico. David passou grande parte 
desse tempo fora do pas, mas os dois se falaram diariamente. 
Quatro meses aps o funeral de Toby, David telefonou para Jill e 
disse:
- Tive uma idia brilhante. No esperemos mais. Tenho de ir  
Europa na semana que vem para uma conferncia. Vamos para a 
Frana no Bretagne. O capito pode celebrar nosso casamento; 
podemos passar a lua-de-mel em Paris e depois viajar para onde 
voc quiser, pelo tempo que voc quiser. Que acha?
- Oh, sim, David, sim!

Ela lanou um ltimo e longo olhar  casa, pensando em tudo que 
acontecera ali. Recordando o primeiro jantar e todas as 
maravilhosas festas mais tarde, a doena de Toby e sua luta para 
faz-lo recobrar a sade. E depois... havia lembranas demais.
Jill estava satisfeita por partir.

37

O jacto particular de David levou Jill at Nova York, onde uma 
limusine a esperava para transport-la ao Regency Hotel, na Park 
Avenue. O gerente, em pessoa, acompanhou Jill a uma enorme sute 
de cobertura.
- O hotel est inteiramente  sua disposio, Sra. Temple - disse 
ele. - O Sr. Kenyon instruiu-nos no sentido de proporcionar-lhe 
tudo de que precisa.
Dez minutos depois de Jill ter-se registado no hotel, David 
telefonou do Texas.
- Confortvel? - perguntou.
- Est um pouco apertado - riu ela. - So cinco quartos, David. 
Que  que eu vou fazer com todos eles?
- Se eu estivesse a, mostraria a voc - respondeu ele.
- Promessas, promessas - troou Jill. - Quando  que vou ver 
voc?
- O Bretagne parte ao meio-dia de amanh. Tenho alguns negcios a 
completar por aqui. Encontro voc a bordo; reservei a sute 
nupcial. Est feliz, querida?
- Nunca estive to feliz - respondeu Jill.
E era verdade. Tudo que acontecera, toda a dor e o sofrimento 
valeram a pena. Agora aquilo parecia vago e remoto, como um sonho 
meio esquecido.
- Um automvel a apanhar de manh. Sua passagem estar com o 
motorista.
- Estarei pronta - disse Jill.
Amanh.
Poderia ter comeado com a foto de Jill e David Kenyon tirada no 
funeral de Toby e vendida a uma cadeia de jornais. Poderia ter 
surgido de algum comentrio casual feito por um empregado do 
hotel onde Jill estava hospedada, ou por um membro da tripulao 
do Bretagne. De qualquer maneira, seria impossvel manter em 
segredo os planos de casamento de algum to famoso quanto Jill 
Temple. A primeira notcia a respeito apareceu num boletim da 
Associated Press. Depois disso, transformou-se em assunto de 
primeira pgina nos jornais do pas inteiro e da Europa.
A histria apareceu tambm no Hollywood Reporter no Daily 
Variety.

A limusine chegou ao hotel precisamente s dez horas. Um porteiro 
e trs camareiros levaram a bagagem de Jill para o carro. O 
trnsito da manh estava desafogado e o percurso at ao cais 90 
levou menos de meia hora.
Um alto oficial do navio esperava por Jill na prancha de 
embarque.
- Estamos honrados por t-la a bordo, Sra. Temple - disse ele. - 
Est tudo pronto  sua espera. Venha por aqui, por favor.
Ele acompanhou Jill ao Convs Promenade e conduziu-a a uma sute 
ampla e arejada, com terrao privativo. Os aposentos estavam 
cheios de flores recm-colhidas.
- O capito me pediu para transmitir-lhe seus cumprimentos. Ele a 
espera para o jantar desta noite; pediu-me que lhe dissesse o 
quanto est ansioso para celebrar a cerimnia do casamento.
- Obrigada - disse Jill. - Sabe se o Sr. Kenyon j est a bordo?

- Acabamos de receber um telefonema. Ele est a caminho, vindo do 
aeroporto. Sua bagagem j est aqui. Se precisar de alguma coisa, 
por favor, avise-me.
- Obrigada - disse ela. - No preciso de nada.
E era verdade. No havia coisa alguma que necessitasse e no 
tivesse. Era a pessoa mais feliz do mundo.
Bateram na porta do camarote e um camareiro entrou, trazendo mais 
flores. Jill olhou para o carto: eram do presidente dos Estados 
Unidos. Lembranas. Ela as expulsou da mente e comeou a desfazer 
as malas.

Ele estava no tombadilho do convs principal, examinando os 
passageiros que embarcavam. Todos estavam alegres, preparando-se 
para um perodo de frias ou encontrando-se com amigos a bordo. 
Uns poucos sorriam para ele, mas o homem no lhes deu ateno. 
Estava observando a prancha de embarque.

s onze e quarenta, vinte minutos antes da partida, um Silver 
Shadow com motorista aproximou-se em alta velocidade do cais 90 e 
estacionou. David Kenyon saltou do carro, deu uma olhada no 
relgio e disse ao motorista:
- ptimo tempo, Otto.
- Obrigado, senhor. Eu gostaria de desejar ao senhor e  Sra. 
Kenyon uma feliz lua-de-mel.
- obrigado.
David Kenyon apressou-se em direco  prancha de embarque, onde 
apresentou sua passagem. Foi acompanhado a bordo pelo mesmo 
oficial que recebera Jill.
- A Sra. Temple est em seu camarote, Sr. Kenyon.
- Obrigado.
David podia visualiz-la na sute nupcial,  sua espera, e sentiu 
o corao bater mais depressa. Ao comear a se afastar, uma voz 
chamou:
- Sr. Kenyon...
Ele se voltou. O homem que estava no convs aproximou-se com um 
sorriso no rosto. David jamais o vira antes, mas seu instinto de 
milionrio fazia-o desconfiar de estranhos amistosos. Quase 
sempre queriam alguma coisa.
O homem estendeu a mo e David apertou-a cautelosamente.
- Ns nos conhecemos? - perguntou.
- Sou um velho amigo de Jill - disse o homem, e David relaxou. - 
Meu nome  Lawrence. Clifton Lawrence.
- Como vai, Sr. Lawrence? - ele estava ansioso por terminar a 
conversa.
- Jill me pediu que viesse receb-lo - disse Clifton. - Ela 
preparou uma pequena surpresa para o senhor.
- Que tipo de surpresa? - perguntou David, encarando-o.
- Venha comigo e lhe mostrarei.
David hesitou por um momento.
- Vai demorar muito?
Clifton Lawrence olhou para ele e sorriu:
- Claro que no.
Os dois pegaram um elevador at o convs C, atravessando os 
grupos de visitantes e passageiros que embarcavam. Percorreram um 
corredor at um conjunto de portas amplas, que Clifton abriu para 
David passar. Ele se viu numa ampla e vazia sala de projeco. 
Olhou em volta, espantado.
-  aqui?

-  - sorriu Clifton.
Voltou-se e olhou para o operador na cabine, assentindo com a 
cabea. O operador era ganancioso: Clifton tivera de lhe dar 
duzentos dlares para que concordasse em ajud-lo.
- Se algum dia eles descobrirem, perderei o emprego - resmungara 
ele.
- Ningum jamais saber - assegurou-lhe Clifton. -  s uma 
brincadeira. Tudo que voc tem a fazer  trancar as portas logo 
que eu entrar com meu amigo e comear a passar o filme. Sairemos 
dentro de dez minutos.
O operador acabara concordando.
Agora David olhava para Clifton, perplexo.
- Filmes? - perguntou.
- Sente-se, Sr. Kenyon.
David obedeceu e sentou-se numa cadeira de canto, suas longas 
pernas estendidas na passagem. Clifton escolheu um assento do 
outro lado. Observou o rosto de David quando as luzes se apagaram 
e as imagens coloridas comearam a brilhar sobre a grande tela.

Parecia que algum lhe golpeava o plexo solar com martelos de 
ferro. David olhava as imagens obscenas  sua frente e o crebro 
se recusava a aceitar o que os seus olhos estavam vendo. Jill, 
uma Jill jovem, tal como fora quando pela primeira vez se 
apaixonara por ela, estava nua numa cama. David podia ver com 
clareza todos os detalhes. Assistiu, mudo de incredulidade,  
cena em que um homem montava na garota da tela e enfiava o pnis 
em sua boca; ela comeou a sug-lo com ternura, carinhosamente, 
enquanto outra garota entrava em cena, abria as pernas de Jill e 
metia a lngua bem dentro dela. David pensou que fosse vomitar. 
Por um desesperado e esperanoso instante, mas a cmara cobria 
todos os movimentos de Jill. Ento apareceu um mexicano, 
deitando-se sobre ela, e um nebuloso vu vermelho desceu sobre os 
olhos de David. Tinha novamente quinze anos e era sua irm Beth 
que via ali, sua irm sentada em cima do jardineiro mexicano, 
despido em sua cama, dizendo: "Oh, Deus, eu o amo, Juan. Trepe em 
mim, no pare!", e David de p  porta, incrdulo, observando a 
irm, que adorava. Fora tomado de uma raiva cega, violenta; 
agarrara um cortador de papel de ao que estava na escrivaninha, 
, correra at a cama e empurrara a irm. Ento mergulhara a 
lmina muitas e muitas vezes no peito do jardineiro, at as 
paredes cobrirem-se de sangue, enquanto Beth gritava: "Oh, Deus, 
no! Pare, David! Eu o amo, ns vamos nos casar!" Havia sangue 
por toda a parte. A me de David chegara correndo e o afastara. 
Mas depois ele soube que sua me havia telefonado para o 
procurador de justia, amigo ntimo da famlia Kenyon. 
Conversaram durante muito tempo. Em seguida, o corpo do mexicano 
fora levado para a priso e na manh seguinte divulgou-se a 
notcia de seu suicdio na cela. Trs semanas depois, Beth fora 
internada numa instituio para doentes mentais.

Tudo ressurgia agora em David, a insuportvel culpa pelo que 
fizera, e isso o descontrolou. Agarrou o homem sentado  sua 
frente e deu-lhe um soco no rosto, golpeando-o, gritando palavras 
sem sentido, por Beth, por Jill e pela sua prpria vergonha. 
Clifton Lawrence tentou defender-se, mas no era possvel deter 
os golpes. Um soco explodiu em seu nariz e ele ouviu o som de 
algo que se quebrava. Outro acertou-lhe a boca e o sangue comeou 
a jorrar como um rio. Ele ficou inerte,  espera do prximo 
golpe. Mas de repente tudo cessou. No havia qualquer rudo na 
sala seno sua prpria respirao difcil e estertorosa, alm dos 
sons sensuais que vinham da tela.
Clifton puxou um leno para tentar estancar o sangue. Saiu da 
sala tropeando, cobrindo o nariz e a boca com o leno, e 
encaminhou-se para o camarote de Jill. Ao passar pelo salo de 
festas, a porta de vaivm da cozinha abriu-se por um instante e 
Clifton entrou, passando pelos atarefados cozinheiros, garons e 
auxiliares. Encontrou uma mquina de gelo, juntou vrios 
pedacinhos num pedao de pano e aplicou-o no nariz e na boca. 
Quando ia saindo, deu com um enorme bolo de casamento  sua 
frente, encimado por pequenas figuras de acar representando o 
casal. Clifton estendeu a mo, arrancou a cabea da noiva e 
esmagou-a entre os dedos.
Ento saiu  procura de Jill.
O navio zarpara. Jill sentia o movimento do vapor de cinquenta e 
cinco mil toneladas deslizando para longe do cais. Imaginava a 
razo da demora de David.
Terminava de desfazer as malas quando ouviu uma batida na porta 
do camarote. Correu at l, chamando: "David!" Abriu a porta, os 
braos estendidos.
L estava Clifton Lawrence, o rosto ferido e sangrando. Jill 
abaixou os braos estendidos.
- Que est fazendo aqui? Que... que acontece com voc?
- S passei para dizer al, Jill.
Ela mal conseguia compreend-lo.
- E lhe dar um recado de David.
Jill olhava-o, sem compreender.
- De David?
Clifton entrou no camarote. Estava deixando Jill nervosa.
- Onde est David?
Virou-se para ela e disse:
- lembra-se de como costumavam ser os filmes de antigamente? 
Havia os bons sujeitos, de chapu branco, e os maus sujeitos, de 
chapu preto, e no final a gente sempre sabia que os maus iriam 
ter o que mereciam. Eu cresci com esses filmes, Jill. Cresci 
acreditando que a vida era assim mesmo, que os caras de chapu 
branco sempre saam ganhando.
- No sei do que voc est falando.
-  bom saber que de vez em quando a vida funciona como aqueles 
filmes.
Sorriu para ela com os lbios manchados e sangrentos:
- David se foi. Para sempre.
Jill olhava-o incrdula.
E nesse momento ambos sentiram que o navio parava. Clifton saiu 
para a varanda e olhou para fora da amurada.
- Venha c.
Jill hesitou um instante e ento acompanhou-o, cheia de um medo 
sem nome que aumentava cada vez mais. Debruou-se na amurada. L 
embaixo, avistou David passando para o rebocador, deixando o 
Bretagne. Agarrou-se  amurada para no cair.
- Por qu? - perguntou sem poder acreditar. - Que aconteceu?
Clifton Lawrence virou-se e disse:
- Passei o seu filme para ele.
E imediatamente ela compreendeu e soluou:
- Oh, meu Deus. No! Por favor, no! Voc me matou!

- Ento estamos quites.
- Fora! - gritou ela. - Fora daqui!
Atirou-se contra ele e suas unhas atingiram-lhe as faces, 
arranhando-o profundamente. Clifton esquivou-se e bateu-lhe com 
fora no rosto. Ela caiu de joelhos, com as mos na cabea, que 
estalava de dor.
Clifton ficou olhando para ela durante um longo momento. Era essa 
a imagem que queria guardar na lembrana.
- Adeus, Josephine Czinski - disse.
Clifton saiu do camarote e caminhou at o convs, cobrindo a 
parte inferior do rosto com o leno. Andava lentamente, estudando 
os rostos dos passageiros, em busca de uma cara nova, de um tipo 
fora do comum. Nunca se sabe quando se vai dar com um novo 
talento. Ele se sentia pronto para voltar ao trabalho.
Quem poderia saber? Talvez tivesse sorte e viesse a descobrir um 
novo Toby Temple.

Pouco depois da sada de Clifton. Claude Dessard foi at o 
camarote de Jill e bateu. No houve resposta, mas o comissrio 
podia ouvir rudos do lado de dentro. Esperou um momento, elevou 
a voz e falou:
- Sra. Temple, aqui  Claude Dessard, o comissrio-chefe. Posso 
ser-lhe til em alguma coisa.
No houve resposta. A esse altura, o sistema de alarme interno de 
Dessard enviava-lhe fortes sinais. Seus instintos lhe diziam que 
havia algo tremendamente errado e um pressentimento lhe indicava 
que, de algum modo, tudo girava em torno dessa mulher. Uma srie 
de pensamentos loucos desenfreados, agitavam-se em seu crebro. 
Ela fora assassinada ou raptada ou... Experimentou a maaneta. A 
porta estava destrancada. Lentamente, Dessard a abriu. Jill 
Temple estava de p na outra extremidade do camarote, olhaNDO PELA ESCOTILHA, DE COSTAS PARA ELE. DESSARD ABRIU A BOCA PARA FALAR, MAS ALGO NA RIGIDEZ DA FIGURA 
O DETEVE. FICOU ALI POR UM MOMENTO, SEM SABER O QUE FAZER, DECIDINDO SE DEVERIA SAIR DISCRETAMENTE, QUANDO DE SBITO O CAMAROTE SE ENCHEU DE UM SOM ESTRANHO, PENETRANTE, 
COMO O DE UM ANIMAL FERIDO. IMPOTENTE DIANTE DE TAMANHO SOFRIMENTO, DESSARD RECUOU, FECHANDO CUIDADOSAMENTE A PORTA ATRS DE SI.FICOU UM INSTANTE DO LADO DE FORA, 
OUVINDO O LAMENTO SEM PALAVRAS QUE VINHA L DE DENTRO; ENTO, PROFUNDAMENTE PERTURBADO VIROU-SE E ENCAMINHOU-SE PARA A SALA DE PROJECO NO CONVS PRINCIPAL.NO JANTAR 
DAQUELA NOITE HAVIA DOIS LUGARES VAZIOS NA MESA DO COMANDANTE. NO MEIO DA REFEIO, ELE FEZ UM SINAL PARA DESSARD, ANFITRIO DE UM GRUPO DE PESSOAS MENOS IMPORTANTES 
NUMA OUTRA MESA. DESSARD PEDIU LICENA E FOI DEPRESSA AT A MESA DO COMANDANTE.- AH, DESSARD - DISSE CORDIALMENTE, PARA ENTO BAIXAR A VOZ, MUDANDO DE TOM. - QUE 
ACONTECEU COM A SRA. TEMPLE E O SR. KENYON?DESSARD DEU UMA OLHADA PARA OS DEMAIS CONVIDADOS E SUSSURROU:- COMO O SENHOR SABE, O SR. KENYON DEIXOU O NAVIO EM COMPANHIA 
DO PRTICO DO FAROL AMBROSE. A SRA. TEMPLE EST EM SEU CAMAROTE.O COMANDANTE SOLTOU UMA PRAGA EM VOZ BAIXA. ERA UM HOMEM METDICO, QUE NO GOSTAVA DE ALTERAES 
EM SUA ROTINA.- MERDA TODAS AS PROVIDNCIAS PARA O CASAMENTO FORAM TOMADAS.- EU SEI, COMANDANTE.DESSARD ENCOLHEU OS OMBROS E LEVANTOU OS OLHOS:- AMERICANOS...JILL 
ESTAVA SOZINHA, SENTADA NO CAMAROTE S ESCURAS, ENCOLHIDA NUMA CADEIRA, OS JOELHOS ENCOSTADOS AO PEITO, OS OLHOS PERDIDOS NO VAZIO. SOFRIA, MAS NO POR DAVID KENYON 
OU TOBY TEMPLE, NEM MESMO POR ELA PRPRIA. SOFRIA POR UMA GAROTINHA CHAMADA JOSEPHINE CZINSKI. FIZERA TANTOS PLANOS PARA ELA E AGORA TODOS OS MARAVILHOSOS SONHOS 
ENCANTADOS HAVIAM CHEGADO AO FIM.FICOU ALI, SEM NADA VER, ENTORPECIDA POR UMA DERROTA ALM DE QUALQUER COMPREENSO. POUCAS HORAS ATRS O MUNDO LHE PERTENCERA, ELA 
TINHA TUDO QUE SEMPRE QUISERA, E AGORA NO TINHA NADA. GRADUALMENTE, PERCEBEU QUE SUA DOR DE CABEA VOLTARA; NO NOTARA ANTES POR CAUSA DA OUTRA DOR, DA DOR TERRVEL 
QUE LHE ROMPIA AS ENTRANHAS. MAS AGORA SENTIA A PRESSO EM TORNO DA CABEA. ENCOLHEU-SE MAIS AINDA, EM POSIO FETAL, TENTANDO ISOLAR-SE E TUDO. ESTAVA TO CANSADA, 
TO TERRIVELMENTE CANSADA. A NICA COISA QUE QUERIA ERA SENTAR-SE ALI PARA SEMPRE E NO TER QUE PENSAR. TALVEZ ENTO A DOR PASSASSE, PELO MENOS POR UM CERTO TEMPO.JILL 
ARRASTOU-SE AT A CAMA, DEITOU-SE E FECHOU OS OLHOS.ENTO SENTIU. UMA ONDA DE AR FRIO E FTIDO MOVENDO-SE EM SUA, DIRECO, CERCANDO-A, ACARICIANDO-A. E OUVIU A 
VOZ DELE CHAMANDO SEU NOME. SIM, PENSOU. SIM. LENTAMENTE, QUASE EM TRANSE, LEVANTOU-SE E SAIU DO CAMAROTE, SEGUINDO A VOZ QUE A CHAMAVA, SOANDO DENTRO DE SUA CABEA.ERAM 
DUAS HORAS DA MANH E OS CONVESES ESTAVAM DESERTOS QUANDO JILL SAIU DO CAMAROTE. FICOU OLHANDO O MAR, OBSERVANDO AS ONDAS QUE SE QUEBRAVAM SUAVEMENTE CONTRA O CASCO 
DO NAVIO QUE ATRAVESSAVA AS GUAS, OUVINDO A VOZ. SUA DOR DE CABEA PIORARA, NUMA AGONIA LANCINANTE. MAS A VOZ LHE DIZIA PARA NO SE PREOCUPAR, QUE TUDO SAIRIA BEM. 
OLHE PARA BAIXO, FALOU A VOZ.JILL OLHOU PARA A SUPERFCIE DA GUA E VIU ALGO FLUTUANDO. ERA UM ROSTO. O ROSTO DE TOBY, SORRINDO PARA ELA, OS OLHOS AZUIS FIXANDO-A 
SOB A GUA. UMA BRISA GELADA COMEOU A SOPRAR, IMPELINDO-A GENTILMENTE PARA JUNTO DA AMURADA.- EU TINHA DE FAZER AQUILO, TOBY - MURMUROU ELA. - VOC COMPREENDE, 
NO ?A CABEA NA GUA ASSENTIA, FLUTUAVA, CONVIDANDO-A. O VENTO SE TORNOU MAIS FRIO E O CORPO DE JILL COMEOU A TREMER. NO TENHA MEDO, DISSE-LHE A VOZ. A GUA 
 PROFUNDA E CLIDA... VOC ESTAR COMIGO... PARA SEMPRE, VENHA, JILL...ELA FECHOU OS OLHOS, POR UM MOMENTO, MAS AO ABRI-LOS O ROSTO SORRIDENTE AINDA ESTAVA L, 
ACOMPANHANDO A MARCHA DO NAVIO, OS MEMBROS MUTILADOS BALANANDO DENTRO DGUA. VENHA PARA MIM, DISSE A VOZ.JILL SE DEBRUOU PARA EXPLICAR A TOBY, PARA QUE ELE A DEIXASSE 
EM PAZ, MAS O VENTO GELADO A EMPURROU E DE SBITO ELA ESTAVA FLUTUANDO NO SUAVE AR AVELUDADO DA NOITE, GIRANDO NO ESPAO. O ROSTO DE TOBY SE APROXIMAVA, VINHA AO 
ENCONTRO DELA, E JILL SENTIU OS BRAOS PARALISADOS A ENLA-LA PRENDENDO-A. E OS DOIS SE REUNIRAM PARA TODO O SEMPRE.RESTARAM APENAS O SUAVE VENTO DA NOITE E O MAR 
ETERNO.E L EM CIMA, AS ESTRELAS, ONDE TUDO FORA ESCRITO.AGRADECIMENTOGOSTARIA DE MANIFESTAR O MEU APREO PELA GENEROSA ASSISTNCIA QUE ME FOI PRESTADA PELOS SEGUINTES 
PRODUTORES DE CINEMA E TELEVISO:SEYMOUR BERNSLARRY GELBARTBERT GRANETHARVEY ORKINMARTY RACKINDAVID SWIFTROBERT WEITMANE A MINHA PROFUNDA GRATIDO, POR TEREM PARTILHADO 
COMIGO DE SUAS MEMRIAS E EXPERINCIAS, A:MARTY ALLENMILTON BERLERED BUTTONSGEORGE BURNSJACK CARTERBUDDY HACKETTGROUCHO MARXJAN MURRAYO AUTORO AUTOR E SUA OBRASIDNEY 
SHELDON TEVE UMA CARREIRA MOVIMENTADA. NASCIDO EM CHICAGO, FREQUENTOU A NORTHWESTERN UNIVERSITY COMO BOLSISTA, ABANDONANDO OS ESTUDOS DURANTE OS ANOS DE DEPRESSO 
PARA TRABALHAR COMO OPERRIO NUMA FBRICA, BALCONISTA DE UMA LOJA DE ROUPAS, LOCUTOR DE RDIO E COMPOSITOR DE MSICAS POPULARES, ISSO TUDO ANTES DE SE DIRIGIR PARA 
HOLLYWOOD. NA MECA DO CINEMA TEVE A SUA CARREIRA INTERROMPIDA AO SER CONVOCADO PARA SERVIR NA FORA AREA AMERICANA DURANTE A GUERRA. AO SER DESMOBILIZADO DAS FORAS 
ARMADAS, COMEOU A ESCREVER PARA O TEATRO, EM NOVA YORK.AOS VINTE E CINCO ANOS REALIZAVA A PROEZA INDITA, COMO AUTOR TEATRAL, DE MANTER TRS MUSICAIS EM CARTAZ 
NA BROADWAY, COM CASAS CHEIAS TODAS AS NOITES. VOLTANDO A HOLLYWOOD, ESCREVEU O ARGUMENTO DE UM FILME VENCEDOR, EM 1947, DO OSCAR DA ACADEMIA DE CINEMA, O SOLTEIRO 
COBIADO, COM CARY GRANT NO PAPEL PRINCIPAL, E OBTEVE OUTRAS LUREAS NOS ANOS SEGUINTES, COMO OS PRMIOS RECEBIDOS DA SCREEN WRITERS ASSOCIATION ASSOCIAO DOS ROTEIRISTAS 
CINEMATOGRFICOS) POR DESFILE DE PSCOA, COM FRED ASTAIRE E JUDY GARLAND, E BONITA E VALENTE, ESTRELADO POR BETTY HUTTON. PRODUZIU E DIRIGIU O PALHAO QUE NO RI, 
COM DONALD OCONNOR DESEMPENHANDO NA TELA O PAPEL DE BUSTER KEATON, E LOGO DEPOIS COLHIA MAIS UM SIGNIFICADO PRMIO NA BROADWAY, O TROFEU TONY, PELO SEU MUSICAL REDHEAD. 
NA TELEVISO, CRIOU DOIS SERIADOS DE GRANDE SUCESSO DE AUDINCIA, THE PATTY DUKE SHOW E I DREAM OF JANNIE NO BRASIL, JEANNIE  UM GNIO). SEU MAIS RECENTE TRABALHO, 
BLOODLINE, ENCONTRA-SE EM TRADUO, AINDA SEM TTULO DEFINITIVO EM PORTUGUS.SHELDON DEBUTOU AUSPICIOSAMENTE NA FICO, TENDO O SEU LIVRO A OUTRA FACE SIDO RECEBIDO 
POR UM RIGOROSO CRTICO, O DO JORNAL THE NEW YORK TIMES, COMO O MELHOR ROMANCE DE ESTRIA DO ANO. A ELE SE SEGUIU O OUTRO LADO DA MEIA-NOITE, LOGO TRANSFORMADO EM 
BEST SELLER MUNDIAL E FILME CAMPEO DE BILHETEIRA. UM ESTRANHO NO ESPELHO TRAZ A MARCA INEQUVOCA DO TALENTO DO AUTOR E DEVE REPETIR O SUCESSO DE SUAS OBRAS ANTERIORES.FIM)
